Monteiro Lobato

Histórias de Tia Nastácia

 Capítulos 21, 22, 23 e 24

 

21 – O rabo do macaco

       

         Era um macaco que resolveu sair pelo mundo a fazer negócios. Pensou, pensou e foi colocar-se numa estrada, por onde vinha vindo, lá longe, um carro de boi. Atravessou a cauda na estrada e ficou esperando.

         Quando o carro chegou e o carreiro viu aquele rabo atravessado no caminho, deteve-se e disse:

         — Macaco, tire o rabo da estrada, senão passo por cima.

         — Não tiro! — respondeu o macaco — e o carreiro passou e a roda cortou o rabo do macaco.

         O bichinho fez um barulho medonho.

         — Eu quero meu rabo, eu quero meu rabo — ou então uma faca!

         Tanto atormentou o carreiro que este sacou da cintura a faca e disse:

         — Tome lá, seu macaco dos quintos, mas pare com esse berreiro, que está me deixando zonzo.

         O macaco lá se foi, muito contente da vida, com a sua faca de ponta na mão. “Perdi meu rabo, ganhei uma faca! Tinglin, tinglin, vou agora para Angola!”

         Seguiu caminho. Logo adiante deu com um tio velho que estava fazendo balaios e cortava o cipó com os dentes.

         — Olá, amigo! — berrou o macaco. — Estou com dó de você, palavra! Onde já se viu cortar cipó com os dentes? Tome esta faca de ponta.

         O negro pegou a faca mas quando foi cortar o primeiro cipó a faca se partiu pelo meio. O macaco botou a boca no mundo.

         — Eu quero, eu quero minha faca — ou então um balaio!

         O negro, tonto com a gritaria, acabou dando um balaio velho para aquela peste de macaco — que, muito contente da vida, lá se foi cantarolando: “Perdi meu rabo, ganhei uma faca; perdi minha faca, pilhei um balaio! Tinglin, tinglin, vou agora para Angola!”

         Seguiu caminho. Mais adiante encontrou uma mulher tirando pães do forno, que recolhia na saia.

         — Ora, minha sinhá — disse o macaco — onde se viu recolher pão no colo? Ponha-os neste balaio.

         A mulher aceitou o balaio, mas quando começou a botar os pães dentro, o balaio furou. O macaco pôs a boca no mundo.

         — Eu quero, eu quero o meu balaio — ou então me dê um pão.

         Tanto gritou que a mulher, atordoada, deu-lhe um pão. E o macaco saiu a pular, cantarolando: “Perdi meu rabo, ganhei uma faca; perdi minha faca, pilhei um balaio; perdi meu balaio, ganhei um pão. Tinglin, tinglin, vou agora para Angola!”

         E lá se foi, muito contente da vida, comendo o pão.

        

          — Foi para onde? — indagou Emília. — Para Angola?

          — Sei lá para onde o macaco foi! — respondeu tia Nastácia. — Para Angola não havia de ser, que é muito longe. Foi para o mato, que é a Angola dos macacos.

          — Esperei que a história acabasse melhor — disse Narizinho. — A esperteza do macaco para ganhar coisas está boa, apesar de que isso de dar parte do corpo em troca duma faca não me parece negócio. Mas o inventor da história chegou no meio e não soube como continuar; por isso parou no pão.

          — É, sim — concordou Pedrinho. — Ele devia fazer o macaco ir ganhando coisas de valor cada vez maior, para mostrar que com esperteza uma pessoa consegue tudo quanto quer na vida. Mas o pobre macaco fazia os negócios e ia ficando na mesma. Saía perdendo sempre.

          — Bobinho! — exclamou Emília. — Dar a cauda por uma faca ordinaríssima, que quebra ao cortar um cipó, parece-me o pior negócio do mundo. Depois trocou a faca por um balaio velho e podre. Outro negócio péssimo. E acabou trocando o balaio por um pão. Comeu o pão e ficou sem balaio, sem faca e sem cauda. Isso é mesmo o que se chama “negócio de macaco”. E ainda acham que macaco é bicho ladino! — observou a menina.

