Monteiro Lobato

A Chave do Tamanho

Capítulos 13 e 14

 

13 – Revelações

         O sol estava quente. Emília, afogueada pelo exercício não pôde mais com o calor do algodão. Despiu-se e ficou nuazinha na palma da mão do Visconde, só de botas. Ele ergueu-a à altura do nariz e disse:

         — Pode falar. Conte tudo o que houve.

         Emília contou tudo — a sua viagem à Casa das Chaves, a puxada para baixo da Chave do Tamanho e o “apequenamento”.

         O Visconde horrorizou-se.

         — Será possível? Então foi você, Emília, a causadora do tremendo desastre que vitimou a “humanidade clássica?”

         — Fui eu, sim, mas não foi por querer. Eu queria apenas descobrir a Chave da Guerra, só isso. Mas as chaves não tinham letreiro. Resolvi então ir mexendo em todas até acertar. A primeira que peguei era a Chave do Tamanho — quem primeiro ficou sem tamanho fui eu. E como perdi o tamanho, não pude erguer de novo aquela chave — e pronto.

         O Visconde não voltava a si do assombro.

         — É espantoso o que você fez, Emília! Isso já não é reinação. Isso é catástrofe! Pelo que observei lá no sítio estou imaginando o que se deu no mundo inteiro — e agora eu ia indo à cidade para assuntar, para ver se o apequenamento alcançou todas as criaturas.

         — Já estive lá e vi — volveu Emília. — Alcançou sim. O tamanho de todas as gentes levou a breca. Quem manda agora nas cidades são as galinhas, os passarinhos e os gatos — e contou a história do pinto sura. Se não fosse aquele malvado, eu estava muito bem lá no sítio. Ele é que me atrapalhou.

         — Pois o que você fez passa de todas as contas, Emília! Se os homens souberem, não perdoam. Agarram-na e assam-na viva na maior das fogueiras. Incrível! Destruir o tamanho das criaturas!… Sabe que isso corresponde a destruir toda a civilização humana? Desde que o mundo é mundo, os homens, com as maiores dificuldades, foram construindo essa civilização feita de casas, máquinas, estradas, veículos, ideias. Tudo estava em relação com o tamanho natural dos homens. Mas agora com a redução do tamanho, nada mais serve e, portanto, o que você fez, Emília, foi destruir a civilização! Des-tru-ir a ci-vi-li-za-ção!… Do tamanhinho que os homens ficaram, eles têm de criar outra civilização muito diferente — isso na hipótese de subsistirem. O Visconde gostava muito da palavra “subsistir”.

         — Pois podem subsistir muito bem — resolveu Emília. — Eu estou subsistindo perfeitamente. Já escapei de vários perigos — duma “paquinha” feroz, do Manchinha, da aranha caranguejeira, do beija-flor, do vento, da tempestade — e posso ir escapando de mil outros. Juro que vou subsistir. Apliquei em meu corpo este mimetismo do algodão e pronto.

         — Mas, Emília, lembre-se que você é você e os outros são os outros. Quantos homens já não pereceram? Só os que não puderam sair de dentro das roupas, quantos e quantos, Emília!… E os milhões de soldados em guerra lá na Rússia em pleno inverno, que terá acontecido com eles?

         — Ah, esses viraram picolé — juro!…

         — E não se horroriza com isso? Ainda caçoa?

         — Por que horrorizar-me? Eles não estavam se matando uns aos outros? Eu até lhes poupei o horrível trabalho da matança a tiros de canhão.

         — E pelas cidades e roças do mundo inteiro! Quando imagino o que deve ter acontecido nas cidades e nos campos, meus cabelos ficam de pé.- E agora venho a saber que a causadora de tudo foi você, a Emília — a Emilinha lá do sítio de Dona Benta!… Evidentemente você se excedeu, Emília.

         O Visconde estava tão tonto com os acontecimentos, e ficou tão bravo com ela, que Emília danou e sustentou o que havia feito.

         — Pois acabei com o Tamanho e fiz muito bem! — disse ela. — Para que esse trambolho do Tamanho? Não há tantos e tantos milhões de seres que vivem sem tamanho? Tamanho é atraso. Quer uma coisa mais atrasada que um brontossauro ou mastodonte? Tão atrasados que levaram a breca, não aguentaram a “glaciação”, como o Walt Disney mostrou na Fantasia.

