Monteiro Lobato

A Chave do Tamanho

Capítulos 15 e 16

 

15 – O Coronel Teodorico

         Depois de caminhar por uma hora pela estrada deserta de passantes, o Visconde avistou a fazenda do Coronel Teodorico. Bois e burros andavam soltos pelas roças, comendo à farta. Não havia ninguém para espantá-los.

         — Quero portar uns minutos naquela casa, Visconde! — berrou Emília lá da sua janelinha.

         O Visconde, que estava remoendo uma ideia, não ouviu. Emília recorreu à “campainha”. Com um forte puxão na corda, fez que a dor da barba acordasse o distraído gigante.

         — Que há lá em cima? — perguntou ele.

         Emília repetiu a ordem de portar no imensíssimo casarão branco que dali avistavam e Juquinha não queria crer que fosse uma simples casa velha de fazenda. Apesar de transformado no maior gigante do mundo, o Visconde, pela força do hábito, obedecia à Emília do mesmo modo que antigamente. E ela agora se tornara o seu verdadeiro cérebro, a manobradora da sua vontade. Parecia incrível que aquele piolhinho de gente, lá dentro da cartola, o conduzia para onde queria.

         Ao entrarem no terreiro da fazenda ouviram mugidos tristes de vaca faminta. O Visconde encaminhou-se para o estábulo. A vaca de leite do Coronel, irmã da Mocha de Dona Benta, estava presa na baia, sem capim nenhum no cocho. Perto, o seu bezerrinho chorava de fome. Continue lendo “Monteiro Lobato”

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Monteiro Lobato

A Chave do Tamanho

Capítulos 13 e 14

 

13 – Revelações

         O sol estava quente. Emília, afogueada pelo exercício não pôde mais com o calor do algodão. Despiu-se e ficou nuazinha na palma da mão do Visconde, só de botas. Ele ergueu-a à altura do nariz e disse:

         — Pode falar. Conte tudo o que houve.

         Emília contou tudo — a sua viagem à Casa das Chaves, a puxada para baixo da Chave do Tamanho e o “apequenamento”.

         O Visconde horrorizou-se.

         — Será possível? Então foi você, Emília, a causadora do tremendo desastre que vitimou a “humanidade clássica?”

         — Fui eu, sim, mas não foi por querer. Eu queria apenas descobrir a Chave da Guerra, só isso. Mas as chaves não tinham letreiro. Resolvi então ir mexendo em todas até acertar. A primeira que peguei era a Chave do Tamanho — quem primeiro ficou sem tamanho fui eu. E como perdi o tamanho, não pude erguer de novo aquela chave — e pronto.

         O Visconde não voltava a si do assombro.

         — É espantoso o que você fez, Emília! Isso já não é reinação. Isso é catástrofe! Pelo que observei lá no sítio estou imaginando o que se deu no mundo inteiro — e agora eu ia indo à cidade para assuntar, para ver se o apequenamento alcançou todas as criaturas. Continue lendo “Monteiro Lobato”

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Monteiro Lobato

A Chave do Tamanho

Capítulos 11 e 12

 

11 – No ninho do beija-flor

         O passeio de Emília pelos ares foi curto, porque todas as distâncias ficam curtas para a rapidez dos beija-flores. Aquele estava justamente acabando de construir o seu ninho num buraco da estrada, à beira da vila.

         Chegou lá, soltou o algodão e ajeitou-o com o bico em certo ponto do ninho.

         Depois afastou-se. Ia com certeza buscar os outros chumaços. Emília botou a cabecinha de fora e espiou. Um ninho enorme de diâmetro igual a cinco vezes a sua altura. Ovo não havia nenhum. Só paina de todos os lados. Emília estava a pensar no que fazer quando ouviu um barulho. Era o imenso beija-flor que voltava com outro chumaço no bico — o Juquinha. Na terceira viagem trouxe a Candoca. Emllia admirou-se de vê-la calada, mas aquele silêncio vinha dum aviso do Juquinha. “Se você continua a chorar, estes monstros descobrem o nosso mimetismo e adeus, Candoca!”

         Ela compreendera e calara-se.

         O lindo colibri arrumou do melhor jeito os dois algodões e acomodou-se no ninho. Era tarde já, hora das aves se recolherem. Emília ficou quietinha pensando. Não lhe passou pela cabeça falar com os companheiros. Muito distantes dela, além de que o beija flor podia perceber. Tratou de acomodar-se como melhor pôde e dormir. E dormiu a mais agradável noite de sua vida. Que deliciosa quenturinha! Continue lendo “Monteiro Lobato”

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