Alma desdobrada, capítulos 247, 248, 249, 250, 251, 252, 253 e 254.
247.
estou deitado, espetadíssimo de agulhas. tentando que a acupuntura me livre da dor que sinto por Y… da confusa sensação de sofrimento sem saber por quê. sinto que se clareiam os labirintos de minha alma e, deitado e espetado, vou imaginando um balé intitulado viagem ao centro de mim mesmo. um homem desce aos porões de seu mundo interior e descobre que o terrível demônio que lá morava era todo um benfazejo duende, macio bebê paternal. mais tarde, no gravador, falei a história do príncipe duende.
248.
era uma vez um príncipe que morava numa gruta. ele era bonito, porque era cheio de vida. era uma vez esse príncipe.
ele tinha os olhos profundos e o rosto muito magro. algumas vezes ele se olhava no espelho e dizia sua cara hoje não está legal, você está feio, você parece um monstro. noutras vezes, ele se olhava no espelho e dizia que olhar incrível que você tem, menino. cara, como eu gosto de você. como seu cabelo está bonito hoje. e seus olhos, como se parecem com os olhos de sua mãe. às vezes você se parece com um hermafrodita. não o hermafrodita dos barrocos, delicado, bonitinho, adolescente. o hermafrodita adulto, com olhos sofridos e boca sensual.
era uma vez esse príncipe.
e ele morava numa gruta. e ele se aconchegava dentro da gruta, para dormir, quando findava o dia. e ele demorava um pouco pra dormir, porque gostava de pensar sobre o dia acabado. ele gostava de pensar.
era uma vez esse príncipe, que gostava de pensar…
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