         Compare a estupidez desses monstros tamanhudos com a leveza inteligente duma abelha ou formiga — e por isso os brontossauros e mastodontes só existem hoje nos museus, enquanto as abelhas e as formigas andam por toda parte aos bilhões. Eu acabei com o Tamanho entre os homens e fiz muito bem. Um dia a humanidade nova me há de agradecer o presente, depois que a raça nova dos “homitos” se adaptar.

         O Visconde suspirou.

         — Adaptar-se! Você usa das palavras da ciência mas não sabe. Repete-as como papagaio. Isso de adaptação é certo, mas é coisa de milhares de milhões de anos, Emília. Pensa então que do dia para a noite essa enorme população humana, que você apequenou e está nos maiores apuros, vai ter tempo de adaptar-se? Morre tudo antes disso, como peixe fora d’água — e adeus Homo sapiens!

         — Homo sapiens duma figa! Morrem muitos, bem sei. Morrem milhões, mas basta que fique um casal de Adão e Eva para que tudo recomece. O mundo já andava muito cheio de gente. A verdadeira causa das guerras estava nisso — gente demais, como Dona Benta vivia dizendo. O que eu fiz foi uma limpeza. Aliviei o mundo. A vida agora vai começar de novo — e muito mais interessante. Acabaram-se os canhões, e tanques, e pólvora, e bombas incendiárias. Vamos ter coisas muito superiores — besouros para voar, tropas de formiga para o transporte de cargas, o problema da alimentação resolvido, porque com uma isca de qualquer coisa um estômago se enche, et coetera e tal.

         — Mas…

         O Visconde, como bom sábio que era, engasgou e começou a achar razãozinha nas ideias da Emília.

         — Pense bem, Visconde. A tal “civilização clássica” estava chegando ao fim. Os homens não viam outra solução além da guerra — isto é, matar, matar, matar, destruir todas as coisas criadas pela própria civilização — as cidades, as fábricas, os navios, tudo. Pense bem, Visconde. Essa tal civilização havia falhado. Havia enveredado por um beco sem saída — e a saída que achava qual era? Suicidar-se a tiros de canhão. Ora bolas! Eu até me admiro de ver um sábio com um cartolão desse tamanho defender um mundo de ditadores, cada qual pior que o outro.

         O Visconde começava a concordar.

         — Além disso — continuou Emília — se os homens querem regressar à tal besteira do tamanho, nada mais fácil. Sua alma, sua palma.

         — Como?

         — Muito simples. Poderei voltar à Casa das Chaves. Eu sei o jeito. Iremos juntos. Como não tenho força para levantar a chave, o Visconde a levanta e pronto — tudo fica outra vez tamanhudo — e que se fomentem — que se matem à vontade — que se devorem. Eu me desinteresso. Quis o bem da humanidade. Acabei com a estupidez maior de todas, que era o Tamanho. Mas não querem? Não estão contentes? Teimam em continuar na vida de mastodontes bípedes? Pois sua alma, seu palmito! Que volte o Tamanho. Mas depois não venham se queixar para mim…

         O Visconde estava pensando. Sim, Emília tinha razão. Eles podiam fazer uma consulta aos homenzinhos. Se quisessem voltar ao tamanho antigo, muito que bem: Se não quisesse, melhor. Lá no fundo do coração o Visconde preferia que as coisas ficassem como estavam, porque ele passara a gigante, em vez de continuar um simples sabugo. E Emília realmente tinha razão. Os insetos são os seres mais aperfeiçoados que existem e não têm tamanho. Ora, com a sua inteligência os homens pequeninhos poderiam dominar os insetos, utilizar-se de milhares deles para mil coisas e construir uma nova civilização muitíssimo mais interessante que a velha. E resolveu:

         — Pois bem, Emília, faremos uma consulta aos povos do Picapau Amarelo. Se a maioria quiser a volta do Tamanho, iremos juntos até à tal Casa e recolocarei a chave na posição em que você a encontrou. E se a maioria quiser esta Ordem Nova, então que fique tudo como está.

         — Pois é! — concordou Emília. — O remédio agora é um ‘bom “chá de plebiscito”. Mas por causa das dúvidas, Visconde, não conte a ninguém que fui eu a bulidora da chave. Ninguém precisa saber — nem Dona Benta, nem Narizinho. Jura que não conta?

         — Está claro que juro. Se eu contasse, você estaria perdida…

         Acertados aqueles pontos, Emília desfiou a história do Major Apolinário, Dona Nonoca e tia Febrônia e de como ela se havia tornado a tutora dos dois órfãos.

