Esperanto? Pra quê? (6) Conclusão – minha.

ESPERANTO? PRA QUÊ? (6) CONCLUSÃO – MINHA.

Nota: Esta pequena série de textos foi feita para um “folder” com o objetivo de informar sobre o Esperanto, na ocasião em que fui presidente da Associação Paranaense de Esperanto (1988-1989). Eu achava que os textos de então eram muito sucintos. Minha intenção era divulgá-los entre pessoas mais interessadas no assunto. Observo que a parte escrita a partir da linha de asteriscos está sendo acrescentada agora.

Para cada povo, a sua língua. Para todos os povos, uma língua: o Esperanto. (Zamenhof)
Eis o ideal da língua Esperanto, assumido pelo seu próprio criador. Um ideal abrangente e ousado, que incluía já a condição de neutralidade absoluta.
Que soluções poderia apresentar o Esperanto no mundo de hoje?
Imagine uma língua que você possa dominar quase ou tão bem quanto a sua própria! Fácil? Absolutamente não! Mas, com certeza, a mais fácil de todas as línguas do mundo. Porque, ainda sendo capaz de espelhar inteiramente todo o universo (já que reflete a “cultura” do mundo inteiro, nada lhe escapa), tem a regularidade lógica da linguagem infantil (do tipo: eu fazi, eu trazi).
O Esperanto não é certamente a solução para os problemas do mundo. Mas qualquer solução honesta e integral para os problemas do mundo terá que passar por ele.

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Não sei se esta afirmativa final, escrita há vinte e quatro anos, é um desejo, uma utopia, uma profecia, uma intuição, uma tolice, o que seja:
O esperanto não é uma solução para os problemas do mundo. MAS QUALQUER SOLUÇÃO HONESTA E INTEGRAL PARA OS PROBLEMAS DO MUNDO TERÁ QUE PASSAR PELO ESPERANTO.

O planeta está vivendo dias de perplexidade. O ser humano virou um zumbizinho idiota, comprador de quinquilharias. Em nome desse nocivo e equivocado bem-estar, a humanidade sacrifica o que tem de mais precioso: o crescimento individual em direção à única maturidade e ao único bom senso capazes de criar uma convivência pacífica. Além de aterrorizar o planeta com um lixo sufocante. Há uma descarada e cruel manipulação dos valores necessários à coexistência. Toneladas de dinheiro são gastas para a produção de venenos coloridos e sonoros, desprovidos da mínima inteligência. O objetivo é só um: a manutenção da burrice e da desinformação.

As guerras continuam. Interesses escondidos, mentiras públicas e crenças estúpidas as alimentam. Os cinco países do Conselho de Segurança da ONU são os maiores vendedores de armas. Os Estados Unidos invadem onde querem mas não assinam o Protocolo de Quioto (será efeito de drogas?, já que este país é o maior consumidor do mundo – que recorde mais filho-da-puta!). Durante as ditaduras latino-americanas os banqueiros internacionais subiram os juros das dívidas externas e os “milicodimerda” abaixaram o rabo e lamberam as botas dos embaixadores imperialistas. Esse milagre diabólico não ocorreu só por aqui. Muito dessas dívidas é ficção e outro tanto serviu para enriquecer contas particulares, protegidos pela peste negra que assola os países que não investem em educação.
Laboratórios internacionais patenteiam sangue humano, como se os pobres do mundo tenham que vir a pagar pelo líquido sagrado que lhes corre nas veias. Animais peçonhentos entregam o subsolo de imensas regiões a outros animais, mais peçonhentos ainda, a troco de piscinas, apartamentos em Miami ou Paris ou uma continha fajuta nesses paraísos fiscais, que outra coisa não são, se não filiais de bancos do inferno.
Os poderosos se juntam e se protegem. De vez em quando trocam dentadas e arranhões. De vez em quando, também, organizam portentosas reuniões internacionais, cheias de glamur, onde barris de dinheiro alimentam discussões exibicionistas e ineficazes: paz no oriente médio, vamos salvar o planeta, o que vamos fazer com este paisico de merda que está querendo ter a bomba, onde já se viu?
As populações riem e dançam e se divertem. Todo mês sai uma novidadezinha mais do que maravilhosa, pra que o poder da hipnose não perca seus efeitos. Os americanos urinam e defecam filmes tão espetaculares quanto estupefacientes. Filmes sanduíches, todos recheados com muita violência…

