Monteiro Lobato
A Chave do Tamanho
Capítulo 25 (último)
25 – A volta do Tamanho
Foram. Lá na Casa das Chaves o Visconde com facilidade colocou a Chave do Tamanho na posição antiga, e o fenômeno que sé operou foi o reverso do apequenamento — foi um instantâneo engrandecimento. Todos os minúsculos insetos descascados, em todos os países, subitamente voltaram ao velho tamanho anterior — e o que aconteceu daria assunto para um livro ainda maior que este.
Os insetos que estavam em buraquinhos ou frestas sofreram horrores, porque o “entalamento” não os deixava sair. Supõe-se que milhares de criaturas morreram assim. Aos que foram restituídos ao tamanho anterior a primeira coisa que lhes doeu foi a vergonha. Vexadíssimos de se verem nus, lançaram-se aos montinhos de roupas mais próximos e foram se vestindo precipitadamente. Ficou uma humanidade o que havia de cômica, dada a inevitável troca de roupas — homens vestidos de mulher, mulheres vestidas de homem, este com calças muito curtas e aquele com mangas sobrando — um verdadeiro carnaval. A fúria com que a vergonha havia voltado deu razão a Emília — vergonha é uma simples questão de tamanho. Continue lendo “Monteiro Lobato”
Monteiro Lobato
A Chave do Tamanho
Capítulos 23 e 24
23 – Ainda lá
O governo americano não voltava a si do assombro. Aquilo era um milagre ainda maior que o súbito apequenamento. Emília contou o que tinha visto na Europa e na Ásia, o seu encontro com o Grande Ditador e com o Filho do Sol na tampa de caneta; falou da destruição pelo frio dos exércitos em luta na Rússia e depois desfiou toda a história do Doutor Barnes, fundador de Pail City.
O próprio ministro dos Correios ignorava o nome daquela cidade.
Emília explicou.
— Ah, é uma galanteza de cidade nova que está se formando em volta dum balde velho — sem pressa, sem galopes, sem ferro, sem fogo.
Como as cidades imensas da civilização tamanhuda estão condenadas a desaparecer, invadidas pelo mato, a civilização nova já começou a criar cidades dum tipo novo — e entre as muitas que já devem estar em formação duvido que haja uma melhor que Pail City. Até árvores de guarda-sóis vi lá. Quem precisa de um, não vai a nenhuma loja comprá-lo. Chega à árvore, escolhe um do tamanho desejado e colhe-o.
Os ministros entreolharam-se. Se a cidade de Washington estava destinada a desaparecer invadida pelo mato, nada mais razoável do que irem admitindo a hipótese da mudança do governo para Pail City, o maravilhoso centro em formação onde até havia pés de guarda-sóis. Continue lendo “Monteiro Lobato”