         — O vento levou pelos ares a Candoca, e o Juquinha com certeza afogou-se no enxurro. Mas, para sossegar a nossa consciência, podemos procurá-los.

         Depois resolveram diversos pontos da vida nova.

         — Eu viajarei muito bem dentro da sua cartola, Visconde. Basta que me abra ali uma janelinha.

         O Visconde aprovou a ideia. Depôs Emília no chão, tirou da cabeça a cartola e com o corte duma lasca de quartzo abriu no papelão da cartola uma janelinha de 3 por 3 milímetros.

         — Maior, Visconde. Faça uma janelinha de 3 por 9.

         — Por quê?

         — Porque se encontrarmos o Juquinha e a Candoca, eles terão de seguir comigo aqui dentro — e também precisam de janela.

         O Visconde abriu um janelão de 3 por 10.

         — Antes maior do que menor. Assim ninguém brigará em cima da minha cabeça por falta de espaço vital…

 

14 – A caminho do Picapau Amarelo

         Emília não se contentou com a janelinha aberta na cartola do Visconde. Exigiu mais.

         — Quero uma porta da rua e uma escadinha que vá da aba até essa porta. E também um assoalho, porque não hei de ficar pisando na sua cabeça.

         O Visconde suspirou. Emília continuava a mandona de sempre. Queria e acabou-se. Olhando em redor, em procura de materiais de construção, o obediente Visconde viu uma casca de laranja. Apanhou-a e com a lasquinha de quartzo recortou uma rodela do tamanho dum níquel grande que ajustou dentro da cartola. Era o assoalho. Em seguida fez uma escadinha de sete degraus, que ia da aba da cartola até a porta da rua.

         Emília ainda exigiu um corrimão na escada e uma cerca em redor da aba.

         O Visconde construiu uma cerca de dois fios, com moirões de espinho.

         — Só? — perguntou ao concluir o trabalho.

         — Ainda não — respondeu Emília. — Quero uma escadinha de corda que desça da aba até à terra, como as usadas nos navios e também uma campainha.

         — Campainhia, como?

         — Basta um fio amarrado a uma das palhas da sua barba. Quando houver precisão dum chamado urgente, puxo o fio e pronto.

         — Não vejo necessidade de semelhante coisa, arrenegou o Visconde. Quando quiser falar comigo, basta chegar a janela e gritar. A janela é pertinho do meu ouvido.

         Emília deu uma risada.

         — O Visconde não se conhece. Os sábios são as criaturas mais distraídas do mundo. Quando o Visconde está ruminando uma ideia qualquer, não ouve nem tiro de canhão, quanto mais um chamadinho meu. Com o fio preso à barba, a coisa muda. Dou um puxão. A dor “acorda” o Visconde.

         Tudo foi feito como ela quis, e depois de instalada lá dentro Emília ainda reclamou uma chaminé — por causa da ventilação. O Visconde teve de espetar em cima da cartola um canudinho de capim.

         Muito bem. Podiam continuar a viagem. Para onde? O Visconde saíra do sítio para “assuntar”, isto é, ver se todas as criaturas humanas estavam diminuídas, ou se a redução se dera apenas em casa de Dona Benta. Mas o encontro com Emília tornava inútil a ida à cidade. Todas as criaturas estavam reduzidas, sim, e a autora da grande transformação era a isca de gente que se acomodara em sua cartola!

         — Creio que podemos voltar — disse ele. — Minha ida à cidade já não tem razão de ser.

         — Sim — concordou Emília — mas só depois de procurarmos os meus órfãos. Acho impossível que eles tenham escapado da chuva — mas quem sabe? Temos de procurá-los.

         — Onde foi que se perderam?

         — A Candoca estava justamente naquele capim quando o vento a levou — respondeu Emília lá da sua janela, indicando um lugar no barranco. E o Juquinha estava comigo na Praia Preta.

         — Que Praia Preta é essa?

         Emília explicou tudo, e o Visconde pôs-se a andar em procura de coisinhas brancas, porque aparentemente os dois órfãos não passavam de dois fiapos de algodão.

         Nada encontrou. Sobre a estrada vermelha não viu brancurinha de espécie alguma.

         Emília ia pensando em toda as hipóteses imagináveis. O certo era estarem mortos, reduzidos a lama ou afogados nas lagoas que a chuva formara no tijuco. Isso era o certo. Mas havia o incerto — e era no incerto que Emília levantava as suas hipóteses.

         — Podem muito bem estar em outro ninho. Os beija-flores andam agora com a mania de ovo e a apanhar quanta paina ou algodão encontram.

