Monteiro Lobato

O MINOTAURO

Capítulos 03 e 04

 

03 – Desembarque na Grécia de Péricles

         O “Beija-flor das Ondas” já havia penetrado em mares gregos. Pelo binóculo Emília pôde ver a linha das costas. – Terra! Terra! Estamos chegando… Uma hora depois o iate entrava no Porto do Pireu e descia a âncora. Os meninos olharam. Um porto como todos os portos. Moderno. Carregadores, automóveis, fardos e caixões, guinchos de máquinas, tudo muito desenxabido. Não interessou.

         – Nem vale a pena descer, vovó – disse Pedrinho. – O verdadeiro é darmos daqui mesmo o mergulho no século de Péricles.

         Todos concordaram e, fechando os olhos, fizeram tchibum! Foram sair lá adiante, em plena Grécia de Péricles. Tudo mudou como por encanto. O porto ainda era o mesmo, mas estava coalhado de navios muito diferentes dos de hoje. Nada de chaminés fumacentas; só mastros, com muito cordame e velas branquinhas.

         Dona Benta desceu ao cais com os netos, a Emília e o Visconde fardado de comandante; e a primeira coisa que notou foi a moda da gente do porto. Tudo ‘diferente das modas modernas. Nada de calças e paletós para os homens, e blusas e saias para as mulheres. Os homens vestiam uma túnica de nome chiton.

         – Será daí que veio o nome de chitão? – perguntou a Emília.

         – Não é “chiton” com som de “x” e acento no “on”, Emília. É “quíton”. O “ch” no grego tem o som do nosso “q”. Esse chiton ou túnica, que você está vendo, constitui uma peça do vestuário dos dois sexos. Roupa debaixo. Por cima vem esse manto, que eles chamam peplo.

         Os meninos viram que de fato todos os homens e mulheres traziam por cima do chiton o tal peplo, que não passava dum pedaço de pano quadrado, elegantemente preso ao corpo com alfinetes ou broches.

         Emília observou o peplo dum homem que estava parado de prosa com outro, e viu que era de lã.

         – Notem que há peplos de lã, algodão e seda – disse Dona Benta – e não só brancos, mas de todas as cores. Aquele ali, de formato um pouco diferente, chama-se clâmide. É o usado pelos elegantes.

         As mulheres vestiam uma túnica sem mangas sobre outra peça de vestuário de nome chitonion, que corresponde à camisa das mulheres modernas. E para saírem à rua punham o himation que era o nome do peplo feminino.

         – Oh – exclamou Narizinho – alguns são lindamente bordados. Olhem aquela moça ali…

         Ia passando uma linda jovem com um himation primorosamente bordado a seda. Não usava meias, e nos pés trazia elegantes sandálias.

         – E olhe o calçado dos homens – disse Pedrinho. – São borzeguins amarrados com fios.

         O movimento urbano não lembrava o das grandes cidades modernas. Nada do tumulto que vemos nesses horrores a que chamamos “ruas centrais”. Quase toda gente a pé, caminhando em sossego. De quando em quando, uma liteira trazida por escravos.

         – Que diferença, vovó! – disse Pedrinho. – Lá nas cidades modernas a gente anda com o coração nas mãos, porque esbarra num, recebe um tranco de outro; e se vamos atravessar uma rua, dez automóveis fedorentos precipitam-se para nos esmagar. Aqui este sossego. Que maravilha! Agora compreendo por que esta gente pensou tantas coisas bonitas – é que não vivia atropelada, como nós, pelas horríveis máquinas que o demônio do progresso inventou.

         Narizinho pensava a mesma coisa.

         – Esta nossa vinda ao Pireu, vovó, me recorda uma impressão do Rio. Quando a gente sai daquela inferneira da Avenida Rio Branco e penetra na calma e velha Rua do Ouvidor, parece que muda o mundo – porque ali não há máquinas. Pode-se andar livremente pelo asfalto sem a tortura dos automóveis e ônibus infernizantes e até se ouve o rumor dos passos no chão, um tchá, tchá, tchá arrastadinho, que é uma delícia. Que pena o tal progresso do mundo…

         Dona Benta concordou que o progresso mecânico só servia para amargurar a existência dos homens. As ruas, feitas originariamente para os pedestres, foram invadidas pelas máquinas de correr e de empestar o ar com o fedor da gasolina – máquinas tremendamente destruidoras, que fazem mais vítimas num ano do que as fizeram na Grécia Antiga todos os Minotauros e Quimeras.