Que tragédia! Precisamos meditar, precisamos nos sentar, uns diante dos outros, precisamos nos comunicar na tentativa de trocar idéias e sugerir possibilidades, precisamos forçar governantes…
Em que língua? Cidadãos do mundo!, em que língua falaremos? Se a solução for ficar calado, calemo-nos nas nossas línguas maternas. Mas se a intenção for participar dessa tentativa de melhoria do destino humano… temos a nosso favor a possibilidade da comunicação em Esperanto. Para que nossas palavras e nossas idéias tenham todas o mesmo peso e o mesmo valor.

Em Esperanto o dólar e o euro valem o mesmo que o dinheirinho de qualquer aldeia do mundo!
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Esperanto? Pra quê? (5) O que significa…

ESPERANTO? PRA QUÊ? (5) O QUE SERIA RESISTÊNCIA CULTURAL?

(nota: Esta pequena série de textos foi feita para um “folder” com o objetivo de informar sobre o Esperanto, na ocasião em que fui presidente da Associação Paranaense de Esperanto (1988-1989). Eu achava que os textos de então eram muito sucintos. Minha intenção era divulgá-los entre pessoas mais interessadas no assunto. Observo que a parte escrita a partir da linha de asteriscos está sendo acrescentada agora.)

Quando os franceses introduziram nos países de língua portuguesa um objeto composto de uma lâmpada sobre uma base e uma cobertura para diminuir ou suavizar o impacto da luz, chamado “abat-jour”, o termo foi assumido entre aspas porque era necessário designar o objeto. Uma onda de puristas levantou-se em resistência a mais um estrangeirismo (sem se dar conta de que também “estrangeirismo” é galicismo). Foi proposta a palavra quebra-luz. Quebra-luz hoje soa velho e ridículo. Abajur é o nome do objeto.
Atualmente diminuiu muito a resistência por preservação da pureza do idioma. Não existe língua pura a não ser aquela que ficar confinada aos limites de seu povo, sem contacto nenhum. A resistência é política, porque descobriu-se que hegemonia linguística significa quase sempre hegemonia política, resultando formas abertas ou disfarçadas de colonialismo cultural.
Como resistir? Poderíamos agir de diversas maneiras: sabotar, provocando focos de terror e muitas dores, dificultando entendimentos; fingir que nada de mal acontece, deixando para nossos filhos e netos a experiência do extermínio; manter acesa a chama dos altares, ato que funcionará enquanto houver fé, podendo porém transformar-se num imperativo nacional a manutenção de uma religião já sem sentido; manter vivas as manifestações culturais, isto é, ter consciência exata do que acontece, mudando o mutável, metabolizando o que não puder ser mudado, sem contudo perder contacto com as orígens; eis uma forma muito saudável de resistência.

