Monteiro Lobato

PETER PAN

 Capítulo 5

 

5 – O navio dos piratas

             No outro dia tia Nastácia apareceu com beiço ainda mais caído, porque a sua sombra continuava a desaparecer. Colocou-se entre o lampião e a parede e disse para Dona Benta:

            — Veja, Sinhá.. Só resta um, tiquinho…

            — E o Visconde, que diz a isso?

            — O Visconde promete pegar o ladrão de sombra como pegou o gato, mas ainda está “estudando”, como ele diz.

            Emília, que andava de ponta com o Visconde, meteu o bedelho.

            — No caso do gato Félix ele descobriu tudo porque eu ajudei. Se eu não tivesse arrancado aquele fio do bigode do gato ladrão, queria ver! Esses tais de detetives são uns grandes palermas…

            — Sonso ele é — disse tia Nastácia. — Mas a cabecinha dele pensa tão certo que até dá inveja na gente. Vocês vão ver como ele descobre o ladrão.

            O Visconde, que estava escondido debaixo da mesa, tudo ouvindo e observando, notou o torcimento de nariz da Emília. E desde esse instante começou a desconfiar que a criminosa fosse ela.

            Dona Benta sentou-se e dispôs-se a continuar a história.

            — Onde ficamos ontem? — perguntou.

            — Peter Pan havia saído da caverna para salvar os outros — lembrou Pedrinho.

            — Sim, é isso. Peter Pan encaminhou-se para o navio dos piratas. Oh, era horrendamente feio esse navio! Feio e velho, de velas sujas e cordas sebentas, com um mau cheiro horrível. Chamava-se a Hiena dos Mares — e era mesmo uma hiena em forma de navio. Hiena vocês sabem o que é.

            — Sei — disse Pedrinho. — É um animal da família das Hienideas, muito feio, cabeçudo, peludo, que só anda de noite e come carniça. Animal da África e da Ásia. O urubu        das feras.

            Dona Benta aprovou a ciência do menino e prosseguiu.

            — Pois tinha esse nome o navio do Capitão Gancho. No mastro principal flutuava uma bandeira vermelha, com uma caveira negra sobre dois ossos cruzados em forma de X. Para esse horrível navio tinham sido levados os pequenos prisioneiros, e chegados lá foram arremessados com toda a brutalidade ao porão, onde havia mais ratos nojentos do que há estrelas no céu. Enquanto os coitadinhos tremiam de pavor no porão escuro, o chefe dos piratas passeava pelo tombadilho, muito satisfeito consigo mesmo por haver derrotado os índios e aprisionado os garotos. De repente parou para perguntar a Capacete:

            — “Estão os prisioneiros bem acorrentados, de modo que não possam fugir?”

            — “Sim, Capitão.”

            — “Nesse caso, traga-os cá para cima” — ordenou ele, tomando assento numa velha cadeira de braços que lhe servia de trono.

            Os meninos foram conduzidos à sua presença, acorrentados dois a dois. O Capitão Gancho encarou-os com ar feroz e declarou que seis deles iam ser lançados ao mar com uma pedra ao pescoço, e que dois ficariam no navio como grumetes, a fim de virarem piratas.

            — “Você aí do centro!” — disse referindo-se a João Napoleão. — “Você tem bom peito para grumete. Que tal a ideia de ficar comigo neste navio?”

            João, que havia lido muitas histórias de pirataria e gostava de aventuras no mar, ficou logo seduzido pela ideia. Adiantou-se e disse:

            — “Se eu ficar você me dá o nome de Jack o Mão Peluda?”

            O Capitão Gancho riu-se da lembrança e respondeu que sim.

            — “Nesse caso, fico!” — declarou João Napoleão, com os olhos a faiscarem de entusiasmo.

            O chefe dos piratas fez a mesma pergunta a Miguel, o qual, em vez de responder, aproximou-se dele e, sem medo nenhum, bateu-lhe no ombro, dizendo:

            — “Depende do nome que você me der.”

            — “Joe o Barbanegra! Gosta?”

