Monteiro Lobato

A Chave do Tamanho

 Capítulos 3 e 4

  

3 – Por causa do pinto sura

         As viagens com o superpó eram instantâneas. Um fechar e abrir de olhos. Emília fechou os olhos lá no pedestal e abriu-os na porteira do sítio.

         Que colossal porteira, Santo Deus! Duzentas vezes a altura dela. Lá longe viu um enormíssimo animal pastando: a vaca Mocha. E mais adiante, uma colossal montanha dormindo: Quindim. E a casa? Oh, a casa, no fim do extensíssimo terreiro, tinha para ela a mesma altura do Pão de Açúcar para um homem antigo. O telhado parecia esbarrar nas nuvens.

         Como atravessar a pé os cem metros do terreiro? Cem metros antigamente pouco significavam para a Emília “grande”, mas agora, ah, exigiam 33.353 passos, visto como o seu passo se reduzira a 3 milímetros.

         Estava pensando nisso, quando um horrendo monstro surgiu no terreiro: o pinto sura. “Parece incrível!” — murmurou ela. “Aquele pinto que não passava de simples pinto como todos os pintos do mundo, desses que a gente chama com um “Quit! Quit!” ou toca com um “Chispa!” virou um verdadeiro Pássaro Roca.” Emília calculou que o pinto devia ter umas vinte vezes a sua altura, isto é, o tamanho dum avestruz de 70 metros para um homem como o Coronel Teodorico. Continue lendo “Monteiro Lobato”

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Monteiro Lobato

A Chave do Tamanho

 Capítulos 1 e 2

 

1 – Pôr de sol de trombeta

         O pôr do sol de hoje é de trombeta — disse Emília, com as mãos na cintura, depezinha sobre o batente da porteira onde, naquela tarde, depois do passeio pela floresta, o pessoal de Dona Benta havia parado. Eles nunca perdiam ensejo de aproveitar os espetáculos da natureza. Nas chuvas fortes, Narizinho ficava de nariz colado à janela, vendo chover. Se ventava, Pedrinho corria à varanda com o binóculo para espiar a dança das folhas secas — “quero ver se tem saci dentro”. E o Visconde dava as explicações científicas de todas as coisas.

         O pôr do sol daquele dia estava realmente lindo. Era um pôr de sol de trombeta. Por quê? Porque Emília tinha inventado que em certos dias Sol “tocava trombeta a fim de reunir todos os vermelhos e ouros do mundo para a festa do acaso”. Diante dum pôr de sol de trombeta ninguém tinha ânimo de falar, porque tudo quanto dissessem saía bobagem. Mas Dona Benta não se conteve.

         — Que maravilhoso fenômeno é o pôr do sol! — disse ela.

         Emília deu um pisco para o Visconde por causa daquele “fenômeno”, e resolveu encrencar. Continue lendo “Monteiro Lobato”

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