herons and scavengers… 02

garças e abutres 02

2. The trip

Translated by Angela Telles-Vaz
Proofread by Izabel Arocha

There was much light around us. It seemed that we were in a glass palace. I don’t know how we got there because I’m already sitting inside the train. Geraldo is next to me. I see through the window that outside, my mother cries. Aunt Ananísia sticks her face through the window and asks:
Who will care for them?
Aluísio will.
Who?
He is that one over there; someone pointed to a burly lad, quite fat, fair skin, curly hair, I would later remember, like the statues of the god Apollo. I would also always remember him later when hearing the word puffy.
Lad, are you going to watch them?
Yes ma’am!
Care for them, Aluísio, for God’s sake! Care for them. Don’t let anyone mess with them, no! And she kept pointing at me and Geraldo.
My mother cried louder and Geraldo also began to sob. I didn’t understand how it was possible to cry in a place so beautiful, with so much light!, I’m inside the train!, my first trip!
The fact is that the trip was more fascinating then all the rest. I wore my little black cloak, vintage type, involving the whole body, sleeveless, the arms loose inside. I was looking forward to the first motion.
As I write now, I remember that Antonio, the supervisor, was also there. He was a huge mulatto with fair skin. He had a hat. I just remember that detail because during a stop he fills the hat with guavas and runs to catch the train already in motion. It was him that just told something and we all sat silent and my aunt repeats her request to Aluísio,
lad, you’re going to be responsible, lad, we rely on you, lad,
my mother is in despair, I hear a thud, everything starts shaking, and instead of the train moving forward, they are the ones that are slipping back: the aunt, the mother and the others, faster and faster, until there’s complete darkness outside.
Geraldo cries. Does anyone else cry? I do not recall. Myself, Geraldo, supervisor Antonio and the lad that had received the recommendations of the aunt: Aluísio. On the trip we learned more. He was a resident of the orphanage were we’re going to, but helped the supervisor, bringing and taking the students back. I don’t know if it was during the trip or after that I heard:
Aluísio is Antonio’s wife.
My comprehension did not reach the subtleties of the sentence. I am well aware of my comprehension of the fact at the time: they slept together, they were married. And “sleeping together” I just understood it as sleeping together. Nothing else mattered. I did not know that you had to be a woman to be the wife of John Doe. That I had no other way but accept the truth, keep it, I might need it another time. But why all the giggles when they repeated the sentence?
Some time after the beginning of the trip, I discovered a truth that filled me with joy. If I looked out the window, while the train moved, everything was going backwards but it was the train that moved. However, if I looked at the floor of the train, it seemed to stop and only shake. No, it didn’t stop, that was the wonderful truth. It seemed to stop but it moved. I remained like that for a long time, focused on thinking that it seemed to stop, that everything seemed to stop, if I kept looking at the floor.
And here I am, already in a truck. We are all crowded inside the back of the truck, it’s already night. Years later, Geraldo remembered that we went from Rio to Cruzeiro, in the State of São Paulo. From there, we took another train, to a station that had another name besides João, João-I-don’t-remember-of-what. After some time, we took the truck to Campo do Meio. I don’t know about that, there are no such details within me. From Brazil’s Central Station train, one powerful engine, I see myself on the truck. A lot of people now, all piled up, it’s dark, they speak, move, I cover myself with my cloak.
Now, we are walking towards the house. It’s already night, I go hand in hand with Geraldo. Suddenly I realize I’m without my cloak. He warns me that nothing can be done, the truck has left already. The cloak is gone/disappeared. It was black, it was warm, it was a piece of my hometown Manhuaçu, that accompanied me and it was a constant and vivid reminder of the sad look of my mother who had made it for me when I started going to school.
So, at some point, we entered that house. This moment is also completely erased from my memory. But inevitably we entered. Yes, of course we entered, because my heart will not ever forget the handful of memories that drew inside me. Some memories are white and off, like herons that fly in the fog; others are vivid, sharp, have smell and volume, like a fierce vulture, with its sharp claws, or its ruthless beak, bloodthirsty…

to be continued on next sunday.

