O MINOTAURO
Capítulos 09 e 10
09 – O pó número dois
Lá no Pireu o “Beija-flor das Ondas” estava rodeado de pequenas embarcações repletas de curiosos.
Os gregos não cessavam de admirar o estranhíssimo iate que misteriosamente aparecera no porto.
Embora fosse barco de proporções muito modestas, parecia um colosso comparado às trirremes gregas e mais embarcações mercantes ali ancoradas.
Quando o bandinho de Dona Benta chegou ao cais, nenhum dos cinco pôde conter o riso. Sentado à proa do iate estava o Excelentíssimo Senhor Marquês de Rabicó, de boné de Imediato na cabeça e binóculo em punho. De vez em quando olhava ao longe, displicentemente.
– O malandro! – exclamou Pedrinho. – Vejam a importância dele, a bancar o almirante para todos estes basbaques…
A multidão dos curiosos não entendia nada de nada. Não entendia o iate e ainda menos aquele porquinho de boné, tão senhor de si, lá na proa.
As trirremes gregas chamaram a atenção do menino.
– Repare, vovó, que elegantes e leves são.
– Na realidade, meu filho, estas embarcações primam pela leveza. Basta dizer que já têm sido transportadas por terra dum ponto do mar a outro. Medem mais ou menos quarenta metros de comprimento e cinco de largura, e são levadas por duzentos remadores dispostos em três filas, uma por cima da outra. Daí o nome de trirremes ou barcos de três ordens de remos. Há ainda as birremes, com duas ordens de remos. São embarcações que calam muito pouco…
– Pouco? – berrou Emília. – Calam-se até demais. Estão caladíssimas, não ouço o menor som vindo delas.
– Em linguagem náutica, Emília, calar quer dizer outra coisa; quer dizer “afundar nágua”. Como são muito leves, as trirremes só afundam, ou só calam, um metro, mais ou menos. O nosso iate cala três metros.
– E a velocidade? – perguntou Pedrinho. – Quantas milhas fazem por hora?
– A história conta dum trajeto de 150 léguas em três dias feito pela trirreme de Teopompo, um corsário de Mileto que Lisandro despachou para levar a notícia duma vitória. Cento e cinquenta léguas são 900 quilômetros, o que dá 300 quilômetros por dia, ou 12 e meio por hora, isto é, quase 7 milhas.
– Mas isso é marcha de lesma, vovó – caçoou o menino.
– Não, meu filho. Para um barco de remo é velocidade ótima. Daí os triunfos dos gregos no mar. Na célebre batalha de Salamina, travada com a frota de Xerxes, rei da Pérsia, no ano 480 A. E…
– Sei, sei! – interrompeu Pedrinho. – Em Salamina, Temístocles derrotou a esquadra persa. E por falar: se essa batalha foi em 480 A. C, ou a só quarenta e dois anos de hoje, ainda devem existir por aqui alguns veteranos de Salamina.
– Possibilíssimo. Qualquer desses marujos sessentões aqui no cais pode muito bem ter sido um guerreiro daquela época.
Pedrinho prestou bastante atenção num deles, para decorar-lhe a cara. “Quando voltar ao sítio posso afirmar que contemplei com meus olhos um veterano de Salamina.”
Ao vê-los aparecer no navio, Rabicó perdeu imediatamente a importância.
– Que há de novo por aqui? – perguntou Pedrinho.
– Nada, tudo em ordem, respondeu o “Imediato.” Só essa multidão de patetas que rodeiam o “Beijaflor”. Estão assombradíssimos. Nunca viram colosso maior.
Dona Benta e Narizinho foram arrumar as malas enquanto Pedrinho e os outros discutiam pormenores da “penetração.”
– Eu levo a minha maleta – disse Emília.
– E eu, só o bodoque – disse Pedrinho. – Quanto menos carregarmos, melhor.
O Visconde não levava coisa nenhuma, porque jamais possuiu qualquer coisa além da célebre cartolinha.
Agora, porém, estava de boné de capitão. Isso o atrapalhou. Que levar a cartola ou o boné? Emília resolveu o caso.
– Leve a cartolinha. O boné pertence ao guarda-roupa de bordo.
O Visconde não discutiu; botou a cartolinha na cabeça e pronto.
Dirigiram-se ao camarote de Dona Benta.
– Já estamos preparados para o mergulho, vovó! – disse o menino.