          — Não — disse dona Benta. — Nas histórias populares o mais ladino não é o macaco, sim a raposa e o jabuti. A raposa, ladiníssima, sai ganhando sempre. Chegou a ficar o símbolo da esperteza. Quando queremos frisar a manha dum político, dizemos: É uma raposa velha! E o jabuti, não sei por que, também ficou com fama de fino. O macaco, coitado, faz suas espertezas mas nem sempre sai ganhando. Esse de tia Nastácia, por exemplo. Lá foi, muito contente da vida, a comer o pão — mas não se lembrou de que estava sem cauda.

          — Tolinho! — gritou Emília. — Quando for trepar a uma árvore é que verá a asneira que fez. Macaco sem cauda é macaco aleijado. Eles fazem na floresta aqueles prodígios de agilidade justamente por causa da cauda. Idiota!

 

22 – O macaco e o coelho

 

         Um macaco e um coelho fizeram a combinação de um matar as borboletas e outro matar as cobras. Logo depois o coelho dormiu. O macaco veio e puxou–lhe as orelhas.

         — Que é isso? — gritou o coelho, acordando dum pulo.

         O macaco deu uma risada.

         — Ah, ah! Pensei que fossem duas borboletas…

         O coelho danou com a brincadeira e disse lá consigo: “Espere que te curo.”

         Logo depois o macaco se sentou numa pedra para comer uma banana. O coelho veio por trás, com um pau, e lept! — pregou-lhe uma grande paulada no rabo.

         O macaco deu um berro, pulando para cima duma árvore, a gemer.

         — Desculpe, amigo — disse lá debaixo o coelho. — Vi aquele rabo torcidinho em cima da pedra e pensei que fosse cobra.

         Foi desde aí que o coelho, de medo do macaco vingar-se, passou a morar em buracos.

 

          — Bravos! — exclamou Emília. — Gostei da historinha. Vale por todas as outras que tia Nastácia contou. Está bem engraçada. Viva o coelho!

          — E também nesta o macaco sai levando na cabeça — observou Narizinho. — O coelho, que é um coitado, mostrou-se mais inteligente.

          — Por que mais inteligente? — contestou o menino. — Mostrou-se, sim, mais mau, porque o macaco apenas lhe puxou as orelhas e ele moeu o rabo do macaco.

          — A inteligência do coelho veio depois — disse Narizinho — quando tratou de morar em buraco para livrar-se da vingança do macaco.

          — Pois é — observou Emília. — Apesar da sua fama de inteligente e  esperto, e de avô do homem, o macaco, pelo menos nas histórias, nem sempre fica de cima.

          — Vocês precisam ler — disse dona Benta — as histórias de macacos que Rudyard Kipling conta naquele livro de Mowgli, o Menino Lobo. Esses macacos de Kipling são os Bandarlogs, nome de certos macacos da Índia. Os outros animais os desprezam, por causa da sua leviandade, da sua falta de seriedade, das suas molecagens. São uns perfeitos louquinhos, os macacos.

          — Até parecem homens — disse Emília, que fazia muito pouco caso nos homens.

          — Macaco é bobo — disse tia Nastácia — mas às vezes acerta a mão e sai ganhando — como aquele que logrou a onça.

          — Conte, conte, pediram os meninos. E tia Nastácia contou a história de…

 

23 – O macaco e o aluá

         Um macaco, uma vez quis fazer aluá, mas estando sem dinheiro para comprar milho…

         Narizinho interrompeu-a:

         — Que história de aluá é essa?

         — É uma petisqueira lá do Norte, que se faz de milho. Mas o macaco, que não tinha dinheiro para comprar milho, armou um plano. Foi à casa do galo, onde comprou um litro de milho para pagar em tal dia e tal hora. Foi à casa da raposa, onde comprou outro litro para pagar a tal dia e tal hora — e marcou uma hora, meia hora depois da hora marcada para o galo. Depois foi à casa do cachorro, onde  comprou outro litro de milho para pagar meia hora depois da hora marcada para o pagamento à raposa. E na casa da onça comprou outro litro de milho para pagar meia hora depois da hora marcada para o pagamento ao cachorro.