            Miguel gostou e declarou que ficava. Mas quando Miguel e João Napoleão souberam que para ser pirata a primeira coisa que tinham a fazer seria jurar guerra e ódio ao rei, gritando: — “Abaixo o rei da Inglaterra!” — ambos desistiram de tudo. Como bons inglesinhos, conservavam-se leais ao seu soberano.

            O Capitão Gancho ficou furioso e declarou que nesse caso teriam de morrer como os demais, afogados com pedras ao pescoço. Em seguida ordenou que trouxessem à sua presença a mãe daqueles meninos.

            Wendy foi trazida de rastos e deixada sozinha em frente do terrível chefe de piratas. Apesar do terror que esse monstro lhe inspirava, a menina soube dominar-se e não fazer má figura. O Capitão Gancho perguntou-lhe se tinha alguma recomendação a fazer aos filhos, dos quais ia separar-se para sempre. Wendy voltou-se para os meninos e falou deste modo: — “Já que vocês têm de morrer nas mãos destes bandidos, que morram como verdadeiros heróis. É isto que as suas verdadeiras mães diriam se estivessem no meu lugar. Viva o rei da Inglaterra!”

            — “Viva! Viva!” — gritaram todos os meninos, como se fossem um só.

            Dar vivas ao rei da Inglaterra nas fuças do Capitão Gancho era o maior atrevimento do século. O chefe dos piratas espumou de cólera, e ordenou que amarrassem Wendy ao mastro grande, de onde teria de assistir à morte de todos os meninos, um por um. Assim foi feito e a corajosa menina lá ficou, que nem uma Joana d’Arc, no seu vestidinho cor de ouro velho e de xale ao pescoço.

            Ia começar a matança. Os piratas trouxeram as pedras de afogar prisioneiros. O Capitão Gancho sorria deliciadamente. Para aquele monstro, o maior prazer da vida era ver afogar prisioneiros.

            Súbito, o seu sorriso diabólico transformou-se em careta de terror. Um famoso tique-taque, muito seu conhecido, soara perto.

            — “O crocodilo!” — exclamou ele, dando um pulo e indo esconder-se no fim do navio, atrás duma pilha de cordas. Os demais piratas para lá também correram, cercando o chefe com uma muralha de corpos. Os meninos, de respiração suspensa, ficaram à espera de ver o crocodilo surgir.

            Mas não surgiu crocodilo nenhum. Em vez da fera apareceu na beira do navio a carinha de Peter Pan. Fez aos meninos sinal de bico calado e entrou à moda dos índios, agachado, de jeito que os piratas nada vissem. Trazia atravessado na boca o seu terrível punhal e na mão direita, um despertador. O tique-taque que tanto apavorava o Capitão Gancho não era do crocodilo…

            Peter Pan esgueirou-se pelo chão, feito cobra, e penetrou numa cabina, trancando-se lá dentro.

            Tendo cessado de ouvir o tique-taque o Capitão Gancho virou valente outra vez. Voltou ao trono e deu ordem para a matança dos prisioneiros.

            — “Vamos, comecem!” — gritou.

            A resposta foi um coricocó de galo dentro da cabina. O chefe dos piratas empalideceu. Não podia compreender o que fosse aquilo, pois nunca existira galo nenhum a bordo da Hiena dos Mares.

            — “Capacete, vá ver o que há na cabina” — ordenou.

            Capacete foi. Entrou na cabina e não saiu mais. Vendo que Capacete não reaparecia, o Capitão Gancho, muito pálido, ordenou que outro pirata fosse ver o que era. Esse segundo pirata, porém, tomou-se de tanto medo que em vez de obedecer lançou-se ao mar e foi nadando para terra.

            — “Covardes!” — berrou o Capitão Gancho. — “Têm medo? Pois vou eu mesmo, para mostrar o que é coragem”, e tomando uma lanterna dirigiu-se para a misteriosa cabina.

            Entrou, mas incontinenti voltou atrás, dum salto.

            — “Uma coisa assoprou e apagou a minha lanterna! Deve ser uma abantesma, ou qualquer monstro dessa laia. O melhor é lançarmos contra ela os prisioneiros. Serão devorados e nós economizaremos as nossas pedras de afogar. Vamos! Empurrem a meninada para a cabina da abantesma!”

