alma desdobrada, cap. 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13 e 14

Alma desdobrada, capítulos 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13 e 14.

 

 007.

          como contar de minha tensão antes de nascer leonardo? a tensão da vida. eu me sentia presa da emoção maior da paternidade: a espera, a esperança, o sonho se fazendo gente, a coisinha crescendo lenta e virando aquele que viria um dia e que cresceria, um pouco debaixo de minhas asas, um pouco debaixo das asas do mundo, aquele que receberia de mim pedaços de cruzes de martírio e cruzes de martírio receberia do mundo. eu esperava cheio de uma angústia redentora. eu me preparava para ser pai. eu pensava nomes, figurava olhos e pernas, sorrisos e planos. ele ou ela, quem seria? nunca aparecia inteiro dentro de uma idade, era um projeto dinâmico, bebê menino, bebê menina, filho, não acabado, nunca acabado…

 

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alma desdobrada, cap. 0,1, 2, 3, 4, 5 e 6.

Alma desdobrada, capítulos 0, 1, 2, 3, 4, 5 e 6.

 

ALMA DESDOBRADA

(história de uma terapia)

 

Nota: Este livro foi escrito em 1982. Eu tinha, então, 40 anos. Durante estes últimos trinta e dois anos eu sempre o reli nos dias de meu aniversário. E sempre cortava e cortava textos, por um ou outro motivo. Achava, então, que ao final, nada sobraria. Muitas vezes eu pretendi destruir o material remanescente, mas nunca tive coragem. Agora, 2014, no meio de algum tumulto interior e alguma inesperada felicidade, eu decido que ele é publicável por tão somente um motivo: há de ajudar a alguém que, como eu, sofreu ou sofre injustamente de uma culpa imposta, por força de sua sexualidade.

 

000.

 

quando eu era menino

e pensava no que vinha a ser alma,

imaginava que alma era alma penada:

alma feita de pena

e dor

por viver solta num espaço sem dono,

sem corpo,

à procura de sangue e intestinos

e nariz

e olhos de onde brotem choros.

 

alma não era além

de um branco lençol flutuante,

com dois terrores enormes e negros e sem

no lugar de olhos que não olhavam.

 

alma era aquele véu à espera

de um coração sem existir.

 

alma era o vôo

do branco

no nada.

 

depois cresci e deduzi que alma

era o mais profundo dentro do mais eu

e era e é aquilo que me existe

e que me torna

e que me faz intransferível

e que não me permite ser cancelado

nem de deixa adiável

e é o meu agora feito de depois.

muitos e muitos depois.

 

alma era e é tudo que está

dentro do lençol de pele;

o que quer fugir para qualquer futuro,

qualquer futuro que só meu;

e que quer entrar em todas as voragens

de luz

do que sou, do que sonho ser, do que temo ser,

do que tudo meu,

e até do contacto que for todo o resto.

 

e agora,

hoje,

onde,

menino de novo,

a chorar e a tremer,

menino de novo,

resolvo adotar minha velha alma;

alma penada,

um lençol de pele solto no espaço

do mundo.

eu não sou um conteúdo,

uma substância

envolta ou presa ou protegida num corpo.

 

sou meu limite,

sou minha superfície,

sou meu lençol de pele.

sou aquilo que toca o mundo

e é tocado pelo mundo;

sou o até onde posso ir.

o que está dentro de mim

não passa de um conjunto organizado

para manter intacto e perfeito e bonito

o meu de fora.

 

quando eu era menino

e pensava em alma,

tinha medo.

 

alma era coisa de ir deste mundo

para outros mundos insanos e não provados.

 

agora, menino de novo,

alma não me faz medo.

 

alma não passa de um lençol branco

cheio de dobras.

alma sou,

não tenho medo de mim.

  

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quatro marias (roteiro de filme, 4)

QUATRO MARIAS – Parte 4

 

Epílogo: A água lava. A água leva.

  

Seqüência 37:

 

Uma mulher caminha pelas ruas de uma cidade pequena. Vai vestida de negro, da cabeça aos pés. É dona Olinda. Leva a sacola de macramé com a caixa onde está a imagem e tem uma carta na mão. Durante seu passeio, os textos: Epílogo: A água lava, a água leva. Chegando à casa de dona Maria, bate palma. Esta aparece na janela:

          – Aconteceu alguma coisa?, dona Olinda.

Vê a sacola.

          – É a Maria?

          – É.