Dona Benta correu os olhos pelos três. Viu-os em ordem.
– Pois está bem – declarou. – Podem partir. Mas, olhe, Senhor Pedrinho, muita cautela, hein? Não se esqueça de que já perdemos tia Nastácia.
– Provisoriamente, vovó! – completou o menino. – Juro que hei de trazê-la viva ou morta.
– Morta não quero. Enterrem-na por lá mesmo. E vocês também não me voltem mortos. Quero-os bem vivinhos e perfeitos. A viagem é das mais perigosas. Em todo caso, como até na lua já estiveram, tenho confiança em que ainda desta vez tudo correrá bem.
– Fique sossegada, vovó. Apesar daquilo lá ser um viveiro de hidras e heróis tebanos, eu aposto em mim mesmo. Hei de ir, ver e vencer – e trazer tia Nastácia, ainda que seja de rastos. A senhora não me conhece, vovó…
Dona Benta riu-se de tanta bravura.
Tudo pronto, Pedrinho tirou do bolso um canudo de taquara com um pó dentro – um pó diferente do antigo pirlimpimpim, chamado “pó número 2.” Despejou um montinho na palma da mão e dividiu-o em três pitadas – uma para Emília, outra para o Visconde, a última para si.
– Temos que aspirá-lo ao mesmo tempo, quando eu disser “Três.” Vamos! Um… dois… e…
– Espere! – berrou Emília. – Ia me esquecendo duma coisa – e tirando do bolso um pequeno embrulho, entregou-o a Dona Benta: “Faça o favor de entregar este presentinho à escrava.”
– Que escrava, Emília?
– A que nos deu aqueles figos. Pronto, Pedrinho! Podemos partir.
Pedrinho contou novamente – Um… dois… e TRÊS!
As pitadinhas de pó foram aspiradas a um tempo, sem perda de uma só isca – e como por encanto os três pequenos heróis desapareceram do iate.
Dona Benta sentiu a célebre pontada no coração.
– Ai, ai! Já estou arrependida de haver dado o meu consentimento. É capaz de acontecer qualquer coisa a Pedrinho…
– Claro que vai acontecer muita coisa, vovó – disse a menina. – Mas que tem isso? Acontece e desacontece, como sempre. Eles sabem sair-se dos maiores apuros. Não se aflija à toa.
Dona Benta continuou a suspirar; dez minutos depois, entrando, já se esquecera daquilo. A boa velhinha era bem como tia Nastácia dizia: “Sinhá até parece mais criança que as crianças, credo!”
Bom. Restava agora irem para a residência de Péricles.
– E estamos na horinha, vovó. Lembre-se que ele nos espera para o jantar.
Dona Benta, que andara demais naquele dia, queixou-se de cansaço.
– Como há de ser para chegarmos até lá, minha filha? Meus pés já não aguentam.
– Não há táxis?…
– O veículo de Atenas é a liteira, mas são todas particulares. Não me consta que existam liteiras-táxi…
– Vamos descer, vovó. Lá embaixo resolveremos.
Desceram, com as malas no lombo de Rabicó.
Assim que puseram o pé no cais, um homem de corpo alentado aproximou-se respeitosamente.
– Minha senhora, o Estratego manda pôr à vossa disposição a sua liteira – disse ele apontando para uma liteira estacionada ali perto, ladeada de cinco latagões. Eram escravos de Péricles.
Dona Benta respirou. “Ora graças!” e encaminhou-se para o veículo.
Narizinho, porém, revoltou-se. Não podia admitir que seres humanos fossem usados como bestas de transporte.
– Não tenho coragem de entrar nisso, vovó! Desaforo. Gente como nós a nos carregar. Nunca! E ainda chamam a isto democracia…
– Menina, cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso. Entre. Vá protestando, mas entre…
Narizinho entrou, a resmungar.
Dona Benta foi se reclinando na liteira ao modo da época. Lindo veículo, muito sóbrio, sem os exageros do luxo inútil. Em todas as coisas os gregos revelavam o seu fino senso da justa medida.
– Estratego, vovó? Que história de Estratego é essa, que o liteiro disse?
– É o posto de Péricles no governo.
– Ele não é rei, então?
– É e não é. Não é, porque legalmente não há mais reis em Atenas; e é, porque realmente quem manda é ele. O nome de seu posto, entretanto, é “Estratego”, uma espécie de general que também cuida dos negócios administrativos. Em Atenas existem ainda nove Arcontes, magistrados que substituíram o rei, embora não herdem o posto, nem sejam eleitos.
