Na parte final da trilogia, ao contrário das duas cenas anteriores, inteiramente em português, a cena da Barca do Paraíso é em castelhano. As duas barcas estão no cáis. O Diabo reclama com a Morte que esta só lhe traz “pobrecicos”, enquanto tardam os ‘”grandes e ricos”. A Morte lhe promete: “Verás que nada me escapa, desde o Conde até o Papa”. O que se segue é um majestoso ritual, próximo de uma missa de réquiem, onde cada um dos condenados, ao orar, repete lições e responsos da liturgia, alternando frases do ofício dos defuntos com textos religiosos (O Livro de Jó). O Conde, o Duque, o Rei, o Imperador, o Bispo, o Arcebispo, o Cardeal e o Papa são rejeitados pelo Anjo e condenados pelo Diabo. Ao Papa diz o Diabo: “Quanto de mais alto estado, tanto mais é obrigado a dar o melhor exemplo…”. Os Anjos anunciam a partida da barca porque as preces não foram ouvidas. Ao baixarem a vela aparece a pintura do crucifixo. De joelhos todos pedem pela última vez. Ainda assim os Anjos dão a partida. Mas vem o Cristo, estende a eles os remos da barca do Paraíso e os leva consigo.
GV040. Diabo
Los hijos de Doña Sancha…
(canta João Batista Carneiro)
Nunca fué pena mayor… (v. GV049)
GV041. Anjo
Vuestras preces y clamores,
amigos, no son oidas:
pésanos tales señores
iren á aquellos ardores
ánimas tan escogidas.
Desferir;
ordenemos de partir;
desferir, bota batel:
vosotros no podeis ir,
que en los yerros del vivir
no os acordastes dél.
(fala: Jorge Teles)
Comentário:
A concepção geral da obra é magistral. Pela primeira vez, Gil Vicente muda a tonalidade de seu texto, assumindo uma linguagem altissonante, grandiosa. Imita assim as tragédias sacras do final da idade média, das quais a mais fascinante e grandiloquente é o Auto de la Pasión (entre 1500 e 1503), de Lucas Fernandez (1474-1552), contemporâneo do dramaturgo português. Notemos, pois, com honestidade, que o teatro espanhol começou a se desenvolver antes do português. Os críticos espanhóis de hoje, todavia, por força do desenvolvimento de seu teatro posterior, consideram Gil Vicente o maior dramaturgo da península ibérica, no seu tempo.
A título de curiosidade, observemos que na citada tragédia de Lucas Fernandes há na fala de Mateus: Lágrimas, sangue e suor, para expressar o sofrimento da via crucis. Um discurso de Churchill vai tornar popular esta expressão, após a segunda guerra mundial. Com certeza estas palavras percorreram séculos, traduzidas em diversas línguas, a cada vez que o sofrimento exigisse do ser humano um esforço sobrenatural.
A Barca do Paraíso oferece algumas constatações: o povo falava o português e a corte o espanhol. Dentre as duas hierarquias, a política e a religiosa, a religiosa era mais poderosa, pelo menos em Portugal. Os mortos vão surgindo na ordem de poder, o temporal culminando com o imperador e o religioso com o papa.
Aos nossos olhos de hoje o final é bajulador e desconsidera os crimes e as maldades dos grandes, mesmo levando-se em conta que durante a peça todos são mostrados a nu e ridicularizados pelo Diabo. Cristo surge como um Deus ex machina. E os ricos e poderosos não vão pro inferno. Parece até a justiça de certos países.
Sobre a postura de Gil Vicente me vem à mente uma anedota dos tempos da ditadura no Brasil. O torturador dizia: desculpem, mas eu preciso sobreviver. Talvez a diferença entre um torturador hideputa e um grande artista seja que no rastro do primeiro há mortes e dores e no do segundo a perenidade conquistada por uma obra de arte.
Canções Diversas 10: HISTORINHA DAS MINAS GERAIS.
Nota: Minha avó sempre terminava esta historinha como narro no conto já postado nesse saite: “E o bicho comeu dona Mariquinha!” Nós perguntávamos, rindo: “Mas comeu, como?” “A história termina assim e acabou”. Mais tarde eu deduzi que esta cachorrinha é o superego da donzela; por isso, fiz para minha canção um final mais explícito.
Dona Mariquinha
era uma donzela.
Sempre arrumadinha,
sempre na janela.