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Pois é isso, tudo muito difícil…
Estamos vivendo dias de verdadeira falta de ar diante da chuva vulcânica de palavras de língua inglesa. Algumas dessas palavras são estúpidas e desnecessárias, orientadas por meios de comunicação burros e submissos (claro que com intenções muito claras). Outras palavras, inevitáveis. A dificuldade não é só nossa.
A adoção de palavras novas derivadas do inglês cria problemas linguísticos de difícil solução. O maior deles é que estamos inserindo no vocabulário da língua palavras que são escritas de uma maneira e lidas de outra. Dependendo do nível escolar do falante, há aberrações que doem ao serem escutadas.
Alguns povos têm sido mais cuidadosos. Os franceses traduzem o termo “mouse” (camundongo) por “souris”, camundongo. Os portugueses dizem rato e os espanhóis, “ratón”. Os habitantes do país que mais foi campeão de futebol dizem máuse. Os portugueses chamam “laptop/notebook” de computador portátil. E dizem sítio, para “site”. Os espectadores do programa “Big Brother” dizem saite mas escrevem site. Tenho escrito em meus textos saite, blogue e linque. Descubro pela internet que Millor Fernandes escrevia saite. Que ótima companhia!
Mas isto não passa de um punhado de gotas num oceano de dificuldades.
A França possui uma “Commission Générale de Terminologie et de Néologie” para estudar as possíveis e mais adequadas formas de se transcrever uma palavra de outra língua. No Brasil, acho que isto nunca funcionaria pois aqui, no que depende do governo, “os menino pode comê os peixe, sem pobrema”.
Creio, para terminar, que o problema (sic) será resolvido aos poucos, com uma grandiosa dose de bom-senso e nenhuma pitada de servilismo. A língua vai sendo modificada e aperfeiçoada ao longo do tempo. Quem tem capacidade de ser lúcido, apresente suas sugestões e as use, para aumentar a resistência à estupidez reinante.
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Esperanto? Pra quê? (4) Qual é a cultura….

ESPERANTO? PRA QUÊ? (4) QUAL É A CULTURA DO MUNDO?
(nota: Esta pequena série de textos foi feita para um “folder” com o objetivo de informar sobre o Esperanto, na ocasião em que fui presidente da Associação Paranaense de Esperanto (1988-1989). Eu achava que os textos de então eram muito sucintos. Minha intenção era divulgá-los entre pessoas mais interessadas no assunto. Observo que a parte escrita a partir da linha de asteriscos está sendo acrescentada agora.)

Você já ouviu falar em Shakespeare? Camões? Balzac? Goethe? Tagore? Garanto que já. A cultura internacional faz pipocar aqui e ali nomes que aparecem e não mais se apagam. Em determinadas ocasiões há uma nervosa efervescência, responsável por uma verdadeira erupção de gênios. É o caso da Grécia no tempo de Péricles: Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Aristófanes, Sócrates, Platão, Aristóteles. E veja que foram enfocados apenas o teatro e a filosofia… É o caso do renascimento italiano, Giotto, della Francesca, Botticelli, Leonardo, Michelangelo… O romantismo musical alemão, Beethoven, Schubert, Mendelssohn, Schumann, Brahms, Wagner… aqui é preciso parar para respirar!
Essa foi a cultura que herdamos e que alcançou diversas regiões da terra. No nosso caso, a fixação de uma cultura provocou uma mistura com os elementos indígena e negro. Como se terá dado essa união de diversidades em outros países? Na Finlândia, por exemplo, cuja língua é parenta do turco e do mongol e cujo padrão de vida é escandinavo? No Japão, com sua herança milenar e a atual voragem tecnológica? Ou na África, com sua multiplicidade tribal de deuses e ritos frente a um processo burilado pelo tempo e pela paciência dos clássicos? E como será que os povos recebem a “nossa” participação nesse imenso caleidoscópio? Que países nos traduzem? E por que será que estamos limitados ao acesso a “determinadas” culturas? No Brasil, por exemplo, assiste-se a um grande número de medíocres filmes americanos enquanto o mundo, como um feto fecundo, rebenta esporos de puríssima estética. Ou será que não existiria um excelente cinema suiço, grego, turco, indiano, o que seja? A que campos de concentração culturais nos condenam as hegemonias linguísticas (linguísticas?)? Que armas temos para a libertação?
Enfim, como ter acesso a culturas outras que são, como todas, a manifestação dessa bruta mistura de ingredientes étnicos que está plantada nos corações de todos os povos?