garças e abutres… 02

garças e abutres 02

2. A viagem

    Havia muita luz ao redor. Parecia que estávamos num palácio de vidro. Não sei como chegamos ali porque eu já estou sentado, dentro do trem. Geraldo está perto de mim. Vejo pela janela que, do lado de fora, minha mãe chora. Tia Ananísia enfia a cara pela janela e pergunta:
Quem é que vai tomar conta deles?
O Aluísio.
Quem é?
É aquele ali; alguém apontou um rapagão corpulento, gordo mesmo, claro, cabelos anelados, mais tarde me lembraria, como os das estátuas do deus Apolo. Mais tarde, também me lembraria sempre dele, ao ouvir a palavra balofo.
Moço, é você que vai vigiar eles?
Sim, senhora!
Tome conta deles, Aluísio, pelo amor de Deus! Cuide deles. Não deixa ninguém judiar deles, não! E apontava para mim e pro Geraldo.
Minha mãe chorou mais alto e Geraldo também começou a soluçar. Não entendia como era possível chorar num lugar tão lindo, quanta luz!, eu dentro do trem!, minha primeira viagem!
O fato é que a viagem era mais fascinante que todo o resto. Eu vestia minha capinha preta, daquelas antigas, que envolvia todo o corpo, sem mangas, os braços soltos por dentro. Esperava ansioso o primeiro movimento.
Lembro agora, enquanto escrevo, que ele também estava lá. O inspetor. Antonio. Mulato enorme, pele mais para clara. Tinha chapéu. Só me lembro desse detalhe por que durante uma parada ele haverá de encher o chapéu com goiabas e sairá correndo atrás do trem, já em movimento. Foi ele que acabou de avisar alguma coisa e todos silenciamos e nos sentamos e minha tia repete o pedido ao Aluísio,
o senhor vai ser o responsável, moço, nós confiamos no senhor, moço,
minha mãe se desespera, ouço um baque, tudo começa a tremer, e em vez do trem começar a andar para frente, são eles que deslizam para trás: a tia, a mãe, os outros, cada vez mais depressa, até que se faz negrura completa lá fora.
Geraldo chora. Alguém mais choraria? Não me lembro de ninguém. Eu, Geraldo, o inspetor Antonio, e o moço que recebera as recomendações da tia: Aluísio. Na viagem soubemos mais. Ele era morador do internato para onde íamos, mas ajudava o inspetor nas idas e vindas, trazendo e levando alunos. Não sei se foi na viagem ou depois, que ouvi:
O Aluísio é mulher do Antonio.
Minha compreensão não alcançava as sutilezas da frase. Tenho noção bem precisa de minha compreensão do fato na época: eles dormiam juntos, eles eram casados. E como “dormiam juntos” eu só entendia que se dormisse junto, mesmo. Nada mais interessava. Não sabia que era preciso ser mulher para ser mulher de Fulano. Devia ser assim mesmo e o jeito era aceitar a verdade, guardá-la, poderia precisar dela noutra ocasião. Mas por quê aqueles risinhos, quando eles repetiam a frase?
Algum tempo depois de iniciada a viagem, descobri uma verdade que me encheu de alegria. Se eu olhasse pela janela, o trem andava; tudo corria para trás, mas era ele que andava. Se, ao contrário, olhasse para o chão do trem, ele parava e apenas tremia. Não, ele não parava, essa era a verdade maravilhosa. Ele parecia parado, mas andava. Fiquei assim muito tempo, concentrado em pensar que ele parecia parado, que tudo parecia parado, se eu olhasse para o chão.
E eis que já estou num caminhão. Estamos amontoados numa carroceria, é noite. Anos depois, Geraldo lembraria que fomos do Rio até Cruzeiro, em São Paulo. De lá, noutro trem, para uma estação que tinha algum nome além de João, João-não-me-lembro-do-quê. Depois é que tomamos o caminhão para Campo do Meio. Não sei disso, não existem estes detalhes dentro de mim. Do trem da Central do Brasil, aquela possante máquina, me vejo no caminhão. Há muita gente agora, todos amontoados, está escuro, falam, mexem, eu me cubro com minha capa.
Agora, já estamos caminhando em direção à casa. É noite, eu de mãos dadas com Geraldo. De repente, percebo que estou sem minha capa. Ele me adverte que não adianta mais, o caminhão já foi embora. A capa sumiu. Era negra, era quente, era um pedaço de minha cidade, Manhuaçu, que me acompanhava, era a lembrança constante e viva do olhar triste de minha mãe, que a tinha feito para mim, quando comecei a ir à escola.
Então, nalgum momento entramos naquela casa. Também este momento está completamente apagado em minha memória. Mas, forçosamente, entramos. Entramos, sim, com certeza, porque meu coração não esqueceu jamais o punhado de recordações que se desenharam dentro de mim. Algumas recordações são brancas e apagadas, como garças que voassem na neblina; outras são vivas, nítidas, com cheiro e volume, como um abutre feroz, com suas garras afiadas, ou seu bico implacável, sanguinário…