– Então como é?…
– São escolhidos pela Sorte, minha filha, um sistema que acho menos perigoso que o da eleição. Os arcontes fazem como os reis da Inglaterra: reinam, mas não governam. Quem realmente governa são os Estrategos, equivalentes aos modernos Ministros de Estado. Péricles corresponde a um Primeiro Ministro da Inglaterra.
O balanço da liteira era suave. “A gente até descansa nestes veículos – são camas que se movem” – observou Dona Benta.
– São mas é um grandíssimo desaforo – disse a menina. – Na primeira ocasião hei de reclamar do Senhor Péricles contra semelhante abuso. Gente como nós a carregar marmanjos! Onde já se viu isto?
As ruas de Atenas, embora bastante movimentadas, não tinham o atropelo das ruas modernas. A maioria dos pedestres era composta de escravos. Os cidadãos saíam quase sempre em suas liteiras.
– Como há escravos por aqui! – admirou-se Narizinho.
– Muitos, minha filha. Cerca de 400 mil.
– E cidadãos?
– Uns 30 mil no máximo.
A distância entre o porto e a residência de Péricles foi vencida em pouco mais de uma hora, sem nenhum cansaço para as “transportadas.” A canseira na Grécia não cabia aos cidadãos.
Ao atravessarem a Ágora viram um homem a discorrer num grupo de moços. “Será Sócrates?” – pensou consigo Dona Benta.
Dali à residência do Estratego era um pulo.
– Que beleza, Atenas, vovó! Estátuas por toda parte, monumentos…
– Nunca houve no mundo, minha filha, um centro mais cheio de arte – e que arte! A de Fídias e seus grandes discípulos… O simples fato de ser Fídias o diretor-geral da construção de Atenas, quanto não representa? Que cidade no mundo já teve maior honra?
A liteira parou diante da casa de Péricles. Dona Benta, velhinha no cerne, pulou como se tivesse vinte anos. O mordomo Evângelo veio recebê-la e foi avisar o patrão, o qual apareceu e disse:
– Atenas inteira só fala no estranho navio ancorado no Pireu e na maravilhosa vidente que nos dá a honra de sua visita.
– Mas eu não sou vidente, Senhor Estratego. Já expliquei…
Péricles sorriu.
– Há explicações duma inutilidade absoluta. Para nós a senhora é vidente porque vê ou sabe o que não vemos nem sabemos.
– E Dona Aspásia? Já veio?
– Sim, chegou hoje, e está a arder de curiosidade.
Péricles atravessou o pátio de braço dado a Dona Benta e de mão na mão de Narizinho. Dirigiu-se à sala de jantar, repleta de convidados.
– Meus amigos – disse ele, entrando – tenho a honra de apresentar-vos Dona Benta Encerrabodes de Oliveira, do Picapau Amarelo, e sua gentil neta Narizinho…
Um “oh” grego escapou de todas as bocas.
10 – Nos campos da Tessália
A ação do pó aspirado pelos três “penetradores” era muito semelhante à do clorofórmio. Eles perdiam a consciência e só acordavam quando atingiam o “tempo” a visitar. Naquele dia, o tempo em que desejavam acordar era o século XV antes de Cristo, justamente o em que se realizavam as famosas façanhas de Hércules.
O primeiro a despertar foi Pedrinho. Olhou. Tudo em redor lhe pareceu atrapalhado, girando – mas tudo se foi assentando, parando de girar, até que ele pôde ver onde se achava: um campo com montanhas azuis ao longe.
Pedrinho examinou o capim: era diferente do de lá do sítio. O mato, os arbustos também eram diferentes. E aquelas manchas brancas no pasto? Firmou a vista. “Ah, carneiros, sim…”
A seu lado ainda jaziam no sono Emília e o Visconde. Só acordaram minutos depois.
O menino apontou para os carneiros.
– Onde há rebanho há pastor – disse ele – Temos de procurar o pastor daquele rebanho.
Levantaram-se os três e foram, e a duzentos metros dali descobriram o pastor sentado numa pedra tocando flauta.
Assim que os viu, largou a flauta e arregalou os olhos, espantadíssimo.
– Somos amigos! – gritou Pedrinho de longe.
