GIL VICENTE 23. FARSA DE INÊS PEREIRA (1523)

lianor vaz

Resumo:

Inês não aceita sua condição social, panela sem cabo, presa em casa. A mãe discute com ela. Vem a comadre Lianor Vaz, esbaforida. Um clérigo tentou estuprá-la. (“Irmã, eu te absolverei com o breviário de Braga”). Lianor vem falar de casamento. Traz uma carta do pretendente. Vem o mesmo a seguir, mas não passa de um simplório inexpressivo. Inês o rejeita. pois quer um homem inteligente e que toque viola. Latão e Vidal, dois judeus casamenteiros, apresentam um escudeiro a Inês. Ele fala bonito e toca viola. Casam-se. O escudeiro transforma-se numa peste (“Já vos preguei as janelas, porque não vos ponhais nelas; estareis aqui encerrada, nesta casa tão fechada, como freira d’Oudivelas”). Vai para a guerra e morre. O primeiro pretendente herdou uma fazenda e Inês se casa com ele. Ele, ao contrário do primeiro marido, satisfaz todos os desejos dela. Surge, como Ermitão, um antigo namorado. Mora numa ermida. Inês, montada a cavalo no marido, vai visitar a ermida.

GV069. Latão

Canas do amor, canas
Canas do amor.
Polo longo de hum rio
Canaval está florido,
Canas do amor.

(canta Gerson Marchiori)

GV070. Escudeiro

Mal me quieren en Castilla.

(canta Rubem Ferreira Jr)

GV071. Latão

Pelo mar vay a vela
Vela vay pelo mar.

(canta Gerson Marchiori)

GV072. Todos

Mal herida iba la garza
Enamorada
Sola va y gritos daba.

(canta Geovani Dallagrana)

GV073. Ines

Quem bem tem e mal escolhe,
Por mal que lhe venha não sanoje.

(canta Jorge Teles)

 

GV074. Ines e Pero

Marido cuco me levades
E mais duas lousas.
-Pois assi se fazem as cousas.

Bem sabedes vós, marido,
Quanto vos quero;
Sempre fostes percebido
Pera cervo:
Agora vos tomou o demo
Com duas lousas.
– Pois assi se fazem as cousas.

Bem sabedes vós, marido,
Quanto vos amo,
Sempre fostes percebido
Pera gamo.
Carregado ides, noss’amo,
Com duas lousas.
– Pois assi se fazem as cousas.

(cantam Carmen Ziege e João Batista Carneiro)

 

Comentário

Gil Vicente era destratado por intelectuais como sendo um imitador de dramaturgos espanhóis, principalmente Juan de Encina. Sabe-se hoje que as influências foram recíprocas. Gil Vicente começou imitando mas, a partir de um certo momento, seu gênio explodiu em criações importantes que ditaram aos autores peninsulares os caminhos do teatro ibérico.
Foi-lhe dado como mote o provérbio: mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube, para que, a partir daí, criasse uma peça teatral. Inês Pereira é o resultado do desafio. Considerada como sua mais perfeita comédia é um desfilar homogêneo de tipos e situações hilariantes.

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CONTA OUTRA VÓ 13. O PADRE

o padre

desenho de Ricardo Garnhani

Nota: A segunda novela do Decameron de Boccacio (1313/1375), entre algumas outras, mostra a devassidão no comportamento dos religiosos católicos no século XIV. Parece que nem a contra-reforma conseguiu alterar a moral de muitos padres.
Esta historinha, na verdade uma debochada anedota, exemplifica, de modo cru. um tipo de comportamento clerical que floresceu (ou espinhou) até metade do século passado. Muito disso é resultado de um costume da maioria das famílias com algumas posses: um dos filhos era destinado ao sacerdócio, desrespeitando-se individualidades e vocações. A vítima era a última a manifestar alguma vontade.

