Monteiro Lobato

O PICAPAU AMARELO

 Capítulos 01, 02, 03 e 04

 

1 – A cartinha do Polegar

O sítio de Dona Benta foi se tornando famoso tanto no mundo de verdade como no chamado Mundo de Mentira. O Mundo de Mentira, ou Mundo da Fábula, é como a gente grande costuma chamar a terra e as coisas do País das Maravilhas, lá onde moram os anões e os gigantes, as fadas e os sacis, os piratas como o Capitão Gancho e os anjinhos como Flor das Alturas. Mas o Mundo da Fábula não é realmente  nenhum mundo de mentira, pois o que existe na imaginação de milhões e milhões de crianças é tão real como as páginas deste livro. O que se dá é que as crianças logo que se transformam em gente grande fingem não mais acreditar no que acreditavam.

— Só acredito no que vejo com meus olhos, cheiro com o meu nariz, pego com minhas mãos ou provo com a ponta da minha língua, dizem os adultos — mas não é verdade. Eles acreditam em mil coisas que seus olhos não vêem, nem o nariz cheira, nem os ouvidos ouvem, nem as mãos pegam.

— Deus, por exemplo — disse Narizinho. — Todos crêem em Deus e ninguém anda a pegá-lo, cheirá-lo, apalpá-lo.

— Exatamente. E ainda acreditam na Justiça, na Civilização, na Bondade — em mil coisas invisíveis, incheiráveis, impegáveis, sem som e sem gosto. De modo que se as coisas do Mundo da Fábula não existem, então também não existem nem Deus, nem a Justiça, nem a Bondade, nem a Civilização — nem todas as coisas abstratas.

— Eu sei o que quer dizer “abstrato” — disse Emília. — É tudo quanto à gente não vê, nem cheira, nem ouve, nem prova, nem pega — mas sente que há.

— Muito bem. Logo, o Mundo da Fábula existe, com todos os seus maravilhosos personagens.

— E tanto existe — declarou Dona Benta — que tenho aqui uma carta muito interessante, recebida hoje.

— É de mamãe, já sei! — murmurou Pedrinho, aborrecido, com medo que fosse carta de Dona Antonica chamando-o para a cidade.

— Errou, meu filho. A cartinha que recebi é do Pequeno Polegar…

Ao ouvir tal notícia, a criançada pulou de contente. Os olhos de Narizinho molharam-se de ternura. O Pequeno Polegar era, de fato, a maior das galantezas.

— Mostre, mostre a cartinha dele, vovó!

Dona Benta pôs os óculos e tirou da bolsa uma coisinha dobrada, pequeniníssima — uma pétala de rosa!

— É o papelzinho em que ele escreve — e escreve sem tinta, com a ponta de um espinho. Só poderei ler o que está aqui se Pedrinho me trouxer a lente do binóculo.

Pedrinho coçou a cabeça. Onde andaria a lente do binóculo desmanchado?

— A lente sumiu, vovó — disse ele — mas há os célebres olhos da Emília, mais penetrantes que todas as lentes do mundo. Até uma pulga no pelo do dragão de S. Jorge, lá na lua, ela já “detectou.”

— Ótimo! Nesse caso, venha a Emília ler a cartinha do nosso amigo.

Muito orgulhosa do seu papel, Emília aproximou-se rebolando. Tomou a pétala dobrada, cheirou-a: “Ah! É rosa Bela Helena!” Abriu-a e leu com a maior facilidade:

“Prezadíssima Senhora Dona Benta Encerrabodes de Oliveira:

Saudações. Tem esta por fim comunicar a v.Ex.ª que nós, os habitantes do Mundo da Fábula, não aguentamos mais as saudades do Sítio do Picapau Amarelo, e estamos dispostos a mudar-nos para aí definitivamente. O resto do mundo anda uma coisa das mais sem graça. Aí é que é o bom. Em vista disso, mudar-nos-emos todos para sua casa — se a senhora der licença, está claro…”

O assanhamento da criançada subiu a 100 graus, que é o ponto de fervura da água. Ficaram todos borbulhantes de alegria.

