conta outra vó 15. o enigma

o enigma

O ENIGMA

       o enigma                                                

Nota: Historinhas em que o irmão mais novo, às vezes tido como bobo, leva a melhor, existem aos montes na literatura popular do mundo inteiro. Dentre as que eu conheço, a mais elaborada e mais poética é o maravilhoso relato bíblico da história de José. Historinhas em que um enigma é apresentado ao herói, sob pena de um grande castigo, em caso de erro, e com um grande prêmio, em caso de acerto, também são muito comuns. A de Édipo foi a que atingiu uma das mais altas expressões na literatura. Decifra-me ou te devoro, dizia a Esfinge aos passantes. Édipo desvendou o enigma, ganhou um reino com rainha e tudo, mas por trás dessa vitória o destino o premiava com a trágica fatalidade que ele acreditava estar evitando.
    Este pequeno conto de minha vó é parecido com a vida que ela viveu; ingênuo, humilde, despretencioso. O relato mínimo, expurgado de devaneios, imagens poéticas ou elucubrações sobre o destino humano. A simplicidade absoluta, para crianças que estão começando a compreender o mundo.

    Era uma vez três irmãos. O mais velho, o do meio e o mais pequeno. Tudo que os dois grandes queriam fazer, o pequeno também queria mas ele era meio abobalhado e atrapalhava tudo e os irmãos batiam nele e passavam pito.
    Uma vez os dois irmãos resolveram ir na cidade porque a princesa ia falar um enigma e quem adivinhasse ia casar com ela e ganhar a metado do reino. Mas, se não acertasse, ia ficar escravo no palácio.
    Aí o caçula disse que também ia. Os irmãos brigaram muito e falaram pro pai que ele ia atrapalhar tudo e que não queriam ter que cuidar de um irmão abobalhado.
    Mas o pequeno tanto tez e tanto fez, que o pai deixou e os três se foram.
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CONTA OUTRA VÓ 14. A MORTA-VIVA

a morta viva

desenho de Ricardo Garanhani

Nota: O sepultamento de pessoa ainda viva, tendo os sintomas de morta, sempre foi tema de narrativas terríveis. Allan Poe (1809-1849), como não podia deixar de ser, tem duas (Premature Burial e The fall of the House of Usher); na introdução da primeira, ele apresenta casos famosos em sua época. Numa novela cheia de emoções, Selma Lagerllöf (1858-1940) também narra a história de uma moça que acaba sendo resgatada do sepultamento (En herrgårdssägen -1899).
Uma observação que cabe aqui, também, é de como eram simples os contos de minha avó. Os analfabetos contavam e recontavam as historinhas e aos poucos ela se reduzia a uma matéria prima nua e crua, mantendo intacta apenas a essência do acontecido.

Era uma vez… um fazendeiro tinha uma filha. Ele era um viúvo muito rico e tinha muitos escravos e escravas e gado. Ele só tinha essa filha e gostava muito dela. Ela estudava música, ele trazia professores do litoral, e ela ia ficando prendada.
Vai que um dia a moça morreu. O fazendeiro ficou apaixonado e quase morreu de desgosto. Mandou fazer uma mortalha branca, muito rica, e pediu uma coroa de flores de laranjeira e um buquê e um véu de noiva. Naquele tempo as moças que morriam virgens não eram enterradas de roxo mas iam com uma mortalha de noiva, muito branca e muito linda. Aí o fazendeiro mandou que colocassem no caixão todas as jóias que eram da familia porque já não tinha mulher e nem filha e não queria vender nada daquilo.
Então as velhas lavaram a defunta, pentearam os seus cabelos, vestiram a mortalha que era o vestido de noiva e colocaram o buquê na mão dela e o véu na cabeça e a grinalda por cima do véu. Depois colocaram na moça as pulseiras e os colares e os anéis e os brincos.
Ela mais parecia uma filha de reis, de tão maravilhosa que ficou.

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CONTA OUTRA VÓ 13. O PADRE

o padre

desenho de Ricardo Garnhani

Nota: A segunda novela do Decameron de Boccacio (1313/1375), entre algumas outras, mostra a devassidão no comportamento dos religiosos católicos no século XIV. Parece que nem a contra-reforma conseguiu alterar a moral de muitos padres.
Esta historinha, na verdade uma debochada anedota, exemplifica, de modo cru. um tipo de comportamento clerical que floresceu (ou espinhou) até metade do século passado. Muito disso é resultado de um costume da maioria das famílias com algumas posses: um dos filhos era destinado ao sacerdócio, desrespeitando-se individualidades e vocações. A vítima era a última a manifestar alguma vontade.

   Era uma vez um padre muito sem-vergonha. Quando ele ia confessar as mulheres, ficava perguntando indecências pra elas. Mas ele preguntava de um jeito muito matreiro, que mais parecia que era mesmo confissão. Aí, quando ele entendia que a mulher tinha pecado contra o marido, ele conversava e conversava e acabava dando um jeito de seduzir a coitada. Umas gostavam e acabavam se acostumando, de jeito que nas confissões aconteciam outras coisas. E assim ele ia vivendo.
Aconteceu de mudar praquela cidade uma mulher casada com um viajante. Ela era muito bonita. No sábado foi à igreja e se apresentou pro padre, que queria confissão. Na verdade o que ela contou foi um bocado de pecadinhos bobos. Ele mandou que ela rezasse ave-maria e credo e ela foi embora.
Mal sabia a coitada que tinha acendido os desejos na alma do padre pecador. Naquela noite ele não conseguiu dormir. Só pensava na mulher bonita e virtuosa e resolveu que teria que dormir com ela porque se não ia ficar maluco.

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