bumba-bumba parte 1

BUMBA-BUMBA.

Nota: Este texto se compõe de duas partes. A primeira peça, Bumba-meu-, foi apresentada em Curitiba, pelo Grupo É Hoje, em 1983.

Primeira parte: Bumba-meu-

MESTRE:
Boa tarde, senhores,
Boa tarde, senhoras,
A todos presentes
Digo que são horas
Da nossa chegança.
E sem mais tardança
Vamos começar.
O bumba-meu-boi
Vai se apresentar.

Eu sou o Capitão
Boca Mole chamado.
Este moço aqui
É um capataz.
Sujeito decente,
Ótimo rapaz.
Pois bem, meus amigos,
Agora é a hora
De entrar nossa banda!
Entre a sarabanda
Tocando a ciranda!
É o Boca quem manda!

(entram e tocam; entra também o Jornalista que, durante toda a encenação, passará de vez em quando no meio dos atores, fotografando com flash e anotando o que se dirá a seu tempo)

Atenção, senhores,
Muita atenção!
Chegamos enfim
Ao grande momento
De encantamento!
Mas eu também digo
Que é hora de perigo!
Vamos receber
O Boi, nosso amigo!

(entra o Boi e as Pastoreiras; todos dançam e cantam)

TODOS:
Boi, boi, boi, boi,
Entra sem acanhamento.
Boi, boi, boi, boi,
Dança sem ressentimento.
Boi, boi, boi, boi,
Eu te dou consentimento.
Boi, boi, boi, boi,
Manso e sem atrevimento.
Boi, boi, boi, boi,
De grande merecimento.
Boi, boi, boi, boi,
Respeita o alinhamento.
Boi, boi, boi, boi,
Lembra do regulamento.
Boi, boi, boi, boi,
É hora de divertimento

JORNALISTA:
A entrada do Boi é um espetáculo triunfal, um dos momentos mais encantadores nesta nossa festa folclórica.
Continue lendo “bumba-bumba parte 1”

GIL VICENTE 05. FARSA DE “QUEM TEM FARELOS” (1505)

aires rosado

Resumo:

    Ordonho e Aparício, dois criados, se encontram na rua. Um deles trabalha para um escudeiro, Aires Rosado, sem dinheiro mas metido a galante. O escudeiro faz uma serenata à namorada. Cães, gatos e galos fazem barulho. A mãe da moça, a Velha, entra fazendo uma longa imprecação, maldizendo quem a faz levantar-se no meio da noite. Vai-se o Escudeiro cantando. A Velha fica ralhando com a filha, Isabel. Quer que a filha trabalhe mas esta só quer saber de se enfeitar. Saem.

GV009. Aires Rosado
Si dormís, doncella,
Despertad y abrid,
Que venida es la hora
Si quereis partir.
Si estais descalza,
No cureis de vos calzar,
Que muchas agoas
Teneis de pasar,
agoas dAlquebir;
Que venida es la hora
Si quereis partir.

(canta Rubem Ferreira Jr.)

GV010. Aires Rosado
Cantan los gallos,
Yo no me duermo,
Ni tengo sueño.
(canta Gerson Marchiori)

.…Aires Rosado
Por mayo, era por mayo.
(canção com esse refrão estará na peça 38.romagem dos agravados, GV131)

GV011. Aires Rosado
Apartar-me-hão de vós,
Garrido amor.
Eu amei uma senhora
De todo o meu coração:
Quis Deos e minha ventura
Que não m’a querem dar, não.
Garrido amor.
Não me vos querem dare;
Irme hei a tierras agenas,
a chorar meu pesare.
Garrido amor.
(canta Jaqueson Magrani)

GV012. Aires Rosado
Já vedes minha partida.
Os meus olhos ja se vão;
Se se parte minha vida,
Ca me fica o coração.
(canta João Batista Carneiro)

Comentário:

    Enfim, uma obra em língua portuguesa. É também a primeira peça profana de Gil Vicente.  Apenas um escudeiro fala espanhol. Uma comédia simples, com tipos sociais definidos, situações engraçadas e canções populares, algumas ainda em castelhano, uma delas bilingue. Este fato retrata a população de Portugal na época. A nobreza dos dois países da península ibérica fazia casamentos entre si e, nesse vai e vem, a criadagem de um país passava para o outro. Na compilação é indicado que o nome: “Quem tem farelos?” pôs-lhe o vulgo. Pode-se concluir daí que as peças de Gil Vicente eram também assistidas pelo povo. É muito provável que, se foram apresentadas, foram só aquelas faladas em português e, com toda a certeza, somente aquelas menos ferinas.

 

RAKONTU ALIAN ANJO 02. LA SANDALO

a sandália

desegnis ricardo garanhani.


  Noto:  En la komenco de la jaroj 70 mi legis la Dekameronon de Boccaccio. La kvara novelo de la sepa tago memorigis min pri unu el la rakontetoj de mia avino. Mi trovis variantojn rilate lokon kaj detalojn sed la esenco estis la sama. Mi pripensis la aliajn rakontojn de mia analfabeta avino. Mi faris bilancon pri ĉiuj. Kaj konkludis ke kelkajn el tiuj rakontoj mi neniam trovis en libroj. Kaj mi skribis ilin, por ne forgesi. La rezulto estas la verketo Rakontu alian, anjo. La dua rakonto, La Sandalo, estas tiu simila al la novelo de Dekamerono. 

  Foje estis virino tre bela. Ŝia edzo estis riĉa bienulo kaj ili posedis multajn sklavojn. Tio okazis kiam en Brazilo ankoraŭ estis nigraj sklavoj.
Iam, aperis kolportisto plena je novaĵoj kaj la virino aĉetis hartukon. Enirinte en dormoĉambro ŝi malfaldis la tukon por ĉirkaŭi la hararon kaj rubena ringo falis surplanken. Ŝi lokis la ringon ie kaj kiam li revenis, kelkajn tagojn poste, ŝi diris ke la ringo kaŝiĝis ene de la tuko. Li prenis la ringon kaj rigardis ŝin laŭ tiel speciala maniero ke ŝi tute tremeris.
Unu monaton poste li revenis kaj ŝi aĉetis juvelujon. Li diris ke li volas paki ĝin, ŝi ne volis, sed li tiel insistis ke ŝi konsentis. Ŝi iris al sia dormoĉambro kaj tuj poste sklavino venis kun la pako. La virino estis ege aflikta.
Ĉu ne veras ke la senhontulo metis en la juvelujo mesaĝeton? “Mi volas renkonti la sinjorinon en kaŝita loko.”
Kiam la kolportisto revenis ŝi ne lin ricevis, avertante per iu ke ŝi nenion bezonas. Sed dum la vespermanĝo la bienulo diris al ŝi ke li dungis la kolportiston en la bieno por servi kiel lignaĵisto. Ŝi iĝis plentima sed nenion diris.

Continue lendo “RAKONTU ALIAN ANJO 02. LA SANDALO”