De blusa engomada
e trança penteada,
tão triste e sozinha
ninguém vem a ela.
Tinha uma cadela
dona Mariquinha.
Acendia a vela
quando era noitinha.
A cachorra amada,
com a casa fechada,
vigiava a donzela.
vigiava a casinha.
…………..
Auauau auauau.
…………..
Auauau auauau.
Dona Mariquinha
ouviu a cadela
indo na cozinha.
Mas que noite, aquela!
Levantou-se amuada
e viu, assustada,
que uma sombra vinha
bem junto à janela.
Deu uma piscadela
pra que a cachorrinha
tivesse cautela,
e ficou quietinha.
Veio uma pancada
na porta trancada
e uma voz que gela
chama a coitadinha.
– Dona Mariquinha,
qui tu rango rango!
– Auauau, se tu cá vier!
– Dona Mariquinha,
qui tu rango rango!
– Auauau, se tu cá vier!
Dona Mariquinha
beijou a cadela.
Pôs leite e farinha
na sua tigela.
Não mais assustada,
mas bem descansada,
pois a cachorrinha
defendera a ela.
E apagada a vela,
chegada a noitinha,
deitou-se a donzela
e ficou quietinha.
De novo a pancada
e a voz que brada.
Dona Mariquinha,
mas que voz, aquela!
– Dona Mariquinha,
qui tu rango rango!
– Auauau, se tu cá vier!
– Dona Mariquinha,
qui tu rango rango!
– Auauau, se tu cá vier!
Limpando a cozinha,
lavando panela,
sonhava sozinha
a pobre donzela.
Ficava sismada,
tremia por nada.
E, assanhadinha,
ficou tagarela.
Sobre os sonhos dela,
quem é que adivinha?
Com flor na lapela,
um príncipe vinha,
de roupa enfeitada,
coroa e espada,
em carruagem bela,
de sua mãe, rainha.
– Dona Mariquinha,
qui tu rango rango!
– Auauau, se tu cá vier!
– Dona Mariquinha,
qui tu rango rango!
– Auauau, se tu cá vier!
O tempo ia e vinha
passando, e ela,
fritando galinha,
limpando a chinela,
toda apaixonada
espera a chamada.
Mas a cachorrinha
não poupa sua goela.
O sangue congela
de ira daninha.
Pegou a cadela,
quebrou-lhe a espinha.
Deixou-a jogada
e ficou trancada.
Mas que voz, aquela,
que do quintal vinha?
– Dona Mariquinha,
qui tu rango rango!
– Auauau, se tu cá vier!
– Dona Mariquinha,
qui tu rango rango!
– Auauau, se tu cá vier!
Aquela vozinha
era da cadela
que, mesmo mortinha,
defendia a ela.
Inda mais irada,
toda transtornada,
Dona Mariquinha
queimou a cadela.
Foi junto à pinguela
atrás da casinha,
jogou a cadela
dentro da covinha.
Depois de enterrada
a cachorra odiada,
apagou a vela
e esperou sozinha.
– Dona Mariquinha,
qui tu rango rango!
– Auauau, se tu cá vier!
– Dona Mariquinha,
qui tu rango rango!
– Auauau, se tu cá vier!
Foi da cachorrinha,
que amava a donzela,
aquela vozinha.
De onde vinha ela?
Ao pó misturada
ficara espalhada
da cadelazinha
pelagem singela.
Raivosa, a donzela
correu à cozinha,
na grande gamela
pôs água limpinha.
Limpou apressada
a casa empoeirada.
E, assim, da cadela,
nenhum pelo tinha.
– Dona Mariquinha,
qui tu rango rango!
– ……………..
– Dona Mariquinha,
qui tu rango rango!
– ……………..
Como a cachorrinha
não latiu por ela,
Dona Mariquinha,
de olhar de gazela,
chegou deslumbrada
à porta fechada
e, bem dengozinha,
girou a tramela.
(Epílogo)
Não era príncipe
nem moço loiro.
Mas um bichão.
Peito peludo,
saco pendurado,
e bem pintudo.
E a Mariquinha,
apavoradinha,
deitou-se na cama,
à espera da morte.
Abriu as perninhas
e ficou quietinha.
Qual foi sua sorte?
O bicho comeu
Dona Mariquinha!
Comeu inteirinha!
Depois, se encolheu
Junto à mulherzinha
E adormeceu!