Alma desdobrada, capítulos 29, 30, 31, 32, 33 e 34.
029.
petrópolis, férias. há um abandono de mim mesmo a meus próprios sonhos. aqui, ninguém me vigia. o irmão mais velho passa o tempo inteiro fora e a cunhada se faz criança, para participar de nossas brincadeiras. ninguém aqui me pede para me comportar como homem. eu, entregue a mim mesmo, penso em coisas bonitas. só as coisas bonitas me interessam. figuras, poemas, roupas coloridas, música. há um piano semi-abandonado. as sobrinhas nunca vão até o fim de suas lições. então, eu me dou um pouco a ele. os sons são doces e belos, que mundo seria aquele construído tão somente com sons musicais e palavras comoventes? seria este mundo suficiente a si mesmo?, para defender-se contra a invasão da ilogia, da fúria, da ignorância, do terror e da vontade de destruir? e do medo e da sem-razão? não, não, não! responde agora meu apavorado coração! nenhum mundo feito apenas de poesia teria condições de resistir à força da destruição. há que ser um mundo que tenha também suas garras e seus dentes e sua fúria.
aprendi isto com charles darwin! não seja minha escrita uma carne tenra e apetitosa, sem defesas contra predadores inescrupulosos. por isso, assim teço hoje minha escrita: cheia de demônios, com dentes e unhas.
030.
minha mãe está morta. é noite. pessoas chegam silenciosas e olham. de onde, tantas primas velhas? quanta piedade pelos menores! quantos olhos lacrimejantes! as irmãs recontam a cena da morte e choram novamente. os choros raramente se isolam como poças d’água temerosas; não! é sempre uma avalanche de chuva que contamina e avança, arrebatando todos os olhos e todas as falas soluçantes; uivos e olhares perdidos nos vermelhos das lágrimas amargas.
e então, nova seca feita de silêncios que retumbam.
eis que as narinas farejam. o corpo de minha mãe exala um desagradável cheiro que as pessoas se recusam a reconhecer. uma qualquer tia mais corajosa dá o alarma e alivia os medos e as vergonhas. acendem incensos. tantos e tantos, cada vez mais incenso! aquele cheiro de mistura, igreja e morte, cresce lento e pesado. cada vez mais pesado.
durante alguns anos eu sonhei, com alguma frequência, até o nunca mais, sonhei que reencontrava minha mãe. tinham errado o corpo, a que fora enterrada não era a minha mãe. ela estaria viva em algum lugar.
eu acordava para me sentir isto que sou.
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