         E muito contente da vida com os quatro litros de milho arranjados a crédito, o nosso macaquinho foi para casa fazer uma porção de aluá, que guardou num pote. Depois armou um jirau bem alto e deitou-se em cima, de cabeça amarrada com um pano, como quem está com dor de dente.

         Na hora do primeiro pagamento apareceu o galo.

         — Então, que é isso macaco? Doente assim?

         — Estou que não posso comigo de tanta dor de dente — respondeu o macaco. — Abanque-se e sirva-se do aluá aí do pote.

         O galo sentou-se e começou a servir-se do aluá. Nisto apareceu lá no terreiro a raposa, que vinha cobrar o litro de milho vendido. O galo ficou com a crista branca de medo.

         — Não se assuste, compadre — disse o macaco. — Esconda-se ali no cantinho.

         O galo foi e escondeu-se. Entra a raposa. O macaco, depois de contar a sua doença, manda a raposa servir-se de aluá.

         — Coma, coma, comadre, que está ótimo. O compadre galo já se regalou.

         — Quê? — exclamou a raposa. — O galo andou por aqui?

         — Ali está ele! — disse o macaco, apontando para o cantinho onde o pobre galo se escondera.

         E a raposa foi e comeu o galo. Nisto apontou no terreiro o  cachorro.

         A raposa tremendo de medo, escondeu-se num canto. O cachorro entrou,     muito amável.

         — Pois é — disse o macaco — estou tão doente que nem posso descer da cama. Mas vá se servindo de aluá, compadre cachorro. Está muito bom. A raposa comeu de lamber os beiços.

         — Quê? A raposa esteve aqui?

         — Não esteve, está! — respondeu o macaco, e apontou para o canto onde a pobre raposa se escondera.

         E o cachorro foi e comeu a raposa. Nisto apontou a onça no terreiro.

         Entrou. Soube da doença do macaco, e também, a convite dele, se serviu do aluá.

         — Coma, comadre. O cachorro disse que está da pontinha.

         — Quê? Esteve o cachorro por aqui? O macaco piscou, apontando o cantinho onde estava escondido o pobre cachorro e a onça foi e comeu o cachorro.

         — Bem, macaco — disse ela depois da festança. — Vamos agora ajustar nossas contas. Quero receber o dinheiro do meu milho.

         — É boa! — exclamou o macaco. — Pois então a comadre entra aqui, serve-se do meu aluá, come um cachorro que tinha comido uma raposa que tinha comido um galo, e ainda tem coragem de querer receber o dinheiro dum litro de milho cheio de caruncho?

         A onça, furiosa, deu um pulo para pegar o macaco; mas este saltou do jirau para cima duma árvore e ficou a rir-se da lograda.

         — Deixe estar, macaco, que você me paga! — rosnou ela, e lá se foi ruminando a vingança. Chamou as outras onças e combinou que ficariam tomando conta do riozinho que havia ali, de maneira que o macaco não pudesse beber.

         O macaco ficou atrapalhadíssimo. A sede veio, e sede é coisa que nenhum animal agüenta. Como fazer? Nisto viu uma cabaça de mel. Teve uma lembrança. Lambuzou-se de mel e rolou sobre um monte de folhas secas ficando transformado no Bicho-Folhagem, que ninguém sabia o que era. E lá se foi para o riozinho, beber água.

         Bebeu, bebeu à vontade, bem na vista das onças, que olhavam para aquilo com rugas na testa. Depois de bem saciada a sede, sacudiu-se das folhas e dum pulo alcançou um galho de árvore, gritando para as onças desapontadíssimas: “Piticau! Piticau!…”

         — Deixa estar que você me paga! — disse a onça, e pôs-se a imaginar outro meio de pegar o macaco. Abriu um grande buraco, entrou dentro e deitou-se de costas, ficando com a boca arreganhada, como armadilha; e pediu às outras que a cobrissem de folhas secas para que o macaco não desconfiasse.

         O macaco veio vindo. Mas ao ver aqueles dentes arreganhados no meio das folhas secas, desconfiou.

         — Chão com dentes? Está aqui uma coisa que nunca imaginei. Mas dente de chão há de gostar de comer pedra — e, zás! jogou uma grande pedra dentro da boca da onça.