Pedrinho disparou a fazer projetos de brincadeiras com Aladino e o Príncipe Codadade. Narizinho queria conversas de não acabar mais com Branca de Neve e a menina da Capinha Vermelha. Até o Visconde lambeu os beiços, ansioso por uma discussão científica com Mr. de La Fontaine, o famoso fabulista encontrado na viagem feita ao “País da Fábula” (1).

— Que suco vai ser vovó! Todos aqui, imagine! Será que também vem D. Quixote?

— Eu o que quero é lidar com os anões de Branca de Neve! O Dunga, o Zangado… Ah, gostosura!

Mas Dona Benta estava incerta. A população do Mundo da Fábula era grande; como acomodá-la toda ali num sítio que não tinha mais de cem alqueires de terra?

— Aumenta-se o sítio, vovó — propôs Pedrinho. — A senhora compra as fazendas dos vizinhos. Para que serve dinheiro? Depois que saiu o petróleo, a senhora ficou empanturrada de dinheiro a ponto de enjoar e nem permitir que se fale em dinheiro nesta casa. Aumenta-se o sítio. Tão fácil…

Dona Benta refletiu ainda uns instantes; depois concordou.

— É o jeito. Podemos comprar a Fazenda do Taquaral e mais a do Cupim Redondo. As duas juntas devem perfazer aí uns mil e duzentos alqueires de terra. Ora, em mil e duzentos alqueires de terra eu imagino que cabem todos os personagens do Mundo da Fábula.

— E se não couberem, a senhora vai comprando mais fazendas — isso não oferece dificuldade. E podemos fazer uma coisa, vovó: uma cerca de arame que separe o sítio velho das Terras Novas. Ficamos nós aqui e eles nas Terras Novas. Que tal?

A lembrança de Pedrinho foi aprovada.

— Sim, boa ideia. Fazemos uma cerca de arame com porteira — e porteira de cadeado. Confio a chave ao Visconde. Só abriremos a porteira quando nos convier. Se não, invadem-nos isto aqui e …

Narizinho ficou cismarenta, a imaginar a maravilhosa vida que iriam ter com uma vizinhança daquelas.

— Tia Nastácia é que vai ficar tonta — lembrou Emília. — Juro que muitos deles hão de pular a cerca por causa dos bolinhos.

— O remédio é fácil. Pomos Quindim de guarda, dia e noite, passeando de cá para lá ao comprimento da cerca. Como eles nunca viram rinoceronte, hão de respeitá-lo — hão de ter medo daquele chifre único.

Essa conversa ocorreu à noite, depois do chá — e nesse dia só foram para a cama às 11 horas, tamanha foi a discussão travada sobre o que fazer. Ao se recolherem, até a Emília e o Visconde beijaram a mão de Dona Benta, dizendo com a maior naturalidade: “Sua bênção, vovó.”

______________

(1) Reinações de Narizinho

 

2 – A resposta de Dona Benta

No dia seguinte Dona Benta respondeu à carta do Pequeno Polegar. Que viessem todos. Ela iria comprar mais terrenos vizinhos, de modo que o Mundo da Fábula inteiro coubesse lá.

Mas na hora de subscritar o envelope a boa velhinha atrapalhou-se. Viu que Polegar havia esquecido de mandar o endereço.

— Que cabecinha de vento! Escreve-me uma carta e não indica para onde devo remeter a resposta.

E cheia de indecisão estava a pensar naquilo, quando Narizinho se aproximou com um “Que é, vovó?” Ao saber da falta de endereço, riu-se regaladamente.

— Ora, dá-se! Parece incrível que a senhora se aperte por tão pouca coisa. É só chamar a Emília… Emília! EMÍLIA!…

Emília surgiu rebolando.

