Esperanto? Pra quê? (3) O que é hegemonia…

ESPERANTO? PRA QUÊ? (3) O QUE SIGNIFICA HEGEMONIA LINGUÍSTICA?…
(nota: Esta pequena série de textos foi feita para um “folder” com o objetivo de informar sobre o Esperanto, na ocasião em que fui presidente da Associação Paranaense de Esperanto (1988-1989). Eu achava que os textos de então eram muito sucintos. Minha intenção era divulgá-los entre pessoas mais interessadas no assunto. Observo que a parte escrita a partir da linha de asteriscos está sendo acrescentada agora.)

Quando se analisa um Atlas Histórico, verifica-se correntes migratórias ao longo de toda a história da humanidade. Muitas são as causas que levam um grupo de uma determinada cultura à ocupação de outra região. O resultado porém, sempre, foi um só: uma inevitável fusão de ingredientes culturais, cujas proporções variam.
A língua de um grupo é um desses ingredientes. A língua é o absoluto inventário de toda cultura. Não existe em nenhum ponto da história do homem algo a que não se atribua um nome ou um nome desvinculado de seu objeto.
Voltando-se ao Atlas, percebe-se que todas as ocupações se deram apenas de duas maneiras: ocupação de uma região vazia ou conquista. Não se pode dizer que toda a conquista tenha sido feita através da força. Existem também a persuasão e a sedução.
Será verdade que as línguas se impõem e morrem como se impõem e morrem os impérios? Não se pode negar que, qualquer que seja a causa, determinadas línguas são mais importantes em determinadas épocas. E a importância de uma língua significa uma certa hegemonia do país que a veicula. Nem sempre uma língua se impõe sobre outra através de ordens do tipo “tal língua ou a morte”.  Muitas vezes um grupo aceita outra língua por considerá-la vantajosa no seu dia a dia.
A civilização abomina a violência, mas não consegue aniquilá-la. A violência veste máscaras e continua a fazer de vítimas a povos inteiros. Suavemente uma cultura se impõe à outra através de gastos em propaganda sobre filmes e livros e canções. Tudo através de uma língua. Num tempo já foi dito que ópera só em italiano (pobre Mozart!), filosofia só em alemão (pobre Russel!), cinema só em inglês (pobres de nós todos). O que não é dito é que atrás do filme vem o carro a ser vendido, atrás do livro vem um estilo de pensamento e atrás da canção uma maneira de ver o mundo. Trocamos a liberdade de descobrir nossas formas de vida pela liberdade de engolir formas de vida alheias aos nossos interesses.
É inegável a substituição de certos fatores culturais por outros mais complexos: o culto ao deus Dionísio se transformou na tragédia grega; é dessa forma que a civilização progride. O povo que influencia outro também sofre influências internas através de alterações provocadas por grupos mais fortes.
Ao contrário, é altamente questionável acreditar que só dessa forma se dê o progresso: isto é, para que haja progresso não pode haver a convivência entre culturas diferentes.

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O texto acima foi escrito antes do advento do computador. Se para cada objeto ou idéia é preciso uma palavra, o que aconteceu recentemente foi que o mundo inteiro ficou à mercê de uma inevitável avalanche de palavras inglesas. O muito curioso é que a maioria dessas palavras são do dia a dia dos falantes do inglês; exemplos, “to delete”, “site”, “link”.
Quero dizer com isto que palavras da língua inglesa já existentes foram adaptadas para algumas “ações” ou “ferramentas” ofertadas pelo computador. Mas, por causa de uma série de atributos ou partes da máquina, houve, sim, a necessidade da criação de novas palavras. Isto não é hegemonia mas é uma das facetas que a hegemonia apresenta, já que geralmente são os países mais avançados aqueles que espalham pelo mundo os novos filhos do progresso.
Não reconhecer que o inglês seja língua hegemônica atualmente é querer dar murro em ponta de faca. Mas afirmar que ela é internacional é burrice. Em muitos países muçulmanos o árabe é a língua mais falada (pensemos nas línguas tribais da África). O russo se mantém ainda como língua de comunicação nos países da falecida cortina de ferro. O mandarim e o hindi são línguas hegemônicas.
Afirmar que o mundo não precisa de uma língua internacional também é dar murro em ponta de faca. Mas admitir que essa língua tem que ser o inglês também é burrice.
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Esperanto? Pra quê? (2) Correspondendo-se…

ESPERANTO? PRA QUÊ? (2) CORRESPONDENDO-SE…

(nota: Esta pequena série de textos foi feita para um “folder” com o objetivo de informar sobre o Esperanto, na ocasião em que fui presidente da Associação Paranaense de Esperanto (1988-1989). Eu achava que os textos de então eram muito sucintos. Minha intenção era divulgá-los entre pessoas mais interessadas no assunto. Observo que a parte escrita a partir da linha de asteriscos está sendo acrescentada agora.)

