Monteiro Lobato

PETER PAN

 Capítulo 3

  

3 – A Lagoa das Sereias

             Na terceira noite tia Nastácia apareceu na sala ainda  mais desapontada do que na véspera. O que estava acontecendo com a sua pobre sombra era simplesmente monstruoso.

            — Veja, Sinhá — disse ela para Dona Benta, colocando-se entre a parede e o lampião de modo a tornar a sombra bem visível. — Veja, Sinhá, como está toda rendada a minha sombra. O ladrão, que ontem me cortou a cabeça dela e um pedaço do ombro, acaba hoje de cortar uma porção de outros pedacinhos.

            Realmente assim era. O resto da sombra da pobre negra estava todo picado de buracos feitos a tesoura.

            — É um mistério que não consigo decifrar — disse Dona Benta sacudindo a. cabeça. — O Visconde, o nosso grande detetive, bem que podia tomar conta deste caso. Fale com ele.

            Tia Nastácia conferenciou com o Visconde, obtendo do grande detetive a promessa de “investigar.”

            — Deixe a coisa comigo — disse ele. — Já resolvi aquele célebre caso do falso gato Félix e posso muito bem resolver este do ladrão de sombras. Deixe a coisa comigo.

            Liquidado o incidente, Dona Benta retomou a história de Peter Pan no ponto em que a tinha deixado na véspera.

            — Onde estávamos, mesmo? — perguntou ao sentar-se em sua cadeira de pernas serradas.

            — Os meninos perdidos haviam construído a casinha de Wendy e todos dormiram dentro dela, menos Peter Pan, que ficou de guarda — lembrou Narizinho.

            — Sim, é isso mesmo — confirmou Dona Benta. — Dormiram na casinha a primeira noite e depois outras.

            Durante toda uma semana os meninos não se afastaram dali. Estavam encantados com a mãezinha que Peter Pan lhes arranjara e Wendy estava igualmente encantada com os seus seis filhos. A felicidade naquele acampamento seria completa, se não fosse a tristeza em que havia caído a fada Sininho. Vivia sempre emburrada, escondida pelos cantos, sem coragem de falar com Peter Pan.

            Mas tudo cansa. Ao fim da primeira semana. Wendy mostrou vontade de sair a passeio pela floresta, ou algum outro lugar.

            — “Podemos ir à Lagoa das Sereias” — propôs Peter Pan.

            — “A nossa Terra do Nunca não possui unicamente coisas terríveis, como os piratas e os lobos famintos. Esse Lago das Sereias é lindo, lindo!”

            A ideia foi recebida com entusiasmo. Wendy e seus irmãozinhos só conheciam as sereias dos livros de figura. Sereias de verdade, com cauda de peixe e escamas, bem vivas e perigosas, nunca haviam visto nenhuma, por não serem criaturas encontráveis no jardim zoológico de Londres. Havia lá de tudo — hipopótamos, rinocerontes, leões, tigres, girafas, serpentes, ursos, focas — mas sereia, nenhuma.

            — “Vamos, vamos ver as sereias!” — gritaram todos no maior assanhamento.

            Num minuto fizeram-se os necessários preparativos e lá se foram todos. Depois de longa viagem avistaram o grande lago verde-mar, em cujo fundo se erguia o palácio encantado das sereias. Às vezes todas elas vinham à tona para se pentearem ao sol, espalhadas pelos rochedos. Outras vezes só se via por ali uma ou outra.

            Quando os meninos chegaram à beira d’água, só encontraram uma.

            — “Que beleza!” — exclamou Wendy, enlevada. — “Tal qual uma que vem pintada no meu livro de capa azul. Vejam como as escamas brilham ao sol! Parecem de prata….”

            Era na verdade uma das mais lindas sereias do bando. Tinha os cabelos cor de ouro e bronze misturados, com reflexos verdes. Estava reclinada sobre um rochedo e enquanto cantava corria um pente de ouro pelos cabelos maravilhosos.

            — E era lindo esse canto? — indagou Narizinho.

            — Oh, nem queira saber! — disse Dona Benta. Ninguém pode dar ideia da beleza do canto das sereias. Só ouvindo. Tão diferente do canto das criaturas humanas que é até perigoso para nós. Grandes desgraças têm acontecido no mar aos marinheiros que ouviram tais cantos.

            — É verdade, vovó, que os marinheiros antigamente entupiam os ouvidos com chumaços de algodão sempre que avistavam uma sereia? — perguntou Pedrinho.

