A propósito da tradução de Medéia…

A propósito da tradução de Medéia, de Eurípides…

Comentários sobre tradução de textos clássicos.

Primeira reflexão: Todas as tragédias gregas são em versos. Não há rimas mas as frases apresentam ritmos ordenados (sequência de repetições de sílabas fortes e fracas). Os versos variam no número de sílabas e nas diferenças de ritmos, conforme sejam falas, falas com fundo musical, solos, corais; os corais variam conforme a emoção do texto cantado.

Segunda reflexão: De acordo com as características de cada língua, uma mesma idéia pode ser representada por frases curtas ou longas. Sabe-se que línguas que abusam das preposições apresentam textos mais longos do que aquelas línguas sintéticas, com declinações. Uma mesma frase varia, pois, em tamanho, de língua para língua. A língua inglesa, por exemplo, apesar de fazer uso de preposições, tem grande quantidade de vocábulos curtos, o que resulta em textos de frases curtas. (Há uma frase que, de brincadeira, é citada aos iniciantes no estudo da língua, para mostrar exatamente o contrário: Era uma vez um velhinho… Once upon a time, there was a litlle old man…)

Terceira reflexão: Esta diferença entre as características das línguas é um grande desafio para quem pretende traduzir, versificando, um texto em versos. A estrutura de um texto versificado acaba sendo uma jaula com medidas rígidas, onde devem ser ajustados a idéia, o número de sílabas, o ritmo e – mais modernamente – a rima.

Quarta reflexão: Esta dificuldade é resolvida de duas maneiras: 1. abandona-se a estrutura original em versos, assumindo-se a prosa; é um voo livre em direção à fidelidade. 2. aceita-se a jaula, ajustando dentro dela os elementos que compõem o texto, novamente, a idéia, o número de sílabas, o ritmo e a rima.
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Medéia – Eurípides

MEDÉIA, de Eurípides

(Tradução do texto integral)

Nota: Esta tradução foi feita do francês, por puro exercício, em 1968. Parti da tradução de Louis Méridier. Em 1970 Silnei Siqueira dirigiu Cleyde Yáconis numa Medéia fantástica, que veio a Curitiba. Eu cursava o primeiro ano de Letras da UFPR. A pedido do professor Oswaldo Arns, de Teoria Literária, a quem tinha falado da tradução, emprestei meu texto datilografado aos colegas, antes de assistirmos a peça. O entusiasmo foi tal, que o professor ofereceu um curso de Grego num dos horários vagos. Quem se lembra?


AMA: Quisesse o céu que o navio Argos, no seu vôo para a terra da Cólchida, não tivesse ultrapassado as ilhas Simplégadas de sombra azul; que nos vales do Pélion jamais o pinheiro fosse abatido pelo machado e não armasse com remos as mãos dos valentes que fizeram para Pélias a conquista do velocino de ouro. Medéia, minha ama, não teria singrado até as muralhas do país de Iolcos, para viver com Jasão, tendo o coração perdido de amor. Agora ela foi atingida em suas afeições mais caras. Traidor de seus dois filhinhos e de minha ama, Jasão casou-se com a filha de Creonte, o soberano do país. E Medéia, infortunada, sob os golpes do ultraje, invoca o sacramento do casamento e faz dos deuses testemunhas da recompensa vil de Jasão. Ela está sem alimento, abandonando seu corpo ao desgosto, consumindo todos os seus dias em choro, desde que ouviu a injúria do seu esposo, sem levantar mais o olhar, sem despregá-lo do chão; semelhante ao rochedo ou à vaga dos mares, ela é surda às palavras de seus amigos. Às vezes, entretanto, voltando o rosto deslumbrantemente pálido, chora consigo seu pai querido, seu país e sua casa, que ela traiu para seguir o homem que hoje a despreza. Ela conhece, pelos golpes do infortúnio, o que se ganha por deixar a terra de seus pais. Coitada! Seus filhos lhe causam horror, não vê mais alegria neles. E temo dela alguma resolução estranha. Violenta é sua alma: não suportará ser maltratada; eu a conheço e tremo, pois ela é terrível e quem se expõe a seu ódio dificilmente levará a palma da vitória.
    Mas eis seus filhos, que acabam de treinar na corrida; não se inquietam com as dores de sua mãe; alma jovem não costuma sofrer. (entra o Pedagogo com os meninos)

PEDAGOGO: Velha criada de minha ama! Por que você fala tão solitária, junto das portas? Como Medéia consente em ficar só, sem você?

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Agamenon – Ésquilo

AGAMENON, de Ésquilo (tradução adaptada)

Nota: Fiz esta tradução adaptada para estudantes em 1973, visando uma futura leitura dramática. O objetivo era a demonstração do que é uma típica tragédia grega, na maioria das vezes nada mais que uma sequência de crimes hediondos, o homem antigo tentando criar critérios para uma justiça tão difícil de ser alcançada. O trabalho permaneceu até então no manuscrito, sendo resgatado agora. Parti de um texto em francês de Leconte de Lisle (1818-1894) e andei dando umas fuçadas num outro texto, também em francês, cuja brochura extraviou-se. Sei que em 1963/1964 foi publicada uma tradução em português (integral?), mas não sei se direto do grego.

    Ao fundo o portal do Palácio dos Atridas.

VIGIA: Eu bem gostaria que os deuses terminassem minhas penas, vigiar desde tanto tempo, como um cão, a ponto de conhecer com exatidão a rota das estrelas. E eis-me de novo vigilante, esperando o sinal de fogo que de Tróia deverá trazer a notícia da vitória; assim exigiu o coração da rainha Clitemnestra. E aqui, querendo cantar e assobiar para espantar o sono, acabo falando sozinho, lamentando a sorte dessa casa, o palácio de Agamenon, onde não existe mais a ordem antiga. (Vê a luz distante).
    Salve, archote, que faz nascer o dia dentro da noite e Argos se encher de coros para festejar o sucesso!
    Rainha! Rainha! Acordem todos, Tróia foi destruída, o sinal de fogo está proclamando de longe, Tróia caiu e Agamenon está de volta! Acordem todos! Quero ser um dos primeiros a saudá-lo! Já nem sei o que digo. Se o palácio pudesse falar, ele mesmo gritaria a novidade. Acordem! Acordem! Tróia caiu e o rei está de volta! (Desaparece no palácio. Pela direita, entram lentamente doze velhos, indo até a Orquestra).

CORO: Há dez anos já, que Príamo, o rei de Tróia, se viu diante de seu pior inimigo, Agamenon, que partiu deste país com uma frota de mil navios.
    Terríveis como abutres, gritavam cheios de ira. Qual foi a divindade, Apolo, Pan ou Zeus?, quem fez despencar sobre os culpados a fúria vingadora?
    Por causa de uma mulher, Helena, braços cansaram-se nas lutas, joelhos cairam na poeira dos campos de batalha, lanças foram quebradas, conforme a sorte que o deus tenha reservado a gregos e a troianos.
    O destino dos guerreiros já foi fixado. Aumentem eles o fogo dos sacrifícios, mais madeira e mais óleo! Nada adiantará agora! A inflexível cólera rejeitará as oferendas flamejantes!
    E nós, pobres velhos, temos que ficar por aqui à espera, errantes como um espectro que vaga em pleno dia. (Olham para o lado do palácio).
    E por que é que a rainha Clitemnestra, filha de Tíndaro, sacrificou aos deuses? Todos os altares estão queimando, os altares dos deuses do céu e os do inferno; os da casa e os da praça.

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