Você já ouviu falar de Aleksis Kivi? Havlicek-Borovsky? Sandor Petöfi? Ivan Vazov?

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Isto mesmo. Já ouviu falar destes nomes? Será que estariam à altura de um Hemingway? Ou simplesmente obrigariam Hemingway a lamber a poeira sob seus pés?
Falei até agora de alguns aspectos em que o estudo do Esperanto apresenta vantagens sobre outras línguas, a não ser que a pessoa esteja planejando viver ou estudar ou trabalhar num país de língua desconhecida. O viajar, o corresponder-se, o resistir a um domínio falso de uma língua que se auto-denomina a mais importante de todas, etc.
Quero falar agora tão só em meu nome: se descobri maravilhas no mundo esperantista, a maravilha das maravilhas é certamente o acesso às obras-primas da humanidade, sem intermediários. Costumamos descobrir um cinema nacional qualquer, a partir de um prêmio em Cannes ou, menos frequente por haver maior manipulação, um óscar qualquer de filme estrangeiro. O mesmo costuma acontecer com algumas literaturas. Os franceses descobriram Milan Kundera e eis-nos traduzindo o autor. Recebemos, portanto, influências já filtradas por culturas que, babaquíssimamente, assumimos como mais importantes do que as nossas. Continuamos índios, a deleitar-nos com contas de vidro e a curvar-nos ante os brancos inteligentes e divinizados. Há um pouquinho de lucro nisso: é bom que as tragédias gregas, os trabalhos de Shakespeare, o grande acervo da música ocidental, sejam passados de geração a geração. Mais do que bom, é inevitável. Já se descobriu que nenhuma ditadura (incluindo as ditaduras da burrice) calará por eterno o poeta obstinado. E menos ainda os gênios realmente geniais.

Quero afirmar com ousadia que o maior trunfo do Esperanto é essa doação quase anônima de obras-primas a toda a humanidade. Dia após dia cresce o número de trabalhos fantásticos que são traduzidos para o Esperanto. Que vantagem Maria leva?
Duas!
Primeiro, o tradutor domina à perfeição a língua a ser traduzida. Poucos brasileiros ou portugueses estariam à altura de traduzir uma sátira tcheca em versos, O batizado do czar Vladimir, de Havlicek-Borovsky… Menos ainda um tcheco, que dominasse o português. E, se algum coreano está descobrindo os prazeres de uma viagem com Vasco da Gama, lendo Os Lusíadas em Esperanto, traduzido por Leopoldo Knoedt, digo que é quase impossível a um escritor coreano passar para o Esperanto ou o coreano o belíssimo texto de Camões.  Há exceções; O Alcorão foi traduzido para o Esperanto por um italiano, professor de árabe. É pouco? Quer mais?
Segundo, os intelectuais que traduzem obras de seus países para o Esperanto, geralmente escolhem aquelas que se colocam nos pináculos de suas culturas nacionais. Estamos só no começo. De Dostoiévski temos apenas algumas novelas e o Crime e Castigo. É quase que ler o original… Mas falta muito…
Termino com uma pequena relação desses livros fantásticos que li ultimamente, de encher de inveja qualquer professor de literatura… Viagem a Kazohinio, de Sandor Szathmari, Kalevala, epopéia finlandesa, Sete Irmãos, de Aleksis Kivi, Antologia da Literatura Oral da Sérvia, A maravilhosa viagem de Nils Holgersson, de Selma Lagerlöff (há uma tradução, encolhida, em português), Eugênio Oneguin, de Puchkin… Isto, além de uma coleção imensa de livros que bem conhecemos, os ocidentais, mas que ficam atualmente à disposição de leitores da Ásia e da África, Os Lusíadas, Cem Anos de Solidão, A História de Heródoto, O Livro das Maravilhas, de Marco Polo, Don Quixote, A Divina Comédia… 
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