         – Só nos Estados Unidos morrem por ano oito mil crianças esmagadas pelos automóveis.

         – Oito mil, vovó? – espantou-se a menina.

         – Sim, minha filha. Imagine quanto sofrimento criado por essas hecatombes de tantos milheiros de Narizinhos e Pedrinhos. Com duas vovós, para cada um, temos dezesseis mil vovós que anualmente perderam os netos, devorados pelos minotauros mecânicos…

         – Mas então, vovó, o progresso mecânico é um erro – observou Pedrinho.

         – Talvez seja, mas não podemos fugir dele porque é também uma fatalidade. Com as suas invenções constantes, o progresso nos empurra para a frente – para delícias e também para mais tumulto, mais correria, mais pressa, mais insegurança, mais inquietude, mais guerra, mais horror. Essa é a razão da loucura estar tomando conta dos homens. Comparem a expressão sossegada destes gregos com a dos homens que vimos nas grandes capitais modernas, de cara amarrada, toda rugas, muitas vezes falando sozinhos.

         – Sim, vovó, todos aqui me parecem olímpicos.

         – É que todos estão livres do atropelo e cultivam uma sábia ginástica, de modo que adquirem esse corpo cheio de força e beleza que vocês estão vendo. Até as roupas que eles usam deixam os modernos envergonhados.

         – Os homens modernos – disse Emília – vestem-se de canudos de cores tristes. Dois canudos para as pernas – as calças. Dois canudos para os braços – o paletó. E há o colete e a mania dos bolsos. Naquele sujeito que esteve lá no sítio contei dezesseis bolsos. Cada bolso para uma coisa. Carregam um bazar consigo: tesourinha, canivete, lenço, carteira, porta-níqueis, relógio, piteira de filtro, algodão para piteira, cigarros, óculos, fósforos ou acendedor de gasolina, caneta-tinteiro, lápis, selos, caderno de endereços, alfinetes, papéis, listinhas de jogo do bicho etc. Os homens modernos são verdadeiras bestas de carga. Já aqui, nada disso. Estes gregos não carregam nada – só trazem para a rua a sua beleza, o seu sossego e a sua serenidade, coisas que não precisam de bolsos. Agora é que estou compreendendo como é grotesco o vestuário moderno…

         – Você tocou num ponto interessante, minha filha. Na verdade, só nesta Grécia as criaturas humanas acertaram com a arte de vestir. Usam roupas que não ofendem as formas do corpo humano, que não deformam grotescamente as linhas do nosso corpo. Quando fazemos desfilar as modas masculinas e femininas que vão desta Grécia até nós modernos, ficamos assombrados da imbecilidade e mau gosto dos que se afastaram dos gregos. As modas medievais, as modas da Espanha, da Inglaterra do tempo da Rainha Isabel, as modas do tempo dos Luíses em França e as nossas grotescas modas modernas são coisas que nos fazem pensar pensamentos tristes, porque provam como vamos perdendo o senso da beleza. A feiura “moderna” é um caso sério…

         – Se é! – exclamou Emília. – Naquela festa do casamento da Candoca eu me regalei de rir com a tal feiura moderna. Aqueles homens de casaca!… Uma vestimenta preta como carvão, curtinha na frente e com dois rabos atrás… Quando eles andam, os dois rabos vão abanando… Dois rabos! Os chimpanzés bisavôs dos homens modernos tinham um rabo só – os seus netos modernos inventaram mais um… Rabos de pano preto, que feiura! E quando saem para a rua, põem na cabeça uns canudos de chaminé chamados cartolas – e mostram-se orgulhosíssimos com os rabos atrás e o pedaço de chaminé na cabeça, o mesmo orgulho dos selvagens africanos que se enfeitam de penas de rabos de avestruz, só que um rabo de pena é muito mais decente que um rabo de pano preto. A senhora tem razão: a feiura do vestuário moderno é um caso sério…

         E a falarem na feiura dos rabos modernos, Dona Benta e os meninos entraram por uma rua de maior movimento, onde sem querer deram na vista dos passantes. Diversos curiosos rodearam-nos. Aquela velha vestida dum modo exótico, de saia e paletó de quartinho, acompanhada de crianças esquisitas, causou-lhes espécie. Estavam acostumados a ver estranhas criaturas vindas da Ásia, mas aquelas constituíam novidades. Perguntaram-lhe donde vinham.