continua no próximo domingo.

oração a Deus – voltaire

ORAÇÃO A DEUS – VOLTAIRE (1694-1778)

    Não é mais aos homens, portanto, que eu me dirijo, mas a você, Deus de todos os seres, de todos os mundos e de todos os tempos; se a frágeis criaturas perdidas na imensidão e imperceptíveis ao resto do universo, for permitido ousar pedir algo a você, você que tudo concedeu, você cujos decretos são tanto imutáveis quanto eternos, digne-se olhar com piedade aos erros ligados à nossa natureza; que tais erros não se transformem em calamidades. Você não nos deu um coração para odiar nem mãos para nos degolarmos uns aos outros; faça com que nos ajudemos mutuamente a suportar o fardo de uma vida penosa e passageira; que as pequenas diferenças entre as roupas que cobrem nossos corpos débeis, entre todas as nossas línguas insuficientes, entre todos os nossos costumes ridículos, entre todas as nossas leis imperfeitas, entre todas as nossas opiniões insensatas, entre todas as nossas condições tão desproporcionais a nossos olhos, mas tão iguais diante de você; que todas estas pequenas nuances que distinguem os átomos chamados homens, não sejam sinais de ódio e de perseguição; que aqueles que acendem velas em pleno meio-dia, para celebrar você, suportem aqueles que se contentam com a luz de seu sol; que aqueles que colocam sobre a roupa um véu branco para dizer que é preciso amar você, não detestem os que dizem o mesmo debaixo de um manto de lã negra; que aqueles cujas roupas são tingidas de vermelho ou púrpura, que dominam uma parcelazinha de uma porçãozinha do barro  deste mundo e que possuem alguns fragmentos redondos de certo metal, usufruam sem orgulho daquilo que eles chamam de grandeza e riqueza, e que os outros os olhem sem inveja: pois você sabe que nessas vaidades não há o que invejar nem do que se orgulhar.

    Possam todos os homens lembrar-se de que são irmãos! Que todos tenham horror à tirania exercida sobre as almas, do mesmo modo como acham execrável a bandidagem que toma à força o fruto do trabalho e da indústria pacífica! Se os flagelos da guerra são inevitáveis, não nos odiemos, não nos dilaceremos uns aos outros no seio da paz e empreguemos o instante de nossa existência a bendizer igualmente em mil línguas diversas, do Sião à Califórnia, a sua bondade, que nos concedeu este instante.

do livro Tratado sobre a Tolerância por ocasião da morte de Jean Calas (1763), capítulo XXIII.

 

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