— Venha resolver um caso que está atrapalhando vovó. Polegar escreveu, mas esqueceu de botar o endereço. Vovó não sabe para onde mandar a resposta.

Emília deu uma risada gostosa.

— Ah, meu Deus! Que bicho bobo é gente grande!… Morrem de lidar com as maravilhas e não aprendem nada — não aprendem essa coisa tão simples que é o “faz-de-conta”. Me dá aqui a carta.

Dona Benta, de boca entreaberta e olhar admirado, foi-lhe entregando a cartinha de resposta. Emília agarrou-a e leu-a…

— Isso é falta de delicadeza, Emília, ler carta dos outros — observou Narizinho.

— É falta de delicadeza quando a carta vai pelo correio. No sistema do “faz-de-conta” não é, porque faz de conta que não li. Li para ver se “vovó” não nos traiu…

— Emília, Emília! — gritou Narizinho com severidade. — Como se atreve a fazer semelhante juízo de vovó?!

— Minha cara — respondeu Emília com o maior desplante — eu já virei uma Floriana Peixota: confio desconfiando …

— Já se viu que diabinha? — murmurou Dona Benta filosoficamente.

Emília chegou à janela e gritou:

— Ventos e brisas daquém e dalém

Passarinhos e borboletas

Esta resposta ao Polegar levade,

Depressa, depressa, se não …

E lançou a cartinha ao vento.

— Se não o quê, Emília? — perguntou Narizinho.

— Se não, nada. O se não é só para meter medo.

Tia Nastácia vinha entrando da cozinha para ver o que Dona Benta queria no almoço. Ao saber da cartinha do Polegar e da licença para que viessem morar ali, exclamou, erguendo as mãos para o céu:

— Nossa Senhora! Isto vai virar “hospiço.” Sinhá não se lembra daquela vez que eles entupiram a casa de reizinhos e príncipes e princesas? Nossa Senhora, onde iremos parar?

— Fazemos uma cerca, Nastácia. Eles ficam morando para lá da cerca. Só virão aqui quando quisermos.

— Cercas, Sinhá? Pois se até muro com caco de vidro em cima gente pula, quanto mais eles, que são uns demoninhos…

— Quindim fica de guarda à cerca, passeando de cá para lá — e na porteira eu boto um cadeado. O Visconde tomará conta da chave.

A negra deu uma grande risada.

— Ché, Sinhá! Tudo é muito bonito e fácil no “pape.” Mas eu quero ver! O Visconde chaveiro, ha, ha, ha!

Dona Benta, que estava com preguiça de discutir, mudou de assunto.

— Olhe, para o almoço faça um frango assado com farofa — e uns pastéis de palmito.

— O palmito acabou, Sinhá. “Seu” Pedrinho gastou ontem o último para fazer uma tal de bica d’água.

— Mande buscar meia dúzia no Elias Turco.

— O palmito do Elias é falsificado, Sinhá. Só casca.

— Então, então…

 

3 – O plano da Emília

Dona Benta mandou chamar os donos das fazendas vizinhas para propor-lhes a compra das propriedades. Nenhum quis vender. Eram fazendas que não valiam nada, mas como Dona Benta tinha fama de muito dinheiro, todos trataram de aproveitar-se. Dona Benta, porém, não era das que “vão na onda.”

Não aumentou a oferta.

Depois que os homens se retiraram, chamou os meninos.

— Esses homens querem aproveitar-se da situação; fingem não querer vender as fazendas — tudo para me explorar. Que acha que devo fazer, Pedrinho?

Pedrinho, danado com os fazendeiros, imaginou logo uma solução violenta: comprar as fazendas à força. Agarrá-los e obrigá-los a assinar as escrituras, com um revólver encostado na nuca de cada um.

— Absurdo, meu filho. Os processos violentos nunca dão bons resultados. Temos que estudar um meio jeitoso.

— Isto de jeito é cá comigo — gritou a Marquesa de Rabicó. — Entregue-me o caso que num instante estará resolvido.

