GIL VICENTE 31. AUTO DA HISTÓRIA DE DEUS (1527)

a morte

Resumo:

Um Anjo faz o prólogo. Diz que a apresentação mostrará a criação do mundo ab initio mundi até a Ressurreição. O mundo foi criado mas Lúcifer foi tomado de inveja. Segundo o demônio Belial, seu ajudante na Corte, Deus deu ao homem e à mulher, o que tomara deles, demônios. Lúcifer ordena a Satanaz: “Faze-te de cobra, por dissimular, porque pareças do mesmo pomar, que sabes das frutas as graças que têm; porque hás de dizer: Senhora fermosa, deveis de saber que aquela fruta que vos foi vedada, oh, quanta ciência, em si tem encerrada”.
Após o primeiro pecado, que foi a desobediência, o Anjo traz o Mundo, vestido como um rei, e o Tempo. O Mundo vai oferecer a Adão e Eva condições de sobrevivência. Surge a Morte e Eva diz: “isto nasceu da triste de mi, por nossa tristura”. O Mundo faz vir Abel, o primeiro homem nascido de mulher, que conhecerá a Morte. Abel, pastor menino, canta um vilancete louvando a natureza. Satanaz tenta Abel, mas é rechaçado. Vem a Morte para levar o pastor: “Oh, Tempo, tão curtas são aqui as vidas?”. É deixado no Limbo. A Morte leva para lá também a Adão e Eva. O Mundo faz vir a Jó. Satanaz tenta Jó, que é castigado com a morte dos filhos, a perda dos bens e a lepra. Diante da Morte diz Jó: “e pois que ele é o Juiz da verdade, faça-se logo, sem mais dilatar, a sua vontade”. O Mundo traz Abraão, Moisés, Isaías e Davi. Diz Abraão: “Ó Deus mui alto, ignoto, escondido, demonstra-te às gentes, que já tempo é”. Diz Moisés: “E ele estará em pessoa comigo aos cinco livros, quando os escrever”.  Diz Davi: “O sacrifício a Deus mais aceito é o espírito mui atribulado”. E Isaías: O sacrifício é o Messias, que será nascido em Belém de Judá”. Louvam a criação do mundo e anunciam, cada um a seu modo, a chegada do Messias. A Morte os leva. João Batista vem e faz uma prédica: “Ó bravas serpentes que em serras andais, ó dragos ferozes que estais nos desertos, ouvi os secretos que estão encobertos”. É tentado mas repele a Satã e anuncia o Cristo. É levado também. No Limbo encontra os outros mortos e todos cantam um hino, pedindo que a Virgem os liberte daquele cárcere escuro, através do nascimento de seu filho. Entra Cristo. O Mundo, o Tempo e a Morte se ajoelham. Cristo fala ao Mundo e ao Tempo. Satanás o tenta com as tentações bíblicas (na tentação sobre a adoração, indica logradouros de Portugal). Cristo sai de cena, dizendo que vai a Jerusalém “porque o açoite me está esperando”. Após a cena da Ressurreição, cantores trazem um Cristo morto, numa procissão. Ouve-se trombetas e flautas. O Cristo ressuscitado liberta os prisioneiros do Limbo.

GV099. Abel, pastor

Adorae, montanhas,
O Deos das alturas,
Tambem as verduras;
Adorae, desertos
E serras floridas,
O Deos dos secretos,
O Senhor das vidas:
Ribeiras crescidas,
Louvae nas alturas
Deos das creaturas.

Louvae, arvoredos
De fructo presado,
Digão os penedos,
Deos seja louvado,
E louve meu gado
Nestas verduras
O Deos das alturas.

(canta Jonatan Théo)

GV100. Presos

Voces daban prisioneros,
Luengo tiempo estan llorando,
En triste cárcel escuro
Padeciendo y suspirando,
Con palavras dolorosas
Sus prisiones quebrantando:
– Que es de ti, Vírgen y Madre,
Que á ti estamos esperando?
Despierta el Señor del mundo,
No estemos mas penando.

