Monteiro Lobato

A Chave do Tamanho

Capítulos 21 e 22

 

21 – A ordem nova

         Saíram do balde. O Visconde queria conversar com o Doutor sobre certos pontos que o preocupavam. Para isso deitou-se na calçada, com o rosto na mão e o cotovelo no cimento.

         — Estou gostando da sua “atividade adaptativa”, Doutor. Fazer tanta coisa em tão pouco tempo até me parece milagre. Acha que o homem pode subsistir, assim reduzido de tamanho?

         — Perfeitamente. Não só subsistir, como até criar uma nova civilização muito mais agradável que a velha — sem os horrores da desigualdade social da fome, das “blitzkriegs” e das inúteis complicações criadas pelos inventos mecânicos.

         — É como eu penso — berrou Emília.

         — As minhas conclusões — continuou o sábio — resumo-as em poucas palavras. Aquele tipo de civilização que havíamos realizado era uma simples consequência do fogo. Enquanto o homem não descobriu o fogo, viveu muito bem dentro da lei biológica, a civilizar-se lentamente. Veio o fogo e tudo mudou — começou o galope sem fim. Que eram aqueles monstruosos arranha-céus deste país, que era a “blitzkrieg” dos alemães, que era a nossa pressa de transporte e comunicação por meio de trens, aviões, navios, telégrafos, telefone e rádio, senão uma consequência do fogo? Apague-se o fogo e tudo desaparece.

         — Isso não — protestou Emília. — O rádio não dependia do fogo. Continue lendo “Monteiro Lobato”

Visitas: 167

Monteiro Lobato

A Chave do Tamanho

Capítulos 19 e 20

 

19 – Viagem pelo mundo

         Tudo estava pronto para a viagem. No último momento o Visconde achou melhor desistirem do plebiscito e, em vez do passeio pelo mundo, tocarem diretamente para a Casa das Chaves. Alegou que cada minuto de demora eram mais milhões de seres humanos que pereciam em todos os continentes.

         — E não se perde grande coisa — respondeu Emília. — O infinito é um colosso, Visconde. Há lá pelos céus milhões e milhões de astros muitíssimas vezes maiores que esta pulguinha da Terra. E nesta pulguinha da Terra a humanidade é uma poeirinha malvada. Para o Universo tanto faz que essa poeirinha exista como não exista.

         Aquele pouco caso da Emília pela humanidade não impressionou o Visconde. Ele viu que no fundo não era pouco caso, e sim muito caso. Emília revoltava-se com as guerras e as outras formas de crueldade dos seres humanos. O apequenamento causado pela sua reinação evidentemente não fora de propósito. Quando Emília virou a chave, sua intenção não fora fazer mal a ninguém, e sim bem: acabar com as guerras. Havia de haver uma chave da guerra, e o seu pensamento foi ir experimentando todas as chaves até acertar. Mas assim que virou a primeira, aconteceu o tal apequenamento, e ela nem sequer pôde suspender outra vez a chave, quanto mais experimentar as outras. “Emília é filósofa”, pensou o Visconde, “e quando se põe a filosofar parece que tem coração duro mas não tem. Emília é filosoficamente boa.”

         Depois de tudo bem combinado, e de tomadas lá na cômoda todas as providências, partiram. O fiun foi formidável, porque quanto mais novo é o super-pó, mais forte. Emília, coitadinha, perdeu completamente os sentidos, e o Visconde ficou mais tonto que das outras vezes. Continue lendo “Monteiro Lobato”

Visitas: 93

Monteiro Lobato

A Chave do Tamanho

Capítulos 17 e 18

 

17 – Rabicó, o canibal

         Enquanto a criançada construía a Ordem Nova, Dona  Benta  conversava com o Visconde a respeito da situação.

         — Tudo mudou — dizia ele. — Hoje nada vale o que valia antigamente. Acabou-se o dinheiro. Acabaram-se os veículos. Acabou-se a civilização. Mas, pelo que já vi, o homem pode perfeitamente subsistir dentro das proporções mínimas a que está reduzido.

         — Acha sinceramente, Visconde, que podemos subsistir e criar uma nova civilização?

         — Acho sim. Acho até que o homem pode criar uma civilização muito mais interessante e feliz do que a “civilização tamanhuda”, como diz a  Emília. Ali naquele lago a senhora está vendo um maravilhoso exemplo das novas possibilidades. Nunca um pires dágua deu tanto prazer a tantas criaturas. Os insetos, por exemplo, vivem perfeitamente adaptados ao planeta — e eles não possuem a inteligência das criaturas humanas. A geração adulta de hoje vai sofrer, está claro, porque anda muito presa às ideias tamanhudas; as crianças já sofrerão menos, porque aceitam melhor as novidades. Repare como os seus netos, e o Juquinha e a Candoca, estão rapidamente se adaptando, ao passo que tia Nastácia e o Coronel resistem.

         — Mas acha que as nossas velhas ideias tornar-se-ão inúteis neste mundo novo? Continue lendo “Monteiro Lobato”

Visitas: 224