— Pois vamos ver — disse Dona Benta. — Fale com os homens e dê lá os jeitinhos necessários. Não ofereço mais de 400 mil cruzeiros pelas duas fazendas — e é muito. Não valem nem 200.

Emília chamou de parte o Visconde para a discussão do assunto. Em seguida foram os dois ao pasto, montaram no burro falante e saíram em procura dos fazendeiros.

Encontraram-nos na venda do Elias, bebendo cerveja entre grandes risadas. — “Desta vez a velha nos paga” — diziam eles. “Havemos de lhe arrancar couro e cabelo.”

Emília e o Visconde entraram, sentaram-se atrás deles numa mesinha dos fundos, e pediram meia garrafa de cerveja e duas cocadas queimadas. E puseram-se a conversar com ares misteriosos. Aquilo imediatamente intrigou os fazendeiros.

— Pois é — dizia a Marquesa para o Visconde, muito baixinho mas de modo que os homens ouvissem; — a bicharia já está embarcada: duzentos, cem machos e cem fêmeas — e rinocerontes dos mais ferozes, caçados de fresco no Uganda, lá no sul da África…

— Mas então é verdade? — perguntou o Visconde com o maior fingimento. — Pensei que fosse brincadeira…

— Brincadeira, nada! Dona Benta não brinca. Vai fazer aqui a maior criação de feras do mundo. Chegam agora esses 200 rinocerontes ferocíssimos. Depois vêm os leões que estão sendo caçados — 300 leões! E mais 150 tigres-de-bengala, daqueles que só se alimentam de gente. E há as panteras negras — 100. Isso sem falar nos ursos brancos do Polo, nem nos lobos da Rússia, nem naquelas cobras da Índia que têm capelo venenosíssimas.

Os fazendeiros, de boca aberta, entreolhavam-se assustados.

Emília continuou:

— A criação de feras de Dona Benta será a maior do mundo, mas os vizinhos vão sofrer com isso. Toda gente sabe que os animais caseiros, burros, bois, cavalos etc, têm um verdadeiro horror pelas grandes feras. Adivinham-nas de longe pelo cheiro e morrem de medo — fogem com quantas pernas têm. Estou com dó dessas fazendas. Vão ficar a pé, sem um cavalo, um burro, um boi. O vento leva para lá o cheiro dos leões e dos tigres e a animalada mansa dispara…

— Mas esses vizinhos podem processar Dona Benta — lembrou o Visconde.

— Ela já mandou estudar esse ponto por um bom advogado do Rio. As leis não tratam do assunto. Se eles processarem Dona Benta, perdem as demandas e ainda têm de pagar às custas. Não tem lei nenhuma que proíba cheiros em fazendas.

A conversa prosseguiu nesse tom cochichado até o fim da cervejinha. Depois pagaram a conta e saíram, muito lampeiros.

Os dois homens ficaram com caras de asno, a olhar um para o outro.

— E esta, compadre! Se o raio da velha vai mesmo fazer isso  nossas fazendas, que já pouco valem, ficarão valendo ainda menos. Aquilo que o pelotinho de gente disse é certo. Os animais têm um medo horrível às onças e outras feras. Assim que farejam alguma por perto, fogem loucos de terror. Isso é coisa das mais sabidas.

— Pensando bem — disse o segundo — o verdadeiro é aceitarmos a proposta da velha. Quatrocentos mil cruzeiros pelas duas fazendas é até muito dinheiro — porque não valem 200 — nem 180. O café está de rastos — porco não dá nada — algodão, o curuquerê come … Quanto mais eu trabalho em minha fazenda, mais endividado fico. O melhor é aceitarmos a proposta da velha.

Nesse mesmo dia voltaram os dois ao Picapau Amarelo.

— O preço que a senhora nos oferece — disse um deles — é fraquinho, mas nós cansados já desta vida de fazenda, resolvemos ceder. Pode marcar o dia para as escrituras.