Oyendo sus voces tristes,
La Vírgen estaba orando
Cuando vino la embajada
Por el ángel saludando,
“Ave rosa gracia plena”
Su preñez le anunciando,
Suelta los encarcelados,
Que por ti estan suspirando:
Por la muerte de tu hijo
Á su padre estan rogando.

Crezca el niño glorioso,
Que la cruz está esperando.
Su muerte será cuchillo,
Tu ánima traspasando.
Sufre su muerte, Señora,
Nuestra vida deseando.

(cantam Geovani Dallagrana, Graciano Santos e Kátia Santos)

 

Comentário:

Esta peça é quase a celebração de um ritual litúrgico. Abstraindo-nos de seus aspectos religiosos, é uma obra tremenda, se a consideramos apenas do ponto de vista cultural. Uma síntese formidável de toda a redenção pregada pelo cristianismo. Através de cenas rápidas que se sucedem num ritmo nunca monótono, utilizando uma grandiloquente linguagem lírica e precisa, Gil Vicente cria um drama cósmico em que tudo e todos são engolfados num turbilhão, assistidos pelo Mundo, pelo Tempo e pela Morte, e que explica um dos mistérios da religião: a salvação da humanidade. Das obras todas de Gil Vicente em que esta linguagem grandiosa é apresentada, esta é a única em que utiliza a lingua portuguesa.
Vejamos agora o lado crápula dessa história. O Auto da História de Deus foi apresentado ao rei D. João III (filho de D. Manuel, o Venturoso) e sua mulher D. Catarina (irmã de Carlos V, o todo-poderoso monarca europeu) em Almeirim, como “divertissement” para a Corte. Na época da apresentação da peça, já Portugal orquestrava os serviços do Tribunal da Inquisição, essa maneira brutal e segura de angariar dinheiro sem precisar fazer guerras na África, porque arrebatava principalmente o ouro dos judeus. As alegorias de Gil Vicente mostravam o lado virtuoso da religião numa visão apoteótica, enquanto nos porões do império português nobreza e clero tramavam, um Limbo mais feroz. Vale acompanhar os passos dessa selvageria: Em 1183 o papa Lúcio III delegou a bispos o poder de decidir sobre heresia. Em 1214 o IV Concílio de Latrão criou um tribunal para perseguição e castigo dos hereges. Em 1252 o papa Inocêncio IV sugere o uso de torturas para arrancar confissões dos suspeitos de heresia (inocente no nome, satânico na prática). Em 1497 D. Manuel ordena o batismo de todos os judeus em Portugal; são os cristão-novos, com seus novos sobrenomes portugueses, geralmente tirados de animais e árvores: Carvalho, Nogueira, Pinheiro, Leão, Lobo, Coelho… Em 1536 começa a funcionar a Inquisição em Portugal, com autorização do papa Paulo III (estas autorizações eram negociadas durante anos entre embaixadores portugueses e o Vaticano e custavam ao país arrobas de ouro; claro que tinha que ser um investimento lucrativo). O primeiro auto-da-fé aconteceu em Portugal em 1540. Fogueiras eram acendidas para matar os hereges. Se o herege se arrependesse, os bondosos inquisidores os mandavam matar antes, para que não sofressem as dores das chamas. Resta saber que morte é mais cruel: a fogueira ou a crucificação.

A propósito da tradução de Medéia…

A propósito da tradução de Medéia, de Eurípides…

Comentários sobre tradução de textos clássicos.

Primeira reflexão: Todas as tragédias gregas são em versos. Não há rimas mas as frases apresentam ritmos ordenados (sequência de repetições de sílabas fortes e fracas). Os versos variam no número de sílabas e nas diferenças de ritmos, conforme sejam falas, falas com fundo musical, solos, corais; os corais variam conforme a emoção do texto cantado.