            Era justamente o que os meninos queriam; mas não deram sinal disso, bem ao contrário — resistiram, fingindo grande medo, e só entraram na cabina à força.

            Os piratas são em regra muito supersticiosos. Acreditam em quanta bobagem há. Uma das suas crendices é que mulher trás desgraça para navio. Por isso juntaram-se em conferência para resolver o que fariam de Wendy.

            Enquanto conferenciavam na popa, Peter Pan saiu da cabina sem ser visto, foi ao mastro, soltou a menina e colocou-se em seu lugar, bem disfarçado com o xalinho ao pescoço.

            Depois de muito discutirem, os piratas resolveram lançar ao mar a mulherzinha que estava atrapalhando a vida de bordo.

            — “Muito bem!” — exclamou o Capitão Gancho, fechando a discussão. — “Assim seja. Lancem-na ao mar! Acabem logo com a vida dessa criatura que nos está trazendo desgraças.”

            Vários piratas dirigiram-se para o mastro a fim de cumprir a ordem do chefe. E parando diante daquele vultinho meio embuçado no xale, disseram, com voz de escárnio

            — “Chegou sua hora, menina. Nada no mundo poderá salvá-la.”

            — “É o que parece!” — gritou Peter Pan, arrancando o xale e espetando a espada no peito do pirata mais próximo.

            Depois soltou um grito de guerra: — “Por Wendy e pelo Rei! Avança, meninada!”

            Foi uma coisa espantosa. Os meninos saíram da cabina armados com as melhores armas existentes no navio, e caíram em cima dos piratas como um bando de vespas coléricas. Os pobres piratas não sabiam o que pensar, pois estavam certos de que a abantesma já os havia devorado a todos. Foram tomados de pânico. Uns jogavam-se ao mar, outros tapavam os olhos com a mão; outros, mais corajosos, resistiam.

            — “Ninguém ataque o Capitão Gancho!” — berrava Peter Pan. — “Esse é meu só.”

            Travou-se medonha luta. Embora fossem mais fortes que os meninos, os piratas eram vencidos pela agilidade deles — e um a um foram sendo postos fora de combate, ou forçados a se jogarem ao mar. Ao cabo de alguns minutos só ficou em campo o Capitão Gancho, sempre atracado com Peter Pan.

            Foi a luta mais bonita que ainda se viu no mundo. Peter Pan parecia um demônio. Saltava como gato selvagem e dançava na frente do pirata, fazendo-o errar todos os botes da sua mão de gancho. E enquanto isso, tome lá um pontapé na barriga, tome lá uma cutucada no nariz, tome lá mais um galo na testa!

            A agilidade de Peter Pan fazia que ele não perdesse um só golpe e evitasse todos os golpes arremessados pelo pirata. O Capitão Gancho estava já de língua de fora, como cachorro cansado. Suava em bicas, um suor muito fedorento. Tinha mais arranhões pelo corpo e galos pela testa do que cabelos na cabeça. Em certo momento deteve-se, apavorado, e gritou:

            — “Será que estou lutando contra um demônio? Peter Pan, diga-me quem é você?”

            Peter Pan, como um galinho novo que sacode as asas ao nascer do sol — respondeu com um grito de atroar os ares:

            — “Eu sou a Juventude! Sou a alegria da vida! Sou eterno e invencível!”

            E zás, zás, zás, apertou o velho capitão numa tal roda de golpes que ele foi recuando, recuando, recuando até que chegou à beiradinha do navio e…

            — Tchibum! Caiu n’água — completou Emília.

            — Não. Caiu mas foi bem dentro da goela do crocodilo.

            O paciente animal tinha ouvido o barulho da luta e aproximara-se de mansinho, ficando rente ao navio, de boca aberta, à espera do resto da mão. E desse modo devorou o famoso chefe dos piratas, com gancho e tudo…

            — Bravos! — exclamou Pedrinho. Eu sabia que ia suceder isso. Menino protegido pelas fadas acaba sempre vencendo…

            Tia Nastácia arregalou os olhos.

            — Credo! Imaginem um menino desses aqui no sítio! Era capaz até de serrar o chifre do Quindim…

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