         – Estamos chegando do Picapau Amarelo – respondeu Dona Benta.

         A resposta deixou os gregos na mesma. Ninguém desconfiava onde pudesse ser o tal “país” do Picapau Amarelo. Dona Benta ponderou que se fosse explicar tudo direitinho, ficaria ali muito tempo. Teria de fazer um verdadeiro curso de história; contar todo o desenvolvimento do mundo desde o ano 438 antes de Cristo, que era aquele, até 1939 depois de Cristo, que fora o da sua partida do sítio; e narrar a descoberta da América pelo Senhor Cristóvão Colombo; e a do Brasil pelo Senhor Cabral; e esclarecê-los sobre todas as invenções realizadas, desde a da pólvora até a da televisão – e explicar o automóvel, o cinema, o rádio, o telefone, o fósforo, o açúcar, as geladeiras, a correria moderna, a aflição dos povos, a guerra da Espanha e da China, os aviões que lançam bombas nos inocentes, os submarinos que afundam navios de passageiros – tudo, tudo, tudo. E tudo inútil, porque aqueles gregos não compreenderiam nada de nada. Em vista disso, Dona Benta limitou-se a dizer:

         – Somos de fora, dum país distante, e queremos fazer uma visitinha ao Senhor Péricles. Poderão dizer-nos onde ele mora?

         – Mora em Atenas, a 40 estádios daqui.

         – Quanto é isso, vovó? – cochichou Pedrinho.

         – O estádio, meu filho, é uma medida de distância dos gregos, correspondente a 200 metros. Ora, se Atenas está a 40 estádios do Pireu, temos de caminhar a pé oito quilômetros, porque não estou vendo aqui nenhum veículo que nos conduza.

         Mas os “picapaus” eram rijos na marcha, de modo que em pouco mais de uma hora entraram em Atenas, onde novamente indagaram de Péricles.

         Um passante informou:

         – A senhora segue por aqui, e a meio estádio adiante vira à esquerda e passa pela Ágora. Lá pergunta de novo. Fica perto.

         Dona Benta agradeceu a informação e pôs-se em marcha com o bandinho. Seguiu por aqui, virou à esquerda lá adiante, chegou à Ágora.

         – E agora? – disse Pedrinho.

         – Agora temos de perguntar de novo, meu filho. Isto por aqui é a Ágora, a sala de visitas da cidade, onde os gregos se reúnem para debater os negócios públicos e particulares.

         Os meninos olharam. Era uma praça cheia de edifícios públicos, templos, casas de negócio. O coração cívico da cidade.

         – Ótima coisa – disse Pedrinho. – É pena as cidades modernas não terem conservado este sistema de ágoras. Aqui está tudo que é comum a todos; o resto da cidade é particular. Até lojas – vejam…

         Sim, era ali também o centro comercial, com as tendas de tecidos, vasos, gêneros de alimentação e todas as mais coisas que se vendem. As compras eram feitas pelos escravos; os cidadãos atenienses nunca perdiam tempo com isso. A vida deles era conversar, discutir filosofia, dizer mal de Péricles; gozar o presente, em suma. Também era no Agora que se realizavam certas votações.

         – Muito bem – disse Dona Benta, depois de visto o Agora. – Temos agora de saber onde fica a residência do Senhor Péricles – e pediu informação a um grego de bela presença que vinha passando.

         – Vou justamente para lá, minha senhora – respondeu ele. – Tenha a bondade de acompanhar-me.

         – Como são polidos! – observou Narizinho. – Deve ser um gosto viver nesta cidade.

         Dona Benta seguiu ao lado do gentil ateniense, com os meninos atrás. Emília disfarçadamente apalpou-lhe a barra da clâmide, para ver de que fazenda era.

         – Também de lã – cochichou para Narizinho, piscando. Dona Benta ia ferrada na prosa.

         – Pois é. Chegamos hoje dum pais remotíssimo e fazemos questão de conhecer o grande Péricles. Sua fama é a dum homem de méritos excepcionais.

         – Sou suspeito para falar – disse o grego – porque o tenho na conta do meu maior amigo; mas de coração subscrevo suas palavras, minha senhora. Péricles é um homem perfeito.

