Monteiro Lobato

A Chave do Tamanho

Capítulos 23 e 24

 

23 – Ainda lá

         O governo americano não voltava a si do assombro. Aquilo era um milagre ainda maior que o súbito apequenamento. Emília contou o que tinha visto na Europa e na Ásia, o seu encontro com o Grande Ditador e com o Filho do Sol na tampa de caneta; falou da destruição pelo frio dos exércitos em luta na Rússia e depois desfiou toda a história do Doutor Barnes, fundador de Pail City.

         O próprio ministro dos Correios ignorava o nome daquela cidade.

         Emília explicou.

         — Ah, é uma galanteza de cidade nova que está se formando em volta dum balde velho — sem pressa, sem galopes, sem ferro, sem fogo.

         Como as cidades imensas da civilização tamanhuda estão condenadas a desaparecer, invadidas pelo mato, a civilização nova já começou a criar cidades dum tipo novo — e entre as muitas que já devem estar em formação duvido que haja uma melhor que Pail City. Até árvores de guarda-sóis vi lá. Quem precisa de um, não vai a nenhuma loja comprá-lo. Chega à árvore, escolhe um do tamanho desejado e colhe-o.

         Os ministros entreolharam-se. Se a cidade de Washington estava destinada a desaparecer invadida pelo mato, nada mais razoável do que irem admitindo a hipótese da mudança do governo para Pail City, o maravilhoso centro em formação onde até havia pés de guarda-sóis. Continue lendo “Monteiro Lobato”

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Monteiro Lobato

A Chave do Tamanho

Capítulos 21 e 22

 

21 – A ordem nova

         Saíram do balde. O Visconde queria conversar com o Doutor sobre certos pontos que o preocupavam. Para isso deitou-se na calçada, com o rosto na mão e o cotovelo no cimento.

         — Estou gostando da sua “atividade adaptativa”, Doutor. Fazer tanta coisa em tão pouco tempo até me parece milagre. Acha que o homem pode subsistir, assim reduzido de tamanho?

         — Perfeitamente. Não só subsistir, como até criar uma nova civilização muito mais agradável que a velha — sem os horrores da desigualdade social da fome, das “blitzkriegs” e das inúteis complicações criadas pelos inventos mecânicos.

         — É como eu penso — berrou Emília.

         — As minhas conclusões — continuou o sábio — resumo-as em poucas palavras. Aquele tipo de civilização que havíamos realizado era uma simples consequência do fogo. Enquanto o homem não descobriu o fogo, viveu muito bem dentro da lei biológica, a civilizar-se lentamente. Veio o fogo e tudo mudou — começou o galope sem fim. Que eram aqueles monstruosos arranha-céus deste país, que era a “blitzkrieg” dos alemães, que era a nossa pressa de transporte e comunicação por meio de trens, aviões, navios, telégrafos, telefone e rádio, senão uma consequência do fogo? Apague-se o fogo e tudo desaparece.

         — Isso não — protestou Emília. — O rádio não dependia do fogo. Continue lendo “Monteiro Lobato”

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A Chave do Tamanho

Capítulos 19 e 20

 

19 – Viagem pelo mundo

         Tudo estava pronto para a viagem. No último momento o Visconde achou melhor desistirem do plebiscito e, em vez do passeio pelo mundo, tocarem diretamente para a Casa das Chaves. Alegou que cada minuto de demora eram mais milhões de seres humanos que pereciam em todos os continentes.

         — E não se perde grande coisa — respondeu Emília. — O infinito é um colosso, Visconde. Há lá pelos céus milhões e milhões de astros muitíssimas vezes maiores que esta pulguinha da Terra. E nesta pulguinha da Terra a humanidade é uma poeirinha malvada. Para o Universo tanto faz que essa poeirinha exista como não exista.

         Aquele pouco caso da Emília pela humanidade não impressionou o Visconde. Ele viu que no fundo não era pouco caso, e sim muito caso. Emília revoltava-se com as guerras e as outras formas de crueldade dos seres humanos. O apequenamento causado pela sua reinação evidentemente não fora de propósito. Quando Emília virou a chave, sua intenção não fora fazer mal a ninguém, e sim bem: acabar com as guerras. Havia de haver uma chave da guerra, e o seu pensamento foi ir experimentando todas as chaves até acertar. Mas assim que virou a primeira, aconteceu o tal apequenamento, e ela nem sequer pôde suspender outra vez a chave, quanto mais experimentar as outras. “Emília é filósofa”, pensou o Visconde, “e quando se põe a filosofar parece que tem coração duro mas não tem. Emília é filosoficamente boa.”

         Depois de tudo bem combinado, e de tomadas lá na cômoda todas as providências, partiram. O fiun foi formidável, porque quanto mais novo é o super-pó, mais forte. Emília, coitadinha, perdeu completamente os sentidos, e o Visconde ficou mais tonto que das outras vezes. Continue lendo “Monteiro Lobato”

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