Alma desdobrada, cap. 113, 114, 115, 116 e 117.

Alma desdobrada, capítulos 113, 114, 115, 116 e 117.

 

113.

          depois que rodeei por três vezes a zona, sem ter tido coragem de lá entrar, desisti da idéia de trepar com uma prostituta. daria para dizer que, de certa forma, eu me resignara à condição de casto, virgem, puro. desistira de tentar, de medo da derrota.

          então, apareceu B…, minha vizinha. ela entrava e saía de nossa casa com muita liberdade – eu morava com milinha, márcia e carlinhos. eu percebi nela um certo interesse em estar junto de mim. numa noite, em que íamos sair, ela pediu que eu pintasse seus olhos. quando minha mão estava junto a seus lábios, ela a beijou. olhamo-nos. eu antevi alguma possibilidade de redenção. mas meu coração estava ligeiramente indiferente.

 

114.

          é tão confuso escrever. para quem escrevo? para mim, ou para o mundo? não seria honesto eu afirmar que escrevo só para mim. passa pela minha cabeça que eu seja lido um dia e alguém diga: que vida incrível!, esta. e que capacidade extremada de dar expressão exata a tanta difusa experiência! por outro lado, não me interessam opiniões a respeito do que faço. penso que escrevo para tentar traduzir o profundo do que sou.

 

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Alma desdobrada, cap. 108, 109, 110, 111 e 112.

Alma desdobrada, capítulos 108, 109, 110, 111 e 112.

 

108.

          devo ir a petrópolis, receber uma duplicata para a madeirit. levo o primeiro volume de crime e castigo. comprei-o, porque lera recordações da casa dos mortos, um livro que achara estranhamente belo. eu tinha comprado as recordações por acaso, numa liquidação de livros; havia um nero, de alexandre dumas, e as recordações. nada sabia a respeito do autor. ninguém jamais falara a mim sobre ele. deu-se, pois, que li as recordações e comprei o crime e castigo.

          naquela época eu não sabia o que me atraía em dostoievski. eu o amei loucamente desde o princípio. nenhum homem, nenhuma criatura, me falou tanto ou tão fundo do que penso ser meu: meu coração, meu destino, minha vida, minha história, meu universo.

 

109.

          Z…, Z…, que coisas adormecem no teu coração?

          Z…, Z…, que coisas já se despertaram em você?

          Z…, Z…, me fale de mim, jorge! quero saber mais de você.

 

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Alma desdobrada, cap. 103, 104, 105, 106 e 107.

Alma desdobrada, capítulos 103, 104, 105, 106 e 107.

 

103.

         numa feira de livros no largo da carioca, comprei um livrinho com reproduções do juízo final da capela sistina. fui para casa olhando aquelas enormes criaturas cheias de uma carne rija e rósea. eu tremia, eu quase chorava. eu tinha dezessete anos.

         durante toda a noite eu tremi e me debati. uma só vertigem e uma só febre, com aqueles santos todos a provocar um temor desconhecido. eu sentia algo estranho, como a forte comoção que algumas músicas criavam em mim. a impressão deixada pelas figuras do juízo final, foi de que eu me tocara de maneira violentamente profunda com aquelas belíssimas figuras. eu entendera a mensagem artística do pintor. sua obra me comovera.

 

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