Alma desdobrada, cap. 46, 47, 48, 49, 50, 51 e 52.

Alma desdobrada, capítulos 46, 47, 48, 49, 50, 51 e 52.

 

046.

          de onde saíram estes adolescentes belos e sedutores a quem amo perdidamente. são eles eu? são eles meu pai? são eles meu filho? adianta saber? ou me bastaria, sempre, entregar-me perdidamente, desesperadamente, alucinadamente, desvairadamente à minha paixão? isto o que sinto, é que é o amor? o que é o amor?

 

 047.

          percorro com tanta dor e tanta ousadia as terras deste livro, para me sentir forte e adulto, mais tarde, no estrangeiro do sem-ele.

 

 048.

          ocorre também, às vezes, que não sei se o que escrevo é pérola ou cocô.

  

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alma desdobrada, cap. 41, 42, 43, 44 e 45

Alma desdobrada, capítulos 41, 42, 43, 44 e 45.

 

 041.

          é estranho tudo isto que escrevo. o personagem do meu livro desistória afirmou: contar uma história é escolher, dentre as lembranças mais quentes, as que mais queimam. seria isto que escrevo a minha história?

  

042.

          lembro mais de meu pai agora. descobri tanto dele na terapia! foi todo esse proceder como tirar panos velhos, fétidos e ameaçadores de sobre uma múmia que eu julgava indiferente, antes, perigosíssima, depois. aos poucos, entretanto, foi-se modificando a figura que seria a múmia. transformou-se devagar num cadáver sagrado de um amigo. meu pai me amou. sei hoje, sinto agora, que foi ele quem me amou mais que todos.

  

043.

          no silêncio da tarde, eu leio. não estou só em casa. estou só em casa. no quarto, estendida sobre a cama, o corpo magro e ossudo e branco da neuza que dorme. se vou beber água ou ao banheiro, passo e olho. ela está viva. controlo os horários de seus tantos remédios e vigio seu sono. é difícil que ela durma muito tempo. geralmente, fica tão apenas estendida no leito, os cabelos muito negros a empalidecê-la mais ainda e os enormes dedos a trazer a lembrança daquilo que está por acontecer. ela fica entre a casa e o hospital. a cada vinda, seu organismo está mais debilitado.

         neuza convive com a morte. ela sabe que esta sua morte não pode ser enganada com facilidade. já abriu as portas de seu corpo, já se instalou furtiva e silenciosa.

         resta a espera do momento fatal.

         neuza espera com alguma esperança escapulindo do seu olhar. a distância entre o anúncio do fim e o fim, é feita com todos os segundos de que é feita. mas estes segundos não são, para mim, os mesmos segundos que são para ela.

         para ela, outro é o tempo.

         seu tempo como que está parado no que já se acabou.

  

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alma desdobrada, cap. 35, 36, 37, 38, 39 e 40

alma desdobrada, capítulos 35, 36, 37, 38, 39 e 40

  

035.

          fui com joão carlos assistir o mosseiev, balé russo, no maracanãzinho. acabado o milagre da dança, saímos, perdidos naquele formigueiro de pessoas não achadas. eu tinha um casaco de lã jogado sobre os ombros, mas à frente, cobrindo o peito, como não se costumava usar. ouvíamos rumores e vaias numa esquina. um grupo de rapazes fazia algazarra às custas de alguém. então eles me viram e começaram a vaiar e a gritar bicha. avançaram e me rodearam. corri. queriam me bater. eu me defendi cheio de medo, ataquei um que se aproximava, corri mais, um deles ameaçou me tirar o casaco, puxei-o, atravessei a rua e entrei num ônibus lotado. um senhor me perguntou o que aconteceu, quiseram me bater, não sei por quê.

         à noite eu delirei muito. aquela dança espantosa perseguia meus sonhos, eu acordava trêmulo e assustado, os olhos arregalados para o vazio.

         criaturas saídas do nada! minha frustração incontida imaginava futuras ocasiões em que eu me vingaria de vocês. quanta raiva inútil alimentei!

         hoje sei bem que vocês são aquilo que sempre foram: objetos que não se troca: nada existe no mundo que queira ocupar o espaço que vocês usurpam.

         quantos animais habitam um homem?

         apenas um! sempre! ele mesmo!

  

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