Alma desdobrada, cap. 171, 172, 173, 174, 175, 176 e 177.

Alma desdobrada, capítulos 171, 172, 173, 174, 175, 176 e 177.

 

171.

          bestial quero minha sexualidade, para alimentar o meu amor com meu instinto mais vivo.

          bestial quero meu coração, para resistir impune ao destruidor conceito de piedade.

          bestial quero minha boca, para provar do sangue do meu amado.

          bestiais quero minhas unhas, para acordar no seu corpo a fúria dos mil e um delírios.

          bestial quero meu sexo, para atormentar o meu amado com o desejo mais prepotente do que o deus do apocalipse.

          bestial quero meu corpo, para dar pousada às sereias da sua loucura.

          bestial quero minha embriaguez, para que ela crie tumulto mais forte do que o som de todas as trombetas de todos os anjos.

          libertei as bestas que jaziam encarceradas no fundo do meu coração e eis que atingi a terra da felicidade!

 

172.

          Z…, eu te amo.

 

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Alma desdobrada, cap. 163, 164, 165, 166, 167, 168, 169 e 170.

Alma desdobrada, capítulos 163, 164, 165, 166, 167, 168, 169 e 170.

 

163.

          há uma ave encarcerada na gaiola do meu coração. está aflita e medrosa. tem o peito machucado e as asas cansadas. feriu-se de tanto voar contra as grades do ferro já enferrujado. o sangue envenenado e preto empapou-se e pesa-lhe nas penas sujas. escorre grosso e coagulado, misturando-se à sujeira fedorenta que lhe gruda nas unhas afiadas.

          eu queria soltá-la, gostaria muito de soltá-la.

          mas não tenho a chave.

          há uma ave encarcerada na gaiola do meu coração. seu bico rachou de tanto bater no cadeado de ouro. seu biquinho fendido dói muito e ela pára de súbito, arfa, estremece ofegante, cambaleia e recomeça os ataques. ela sabe que é ali, no cadeado de ouro, que está escondida a sua liberdade. ela sabe que essa chave mágica é, mais que tudo, a chave do mistério.

          eu queria abrir o cadeado. gostaria muito de abri-lo.

          mas não tenho a chave.

          há uma ave encarcerada na gaiola do meu coração. algumas vezes, febril e mole, fatigada dos vôos inúteis e das bicadas dolorosas, ela se encolhe, murcha, se arrepia e solta um pio agourento e medonho, que cresce por dentro e vem ferir por inteiro os ouvidos da minha razão. é mais que um gemido, é um grito de morte, é uma explosão que ameaça fazer ruir toda a minha segurança. e eu, cá de fora, febril e mole, fatigado de vôos e bicadas, me encolho, murcho, me arrepio e choro.

          eu queria soltar-me. gostaria muito de soltar-me.

          mas não tenho a chave.

 

164.

          saí do rio de janeiro, finalmente. já estou no ônibus, com destino a curitiba. devo chegar às oito da manhã, o ônibus adianta-se e há uma parada em que, olhando pela janela, vejo uma igreja. imagino que falta muito ainda, deito-me de novo mas alguém grita que já chegou.

          já?! não dar-se-ia de eu poder esperar um pouco mais?

          por que certos destinos se nos apresentam tão antes de sua hora?

 

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Alma desdobrada, cap. 158, 159, 160, 161 e 162.

Alma desdobrada, capítulos 158, 159, 160, 161 e 162.

158.

          os primeiros meses do ginásio foram o período mais atormentado da minha vida. hoje, percebo as diferenças que machucavam, desvendo suas causas, descubro suas justificativas e vislumbro suas necessidades: aqueles inseguros adolescentes, dependentes de uma auto-afirmação como machos, carentes de uma confirmação de suas supostas normalidades, temerosos da possibilidade de virem a ser mais mal amados do que mal amados já eram, aqueles infelizes descobriram onde se firmar, para não morrer afogados nas suas vidinhas de merda. alguém que podia ser criticado, ridicularizado, gozado, pisoteado, para presentear-lhes a eles com a coroa das mil redenções. esse alguém era eu. e o momento era o da chamada, porque, ao responder, eu falava – presente – baixinho. tenho certeza de que não falava com afetação nem de modo feminino. só falava baixinho. para eles, todavia, esse era um ponto fraco, inda que não fraco. esperavam atentos o momento e, deflagrada a discreta explosão, um murmúrio quente pairava um momento sob suas cabeças de meninos perdidos.

 

159.

          Z… à minha espera na porta do teatro. conversamos. tranquilamente. nenhum terremoto ameaça meu peito. nenhuma águia vem cantar que arrancará pedaços de minha carne com seu bico afiado. sem terremotos nem águias, eu pairo diante de você, menino, estranhamente, a ouvir e a falar. os passantes se chegam, entram, cumprimentam rapidamente, percebem que estamos juntos ainda uma vez. não me preocupa o que poderiam pensar os passantes. mas penso que me envaidece ser visto com você. por algumas pessoas, principalmente. mas, claríssimo, não por vaidade te quero comigo, e sim, porque te quero comigo.

 

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