            — Deve ser. Não fazendo isso, esse canto maravilhoso deixa os marinheiros embriagados e eles erram todas as manobras do navio, puxam esta corda em vez daquela, botam garrafas de vinho no anzol em vez de iscas — atrapalham tudo, tudo. Resultado: o navio perde o rumo, dá com o bico numa pedra e afunda.

            Os meninos perdidos tinham muita vontade de apanhar uma sereia viva, coisa quase impossível por serem espertas demais. Não há lambari arisco que tenha a ligeireza duma sereia. Eles já haviam tentado várias vezes e agora iam tentar novamente.

            — Como?

            — O meio era um só — meterem-se n’água de jeito que a sereia não os visse e fecharem o cerco. Assim fizeram.

            Meteram-se todos n’água e foram nadando sem fazer o menor barulhinho, até que…

            — Pegaram? — indagou Narizinho, ansiosa.

            — Pegaram nada! A sereia os percebeu e soltou um grito agudo: Mortais! mergulhando em seguida.

            Ficaram todos desapontadíssimos e Miguel chegou a fazer cara de choro. Se não chorou de verdade foi porque Bicudo avistou outra sereia numa rocha mais adiante.

            — “Lá está uma sereia-menina, das fáceis de pegar!” — cochichou ele, apontando. — “Temos que ir com muitas cautelas.”

            Era uma sereiazinha das mais lindas que a gente possa imaginar. Teria aí seus sete anos de idade, já sabia pentear-se com o seu pentinho de ouro e já começava a cantar as primeiras cantigas. Tão distraída estava, a seguir os movimentos dum caranguejo na pedra, que deixou os meninos se aproximarem até bem perto. Miguel, que vinha na frente, não se conteve e — zás! — deu um pulo em cima dela.

            — Pegou? — quis saber Narizinho, ansiosíssima.

            — Desta vez pegou — respondeu Dona Benta — mas não a segurou bem. As sereias são as criaturas mais lisas que existem, dez vezes mais que o sabão, de modo que a sereiazinha escorregou das unhas de Miguel e lá se foi para o fundo, tal qual a primeira.

            — Que pena, vovó! — exclamou Narizinho. — Todas as histórias de sereias acabam sempre assim. Quando chega a hora de agarrar uma, acontece isto ou aquilo e elas escapam…

            — Hei de fazer uma história diferente — declarou Emília. Uma história onde todas as sereias sejam agarradas e amarradas e trazidas para a cidade dentro dum caminhão.

            — Pois você errará, Emília, se escrever uma história assim — disse Dona Benta. — Além de ser uma judiação arrancar do seu elemento criaturas tão lindas, essa pesca e essa trazida para a cidade em caminhão viria destruir a beleza e o mistério das sereias. Sabe o que acontecia? Os jornais davam o retrato delas impresso em tinta preta (nos livros elas aparecem em lindas pinturas de cores macias); os sábios de óculos vinham estudá-las, isto é, abri-las com as suas facas chamadas bisturis para ver o que tinham dentro, e mil outros horrores. Não, Emília. É melhor que ninguém nunca pegue uma sereia — nem você tampouco. Na sua historinha, agarre a sereia, mas faça que ela escape no momento de entrar para o caminhão. Ficará muito mais poética a sua historinha, eu garanto.

            — Credo! disse tia Nastácia. — Os homens são tão malvados que até eram capazes de picar as coitadas em pedaços, para vender nos açougues lombo de sereia, entrecosto de sereia, rabo de sereia, miolo de sereia…

            — Continue, vovó — pediu Pedrinho. — A sereiazinha escapou e…

            — E sumiu-se no fundo d’água, indo avisar as outras, de modo que naquele dia não houve mais sereias na superfície do lago.

            — E os meninos voltaram para a casinha de Wendy…

            — Não. Em vez de sereia apareceu ao longe um bote. Os piratas do Capitão Gancho, que haviam ancorado o seu navio a uns dez ou doze quilômetros daquele ponto, lá vinham vindo de bote para o lado dos pegadores de sereias. Como fosse grande o perigo, a meninada tratou de voltar para a praia quanto antes. O meio era um só — nadar, e pois lançaram-se à água e nadaram para terra sem sequer volver os olhos para trás.

            Só Peter Pan se animou a fazer isso. Olhou e viu que Pantera Branca, a chefa dos índios Peles-Vermelhas, vinha de pé à proa do bote, amarrada com cordas. Peter Pan franziu a testa. Fazia assim sempre que tinha de resolver um problema urgente. Parece que com o tal franzimento de testa ele espremia o cérebro para que espirrasse alguma boa ideia.