— Amanhã — foi a resposta de Dona Benta, muito admirada da reviravolta operada neles. Que seria que os fez mudar assim tão repentinamente? Dona Benta interpelou-os.

Os fazendeiros coçaram a cabeça.

— Coisas da vida, minha senhora. Fomos à venda do Turco beber uma cervejinha e pensamos melhor sobre o caso. Estamos velhos e cansados, é isso.

Nesse instante Dona Benta ouviu o ringido da porteira.

Olhou. Vinham chegando a Emília e o Visconde, montados no Burro Falante. — “Hum! Estou compreendendo!” — murmurou ela consigo. “Aqui anda o dedinho da Emília.”

Depois que os fazendeiros se retiraram, Dona Benta a chamou.

— Que foi que você fez, diabinha, para mudar desse modo a opinião dos dois homens?

— Nada, Dona Benta. Apenas comemos uns doces na bodega do Elias e tomamos uma cervejinha. Por sinal que estou tonta, tonta …

E estava mesmo. Tão tontinhos, ela e o Visconde, que caíram na rede e ferraram no sono.

Dona Benta ficou a cismar: — “Que será que Emília botou na cabeça deles?” Mas por mais que cismasse, nada adivinhou.

 

4 – Começa a mudança para o sítio

A compra foi feita no dia seguinte, com o prazo duma semana para que os ex-donos se mudassem. E nesse mesmo dia Pedrinho tratou da construção duma grande cerca de seis fios de arame farpado, que dividisse as terras do Picapau Amarelo das novas terras adquiridas. No meio da cerca, bem defronte do terreiro, tinha de ficar uma boa porteira de peroba, com cadeado.

A carta de resposta mandada a Polegar chegou-lhe às mãos direitinha; e logo recebeu ele outra, contando da compra das terras e dizendo que dali uma semana podiam começar a mudança. Mas havia cláusulas. Que viessem todos — todos, todos, até o Barba Azul — mas com a condição de não invadirem o sítio, de não pularem a cerca. Eles ficavam para lá da cerca e ela e os netos ficavam para cá da cerca, nas velhas terras do sítio.

Quando algum quisesse visitá-los, tinha de tocar a campainha da porteira e esperar que o Visconde abrisse. Proibido pular. Quem o fizesse, correria o risco de espetar-se no pontudo chifre de Quindim — o guarda.

As condições foram aceitas, e passada uma semana começou a mudança dos personagens do Mundo da Fábula para as Terras Novas de Dona Benta. O Pequeno Polegar veio puxando a fila. Logo depois, Branca de Neve com os sete anões. E as Princesas Rosa Branca e Rosa Vermelha. E o Príncipe Codadade, com Aladino, a Xarazada, os gênios e o pessoal todo das “Mil e Uma Noites.” E veio a Menina da Capinha Vermelha. E veio a Gata Borralheira. E vieram Peter Pan com os Meninos Perdidos do “País do Nunca”, mais o Capitão Gancho com o crocodilo atrás e todos os piratas; e a famosa Alice do “País das Maravilhas”; e o Senhor de La Fontaine em companhia de Esopo, acompanhados de todas as suas fábulas; e Barba Azul com o facão de matar mulher; e o Barão de Munchausen com as suas famosas espingardas de pederneira; e os personagens todos dos contos de Andersen e Grimm. Também veio D. Quixote, acompanhado de Rocinante e do gordo escudeiro Sancho Pança.(1)

Mas não vinham a passeio, não; vinham com armas e bagagens, com os castelos e palácios, para uma fixação definitiva.

Vinham para morar ali toda a vida. O Pequeno Polegar explicou:

— Eles sempre sonharam uma coisa assim. Nunca puderam habitar sossegados numa terra que fosse unicamente deles. Uns moravam em livros, outros na cabeça das crianças. Agora vão ser donos de um território próprio, só deles. Vão sossegar, os coitados.