         A onça morreu engasgada e o macaco lá se foi, muito satisfeito da vida.

 

          — Ora até que enfim apareceu um macaco esperto! — exclamou Narizinho.

          — Esse era dos tais de circo, como dizem, mais matreiro que uma raposa.

          — A história deve estar errada — disse Emília. — Em vez de macaco devia ser uma raposa. Só as raposas têm idéias assim. Mas gostei. Está bem arrumadinha. Grau dez.

          — Notem — disse dona Benta — que a maioria das histórias revelam sempre uma coisa: o valor da esperteza. Seja o Pequeno Polegar, seja a raposa, seja um macaco como este do aluá, o esperto sai sempre vencedor. A força bruta acaba perdendo — e isto é uma das lições da vida.

          — Já observei esse ponto, vovó — disse Pedrinho. — Todas as histórias frisam uma coisa só — a luta entre a inteligência e a força bruta. A inteligência não tem muque, mas tem uma sagacidade que no fim derruba o muque.

          — E a gente quer que seja assim — disse Emília. — Se vier um conto em que a força bruta derrota a inteligência, os ouvidores são até capazes de dar uma sova no contador.

          — E a história perderia completamente a graça — disse Narizinho. — Que graça tem, por exemplo, que um touro vença uma lebre? Nenhumíssima. Mas quando uma lebre vence um touro, a gente, sem querer, goza.

          — Por isso vivo eu dizendo que a esperteza é tudo na vida — gritou a boneca. — Se eu tivesse um filho, só lhe dava um conselho: Seja esperto, Emilinho!

 

24 – O macaco, a onça e o veado

       

         Uma vez uma onça convidou um veado para ir com ela à casa dum compadre. Foram. Como houvesse no caminho um ribeirão a atravessar, a onça enganou o veado, dizendo que não tivesse medo, pois era água rasinha. O veado meteu-se no ribeirão e quase se afogou.

         Seguiram. Vendo umas bananeiras logo adiante, a onça propôs:

         — Amigo veado, vamos comer bananas. Você sobe e pega as verdes, que são as melhores, e me atira as amarelas, que não valem nada.

         O veado subiu, jogou as amarelas para a onça e ficou com as verdes, que não pôde comer. Desceu com o estômago no fundo, enquanto a onça arrotava de gosto.

         Seguiram. Adiante encontraram uns trabalhadores capinando a roca.

         A onça disse:

         — Amigo veado, quem passa junto daqueles homens deve dizer: “Que o diabo os carregue!” É uma saudação que deixa os homens contentíssimos.

         O bobo do veado foi e disse aos trabalhadores: “Que o diabo os carregue!” mas os homens, furiosos, soltaram-lhe os cachorros em cima e quase o pegaram. Já a onça ao passar por eles, o que disse foi: “Deus ajude a quem trabalha!” E os homens, muito satisfeitos com a frase, deixaram-na passar sossegadamente.

         Adiante a onça viu uma cobrinha coral.

         — Olhe, amigo veado, que lindo colar vermelho. Leve-o para pôr no pescoço de sua filha.

         Assim que o veado foi pegar aquilo, a cobra deu-lhe um bote, que por um triz o não alcançou.

         Finalmente chegaram à casa do compadre. Era quase noite, de modo que depois duma prosinha trataram de dormir. O veado armou uma rede a um canto e logo ferrou no sono. A onça, então, foi pé ante pé ao curral, comeu uma ovelha e trouxe uma cuia de sangue, que derramou em cima do veado. Depois deitou-se e dormiu regaladamente.

         De manhã o compadre foi ao curral e percebeu que lhe haviam comido uma ovelha. Desconfiou logo da onça.

         — Eu, comer sua ovelha, compadre? Que idéia! Olhe como estou sem o menor sinal de sangue. Talvez fosse o veado… O compadre olhou para o veado e o viu todo sujo de sangue.

         — Ah, ladrão! — e deu-lhe de cacete até matar.

         A onça despediu-se do compadre e lá se foi, muito lampeira.

