O PICAPAU AMARELO
Capítulos 27 e 28 (último)
27 – Os “penetras”
Se fôssemos descrever, ou simplesmente mencionar, todos os convidados, não haveria papel que chegasse. Povo numerosíssimo, o da Fábula! Em certo momento Emília deu um dos seus mais famosos berros:
— Lá vêm vindo eles — o Príncipe Escamado com toda a corte. Estou vendo o Major Agarra, Dona Aranha, o Doutor Caramujo! …
O berro chegou aos ouvidos de tia Nastácia lá na cozinha, a qual, ao ouvir a menção do Doutor Caramujo, apareceu na porta, com uma espumadeira na mão.
— Não se esqueça, Emília, de pedir “prele” umas dez pílulas. Têm-me feito muita falta.
Emília obteve do Doutor Caramujo um bom punhado do célebre cura-tudo em pelotinhos.
Bem atrás do bando vinha um gato.
— Será o Gato Félix verdadeiro ou o falso? — quis saber Narizinho.
— Se passar por aqui e nos puser a língua, é o falso! — disse Emília — e acertou. Ao reconhecê-los na janela, o bichano pôs a língua para o Visconde. Era o falso.
— Espere aí, seu diabo! — gritou Pedrinho correndo em procura do bodoque. Não o achou. Voltou danado. — “Quem será que anda mexendo em minhas coisas?” — disse ele com os olhos na Emília. Mas a espertíssima criatura desviou a atenção do caso com outro berro:
— O Peninha! O Peninha!…
Todos debruçaram-se na janela, ansiosos “Onde, onde, Emília?”
— Lá! — dizia ela apontando para um ponto e outro. — Estou vendo uma peninha flutuando no ar — logo, é o Peninha!…
Sim, havia uma pena flutuando no ar, trazida do galinheiro pelo vento. Uma pena da Fênix, com certeza, que naquela hora estava de briga ferrada com um galo índio.
— A peninha do Peninha era verde, essa é cor de cinza — disse Pedrinho.
— Pode ter desbotado — resolveu Emília.
Lá em seu camarote, no “Beija-Flor”, Branca preparava-se para a festa.
Narizinho foi ajudá-la. Havia caixas e mais caixas de vestidos maravilhosos mandados por Codadade.
— Lindos, não? — disse Branca.
— Lindíssimos — concordou a menina — mas nenhum vale o que Dona Aranha fez para o meu casamento.
Branca arregalou os olhos.
— Casamento? Pois então você é casada, Narizinho?
— Sou quase casada — e contou rapidamente a história do seu noivado com o peixinho e a tragédia que houve. — “Quando ouvimos aquele trovão horrível, os convidados sumiram-se no maior pânico — e nós voltamos de galope para o sítio. Um dia hei de contar a história inteirinha. Hoje não há tempo”.
— E como era o tal vestido da Aranha?
— Nem queira saber, Branca! Era feito de cor do mar com todos os seus peixinhos — tudo vivo, nadando na fazenda…
Branca não entendeu
— Como de cor? Havia de ser de qualquer coisa colorida — seda, lã, veludo…
— Aí é que está o formidável! Não era de tecido nenhum — só de cor — cor solta no ar. Nunca mais houve um vestido assim no mundo…
Branca ficou a cismar.
Nisto apareceu um emissário de Codadade; vinha saber se a Princesa estava pronta.
— Diga ao Príncipe que estou quase pronta. Mais um minutinho só. E para a menina:
— Estas festas são lindas — mas como cansam! Já estou que não posso mais comigo, de tanta dor nos pés.
— Também quem a mandou calçar sapatinhos de tão pequeno tamanho? Poderão ser uma beleza, mas em matéria de sapato, o bom é a comodidade.
— Não tive remédio, Narizinho, senão usar estes que me mandou a Gata Borralheira. Se ela me visse no baile com outros, havia de magoar-se — e com muita razão.
No momento de pôr as joias, o embaraço foi grande. O Príncipe mandara cofres e mais cofres de colares, braceletes, anéis, broches — tanta coisa que Branca, atordoada, não sabia o que escolher.
— Vá sem joia nenhuma — aconselhou a menina. — Quem tem a sua pele e a sua beleza, não liga a joias.
— É o verdadeiro — concordou Branca. — Além de que não há tempo para experimentar nem meia dúzia destes colares.
Estou na hora. Adeus…
Branca tomou nas mãos a cauda do vestido e saiu correndo. Codadade já devia estar impaciente.
Lá na janela de Dona Benta, Emília sondava os horizontes por meio do binóculo.
— Estou vendo uma poeira, longíssimo.
— Deve ser aquele tal Príncipe Pé de Vento que você inventou — disse Pedrinho.
— Não. Parece poeira levantada por animais… Sim, é isso… São animais que vêm vindo, um bando grande — mas animais esquisitíssimos…
— Será possível? — exclamou Pedrinho.
Emília não tirava os olhos do binóculo.