    Um costume muito difundido antigamente e que está perdendo terreno nas relações humanas é o da correspondência. As causas são fartamente apontadas: viaja-se com mais frequência, o telefone contacta imediatamente, falta tempo para dedicar-se a esta tarefa de um aprofundamento suave e perene. Todavia, ainda que as distâncias se tenham encurtado, o planeta continua grande e caro para nós, terceiro-mundistas. A correspondência ainda é um meio de conversar com pessoas de outros países, acrescentar ao nosso humano aquele humano que nos é tão distante e ao mesmo tempo tão próximo.
    Mas eis que se levantam as águas da incomunicabilidade.
    Em que língua escrever? Na minha? Se for possível, excelente! Se não, eis-me diante de dicionários-labirintos, onde o Minotauro não devora mas transforma minhas emoções e meus conhecimentos em arremedos e confusão.
    É fácil falar de coração a coração? Ou dissertar sobre filosofia? Ou discutir algum novo aspecto da ciência? Na minha língua, até que pode ser. Se meu/minha correspondente não alcança minha ilha, como resolver o problema? Como decidir qual de nós merece o domínio de campo? Que armas serão usadas nessa batalha amiga, a minha língua ou a de meu correspondente? Que critério escolher?

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    Apesar de atualmente a internet ter acelerado e facilitado, de maneira inesperada e absoluta, a comunicação entre as pessoas, o problema da língua continua soberano, implacável, humilhante. A única diferença entre falar ou escrever numa língua que não dominamos é que na escrita temos mais tempo para correções e busca de palavras ou expressões. Quem está escrevendo na sua língua é sempre um concorrente mais forte. E toda pessoa que gosta de línguas e as estuda sabe das mil dificuldades para expressar algo mais complexo do que “minha cidade é bonita” ou “está chovendo bastante aqui”.
    Quase todo estudante de Esperanto recebe, em suas primeiras aulas, listas de pessoas do mundo inteiro para iniciar uma correspondência. Elas aparecem nas principais revistas internacionais. Na maioria das vezes estas listas apresentam nomes de iniciantes no estudo, para que a correspondência entre os elementos se torne uma prática a mais, podendo haver, inclusive, correção dos textos em sala de aula.
    Para aqueles que já alcançaram um domínio sobre a língua e conseguem escrever mensagens com fluência, a vantagem do Esperanto é a igualdade de posição entre os dois correspondentes. Vou citar exemplos.
    Musiquei há anos uma peça teatral de Marjorie Boulton, a fabulosa escritora inglesa bilingue. Encaminhei a ela mensagem em Esperanto, solicitando autorização para fazer um cd doméstico para distribuição entre os amigos. Recebi a autorização, num simpaticíssimo cartão onde se via um gatinho. Não me custou suor nem lágrimas. Se eu tivesse que escrever na língua dela, a comunicação me dificultaria um bom tanto e certamente pesaria na balança o fato de eu saber que ela é doutora em literatura.
    Mandei uma obra minha, bilingue, para os membros da Academia Internacional de Esperanto. Recebi, dentre outras mensagens, uma carta de um sueco, Christer Kiselman, acompanhada de dois artigos excelentes sobre as origens do Esperanto. Tivesse eu recebido este material em inglês, não o teria decifrado com tanta facilidade e tanto maior prazer.
    Há alguns anos, lendo pela primeira vez na vida – que vergonha! – a História de Heródoto, traduzida do grego antigo para o Esperanto, por Spiros Sarafian, encontrei num capítulo sobre o Egito Antigo uma narração que deduzi ser a origem de um intrigante conto que ouvi da boca de minha avó materna, analfabeta. Mensagem pra lá, mensagem pra cá, recebi a autorização do autor para postar o capítulo no meu saite, para que os eventuais leitores possam comparar as versões com dois mil e quinhentos anos de intervalo.
    Por que um brasileiro e um sueco ou um brasileiro e um grego deveriam se corresponder em inglês? Que condenação absurda e burra é esta?

    O objetivo do Esperanto, que é a facilitação na comunicação entre falantes de línguas diferentes, é atingido com a maior eficácia, na correspondência entre as pessoas. A internet atualmente enriquece de possibilidades o nosso dia a dia. O Esperanto já é um dos idiomas mais veiculados pela internet.

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Esperanto? Pra quê? (1) Viajando…

ESPERANTO? PRA QUÊ? (1) VIAJANDO…

 
(nota: Esta pequena série de textos foi feita para um “folder” com o objetivo de informar sobre o Esperanto, na ocasião em que fui presidente da Associação Paranaense de Esperanto. Eu achava que os textos de então eram muito sucintos. Minha intenção era divulgá-los entre pessoas mais interessadas no assunto.)