         – É amigo dele? Que bom…

         – Sim, e graças a Péricles estou dirigindo a construção do templo de Palas Atena e de todos os mais monumentos da cidade.

         Dona Benta quase desmaiou ao ouvir essas palavras. Deteve-se, atônita, e disse, com os olhos fitos no grego:

         – Será possível, meu Deus? Será possível que eu esteja diante de Fídias, o maior escultor de todos os tempos?

         O grego sorriu.

         – Não sei, minha senhora, se está diante do maior escultor de todos os tempos; mas diante de Fídias está, porque Fídias sou eu.

         O assombro da boa velha não tinha limites. Olhava e reolhava para o famoso grego como se quisesse devorá-lo. Depois chamou os netos.

         – Pedrinho, Narizinho, venham cá! Quero que vocês façam uma coisa que nenhuma criança moderna ainda fez: que conheçam Fídias, o maior escultor de todos os tempos. Ele está agora dirigindo a construção do Partenão, ou o templo de Palas Atena, que é, como já expliquei, a grande obra-prima da arquitetura grega.

         Os meninos plantaram-se diante de Fídias e regalaram-se de vê-lo. O escultor fez uma festinha no queixo de Narizinho – e teve de fazer outra no de Emília, que muito lambetamente foi logo espichando o seu.

         Fídias estranhou o Visconde.

         – Quem é este ente, minha senhora?

         Nada mais difícil do que explicar a um Fídias quem era o Visconde de Sabugosa, de modo que para sair-se da dificuldade Dona Benta limitou-se a dizer que era também seu neto – um neto vegetal. Fídias não entendeu. Apenas disse, com os olhos postos no “sabinho”:

         – Extraordinário I Dos confins da Ásia aparecem-nos aqui, às vezes, uns tipos bastante curiosos no físico e nos trajes – mas como este senhor ainda não vi nenhum.

         – Ele é sabugo! – berrou Emília.

         O grego ficou na mesma, porque naquele tempo ninguém sabia de sabugos. O milho só se espalhou pelo mundo depois da descoberta da América, da qual é originário. Dona Benta explicou isso ao grego, e ainda estava a falar das várias espécies de milho existentes, inclusive o de pipoca e o que dá o bom fubá mimoso, quando chegaram diante duma bela residência. Fídias parou.

         – É aqui, minha senhora – disse ele. – Vou avisar o meu amigo. Tenha a bondade de esperar um minutinho. Infelizmente, a dona da casa não está. Aspásia fez viagem. Só volta amanhã.

         Lá dentro Fídias encontrou Péricles no seu gabinete de trabalho.

         – Então? – disse este, erguendo-se. – Já decidiu sobre aquela prega do peplo de Atena?

         – Depois falaremos disso. Vais agora atender a uns visitantes que me parecem absolutamente extraordinários – uma velhota com umas crianças. São metecos (estrangeiros) Encontrei-as no Agora, de boca aberta para tudo; e como me perguntassem de tua casa, respondi-lhes que me seguissem. Vim conversando com a velha. Interessantíssima! Parece doida. Só diz coisas absurdas, loucas – mas duma loucura perfeitamente raciocinante. Vale a pena atendê-la.

         Péricles foi em pessoa receber Dona Benta. Fê-la entrar com os netos para um agradável pátio de mármore, com bancos também de mármore e uma fonte no centro, de água muito límpida a cair por uma boca de leão dentro dum tanque retangular. Formosas estátuas viam-se por ali, e vasos, e pinturas murais.

         Ao avistar-se com o grande homem que dera o nome ao século, Dona Benta sentiu as pernas moles. Que sonho! Ela, a humilde Dona Benta Encerrabodes de Oliveira, lá do Sítio do Picapau Amarelo, ali – ali no ano 438 A. C, naquele pátio de mármore, diante do maior estadista da antiguidade!… Felizmente o hábito de viver no mundo das maravilhas tinha-a deixado muito segura de si. Do contrário, nem ânimo de falar teria. Mas falou – e muito bem.