— Bis-possível! — murmurou. — Mais que animais! São monstros!…
Dona Benta sentiu de novo a pontada no coração.
— Não pode ser, Emília — disse Pedrinho. — Codadade mandou convites para todos os personagens da Fábula, menos os monstros.
— Que tem isso? Em toda festa há os “penetras”, os que entram sem convites. É o que vai acontecer hoje.
De fato foi assim. Os monstros fabulosos, ofendidos com o Príncipe por não tê-los convidado, resolveram vir estragar a festa.
Vinham vindo todos, no galope, levantando nuvens de poeira. Dona Benta foi indicando os que conhecia. A Hidra de Lerna, a tal que havia descadeirado Don Quixote. Briaréu, o gigante de 50 cabeças e 100 braços. Bandos de centauros e faunos. Os ciclopes, gigantes de um só olho no meio da testa. Diómedes, feroz tirano da Trácia que alimentava os seus corcéis com a carne dos hóspedes. Os Egipãs, metade homens, metade bodes. Encélado, o titã que procurou escalar o céu e caiu no fundo do vulcão Etna, derrubado por um raio de Júpiter. As Três Fúrias: Tisífona, Aleto e Megera. Cérbero, o terrível buldogue que guardava as portas do Inferno. As Três Górgonas, de cabelos de serpentes. Pítia, a gigantesca serpente que lutou com Apolo. Vários hipogrifos: cavalos alados, com garras e caudas de dragão.
Vinha até a pobre Quimera, lá trás de todos, manquitolando. Já não era necessário o binóculo para reconhecê-los — e o tumulto irrompeu no palácio. Codadade pediu o auxílio de Aladino, o dono da Lâmpada Maravilhosa, e mandou suspender a ponte levadiça do palácio. Aquiles sacou da espada. Os outros príncipes fizeram o mesmo. A luta ia ser tremenda.
Lá na cozinha tia Nastácia esqueceu tudo, deixou que os faisões se queimassem no forno e saiu como uma doida, gritando:
— “Dona Benta! Dona Benta! Me acuda!” Mas perdeu-se na enorme barafunda — não achou Dona Benta…
Branca de Neve desmaiou nos braços do Príncipe Codadade, e as outras princesas imitaram-na. Descobriram esse maravilhoso meio de sair-se dos apuros: um gritinho, ai, ai, e pronto. Já os homens, que não tinham esse direito, puseram-se a dar pulos. Eram hóspedes do Príncipe Codadade, portanto, obrigados a defendê-lo até à morte. Breve formou-se em torno de Codadade uma verdadeira muralha de peitos humanos.
Sancho passou pela janela dos meninos com um peru assado em cada mão, rumo ao seu burrinho deixado na porta do palácio. Montou e azulou.
Aquele ato de sabedoria abriu os olhos de Dona Benta.
— É o que temos a fazer — disse ela. — Voltar para o iate, já, já. Pedrinho não quis; teimou em ficar, em defender o Príncipe ao lado de Aquiles e demais heróis gregos. Por fim, vendo que nem bodoque tinha, acompanhou a vovó. Num instante alcançaram o iate, onde deram ao Visconde ordem para abrir as velas.
— Temos de nos afastar daqui a todo pano, Visconde! — disse Dona Benta. — A luta vai ser horrorosa…
— E Branca de Neve? — perguntou o Dunga.
— Ficou no palácio do Príncipe.
— Nesse caso, não partiremos! — resolveu o Dunga — e foi apoiado pelos outros anões. Por nada no mundo eles abandonariam a sua amada princesinha.
E agora? Era indispensável chamar Branca. Mas, como? Quem iria ao palácio numa situação daquelas?
— Pois o Visconde! — resolveu Emília. — Se for esmagado, Nastácia arranja outro ainda melhor.
Não houve remédio. Heroicamente o Visconde foi correndo ao palácio em busca da Princesa. Encontrou-a. Deu o recado.
Mas ninguém se lembrava que a seta de Cupido havia feito nascer em seu coração um grande amor e a resposta de Branca foi a de uma verdadeira heroína.
— Diga a Dona Benta, Visconde, que embora eu muito lhe agradeça as boas intenções, de forma nenhuma abandonarei o meu amado noivo. O amor nos uniu para a vida e para a morte. Aqui estou, aqui fico.
O Visconde voltou entusiasmado.
— Então? Que é da Princesa? — gritou Pedrinho ao vê-lo chegar com os bofes de fora.
— Declarou que não vem; que ama ao Príncipe e por nada no mundo o abandonará. Isso é que é amor!
— E esta agora? — exclamou Dona Benta. — Os anões teimam em não abandonar Branca. Branca teima em não abandonar o noivo. Que fazer?
Estavam todos na maior indecisão, quando Polegar reapareceu; tinha ido ao sítio nas suas botas de sete léguas e vinha voltando.
— Aconteceu exatinho como o burro previu — disse ele. — O Capitão Gancho atacou a casa com um bando de malfeitores e está lá dentro.
Pedrinho danou.
— E que faz por lá aquele porcalhão do Quindim?