           Se você programar uma longa viagem pelo Brasil, poderá encontrar diversos problemas; um deles, porém, que costuma afligir turistas, não acontecerá nessa viagem: o da língua. Todo o imenso território brasileiro é dominado por um único idioma. A única pequena diversidade que se encontra é sotaque (além de algumas variações de significados), que acaba virando mais um tema de conversação entre visitantes e visitados,

          Se você programar uma viagem fora do país, encontrará maneiras para contornar o problema. Se aderir a uma excursão, falará português durante todo o tempo. Perderá oportunidades de aventurar-se, perder-se, descobrir coisas, individualizar sua visita… mas a segurança da excursão é inquestionável. Se você tem o gosto pela aventura e quer dar uns passinhos por conta própria, poderá aprender inglês, se não sabe, e conseguirá hotéis, passagens, tíquetes para museus e teatros. Se desejar, porém, conversar com o passageiro ao lado ou pedir uma informação a um transeunte, começará a enfrentar problemas. Perder-se em Bruges, na Bélgica, significa precisar falar flamengo (muitos velhos e crianças não falam francês). Na Itália, já nas pequenas pensões não se fala inglês, a não ser os preços da pousada. Países como a Holanda e a Dinamarca facilitam por terem populações bilingues – o inglês é aprendido junto à língua pátria.

          Se você viajar à Inglaterra ou Estados Unidos, ainda que falando inglês, verá como o inglês que falamos geralmente é insuficiente. Dominar uma língua não é tarefa simples. Eles poderão nos entender, se se dispuserem a ser gentis (o que nem sempre acontece) mas, para participar de um grupo de conversação, quantos brasileiros estarão aptos? Não é preciso ir tão longe. Visitando nossos vizinhos sulamericanos, falantes de um idioma tão primo do nosso, que é o espanhol, perceberemos que a grande facilidade com que lemos o espanhol não nos ajuda na língua falada. É difícil entender e muito mais difícil falar: a gagueira é inevitável. A diferença entre o inglês e o espanhol, para nós, é que o espanhol necessita de um menor aprendizado.

          E se você quiser fazer um turismo menos convencional, para países africanos ou asiáticos? O inglês viajará de avião com você, certamente, como já viajou o francês e, noutras épocas (de carroça), o latim.

          Mas você continuará sendo aquilo que é todo ser humano:

          uma ilha falante cercada de estranhas línguas por todos os lados.

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          O Esperanto já possui uma comunidade de falantes em todo o mundo. É difícil saber exatamente quantos.

          Para possibilitar a prática da língua falada, os esperantistas criaram uma instituição chamada “Pasporta Servo” – Serviço de Passaporte.

          Simplíssimo: uma brochura é editada anualmente com a lista de países e moradores que oferecem hospedagem gratuita, desde que o hóspede venha falando a língua. Cada ofertante indica o número de pessoas e o máximo de dias ofertados.

          Manuseando rapidamente um anuário qualquer do Pasporta Servo, depara-se com curiosidades:

          – nalguns países (isto era frequente no leste europeu, à ocasião do domínio do império soviético), os hospedeiros comunicam que não podem oferecer hospedagem inteiramente de graça, mas cobrarão uma taxa simbólica, bem menor do que as de hotéis e pensões; o mesmo com relação à alimentação;

          – algumas pessoas fazem exigências: … menos durante o mês de agosto… …não aceito fumantes… …é preciso que traga um saco-de-dormir… …é preciso que goste de cães…

          – outras, são pródigas: …ofereço um passeio pelos pontos turísticos da cidade…

          – algumas exigências podem ser extravagantes: … eu e minha mulher somos nudistas e queremos ser imitados…

          – outras, personalíssimas: … sou iniciante na língua e dou preferência a bons falantes, para que eu pratique…: … não aceito visitantes que pretendam falar inglês…

          e vai por aí afora.

           Eu mesmo já hospedei por uma semana, em ocasiões diferentes, dois argentinos e um finlandês; confesso sem vergonha, que estas foram as ocasiões em que eu realmente aperfeiçoei minha conversação e pratiquei o objetivo do Esperanto, que é a comunicação entre falantes de línguas diferentes.

          Para estudantes e pessoas com disponibilidade de tempo, é uma oferta tentadora, extra-oficial, sem nenhuma burocracia. A própria comunidade se comunica a respeito de abusos, através de jornais e revistas internacionais. Geralmente a coisa flui tranquilamente, criando grandes focos de eterna amizade.

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