canção 11. as mui amigas multinacionais

A ditadura da imoralidade 04: AS MUI AMIGAS MULTINACIONAIS.

Não mais me contenho, dizer-lhes eu venho
Como uso com empenho o dinheiro que tenho:
Comprar, comprar, comprar, comprar,
Comprar, comprar, comprar, comprar…
-exaco, Oli-etti, Esso—ell, Atlan-ic,
Que chique, que chique, estou podre de chique.
 
Troquei a mobília, vesti a família,
Passeei em Brasília, casei minha filha.
Comprar, comprar, comprar, comprar,
Comprar, comprar, comprar, comprar…
-olkswagen, -ord, -norr, Ishikawa-ima,
Por cima, por cima, estou sempre por cima.
 
O carro também, (o do ano que vem),
Quando a gente tem, se sente tão bem…
Comprar, comprar, comprar, comprar,
Comprar, comprar, comprar, comprar…
-erox, Ya-aha, -argill, -ocacola,
A sacola, a sacola, é encher a sacola.
 
A loura platina, importados da China,
Jasmim na latrina, esvaziar a vitrina.
Comprar, comprar, comprar, comprar,
Comprar, comprar, comprar, comprar…
–evrolet, -irelli, -odak, I-T,
Pra você, pra você, só pensando em você.
 
Tristeza embrulhada, alegria ensacada,
Arte empacotada, vida engarrafada.
Comprar, comprar, comprar, comprar,
Comprar, comprar, comprar, comprar…
A Anderson –ayton, -ood Year, King Size,
E nada de entrada, em prestações mensais.
 
(canta jorge telees)
Curitiba, setembro.1976.

GIL VICENTE 14. EXORTAÇÃO DA GUERRA (1513)

policena

Resumo:

Um Clérigo nigromante apresenta-se e fala de suas artes em magia negra. Invoca os demônios. Manda que dois deles tragam a troiana Policena, filha dos reis de Tróia. Ela cumprimenta a corte e elogia a todos. Instada pelo Clérigo, ela discursa sobre o amor cortesão. E por que causa deve o homem ser amado? Que seja um guerreiro! Vem Pantasiléia, rainha das amazonas. Ela instiga os portugueses à guerra. Aquiles também faz o seu discurso a favor da guerra. Finalmente entram Aníbal, Heitor e Cipião. Anibal exorta os fidalgos à guerra. Todos os discursos têm dois motes: é uma guerra santa porque contra os mouros; e a nobreza e a igreja devem doar suas jóias e dinheiro para a guerra. Une-se ao discurso de Anibal um canto e uma dança, com o que termina a peça.

GV033. Annibal (fala) e Todos (canto)

Ó Senhores cidadãos
Fidalgos e Regedores,
Escutae os atambores
Com ouvidos de christãos.
E a gente popular
Avante, não refusar.
Ponde a vida e a fazenda,
Porque para tal contenda
Ninguem deve recear.

“Ta la la la lão, ta la la la lão.”

Avante! avante! Senhores!
Que na guerra com razão
Anda Deos por capitão.

“Ta la la la lão, ta la la la lão.”

Guerra, guerra, todo estado!
Guerra, guerra, mui cruel!
Que o gran Rei Dom Manuel
Tem promettido e jurado
Dentro no seu coração
Que poucos lh’escaparão

“Ta la la la lão, ta la la la lão.”

Sua Alteza determina
Por acrescentar a fé,
Guerra, guerra, mui contina
He sua grande tenção.

“Ta la la la lão, ta la la la lão.”

Este Rei tão excellente,
Muito bem afortunado,
Tem o mundo rodeado
Do Oriente ao Ponente:
Deos mui alto, omnipotente,
O seu real coração
Tem posto na sua mão.

“Ta la la la lão, ta la la la lão.”

(fala e canto: Jorge Teles)

 

Comentário:

Pode-se afirmar que é esta a única obra de Gil Vicente que declaradamente faz propaganda política. Partia para Azamor em Marrocos uma expedição bélica portuguesa, chefiada pelo duque de Bragança e Guimarães. Muitos dos que iam não voltavam e a vitória nem sempre era garantida. A peça dá ânimo aos nobres, invocando a glória das conquistas portuguesas que precisava ser sustentada e, claro, tinha seu preço, não só em dinheiro mas em vidas.

canção 10. retrato três por quatro

A ditadura da burrice 05: RETRATO TRÊS POR QUATRO.

 

 

(triolé encadeado)

 

Você é muito bonzinho

sua bondade me espanta.

Bota pedras no caminho,

você é muito bonzinho.

Não deixa o vilão sozinho,

se ele cai, você o levanta.    

Você é muito bonzinho,

sua bondade me espanta.

 

Bota pedras no caminho

e institui a casa escura.

Mói a todos no moinho,

bota pedras no caminho.

Mata a flor mas deixa o espinho

faz florescer a incultura.

Bota pedras no caminho

e institui a casa escura.

 

 Mói a todos no moinho, 

faz da pátria o seu bordel.

Novas leis no pergaminho,

mói a todos no moinho.

Fere a ave, queima o ninho 

e liberta a cascavel.

Mói a todos no moinho,

faz da pátria o seu bordel.

 

Novas leis no pergaminho,

com congresso ou sem congresso.

Silencia o burburinho,

novas leis no pergaminho.

Doa a estopa e veste o linho,

forja na tela o progresso.

Novas leis no pergaminho,

com congresso ou sem congresso.

 

Silencia o burburinho

nos porões da inquisição.

Dá trator, mas vende ancinho,

silencia o burburinho.

Emprega o tio, o sobrinho

e empresta só ao ladrão.

Silencia o burburinho

nos porões da inquisição.

 

Dá trator, mas vende ancinho

e planta as garras da morte.

Fala aos do norte em carinho,

dá trator mas vende ancinho.

Dá o latifúndio ao padrinho,

pisa o fraco, eleva o forte.

Dá trator mas vende ancinho

e planta as garras da morte.

 

Fala aos do norte em carinho

mas emudece a imprensa.

Faz aperto ao colarinho,

fala aos do norte em carinho.

Adia o riso e o vinho,

semeia a convalescença.

Fala aos do norte em carinho

mas emudece a imprensa.

 

Faz aperto ao colarinho

e degola a liberdade.

Você é muito bonzinho,

faz aperto ao colarinho.

Gera o morcego daninho

Ratifica a orfandade.

Faz aperto ao colarinho

e degola a liberdade.

 

(canta jorge teles)

Curitiba, agosto, 1976.