— Quindim é valente no terreiro — disse Polegar — mas nada pode contra pessoas escondidas dentro de casa. Ele não cabe nas portas…
Era isso mesmo. Quindim estava certo.
A aflição de Dona Benta crescia cada vez mais. Que fazer? Que fazer, meu Deus do céu? Dum momento para outro haviam ficado na rua. Nem mais o palácio de Codadade, nem o sítio. Só lhes restava um iate sem tripulação. Que fazer? Que fazer?…
28 – Falta um — ela!
Fieis como eram, por nada no mundo os anões abandonariam Branca de Neve, de modo que sem sequer se despedirem do comandante correram para o palácio.
Vendo-se sós no iate, Dona Benta e os meninos resolveram pôr-se às ordens do Comandante para lidar com as cordas e velas da embarcação. E tanto fizeram que o “Beija-Flor” se moveu. Horas depois ancorava na Prainha.
O Burro Falante viera esperá-los.
— Então, como foi isso, Conselheiro? — interpelou Dona Benta. — Como deixaram que os malfeitores tomassem nossa casa?
— Não houve jeito de o impedir, Dona Benta — explicou o burro. — Eu estava fora, no serviço, e o Quindim, que ficara de guarda, cochilou — e eles entraram e parece que não pensam em sair.
— Esta noite eu daria uma arrumação nisso — declarou Pedrinho desembrulhando uma coisa comprida. — Deixem o caso comigo.
Era um jacaré seco que ele havia achado numa das cabinas do iate. Desembrulhou-o e amarrou-lhe na barriga um despertador com corda.
— Meu plano — disse ele — é ir lá à noite e esconder este jacaré no quarto do Capitão Gancho, de modo que ele o veja logoque acordar. Juro que foge ventando!
E Pedrinho partiu para o sítio montado no burro, com o jacaré seco na garupa. Entrou pelos fundos do pomar; espiou bem e ficou esperando a noite.
Assim que anoiteceu, entrou cautelosamente por uma janelinha dos fundos e, na ponta dos pés, começou a procurar o quarto do Capitão Gancho. Era o de Dona Benta! O piratão estava roncando justamente na cama de Dona Benta!
— Desaforado! — resmungou Pedrinho, e sem fazer o menor ruído dispôs ali o jacaré seco. Ao despertador atou um barbante cuja ponta ia ter ao outro extremo do quarto. Quando de manhã o bandido se levantasse para abrir a janela, esbarraria no barbante — e o despertador despertaria, etc.
Deu tudo certinho! Lá pelas seis horas da manhã o pirata acordou. Sentou-se na cama. Espreguiçou-se. Por fim foi abrir a janela. Nesse momento tropeçou no barbante: o despertador lá na barriga do jacaré fez tri-lim-lim-lim…
— Será o crocodilo? — murmurou o bandido, apavorado.
Correu à janela, abriu-a e viu… viu com seus próprios olhos o crocodilo no quarto, de boca aberta!
O Capitão Gancho estava acostumado a correr do crocodilo, mas em tempo nenhum correu como naquele dia. Vendo-o fugir, os capangas fizeram o mesmo. Pareciam veados! Um deles passou ao alcance do Quindim e foi alcançado por uma chifrada nos fundilhos. Outro passou perto do Conselheiro e recebeu uma desajeitadíssima parelha de coices — a única que o Burro Falante deu em toda a sua honrada vida.
Em seguida Pedrinho voltou à Prainha a galope.
— Pronto! Tudo salvo no sítio! — vinha ele gritando de longe — mas em vez de ser acolhido com hurras, só viu tristeza. Todos choravam a bordo do “Beija-Flor das Ondas.”
— Que será? — murmurou Pedrinho, apreensivo e subiu depressa ao iate.
— Que há? — perguntou.
Dona Benta, Narizinho, o Visconde, todos choravam — menos a Emília.
— Que há, Emília?
— Há que não há mais tia Nastácia. Logo que você partiu, fizemos a contagem dos tripulantes. Faltavam um — ela…
— Sim, Pedrinho! — confirmou Dona Benta enxugando os olhos. — Naquele tumulto, perdemos a nossa querida e fiel companheira. Ficou no palácio invadido pelos monstros. Imagine os horrores por que não estará passando com o Minotauro, com o Briaréu de cem cabeças…
Mas Pedrinho não se conformou com aquela atitude chorosa e resignada. Era preciso lutar, vencer.
— Perdão, vovó! — disse ele com a decisão dum herói da Fábula. — Não penso que o caso seja de choro. Temos de agir sem demora. Temos de organizar uma expedição para o salvamento de tia Nastácia!
Emília sentiu o peito estufadíssimo de entusiasmo.
— Bis-bravo! — berrou batendo palmas. — Isso é que é falar!
Avante, avante! Toca a salvar tia Nastácia!… (*)
1939
(*) A história do salvamento de tia Nastácia e das mais aventuras acontecidas vem na obra do mesmo autor — O MINOTAURO.