         Dias depois convidou o macaco para outra visita ao compadre. O macaco aceitou. Foram. No ribeirão a onça veio com a mesma história:

         — Passe sem medo, macaco. A água é rasinha.

         Mas o macaco, que tinha sabido da história do veado, não foi na onda.

         — Nada! — disse ele. — Passe você primeiro, para eu ver se a água é mesmo rasinha como diz — e a onça não teve remédio senão passar na frente.

         Lá nas bananeiras o macaco subiu, mas comeu todas as amarelas e à onça só deu as verdes. Furiosa do logro, a onça foi pensando: “Ah, bicho duma figa! Eu ainda acabo lanhando esse lombo com as minhas unhas!”

         Quando chegaram à roça dos trabalhadores, a onça avisou:

         — Escute, macaco. A saudação que esses homens gostam é assim: “O diabo leve quem trabalha!” — mas ao passar por eles o macaco disse coisa diversa: “Deus ajude a quem trabalha!” — e os homens, deixaram-no passar.

         Quando encontraram a cobrinha e a onça lembrou que era um ótimo colar para a mulher do macaco, este respondeu:

         — Está me parecendo muito melhor para pulseira de uma filha de onça! — e não quis saber de pôr a mão na cobra.

         Chegaram por fim à casa do compadre. Depois duma prosinha foram deitar-se. O macaco, sabidão, armou sua rede bem alto; deitou-se e fingiu dormir. A onça foi ao curral e comeu outra ovelha, vindo com a cuia de sangue lambuzar o macaco. Mas este arrumou com o pé na cuia, de modo que o sangue caiu em cima da onça.

         Indo pela manhã ao curral, o compadre deu pela falta da ovelha.

         — Que coisa esquisita! Sempre que a onça vem cá, desaparece-me uma ovelha…

         E foi para casa, furioso da vida. Deu com a onça roncando — fingindo que dormia, mas lá do alto de sua rede o macaco apontava para ela, dizendo:

         — Veja como está barreadinha de sangue.

         — Desta vez me paga! — gritou o compadre, e apontando a espingarda, pum! — matou a onça.

 

          — Nas histórias populares — disse dona Benta—o papel da onça é sempre desastroso. Personifica a força bruta, a traição, a crueldade. Os contadores vingam-se dela ser assim, fazendo-a perder todas as partidas.

          — Está claro — disse Emília. — Não tinha graça nenhuma se a onça acabasse vencendo. Ela é bruta, é má, é cruel; logo, tem de ser castigada — pelo menos nas histórias.

          — E o pobre veado? — lembrou Narizinho. — Já ouvi várias histórias de veado e até tenho dó. Uns bobinhos completos. Não há nenhuma em que se atribua a menor inteligência aos veados. Acabam sempre comidos.

          — Veado, ovelha e outros animais não passam de carne com quatro pés — disse Pedrinho. — Inteligência não existe em suas cabecinhas, nem para lograr a onça, que é o mais estúpido dos animais. Eu até me rio quando ouço uma ovelha fazer: Bé! Que bichos bobos! Só servem mesmo para dar lã e costeletas.

          — Isso não — protestou Emília. — Quando os homens querem um símbolo de meiguice, de que se lembram? Dos cordeirinhos. S. João andava com um no braço.

          — Bom, S. João era um santo, era diferente dos outros homens. Quando esteve no deserto só passava a gafanhotos, coisa que ninguém come. Juro que não comeu o cordeirinho que trazia no braço. Mas o resto da humanidade, nem é bom falar! Elogiam os cordeirinhos, sim, senhor. “Que beleza! Que encanto!” — mas passam-lhes a faca no pescoço e comem-nos.

          — Ué! — exclamou tia Nastácia. — Pois para que serve carneiro senão para ser comido? Deus fez os bichos cada um para uma coisa. A sina dos carneiros é a panela.

          Emília danou.        

          — Bem se vê que é preta e beiçuda! Não tem a menor filosofia, esta diaba. Sina é o seu nariz, sabe? Todos os viventes têm o mesmo direito à vida, e para mim matar um carneirinho é crime ainda maior do que matar um homem. Facínora!…

          — Emília, Emílial — ralhou dona Benta.

          A boneca botou-lhe a língua.

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