A mudança dos famosos personagens constituiu uma longa festa para Dona Benta e os meninos. Horas e horas passavam debruçados na cerca, vendo chegar aquele povaréu maravilhoso — as princesas com as suas damas de companhia e a criadagem; os anões, carregando todas as peças do castelo de Branca de Neve; Capinha Vermelha, puxando a casa da sua vovó comida pelo lobo. Mudança completa. Peter Pan trouxe tudo que havia na Terra no Nunca — até o mar onde vogava a “Hiena dos Mares” do Capitão Gancho.(2)

— E os índios também! Lá estão os índios da Pantera Branca! — observou Emília ao ver chegar o bando de guerreiros cor de cobre.

— E aquilo lá longe? — indagou Pedrinho, apontando para uma menina com um bandão de esquisitices atrás. Mas reconheceu-a logo:            — “É Alice! Vem com o bando todo — Twidledum, o Gato Careteiro, o Coelho Branco, a Tartaruga…”

Tia Nastácia também não saía da cerca.

— Credo, Sinhá! Que vai ser de nós de hoje em diante? Quanta estrepolia, meu Deus! Se isto desta vez não pegar fogo…

Quindim olhava por cima da cerca sem compreender coisa nenhuma; mas o Burro Falante, que estava a seu lado e era sabidíssimo, ia explicando a situação, contando quem era este ou aquele.

— Oh! — exclamou o Burro quando viu chegar D. Quixote e Sancho, um montado no Rocinante e outro no burrico. Vou ter afinal dois bons companheiros.

Uma idéia lhe veio à cabeça: convidar aqueles personagens de quatro pés para ficarem além da cerca, no seu pastinho. Pensou e veio propô-lo a Dona Benta.

— O pasto é muito grande para um só; há lá capim para três e ainda sobra. Bem precisado anda Rocinante dum bom sossego no pasto…

Dona Benta achou que sim, mas que tudo dependia de D. Quixote e Sancho. Tinha de consultá-los.

A novidade maior foi a chegada dos personagens da mitologia grega — uma quantidade enorme! A Medusa, com  aqueles cabelos de cobra — cada fio uma cobra, e atrás dela o valente Perseu que lhe cortou a cabeça. O Rei Midas, que só cuidava de amontoar ouro e acabou se enjoando. Os centauros, meio homens meio cavalos; e os faunos de chifrinhos; e os sátiros de pés de bode; e as sereias; e as ninfas; e as náiadas, que eram as ninfas das águas.

— Olhe, vovó — exclamou Narizinho em certo momento. — Lá vem vindo o rei dos mares, Netuno, de grandes barbas verdes, com o garfo de três dentes na mão, sentado no seu carro de conchas puxado por peixes. Como irá ele arranjar-se aqui, se não há mar?

— Há mar, sim — advertiu Emília. — Peter Pan já trouxe o Mar dos Piratas. Só quero ver como Netuno vai acomodar-se com o Capitão Gancho. Este malvado está convencido de que o rei do mar é ele…

Os personagens vinham vindo sem interrupção com a enormíssima bagagem dos castelos e palácios maravilhosos.

Aquelas terras ordinaríssimas, onde só havia saúva e sapé, começaram a transformar-se como por encanto. Onde era o rancho do Zé Prequeté, Capinha ergueu sua encantadora casinhola de varanda com trepadeiras. Branca de Neve começou a levantar o seu castelo no lindo vale que dava frente para o sítio.

— Que bom, vovó! — comentou Narizinho. — Lá da janela do meu quarto posso fazer sinais para as duas!…

— Sinais semafóricos — disse o Visconde. — Esses sinais assim, feitos de longe, chamam-se semafóricos. É uma combinação de sinais que permite conversa dum ponto para outro. Um telégrafo.

— O “sabinho” está hoje afiado — observou Emília.

Mas tia Nastácia, que havia voltado para a cozinha, interrompeu a festa com um grito:

— O jantar está na mesa. Depressa, se não esfria.

Com grande sentimento, todos deixaram a cerca, porque ainda havia muito que ver.

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