            — “Já sei” — murmurou para si mesmo logo depois. — “Os terríveis piratas derrotaram os índios e aprisionaram Pantera Branca, e agora vão abandoná-la num rochedo para que morra afogada pela maré.”

            Peter Pan tinha adivinhado. O bote dirigia-se para o rochedo onde estivera a sereia grande, com ordem do Capitão Gancho para largar lá a índia, bem amarrada com grossas cordas.

            “Mas isso não pode ser!” — pensou consigo Peter Pan.”Preciso salvar a pobre criatura, custe o que custar. Pantera Branca é nossa aliada e nossa amiga.” — Franziu de novo a testa e imediatamente espirrou de dentro do seu cérebro outra ideia muito boa.

            — Qual foi? — quis saber Pedrinho.

            — Ele não disse, mas pelo que fez a gente adivinha. Peter Pan esperou atrás dum rochedo que o bote passasse perto, e em seguida mergulhou na água e foi nadando até ficar bem debaixo da popa. Botou então a cabeça fora d’água e gritou em voz que imitava perfeitamente a voz de bêbedo do Capitão Gancho:

            — Com seiscentos bilhões de caravelas, cortem já as cordas dessa índia e soltem-na!”

            Os piratas estranharam semelhante ordem, pois era absurdo soltar, assim sem mais nem menos, uma inimiga que lhes custara tanto a prender. Mas ordens do Capitão Gancho eram ordens; ninguém as discutia, sob pena de levar terríveis ganchadas no nariz. Não estavam vendo o chefe, mas a voz era dele. Nada mais lhes restava senão obedecer — e portanto cortaram as cordas da índia, dizendo-lhe:

            — “Está livre. Faça o que quiser.”

            — E que é que ela quis? perguntou Emília.

            — Pantera Branca só quis uma coisa: ver-se bem longe daquela gente, e por conseguinte lançou-se à água e foi nadando, melhor que um peixe, para onde estavam os meninos, lá na praia. Nisto Peter Pan notou que alguém vinha se dirigindo a nado para o bote dos piratas. Era o Capitão Gancho, que havia ficado sozinho no navio para contar um saco de moedas de ouro. Terminara o serviço e agora nadava a toda velocidade para ter o gosto de assistir à morte da pobre índia.

            — Estou imaginando a cara dele ao dar com o bote vazio!…

            — Realmente. Quando chegou e soube do acontecimento, encheu-se da maior cólera da sua vida e avançou para os piratas para ganchá-los a todos sem dó nem piedade. Eles, porém, não estiveram por isso, e atirando-se à água fugiram ainda mais rápidos que a índia.

            Sozinho no bote, o Capitão Gancho tomou os remos e virou a proa para terra, vogando na direção onde via os meninos e a índia. Sua ideia era recapturar Pantera Branca, aproveitando-se do extremo cansaço em que, depois de tantos padecimentos, ela devia estar.

            Peter Pan, que já havia alcançado a praia, compreendeu o perigo. A índia exausta mal podia consigo e fatalmente iria de novo cair nas unhas do chefe dos piratas. O remédio era enfrentar o Capitão Gancho, atracando-se com ele em luta corpo-a-corpo.

            — Gosto dum menino assim! — disse Narizinho entusiasmada. — Não tem medo de coisa nenhuma. Isso é que é.

            Pedrinho olhou-a com o rabo dos olhos, como se tais palavras fossem alguma indireta para ele. Mas não eram.

            Dona Benta prosseguiu:

            — O pirata chegou àquela praia. Desembarcou, e imediatamente Peter Pan o atacou. A luta foi medonha. Se o Capitão tinha mais força que seis Peter Pans reunidos, em compensação Peter Pan tinha mais agilidade do que seis Ganchos. Essa  desigualdade tornava as forças bem equilibradas.

            Lutaram, lutaram muito tempo, ora na praia, ora dentro d’água, e por fim sobre o rochedo mais próximo. Era luta a unhadas. Por fim o pirata, já de língua de fora de tão cansado, compreendeu que era impossível vencer o terrível menino, e sem a menor vergonha fugiu. Saltou para o bote e fugiu! Era a segunda vez que Peter Pan o derrotava em luta corpo-a-corpo. Ficou todo arranhadinho mas vitorioso e glorioso.

            — “Viva Peter Pan!” — gritou uma voz no rochedo. O menino voltou-se. Era Wendy. Em vez de seguir os outros, que tinham corrido para longe dali, ela havia ficado para acompanhar de perto a luta.