         – Senhor Péricles – disse Dona Benta com a maior calma – grande estranheza vos deve causar a presença em vossa casa duma pobre velhinha seguida de seus netos, e pela prosa que já tive com o Senhor Fídias vejo que é difícil para criaturas modernas, como nós, fazerem-se entendidas de um grego da Idade de Ouro. Porque eu sou moderníssima, Senhor Péricles, sou do ano de 1939 da Era Cristã, e venho dum continente que só daqui a 1930 anos será descoberto pelo navegador genovês Cristóvão Colombo…

 

04 – Em casa de Péricles

         Ao ouvir tais palavras, Péricles olhou para Fídias com ar de quem não estava entendendo coisa nenhuma. Era Cristã? Novo continente? Cristóvão Colombo? A resposta do escultor ao olhar de Péricles foi um sorriso que Dona Benta compreendeu: estavam a julgada de miolo mole. E tentou explicar:

         – Sim, Senhor Péricles, reconheço que estamos numa situação bem estranha. Aqui tudo é presente; é o ano 438 antes de Cristo; mas é o “seu” presente, Senhor Péricles, não o meu. O meu presente é o ano de 1939 depois de Cristo, e sou dum país que para os gregos de hoje só daqui a dezenove séculos começará a existir – o Brasil.

         Péricles sorriu e disse:

         – Sua cronologia não está certa, minha senhora. O ano que corre não é nenhum 438 antes de Cristo – sim o 3.° da 85.a Olimpíada. Contamos o tempo pelas Olimpíadas, sabe o que são?

         – Sim, são os jogos atléticos que, de quatro em quatro anos, se realizam na cidade de Olímpia.

         Péricles não se admirou de Dona Benta saber aquilo, porque era coisa que ninguém ignorava; mas arregalou os olhos ao ouvi-la dizer que essa contagem do tempo iria ser substituída no futuro por outra, em que o ano primeiro seria o da morte de Cristo.

         – Quem é esse Cristo? Algum novo Milon de Crotona? (*)

         – Não, Senhor Péricles. Cristo foi o homem que veio pregar a ideia nova de que a nossa alma é imortal e nossa vida na terra não passa dum momento. Foi o filho de Deus.

         Os deuses gregos eram os do Olimpo, humanos demais e duma vida muito cheia de escândalos, de modo que os homens de alta inteligência, como Péricles, interiormente se riam deles, considerando-os simples criações da imaginação do povo. Ao ouvir Dona Benta falar em Deus e filho de Deus, Péricles sorriu. Imaginou estar diante de uma velha mística que sonhava um novo deus – e mudou de assunto.

         – E que a traz por aqui, minha senhora?

         – O desejo de conhecer um momentinho da idade do Ouro da Grécia, justamente a que coincide com o governo do Senhor Péricles. Toda esta sua Atenas de hoje vai desaparecer, destruída pelas guerras de invasão. O maravilhoso Partenão, que o Senhor Fídias está construindo, será cruelmente maltratado. Um dos vossos sucessores na chefia do partido popular, Senhor Péricles, será o primeiro profanador desse templo, daqui a 140 anos. Laquerés, chamar-se-á ele.

         Péricles sorriu para Fídias, que se conservava muito atento. Dona Benta continuou:

         – Para acudir às despesas militares, Laquerés tirará todo o ouro que ornamenta a estátua de Atena. Mas a cidade de Atenas será sitiada por Demétrio Poliorcete, um dos generais que sucederão a Alexandre o Grande – e será tomada. Laquerés fugirá. Demétrio instalar-se-á no Partenão e transformará o santuário da deusa em teatro das suas orgias…

         A segurança com que a velhinha anunciava tais coisas provocou um certo mal-estar nos dois gregos. Dona Benta prosseguiu:

         – A estátua de marfim e ouro de Palas Atena desaparecerá aos pedaços, perder-se-á para sempre. Durará menos de século e meio a vossa obra-prima, Senhor Fídias, mas a fama dessa escultura ficará eterna.

         – E depois desse começo de destruição, minha senhora? – indagou Péricles.

         – O Paternão será no século 7.° da era de Cristo transformado na Igreja de Santa Sofia – respondeu Dona Benta. – Sofrerá deformações horrendas. A arte desse tempo já não será mais esta puríssima arte de hoje, sim o barbarismo bizantino. Se pudésseis ver como ficará o vosso primoroso templo, certo que choraríeis de desespero e vergonha, meus senhores. E a desgraça não parará aí. Atenas cairá nas mãos dos turcos, que por sua vez transformarão a Igreja de Santa Sofia em mesquita muçulmana. Os ornamentos de mármore, essas maravilhas de hoje, serão arrancadas, destruídas… No ano de 1867 Atenas será bloqueada pelos venezianos, e bombardeada. Uma bomba cairá no Partenão, pondo fogo à pólvora que os turcos depositarão lá. A frisa de oito colunas do pórtico norte e mais seis colunas do pórtico sul desabarão. O chefe dos venezianos vencedores prosseguirá na obra da pólvora; arrancará da frontaria os cavalos e o carro de Atenas, e tão desastradamente que os reduzirá a farelo. Logo depois um nobre inglês, Lorde Elgin, retirará sessenta e tantos metros de esculturas da frisa e quase todas as estátuas dos frontões, bem como as métopes e as venderá ao governo inglês, por 35.000 libras esterlinas. O Museu Britânico, em Londres, passará daí por diante a ser o possuidor desses fragmentos imortais…