Era bem jovem esse pastor, aí duns vinte anos no máximo. Cabelos em caracóis, belo de rosto e de corpo, vestido rusticamente como todos os pastores dos poemas. Mas continuava de olhos arregalados, sem saber o que pensar.
Aquelas três figurinhas surgidas diante dele em trajes tão exóticos estavam a atrapalhar-lhe as ideias.
– Somos amigos – repetiu Pedrinho, achegando-se e sentando-se. – Viemos de muitíssimo longe para uma visita a estas plagas e a estes tempos. Meu nome é Pedro Encerrabodes de Oliveira. Esta aqui é a Emília, Marquesa de Rabicó – e aquele ali, de cartolinha, é o Visconde de Sabugosa, um “sabinho.”
O pastor nada dizia. Continuava no ar, tonto.
– Talvez seja surdo, Pedrinho – lembrou Emília. – Berre mais alto.
Não era surdez, não; era espanto de achar-se na frente de criaturas incompreensíveis. Afinal, vendo-as desarmadas e com aspecto de boa paz, o pastor foi voltando a si e falou:
– Mas… quem são? Donde vêm?
– Já expliquei. Viemos do Picapau Amarelo. Somos exploradores do tempo graças a um pó mágico que nos leva a qualquer século que queiramos visitar. Que terras são estas aqui, que montanha é aquela acolá, quem é o rei deste país? Vamos fale.
O pastorzinho ainda gaguejou um pouco; por fim falou, contou que aquilo por ali era a Tessália, e a montanha azul era o Olimpo.
– O Olimpo? O Monte Olimpo onde moram os deuses?
– Sim…
Os três “penetradores” arregalaram os olhos para a montanha azul.
– Que maravilha! – exclamou Pedrinho. – E que sorte a nossa! Acordamos exatamente onde queríamos acordar. Sabe, pastor, que a nossa intenção é, antes de mais nada, subirmos àquela montanha para uma visita à morada dos deuses?
O pastor fez cara de idiota.
– Sim – confirmou Emília. – Vamos subir ao Olimpo para ver os deuses e esclarecer um ponto que nos está preocupando muito, que é saber a verdade a respeito do tal néctar e da tal ambrosia. O néctar eu imagino o que seja – mais ou menos um mel. Já da ambrosia não faço a menor ideia. Queremos ver, cheirar, provar essas maravilhosas substâncias.
O pastor deu uma risada gostosa.
– Que absurdo! Nunca, nunca, jamais, em tempo algum, houve mortal que subisse ao Olimpo e conhecesse a bebida e a comida dos deuses. Os raios de Zeus fulminariam instantaneamente o doido que em tal pensasse.
– Pois não somos doidos e pensamos nisso – declarou Emília – e havemos de subir ao Olimpo e regalar-nos com o néctar e a ambrosia. Temos feito tanta coisa prodigiosa, que isso de subir ao Olimpo é o que lá no sítio chamamos “café pequeno.”
– Mas é loucura! – gritou o pastor, apavorado.
Emília deu uma risada.
– Você não nos conhece, menino! Somos do arco-da-velha. Até ali o Senhor Visconde, que é um sabugo, já está célebre.
O Visconde suspirou.
– É verdade. Tenho realizado grandes prodígios, como este, por exemplo, de andar pelo mundo com a canastrinha da Senhora Marquesa às costas, ai, ai…
Emília explicou:
– Ele é um sábio, e os sábios só gostam de carregar coisas na cabeça. São assim porque as coisas que a gente carrega na cabeça não pesam. É a preguiça. Mas nestas expedições eu gosto de ter comigo certos “apreparos”, que nos momentos de apuros nos são preciosos e por isso viajo com a minha canastrinha – e quem tem de carregá-la é ele, porque é o mais fraco de todos, é a lei do mundo é o forte despertar para a esquerda, isto é, abusar do fraco. E a culpa, senhor pastor, é do Visconde mesmo, que nos andou ensinando as teorias dum Darwin, que disse que a vida é um combate que aos fracos abate e aos fortes e aos bravos só pode exaltar…
– Pare, Emília! – gritou Pedrinho. – Parece que o pó embebedou você. Isso não é Darwin, é um verso do poeta Gonçalves Dias. Pare de falar.
Emília parou, não em obediência ao grito, mas porque saíra a correr atrás dum cordeirinho desgarrado do rebanho.
– De quem são estes animais? – perguntou o menino.