   Era uma vez um padre muito sem-vergonha. Quando ele ia confessar as mulheres, ficava perguntando indecências pra elas. Mas ele preguntava de um jeito muito matreiro, que mais parecia que era mesmo confissão. Aí, quando ele entendia que a mulher tinha pecado contra o marido, ele conversava e conversava e acabava dando um jeito de seduzir a coitada. Umas gostavam e acabavam se acostumando, de jeito que nas confissões aconteciam outras coisas. E assim ele ia vivendo.
Aconteceu de mudar praquela cidade uma mulher casada com um viajante. Ela era muito bonita. No sábado foi à igreja e se apresentou pro padre, que queria confissão. Na verdade o que ela contou foi um bocado de pecadinhos bobos. Ele mandou que ela rezasse ave-maria e credo e ela foi embora.
Mal sabia a coitada que tinha acendido os desejos na alma do padre pecador. Naquela noite ele não conseguiu dormir. Só pensava na mulher bonita e virtuosa e resolveu que teria que dormir com ela porque se não ia ficar maluco.

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o retábulo das maravilhas – cervantes

reportagem

O RETÁBULO DAS MARAVILHAS, de Miguel de Cervantes
                                reportagem
 
    Esta tradução adaptada foi feita especialmente para a turma da oitava série da Escola Raphael Hardy, no ano de 1974, tendo sido apresentada no palco da Biblioteca Municipal, a 31 de outubro de 1974, e no palco do Centro de Criatividade de Curitiba a 10 de novembro do mesmo ano.

    Esta postagem apresenta três partes:

    na primeira, o texto da peça;

    na segunda, entrevista feita pelo jornal O Estado do Paraná, publicada em 17 de novembro de 1974, página 27, incluindo, na parte final, os comentários feitos pelos alunos que participaram;

    na terceira, como curiosidade, cópia do selo da Censura Federal de Brasília e de trecho do texto cortado pela mesma, com uma pequena nota explicativa de como era a via-crucis da cultura brasileira durante a ditadura militar, que atingia, inclusive, atividades curriculares.

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Primeira parte: O Retábulo das Maravilhas (Entremés del Retablo de las Maravillas)

Personagens: ZÉ PIMENTA, MARIA ANGU, NANICO, PREFEITO, VICE-PREFEITO, DELEGADO, ESCRIVÃO, PANCRÁCIO REPOLHO, JOANA CASTRADA, SOLDADO.

ZÉ PIMENTA: Não se esqueça do que combinamos, Maria Angu. Tudo tem que dar certo.
MARIA ANGU: Sempre trabalho do mesmo jeito: muita memória, muita cuca. Mas me diga uma coisa, Zé Pimenta: pra que serve esse tal de Nanico que você contratou? Nós dois juntos não damos conta do recado?
ZÉ PIMENTA: Precisamos dele pra tocar música nos intervalos entre uma e outra figura.
MARIA ANGU: Maravilha será se não nos jogarem tomate e ovo podre por causa dele. Nunca vi um sujeito tão desajeitado. (entra Nanico)
NANICO: Vamos representar nesta cidade?, senhor. Estou louco para mostrar pros senhores que não me tomaram apenas como carga.
ZÉ PIMENTA: Quatro de você não dão nem um terço, quanto mais uma carga inteira.
MARIA ANGU: Se você for tão músico quanto é grande, estamos fritos.
NANICO: Acho que me darão um papel pequeno porque sou miúdo.
ZÉ PIMENTA: O tamanho do papel será de acordo com o seu tamanho. Será invisível.
MARIA ANGU: Parece que chegamos no vilarejo. E estes que vêm ao nosso encontro devem ser o prefeito e seus ajudantes. Vamos cumprimentá-los com adulação, mas não muita. (entram o Prefeito, o Vice, o Delegado e o Escrivão).
ZÉ PIMENTA: Beijo as mãos de Vossas Senhorias. Quem dos digníssimos é o Senhor Prefeito?
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