         Aquelas palavras surpreenderam enormemente aos dois gregos; breve, porém, o cepticismo lhes voltou, e foi sorrindo que Péricles disse:

         – Nunca imaginei encontrar uma vidente da sua força, minha senhora. As pitonisas que temos usam a linguagem vaga, nunca descem a pormenores de tanta precisão, nem citam nomes e datas.

         – Não sou vidente, meu senhor – disse a boa velha. – Os videntes vêem o que está por vir; mas eu acabo de chegar do futuro, isto é, do que para os senhores vai ser o futuro e é o presente para mim. Os fatos que anunciei, e os senhores tomaram como previsão do futuro, são para mim velhíssimas coisas já realizadas, porque estão localizadas entre o “meu” presente e o presente dos senhores. Não estou visualizando o futuro – estou recordando o passado…

         Era impossível aos dois gregos a aceitação de semelhante teoria; e, pois, continuaram na sua atitude de cepticismo, embora no íntimo fortemente abalados.

         – Já que a senhora “sabe” o futuro – disse Péricles, conte-nos qual vai ser o resultado da guerra do Peloponeso.

         Dona Benta respondeu sem vacilação:

         – Durará vinte e sete anos e será o fim do período áureo da Grécia. Sereis acusado de promotor dessa luta desastrosíssima, Senhor Péricles, mas a posteridade vos fará justiça, lançando-a à conta da velha rivalidade entre Atenas e Esparta. A guerra tinha de vir, como o pinto tem de sair da casca depois de finda a incubação do ovo. E a Grécia, combalida pelo esforço, não resistirá aos golpes de Alexandre da Macedônia – será escravizada…

         – E qual o meu fim, minha senhora? – perguntou ainda Péricles.

         – O grande Péricles manter-se-á no governo até o fim de seus dias, e morrerá vítima da grande peste que assolará Atenas. Sua morte será no ano 429 – daqui a 9 anos… e marcará também o começo da morte desta Atenas gloriosíssima. A cidade subsistirá por séculos e séculos, mas tão transformada em seu povo e em tudo, que se Péricles pudesse ver com os seus próprios olhos o que os meus viram hoje de manhã ao chegarmos ao Porto do Pireu, não reconheceria na Atenas de 1939 esta maravilhosa Atenas em que estamos.

         – ?

         – Sim, porque nós demos um mergulho. Quando o iate ancorou no Pireu, Pedrinho e Narizinho desinteressaram-se imediatamente da Atenas moderna entrevista de bordo; e com o célebre tchihum! mergulharam nesta sua Atenas, Senhor Péricles, que a mim sempre me seduziu do modo mais singular.

         – Mas… qual a verdadeira razão desse tchibum!, minha senhora? – balbuciou Péricles.

         Dona Benta teve de contar toda a história do Picapau Amarelo, a mudança para lá dos personagens da Fábula e a grande festa do casamento de Branca de Neve, interrompida pela invasão dos monstros. (**)

         – E nesse desastre, Senhor Péricles, tivemos a má sorte de perder a nossa querida cozinheira Nastácia. Os meninos supõem que ela tenha sido aprisionada por algum daqueles monstros e trazida para aqui…

         – Para aqui? – espantou-se o grego.

         – Não propriamente para aqui, Senhor Péricles, mas para a Grécia ainda mais antiga do tempo miceniano – a Grécia da era dos fabulosos heróis de Tebas.

         – Mas se esses monstros; como a senhora disse, estavam no tal Picapau Amarelo, como pensa encontrá-los num passado que até para nós, os gregos de hoje, já é tão remoto?