            — “Wendy, Wendy!” — gritou ele aflito. — “Sabe que está correndo o maior dos perigos? A maré já começa a crescer e como você não tem forças para nadar até à praia, corre o perigo de morrer afogada.”

            A situação era sem dúvida das mais graves. Peter Pan franziu de novo a testa. Precisava descobrir um meio de salvar a querida mãezinha dos meninos perdidos antes que a maré subisse a ponto de engolir o rochedo com ela e tudo. Bote não havia. Carregá-la às costas era perigoso. Que fazer? Olhou para a direita, olhou para a esquerda, olhou para baixo, olhou para cima. Acertou em olhar para cima.

            Viu um enorme papagaio de papel que voava lá bem em cima, com um rabo de tira de pano que tocava a superfície das águas.

            Teve uma ideia. Agarrar o rabo do papagaio e amarrá-lo à cintura da menina. Deu jeito e assim fez. Amarrou o rabo do papagaio à cintura de Wendy e esperou. Instantes depois o vento cresceu; o papagaio subiu mais alto, esticou o rabo — Wendy lá se foi pelos ares…

            — “Adeus, Wendy! Adeus!” — gritava Peter Pan enquanto ela subia, subia…

Estava salva a menina. Peter Pan tinha agora de salvar-se a si próprio. Outro papagaio não havia. Ficar ali por mais tempo era perigoso, porque a maré já ia bem alta e breve engoliria o rochedo. Em nadar ele nem pensava, porque o cansaço da luta o tinha posto bambo. Que fazer? Olhou para todos os lados em procura de salvação. Súbito, viu ao longe um grande ninho de ave aquática, que fora arrancado pelo vento e lançado à água. Vinha boiando, como uma barquinha redonda. A ave estava dentro, aninhada sobre os ovos.

            — “Viva!” — exclamou Peter Pan batendo palmas. — “Eu não poderia ter coisa melhor. Barco e almoço de ovos ao mesmo tempo!…”

            Esperou mais um pouco; logo que o, ninho chegou a algumas braçadas do rochedo, lançou-se à água e com esforço nadou até ele. Espantou a ave com três berros e lhe tomou o lugar em cima dos ovos.

            — Que engraçado! — exclamou Emília. — Vão ver que em vez de comê-los Peter Pan chocou os ovos e chegou à casinha de Wendy com uma ninhada de pintos aquáticos!

            — Ele não pensou nisso — declarou Dona Benta. — Tratou mas foi de tirar a camisa e fazer uma vela muito boa. O vento deu na vela e impeliu a estranha embarcação para o ponto onde estavam os meninos e a índia. Meia hora depois Peter Pan lá chegava, são e salvo.

            Foi recebido com uma gritaria infernal, de entusiasmo, não só pela surra que dera no Capitão Gancho, como pela habilidade com que salvara Wendy e também a si próprio.

            — “Viva! Viva Peter Pan!” — gritavam todos, pulando e batendo palmas. — “Viva o menino que não tem medo de nada!”

            Todos abraçaram-se, beijaram-se e disseram-se mil coisas. Pantera Branca narrou a triste história do combate em que seus índios foram derrotados pelos piratas. Wendy contou a história do seu vôo amarrada ao rabo do papagaio, e de como conseguira agarrar-se a uma árvore perto daquele ponto. Os outros nada contaram, porque nada haviam feito.

            A grande aventura do Lago das Sereias tinha acabado muito bem. Só havia neste ou naquele um ou outro arranhão — isto sem contar os seis riscos de ganchadas que Wendy descobriu nas costas de Peter Pan.

            — “Vamos depressa para casa” — disse a menina aflita. — “Preciso preparar um remédio para essas machucaduras.”

            Dona Benta interrompeu a história nesse ponto, deixando o resto para o dia seguinte.

            Começaram os comentários.

            — Só não gostei duma coisa — disse Emília. — Peter Pan não devia ter deixado os ovos no ninho. Se eu fosse ele, levava-os para chocar na casinha.

            — Chocar omeleta? — disse tia Nastácia. — Aposto que os ovos ficaram numa pasta! Onde já se viu um meninão como aquele viajar dentro dum ninho sem quebrar os ovos todos? O contador da história nunca foi cozinheiro e por isso não entende de ovos. Mas eu, que sou cozinheira, sei muito bem o que aconteceu. Virou tudo omeleta…

            O Visconde nada disse. Andava de olhinho aceso, examinando as poeirinhas do chão e “deduzindo.” O que ele queria saber era uma coisa só: qual o rato que roía a sombra da negra…

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