          – Ele matou ela… Eu sabia…

E após um silêncio:

          – Entra, dona Olinda.

Dona Olinda entra e se senta silenciosa. Após um tempo:

          – O Elói deixou isto na minha casa. A mando do Zico, que está morando em Friburgo. Tem uma carta, dona Maria.

          – Eu não sei ler, dona Olinda. A senhora tem tempo de ler para mim?

          – Tenho…

          – Primeiro, eu quero ver a santa. Deixa eu ver o pacote.

As duas abrem a caixa. A imagem agora tem uma vestimenta vermelha.

          – Ela trocou a roupa da santa. Quando eu dei… a roupa era branca… A senhora lê?

Dona Olinda abre a carta. Dona Maria corta:

          – Dona Olinda, desculpe. Eu não quero ouvir. Vai falar o que já sei. Agora, não adianta mais nada.

          – A senhora quer que eu reze um terço junto com a senhora? A oração alivia o coração.

          – Estas rezas são muito difíceis, dona Olinda. Não sei rezar essas rezas… As palavras são muito difíceis…

          – Não quer mesmo rezar um terço?, dona Maria.

Dona Maria nega com a cabeça. E fala:

          – Em vez de rezar… eu sofro. Não é a mesma coisa? Em vez de rezar… eu sofro. Coitadinha da minha filha… A senhora aceita um café?

          – Não. Obrigada, dona Maria. Então… eu posso ir andando?

          – Como quiser, dona Olinda. Muito obrigada, a senhora devia ter mandado alguém. Mora do outro lado da cidade.

Dona Olinda nega com a cabeça. E esboça um sorriso. Nega de novo.

          – Vou indo.

Dona Olinda sai. Dona Maria começa a esfregar o rosto com as mãos, para expressar sua dor. Abre novamente a caixa, tira a santa e a põe sobre a mesa. Sai e volta. Vai lá fora, até a beira rio, volta. Vai lá, de novo, e volta. Não sabe o que fazer. Parece um animal numa jaula. Vai ao fogão, põe nele uns gravetos e começa a soprar. Quando o fogo se inicia, ela põe mais gravetos. Vai à mesa, tira uma a uma as espadas de madeira.

          – Me perdoa, minha santa. Me perdoa.

Vai ao fogão e coloca as espadas no fogo. Fica olhando. Espera que as espadas se queimem. Levanta-se, vai até a mesa. Pega a imagem.

          – Me perdoa, minha santa. Me perdoa.

Vai até a beira do rio. Coloca a imagem na água e a imagem sai flutuando. Dona Maria fala baixinho:

          – Ô, minha filha. Se eu estivesse lá, ia te dar um banho. E ia te por uma roupa bonita. Uma roupa bem bonita… Eu ia te dar um banho e te vestir… Eu é que ia te vestir…

          Dona Maria se senta numa pedra. Seu rosto está coberto de lágrimas:

          – Ô, minha filha. Se eu soubesse rezar, ia ser mais fácil… Ia ser mais fácil…

          Dona Maria é focalizada de trás e o plano vai aumentando.

  

Seqüência 38:

 

À medida que a câmara se distancia, vê-se que ela está sentada numa pedra de papelão, no picadeiro, com a platéia inteiramente vazia. E novamente é vista de frente, repetindo baixinho:

          – Queria dar em você o último banho… Teu corpinho ia ficar cheiroso… Eu ia te vestir um vestido novo… bem bonito… bem bonito… bem bonito…

          Novamente o plano se amplia. Vê-se agora, no fundo da cena, todos os personagens, agora atores, atentos e em silêncio, vestidos com suas roupas modernas. Alguém grita:

          – Corta!

O rosto de dona Maria se descontrai e ela respira aliviada. Levanta-se, tenta sorrir, e vai para o fundo do picadeiro. Todos sorriem e avançam. A atriz que faz dona Maria grita:

          – Ah, que alívio. Acabou. Acabou.

Dançam. O ator que fez Jorge abraça a atriz que fez dona Maria. A atriz que fez Maria se aproxima. As duas atrizes abrem os braços, sorridentes, felizes.

          – Acabou! Até que enfim, acabou!

Abraçam-se fortemente. E ficam repetindo:

          – Nossa! Que catarse! Que catarse!

 

De repente, olham-se novamente. E seus sorrisos se transformam num choro terrível, abraçam-se e choram em convulsão. Demoradamente. A cena vai escurecendo.

  

Campo Largo, 02 de junho de 2008.

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