         – Ah, meu senhor, a invasão dos monstros destruiu a nossa obra de mudança para o Picapau Amarelo de todo o mundo da Fábula. Sumiram-se de lá aqueles príncipes, princesas e heróis – Codadade, Branca de Neve, Peter Pan, Capinha Vermelha, Aladino, Belerofonte e até o nosso bom amigo D. Quixote, com o seu leal escudeiro Sancho. As terras que comprei aos fazendeiros vizinhos para acomodação dos personagens da Fábula, e que num instante se encheram de castelos e palácios maravilhosos, reduziram-se de novo ao que eram antes – morraria nua, com muito sapé, barba de bode e formigueiros de saúva.

         – E para onde foram tais personagens?

         – Para as suas antigas moradas, evidentemente. Uns voltaram para os livros; outros, para o Oriente; outros, para a Grécia Antiga, donde tinham vindo.

         – Quais eram esses?

         – Inúmeros! Tive a honra, Senhor Péricles, de hospedar em minha casa ao herói Belerofonte e mais ao Pégaso – e também esteve em meu terreiro a triste Quimera de três cabeças. Mas nas novas terras adquiridas ficaram morando os demais, e foi lá, no palácio do Príncipe Codadade, que se realizou a tal festa interrompida pela invasão dos monstros. Que cena! Estou a vê-la… Um bando enorme de centauros, faunos, sátiros, grifos, hipogrifos, hidras, esfinges, minotauros, assaltou o palácio numa galopada louca. Fugi para o sítio com meus netos, mas a pobre tia Nastácia se perdeu no tumulto. Resolvemos então empreender esta viagem à Grécia em procura da nossa boa cozinheira. Há de estar nas unhas dum daqueles monstros. Partimos no iate “Beija-flor das Ondas”, a antiga “Hiena dos Mares” do célebre Capitão Gancho – e de caminho paramos aqui para conhecer a Atenas do período áureo. Eis tudo…

         Por mais incompreensível que fosse a história da velhinha, suas palavras causaram profunda impressão nos dois gregos. Péricles voltou-se para Fídias:

         – Meu amigo, sou forçado a confessar que nem em sonho jamais me defrontei com situação semelhante. O que esta vidente diz não forma sentido, mas impressiona-me, atordoa-me. Por quê? Haverá algum fundo de verdade em suas revelações?

         Fídias também estava abalado. Tudo quanto ouvira era absurdíssimo – mas novo e impressionante, dessas coisas que nos empastelam as ideias e nos deixam de olhos muito abertos, parados…

         – E estas crianças? São seus netos? – perguntou o estadista grego, para mudar de assunto.

         – Sim. Esta aqui é a Narizinho; e este, o Pedrinho, filho da Antonica. E esta é a Emília, Marquesa de Rabicó – uma boneca de pano que tia Nastácia fez e misteriosamente foi mudando até virar no que é hoje: gentinha de verdade.

         Péricles olhou para Fídias. A linguagem da velha teimava em ser tão estranha quão ininteligível.

         – E esse outro? – disse, apontando para o Visconde.

         – Ah, este é o Visconde de Sabugosa, um sábio. Está agora no comando do “Beija-flor das Ondas”, o navio que nos trouxe do Picapau ao Pireu – e contou a história inteira do sabuguinho científico.

         Péricles não podia entender coisa nenhuma de coisa nenhuma, nem sequer o que fosse “sabugo”, já que o milho era planta ignorada dos gregos.

         – Suas palavras, minha senhora – disse ele – formam sentido, mas as coisas que elas expressam não formam sentido nenhum. Sou um homem de bastante experiência, mas sinceramente confesso que nunca me encontrei num embaraço como o de hoje. Fico sem saber o que pensar, e muito duvidoso da minha inteligência…

         – E é natural, Senhor Péricles – respondeu Dona Benta. – Se as nossas posições se invertessem, eu estaria ainda mais tonta que o senhor. Isto é um caso de choque entre o Futuro e o Passado…

(*) O mais famoso atleta grego, seis vezes vencedor nos Jogos Olímpicos e sete vezes nos Jogos Píticos. Certa ocasião deu a volta ao estádio com um touro ao ombro, e ao chegar ao fim matou-o com um soco e comeu-o inteirinho durante o dia. Célebre não só pela sua desmensurada força física como pela inteligência e cultura. Foi um dos grandes matemáticos da escola de Pitágoras.(nota do Autor)

 

(**) no livro O Picapau Amarelo)

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