O dia sem nome, 13.
Bengazi, dia 14 de abril, 18 horas.
hoje, então, poderei dormir no terraço?, perguntou Eric à enfermeira.
pode, desde que me prometa uma coisa.
o quê?
acredita no talismã da sorte?
acredito. eu tinha um pente de marfim da minha mãe e foi depois que o perdi que vim pra cá.
então vamos fazer assim: eu vou pregar esse amuleto na sua gola. Falou ela, enquanto instalava na gola do pijama dele um minúsculo microfone sem fio, simulando uma antiga divindade negra. mas, para que funcione, é preciso que você pense em voz alta.
como vou pensar em voz alta?
você vai falar tudo que pensa. só assim vai dar certo. converse alto como se você fosse um pouco surdo e não ouvisse os próprios pensamentos. ou como se você fosse velho. voce sabe que os velhos falam sozinhos? na madrugada, então, poderá fazer um pedido.
vai ser muito engraçado pensar em voz alta.
não vai descer pra jantar?
não. daqui a pouco escurece e elas vão começar a aparecer.
então, quando subir leve alguma coisa pra comer.
Eric saiu. A enfermeira retirou sua ficha e leu a última nota: saída programada para vinte de maio. Anotou: suspeita de regressão. Iniciei a experiência do talismã.