         O Visconde pôs-se à caminhar com os olhos no barranco em procura de ninhos de beija-flor. Deu com um; subiu e espiou dentro; nada de chumaços, só viu dois ovinhos — e por ordem da Emília furtou um para o abastecimento da cartola. Mais adiante encontrou outro — e nesse estavam os dois chumaços.

         — Viva! Viva! — gritou Emília, batendo palmas. — Bem diz o ditado que quem procura acha.

         O Visconde tomou na ponta dos dedos os dois algodões e largou-os em cima da aba.

         — Subam pela escadinha — disse Emília da janela — e os dois órfãos subiram e entraram.

         Emília mostrou-lhes a casa nova e explicou quem era o “Colosso de Rodes” em cuja cabeça iam morar. Juquinha ficou radiante. Foi para a janela e começou a fazer planos. “Podemos pegar um besouro e amarrá-lo a um dos moirões da cerca. Enquanto eu não voar eu não sossego.” A Candoca havia entrado com um bico de choro, mas não chorou. Por que chorar, se estava bem abrigada naquela casinha de porta, janela e ovo?

         Por ordem da Emília, Juquinha abriu com a lança um furo na casca do ovo. “E deixe o espinho aí. Quem tiver fome, que dê uma fisgada na gema e regale-se.”

         — Bem, — disse lá fora a voz do Visconde — que soava para eles como voz  vinda da rua. — Creio que posso voltar para o sítio.

         Emília correu a debruçar-se à janela.

         — Sim, podemos ir — e vá contando como foi a tragédia lá em casa.

         O Visconde pôs-se em marcha, com aquelas suas gigantescas passadas de meio palmo cada uma, e foi contando.

         — Eu estava no laboratório, ocupado em fabricar mais superpó, porque algum ladrão havia furtado a minha reserva. De repente Pedrinho entrou e disse: “Visconde, a Emília desapareceu e vovó está inquieta.” Eu respondi que minha caixa de superpó também havia desaparecido.

         Pedrinho iluminou a cara e exclamou: “Hum! Estou entendendo!” Eu estava com os olhos fixos em Pedrinho quando, exatamente nesse instante, isto é, no instante em que ele acabou de pronunciar a palavra “entendendo” a sua cabeça desapareceu, e sua roupa caiu em monte no assoalho, como se não tivesse corpo dentro. Fiquei impressionadíssimo. Era um fenômeno acima de qualquer compreensão. Olhei para o monte, com os olhos arregalados. Que seria aquilo? Que fim levara o menino? Tudo mistério.

         Sentei-me então diante do monte de roupa e fiquei a parafusar hipóteses. Mas por mais que parafusasse hipóteses não achava nenhuma que servisse. Aquilo me pareceu o mistério dos mistérios.

         Emília, lá da janelinha, regalava-se com a história. O Visconde continuou:

         — Eu positivamente não entendia nada. Cheguei a supor que fosse um sonho. Nisto dei com uma cabeça, do tamanho duma pimenta-do-reino, que ia saindo pela perna da calça caída no chão. Evidentemente uma cabecinha de inseto. Depois saiu um pescoço — e ombros, braços, tronco, pernas — e tive a impressão dum inseto descascado totalmente desconhecido da ciência. Corri em procura do meu vidro de aumento. Aquele inseto era o assombro dos assombros, porque todos os insetos têm seis pernas e nele eu só via duas — e além disso ficava de pé, como os bípedes, coisa que inseto não faz. O laboratório estava meio no escuro. Fui abrir a janela. Assestei de novo o vidro de aumento e então vi que era um menino em miniatura. E afinal o reconheci: Pedrinho em pessoa, mas sem tamanho!

         — De que tamanho ele ficou?

         — Você verá quando chegar. Mas meu espanto não teve limites. A ciência não explicava o prodigioso fenômeno. Notei que Pedrinho havia perdido a fala. Só minutos depois conseguiu falar, murmurando numa vozinha de mosquito: “Que foi que aconteceu? Tudo está tão diferente e grande…” Custou a convencer-se de que nada estava grande, ele é que diminuíra.

         — Tal qual a gente do Major Apolinário — disse Emília. Imaginavam que as coisas é que haviam aumentado — e eu até fiquei atrapalhada para provar o contrário.

         O Visconde continuou:

         — Pedrinho estava completamente bobo, o que era natural, pois uma transformação daquela ordem desorganiza as ideias duma criatura. Não há quem resista.