Segunda reflexão: De acordo com as características de cada língua, uma mesma idéia pode ser representada por frases curtas ou longas. Sabe-se que línguas que abusam das preposições apresentam textos mais longos do que aquelas línguas sintéticas, com declinações. Uma mesma frase varia, pois, em tamanho, de língua para língua. A língua inglesa, por exemplo, apesar de fazer uso de preposições, tem grande quantidade de vocábulos curtos, o que resulta em textos de frases curtas. (Há uma frase que, de brincadeira, é citada aos iniciantes no estudo da língua, para mostrar exatamente o contrário: Era uma vez um velhinho… Once upon a time, there was a litlle old man…)

Terceira reflexão: Esta diferença entre as características das línguas é um grande desafio para quem pretende traduzir, versificando, um texto em versos. A estrutura de um texto versificado acaba sendo uma jaula com medidas rígidas, onde devem ser ajustados a idéia, o número de sílabas, o ritmo e – mais modernamente – a rima.

Quarta reflexão: Esta dificuldade é resolvida de duas maneiras: 1. abandona-se a estrutura original em versos, assumindo-se a prosa; é um voo livre em direção à fidelidade. 2. aceita-se a jaula, ajustando dentro dela os elementos que compõem o texto, novamente, a idéia, o número de sílabas, o ritmo e a rima.
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Medéia – Eurípides

MEDÉIA, de Eurípides

(Tradução do texto integral)

Nota: Esta tradução foi feita do francês, por puro exercício, em 1968. Parti da tradução de Louis Méridier. Em 1970 Silnei Siqueira dirigiu Cleyde Yáconis numa Medéia fantástica, que veio a Curitiba. Eu cursava o primeiro ano de Letras da UFPR. A pedido do professor Oswaldo Arns, de Teoria Literária, a quem tinha falado da tradução, emprestei meu texto datilografado aos colegas, antes de assistirmos a peça. O entusiasmo foi tal, que o professor ofereceu um curso de Grego num dos horários vagos. Quem se lembra?


AMA: Quisesse o céu que o navio Argos, no seu vôo para a terra da Cólchida, não tivesse ultrapassado as ilhas Simplégadas de sombra azul; que nos vales do Pélion jamais o pinheiro fosse abatido pelo machado e não armasse com remos as mãos dos valentes que fizeram para Pélias a conquista do velocino de ouro. Medéia, minha ama, não teria singrado até as muralhas do país de Iolcos, para viver com Jasão, tendo o coração perdido de amor. Agora ela foi atingida em suas afeições mais caras. Traidor de seus dois filhinhos e de minha ama, Jasão casou-se com a filha de Creonte, o soberano do país. E Medéia, infortunada, sob os golpes do ultraje, invoca o sacramento do casamento e faz dos deuses testemunhas da recompensa vil de Jasão. Ela está sem alimento, abandonando seu corpo ao desgosto, consumindo todos os seus dias em choro, desde que ouviu a injúria do seu esposo, sem levantar mais o olhar, sem despregá-lo do chão; semelhante ao rochedo ou à vaga dos mares, ela é surda às palavras de seus amigos. Às vezes, entretanto, voltando o rosto deslumbrantemente pálido, chora consigo seu pai querido, seu país e sua casa, que ela traiu para seguir o homem que hoje a despreza. Ela conhece, pelos golpes do infortúnio, o que se ganha por deixar a terra de seus pais. Coitada! Seus filhos lhe causam horror, não vê mais alegria neles. E temo dela alguma resolução estranha. Violenta é sua alma: não suportará ser maltratada; eu a conheço e tremo, pois ela é terrível e quem se expõe a seu ódio dificilmente levará a palma da vitória.
    Mas eis seus filhos, que acabam de treinar na corrida; não se inquietam com as dores de sua mãe; alma jovem não costuma sofrer. (entra o Pedagogo com os meninos)

PEDAGOGO: Velha criada de minha ama! Por que você fala tão solitária, junto das portas? Como Medéia consente em ficar só, sem você?

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