A Chave do Tamanho
Capítulo 25 (último)
25 – A volta do Tamanho
Foram. Lá na Casa das Chaves o Visconde com facilidade colocou a Chave do Tamanho na posição antiga, e o fenômeno que sé operou foi o reverso do apequenamento — foi um instantâneo engrandecimento. Todos os minúsculos insetos descascados, em todos os países, subitamente voltaram ao velho tamanho anterior — e o que aconteceu daria assunto para um livro ainda maior que este.
Os insetos que estavam em buraquinhos ou frestas sofreram horrores, porque o “entalamento” não os deixava sair. Supõe-se que milhares de criaturas morreram assim. Aos que foram restituídos ao tamanho anterior a primeira coisa que lhes doeu foi a vergonha. Vexadíssimos de se verem nus, lançaram-se aos montinhos de roupas mais próximos e foram se vestindo precipitadamente. Ficou uma humanidade o que havia de cômica, dada a inevitável troca de roupas — homens vestidos de mulher, mulheres vestidas de homem, este com calças muito curtas e aquele com mangas sobrando — um verdadeiro carnaval. A fúria com que a vergonha havia voltado deu razão a Emília — vergonha é uma simples questão de tamanho.
Lá na cômoda houve um grande tombo. Aquele imenso retângulo de madeira envernizada onde caberiam folgadas centenas de criaturinhas reduzidas não comportou o volume das sete pessoas subitamente agrandadas — e caiu gente de todos os lados. E como as tanguinhas e mais vestuários de algodão em rama arrebentassem, todos se sentiram terrivelmente nus — e veio o mesmo corre-corre para as roupas. Tia Nastácia nem se lembrou de xingar o Coronel Teodorico, de tão atrapalhada em enfiar suas saias lá na saleta. Em segundos estavam todos vestidos como sempre — exceto o Juquinha, a Candoca e o Coronel, cujas roupas haviam ficado em suas respectivas residências. Pedrinho levou o novo amigo para o seu quarto, onde lhe deu um terno velho; Narizinho cuidou de Candoca. Mas quem iria cuidar do Coronel?
Quando Emília e o Visconde reapareceram, de volta da Casa das Chaves, já igualados em tamanho, porque os dois mediam 40 centímetros, a situação era aquela: todos restaurados no tamanho natural, todos vestidos e todos presentes, menos um — o Coronel.
— Que é do Coronel?
— Ninguém sabia.
Procura que procura, foram encontrá-lo escondido no guarda-roupa de Dona Benta.
— Estou descomposto — disse ele lá de dentro. — Mandem buscar minhas roupas lá em casa.
— Credo! — exclamou tia Nastácia, persignando-se. Imaginem em que estado vai ficar a roupa de Sinhá com esse cavalão em pelo pisando em tudo lá dentro…
1942