         — Eu resisti! — berrou Emília.

         — Sim, mas você é você — uma criatura sui-generis. — O Visconde gostava muito de aplicar esse latim ao acaso da Emília.

         — E depois?

         — Depois levei Pedrinho na palma da mão para mostrá-lo a Dona Benta. Chegando à sala de jantar, não vi ninguém. Só vi montes de roupa no chão — e reconheci essas roupas. Um dos montes era feito daquele vestido de fustão amarelo com pintas verdes que você conhece — o vestido com que Dona Benta se levantara naquele dia. Perto desse monte vi outro, no qual reconheci a roupa de tia Nastácia. E num monte menor reconheci o vestido de listras brancas e pretas de Narizinho. Fui assaltado por uma ideia.

         “Querem ver que também a eles aconteceu a mesma coisa?” E para verificar sacudi o vestido da menina. Sabe o que aconteceu? Pela manga rolou outro inseto descascado, ela — Narizinho em pessoa, e tão reduzida de tamanho quanto Pedrinho!… E eu ia sacudir os outros montes de roupa, quando dei com uma içá preta: tia Nastácia! E depois, outro inseto branco: Dona Benta! Ambas haviam conseguido sair de dentro das roupas.

         — Que graça!

         — O que houve então, nem queira saber! Ninguém entendia nada. Tia Nastácia amontoava pelos-sinais um em cima de outro e era só “Credo!” e mais “Credo!” Dona Benta e Narizinho abraçavam-se muito agarradas, como mães e filhas durante os naufrágios no mar. Que cena, meu Deus!

         — E todos nus?

         — Sim, todos nus — respondeu o Visconde.

         — E não tinham vergonha?

         — Parece que não. Nem percebiam que estavam nus.

         — Então é exatamente como pensei. Isso de vergonha do corpo é questão de tamanho. E depois?

         — Depois deitei-me no assoalho para melhor conversar com eles, e não teve fim o que dissemos. Cada qual admitia uma hipótese. Narizinho foi a primeira a achar possível ter acontecido a mesma coisa a toda a humanidade. Essa ideia me impressionou. “Preciso verificar esse ponto”, disse eu — e daí me veio a ideia de chegar até a vila.

         — Teve então a coragem de deixá-los lá sozinhos? — perguntou Emília indignada.

         — Era preciso — mas tomei todas as precauções.

         — Que precauções?

         — Coloquei-os em cima da cômoda do quarto de Dona Benta, com umas comidinhas para irem se distraindo.

         — Que comidinhas, Visconde?

         — Açúcar e farelo de pão. E água.

         — Em que vasilha botou a água?

         — Numa tampinha de garrafa de cerveja. E saí. Fui ao pasto, em procura do Conselheiro. “Olhe”, disse-lhe eu, “passou-se lá na casa uma coisa tremendamente misteriosa e absurda: todos ficaram pequenininhos como insetos.” O Burro Falante arregalou uns olhos deste tamanho. Depois riu-se, pensando que fosse brincadeira minha. “É verdade, sim, Conselheiro. Bem sabe que não brinco” — e como ele também não brinca, deu crédito às minhas palavras, e derrubou o beiço. Contei-lhe então que ia sair — que ia chegar até à cidade para ver se o fenômeno pegara todas as criaturas humanas. “E, portanto, faça-me o favor de ficar no terreiro, perto da varanda, e não deixe que nenhum gato ou ave se aproxime. Eles estão sobre a cômoda do quarto de Dona Benta.” Fiz essa recomendação e finquei o pé na estrada.

         — Não avisou também ao Quindim?

         — Ele andava longe. Pedi ao Conselheiro que o avisasse.

         Juquinha já lera nos livros a história do rinoceronte do Picapau Amarelo, de modo que ao ouvir falar em Quindim assanhou-se. Seu sonho sempre fora dar um passeio montado no tremendo paquiderme. “Isso era bom antigamente”, explicou Emília, “quando éramos grandes. Agora, deste tamanhinho, um rinoceronte está para nós como o Himalaia está para o Coronel Teodorico. Andar montado nele já não nos dará sensação nenhuma — a gente nem percebe os seus movimentos.” Juquinha não quis acreditar.

         — É, sim, — afirmou Emília. — Tal qual a Terra. Este nosso planeta rola no espaço com uma velocidade incrível sem que nós percebamos coisa nenhuma. Por quê? Porque somos pequeninos demais em relação à Terra.

         Juquinha suspirou.

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