Monteiro Lobato

Reforma da Natureza – Primeira Parte

Capítulos 7, 8 e 9

 

7 – Os odres vivos e o peso

A Rã falou nos percevejos, uns bichinhos inexistentes ali no sítio, e teve de contar a história dos percevejos do Rio.

– São fedorentíssimos – disse ela. – Eu tenho verdadeiro horror a esses monstros noturnos. Chupam o sangue da gente durante o sono e ficam gordos que mal podem andar. E quando esmagamos um, Emília, ah, que cheiro! Empesta o ambiente. Eu, só de me lembrar, já sinto enjoo de estômago.

Emília teve uma ideia .

– Pois podemos reformar os tais percevejos dum modo muito simples: fazendo que em vez de mau cheiro eles tenham cheiros deliciosos, melhores que todas as essências das perfumarias. Desse modo eles ficarão importantíssimos no mundo. Serão pequenos odres vivos cheios de perfume. Sabe o que é odre?

A Rã sabia. Lembrou-se logo daqueles odres de vinho que D. Quixote espetou com a espada, derramando todo o vinho do estalajadeiro.

– Pois é – continuou Emília. – São vasilhas de pele ou couro que a gente de dantes usava. Dona Benta tem um pequeno odre de borracha que enche de água quente para aquecer os pés nos dias muitos frios – mas não diz odre – diz “a minha bolsa d’água. Quem tirou a minha bolsa d’água lá do banheiro? E é sempre Pedrinho quem mexe na bolsa, para certas reinações. Pois os percevejos poderão ficar odres vivos com perfumes dentro. E as perfumarias podem fazer criações de percevejos de todas as qualidades. As moças chegam e pedem: “Quero uma dúzia de percevejos Bouton d’or, ou Kananga do Japão, ou Heliotropo”, e quando quiserem perfumar-se basta que tirem um do chiqueirinho de cristal (que irão ter em seus toucadores) e o espremam no lenço, no peito, na nuca, na ponta das orelhas. E saem para a rua, todas vaidosas. E quando duas se encontram, uma pergunta para a outra: “Que percevejos você usa, Quinota? Dos nacionais ou estrangeiros?” E a Quinota, que é moça grã-fina, responderá orgulhosamente: “Só uso percevejos de Paris, da criação de Coty” – e lá se vai rebolando que nem uma cotia. Continue lendo “Monteiro Lobato”

Visitas: 80

Monteiro Lobato – 14

Reforma da Natureza – Primeira Parte

Capítulos 4, 5 e 6

 

4 – Reforma da Mocha

Por muito tempo ficaram as duas conversando sobre reformas e mais reformas e, como estivessem debaixo da jabuticabeira, iam falando e comendo as deliciosas frutas. Em certo momento Emília disse;

– Esta jabuticabeira, por exemplo. Não acha que é uma vergonha uma árvore deste tamanho dar frutinhas tão pequenas? E no entanto temos lá na horta um pé de abóbora que dá abóboras enormes e é um pé que nem é pé de coisa nenhuma – não passa dum talinho mole que se esborracha quando a gente pisa em cima. Vou mudar. Vou botar as jabuticabas no pé de abóbora e as abóboras na jabuticabeira.

– Mas isso foi o que o Américo Pisca-Pisca fez – alegou a Rã – e o sonho lhe abriu os olhos.

– É que o bobo foi dormir debaixo da jabuticabeira – e sabe para quê? Para que a fábula ficasse bem arranjadinha. O fabulista era um grande medroso; queria fazer uma fábula que desse razão ao seu medo de mudar – e inventou essa história do sono do Américo debaixo da jabuticabeira. Já reformei essa fábula.

O chão encheu-se de tantas cascas que Rabicó se aproximou, farejando.

A Rãzinha, que ainda não conhecia o famoso Marquês, regalou-se de olhá-lo. Continue lendo “Monteiro Lobato – 14”

Visitas: 151

Histórias de Tia Nastácia, ÍNDICE

Monteiro Lobato

Histórias de Tia Nastácia  Capítulos 1, 2 e 3   1 – Histórias de Tia Nastácia          Pedrinho, na varanda,…

Monteiro Lobato

Histórias de Tia Nastácia Capítulos 4, 5 e 6   4 – A princesa ladrona          Havia um pai com…

Monteiro Lobato

Histórias de Tia Nastácia Capítulos 7, 8, 9 e 10   7 – O homem pequeno          Uma vez o…

Monteiro Lobato

Histórias de Tia Nastácia  Capítulos 11, 12, 13 e 14   11 – João e Maria Houve uma vez um…

Monteiro Lobato

Histórias de Tia Nastácia  Capítulos 15, 16, 17, 18, 19 e 20   15 – A formiga e a neve…

Monteiro Lobato

Histórias de Tia Nastácia  Capítulos 21, 22, 23 e 24   21 – O rabo do macaco      …

Monteiro Lobato

Histórias de Tia Nastácia Capítulos 25, 26, 27, 28 e 29   25 – O veado e o sapo         …

Monteiro Lobato

Histórias de Tia Nastácia Capítulos 30, 31, 32, 33 e 34   30 – O pinto sura Era uma vez…

Monteiro Lobato

Histórias de Tia Nastácia Capítulos 35, 36, 37, 38, 39 e 40   35 – O jabuti e o lagarto …

Monteiro Lobato

Histórias de Tia Nastácia Capítulos 41, 42, 43 e 44 (último)   41 – O rato orgulhoso Um rato fazedor…

Visitas: 194