– De meu pai, que é azeitoneiro no burgo próximo.
– Enlatador de azeitonas?
A palavra “enlatador” não foi compreendida pelo pastorzinho.
– Meu pai cultiva oliveiras – disse ele.
– Que interessante! – exclamou Pedrinho. – O nome de minha família é Oliveira, o mesmo nome da árvore que produz a azeitona e que com tanta abundância aparece aqui. Mas lá em nossa terra só existem azeitonas em latas.
– Latas? – repetiu o pastor.
Foi difícil ao menino explicar a significação de lata, pois naquele tempo as vasilhas eram quase que exclusivamente feitas de barro. Vasilhas de folha não existiam. A diferença de mentalidade entre ele e o pastor era tão grande, que a menor coisa reclamava explicações complementares – e inúteis, porque o pastor ficava na mesma.
Emília voltou, arrastando o cordeirinho pela orelha.
– Malvada! Largue-o. Não vê como a ovelha-mãe está berrando aflita?
– Balindo – corrigiu Emília. – Quem berra sou eu. – Disse e sentou-se com o cordeirinho ao colo.
– E por falar – murmurou Pedrinho dirigindo-se ao pastor – não viu por aqui uma preta velha, de lenço vermelho na cabeça? A razão da nossa viagem é justamente procurá-la – e contou toda a história da festa no palácio do Príncipe Codadade, o assalto dos monstros da Fábula e por fim o desaparecimento da tia.
– Sumiu-se, a pobre, no grande tumulto que houve. Mas temos esperança de que esteja viva, apenas aprisionada por algum desses monstros. Como é pretíssima e como os monstros gregos estão acostumados a só comer gente branca, talvez que…
– Que jeito tem essa criatura? – perguntou o pastor.
– Uma beiçuda – respondeu Emília – com reumatismo na perna esquerda, nó na tripa, analfabeta, mil receitas de doces na cabeça, pé chato, gengiva cor de tomate, assassina de frangos, patos e perus, boleira aqui na pontinha, pipoqueira, cocadeira…
– Pare, Emília! – gritou Pedrinho. – Estou vendo que o pó desandou você duma vez.
Foi inútil o berro. Emília estava mesmo desandada e continuou:
– Uma negra pitadeira dum pito muito preto e fedorento. Não sabe o que é pito? Ai, meu Deus do céu! Estes gregos não sabem nada de nada. Mas beiço o senhor sabe o que é, não? Pois basta isso. Não viu uma velha cor de carvão, de lenço vermelho de ramagens na cabeça e um par de beiços deste tamanho na boca? Se viu, é ela.
O pastor não vira ninguém assim.
– Pois atrás dela andamos – continuou Emília – porque é a Palas Atena lá da cozinha do Picapau Amarelo. Não erra no tempero. Quem come os quitutes de tia Nastácia lambe os beiços e repete a dose. D. Quixote até engordou vários quilos. Pedrinho jurou encontrá-la e levá-la de volta ao Picapau, nem que seja arrastada pelos cabelos.
– Não repare, pastor – disse o menino. – Emília é como certos despertadores que às vezes desandam.
O pastor ficou na mesma, porque não sabia o que era despertador.
Continuaram na prosa por longo tempo, até que o sol começou a esconder-se atrás das montanhas azuis. A fome veio.
– Não haverá por aqui alguma coisa de mastigar?
A resposta do pastor foi abrir uma sacola e tirar um pedaço de pão e outro de queijo. Cortou várias fatias e distribuiu-as. Hum! Que gostoso! O queijo era forte, ardido – queijo de leite de ovelha; mas a fome fez que Pedrinho o achasse a delícia das delícias.
– E a dormida, pastor? Onde se dorme aqui?
– Tenho lá a minha cabana junto ao curral – disse ele, apontando para uma cabaninha que se via dali.
– E podemos nos recolher, são horas.
Os três “penetradores” ajudaram-no a “tanger” o rebanho para o curral e depois correram para a cabaninha rústica, onde não viram móveis – só pelegos a um canto. O pastor tirou do monte três peles, dando uma a cada um.
– São as camas. Durmam e tenham bons sonhos.
Deitaram-se todos na lã macia – e minutos depois roncavam.
Pedrinho jamais esqueceu do sono dormido na cabana daquele pastor da Tessália, no século XV antes de Cristo. Foi – dizia ele sempre – “o mais belo dos meus sonhos.”
