O PICAPAU AMARELO
Capítulos 13, 14, 15 e 16
13 – O Visconde em cena
O “sabinho” estava no pasto, a conversar com o Conselheiro.
— Acabou-se o nosso sossego — dizia o Burro Falante, cheio de saudades do tempo antigo. — Com a mudança do País de Maravilhas para cá, as encrencas começam a suceder-se uma atrás da outra.
— Também penso assim — concordou o Visconde — e a maior vítima sou sempre eu. Para as coisas perigosas, só se lembram de mim. Fizeram me trepar no Cedro Grande para dar o recado ao Polegarzinho. Houve lá um quiproquó e levei botada no nariz. Caí. Quebrei uma perna. Destronquei um pé. Felizmente Nastácia já me consertou …
— É essa a razão da escolha do Senhor Visconde para as empresas arriscadas — disse o Burro Falante. — O Senhor Visconde é “consertável”…
— Sim, tia Nastácia costuma consertar-me. Já com o Polegar não pôde fazer o mesmo, porque ele é de carne — tem de sarar com o tempo. Tia Nastácia encanou-lhe a perninha e atou-a com um cadarço. Só nestes quinze dias ele poderá erguer-se da cama.
Estava a conversa nesse ponto quando soou o berro — VISCONDE! …
— Olhe lá — disse o “sabinho.” — Estão me chamando. Juro que é nova comissão e das mais arriscadas…
Mas foi ver o que era.
— Visconde — disse Pedrinho — corra à praia do Mar dos Piratas e convide o Capitão Gancho para um café com mistura aqui no sítio.
— Que história é essa?
O Visconde não estava a par dos fatos e exigiu que o pusessem no conhecimento de tudo. Resmungou um bocadinho, mas obedeceu. Foi.
Chegando à praia encontrou o Capitão Gancho num praguejamento horrível contra os seus homens, naquele momento ocupados nas manobras do navio. Gancho estava sentado sobre uma barrica de pólvora e a suar em bicas. Ufa! Que calor!
— Senhor Capitão — disse o Visconde — venho do sítio de Dona Benta convidá-lo para um cafezinho com mistura na varanda. Há bolinhos, torradas, pipocas…
O Capitão arregalou os olhos e sem querer lambeu os beiços. A palavra “bolinhos” fizera-lhe vir água à boca. Mas desconfiou.
— De quem é o convite?
— Nosso. De Dona Benta, Narizinho, Pedrinho, Emília e meu.
O pirata continuava desconfiado.
— O maldito Peter Pan anda por lá? — perguntou.
O Visconde fez a carinha mais inocente do mundo. Não gostava de mentir, mas naquele instante era forçado a enganar o Capitão — e teve uma saída verdadeiramente emiliana.
Pensou um minutinho, de rugas na testa e disse:
— Peter Pan? Ah, já sei. O senhor refere-se ao Peninha.
— Que Peninha? — berrou o pirata, que nunca soube quem era o Peninha.
— Pois o Peninha — tornou o Visconde — é aquele menino que nos apareceu uma vez e nunca mais. Um que canta como galo e não cresce.
— Pois então é o mesmo Peter Pan! — berrou o pirata. — Isso de cantar de galo e não crescer — só Peter Pan. Com seiscentos milhões de caramujos! Há anos que esse menino me persegue de todas as maneiras — mas hei de vencê-lo um dia. Não perco as esperanças nunca…
— Sim, o Peninha! — exclamou o Visconde. — Ah, que saudades temos dele! Infelizmente só nos apareceu no dia da viagem ao País das Fábulas. Depois disso, nunca mais.
— Então Peter Pan não está lá agora?
— Peninha não está, não. Antes estivesse … Dessa maneira, confundindo o Peninha com Peter Pan, o Visconde iludiu ao Capitão Gancho, sem ter necessidade de mentir. Só afirmou que o Peninha não estava… O estúpido chefe dos piratas não percebeu a manha — e resolveu aceitar o convite.
— Queira ter a bondade de acompanhar-me.
Foram.
A entrada do Capitão Gancho no terreiro causou viva impressão. Peter Pan escondeu-se atrás de Dona Benta enquanto Don Quixote levava a mão ao copo da espada.
Gancho espantou-se de ver ali aquele estranho guerreiro entalado em armadura de ferro, e mais ainda de avistar lá fora o horrendo bicho de três cabeças ao lado do Quindim.
Compreendeu que tinha de comportar-se muito bem, pois estava em grande inferioridade de forças. A sua atitude medrosa fez que Pedrinho desistisse da ideia de trancá-lo na despensa.
— Não vai ser preciso. O covardão já se apavorou com a vista de Don Quixote e da Quimera. Não oferecerá resistência. Podemos agir sossegados.
E assim foi.
Peter Pan e Pedrinho esgueiraram-se dali disfarçadamente e foram fantasiar Sancho como chefe de piratas, enquanto o chefe verdadeiro, afundado numa poltrona de vime, esperava o café, olhando muito ressabiado ora para o guerreiro de ferro, ora para o bicho de três cabeças.
Sancho lá na cozinha relutou em prestar-se ao papel de pirata fingido, mas tia Nastácia venceu-lhe a resistência com a promessa dum pernil de porco assado, enfeitado com rodelas de limão.
— Este “Seu” Sancho — cochichou ela para Pedrinho — é que nem Rabicó. Quem quiser qualquer coisa dele, basta mostrar “de comer.”
Era preciso fantasiar Sancho de chefe de piratas. O mais custoso foi arranjar um gancho para o seu braço direito.
Pedrinho lembrou-se dum trinchante que havia no armário; entortou-o em forma de gancho e amarrou-o na munheca do escudeiro. Saiu mais ou menos; de longe enganava. O resto foi simples: uma faixa vermelha na cintura (o xale velho de tia Nastácia), o facão de cozinha enfiado na cinta e outros apêndices.
Sancho ficou um Capitão Gancho bastante ordinário, chatola e gordo, mas passava. Os piratas deviam estar bêbados, porque sempre que ficavam sós caíam na pinga. Aos bêbados não é difícil enganar.
Arrumado assim o escudeiro, lá se foram rumo à praia. Sancho fazia tudo como Peter Pan ia mandando.
— É preciso não ter dó de gastar pragas — disse o menino — e todas elas com seiscentos milhões de qualquer coisa — caravelas, caramujos, raios, hipopótamos. Os piratas não se movem senão à força de pragas.
Sancho compreendeu. Sentou-se na barrica de pólvora e berrou para os tripulantes do navio:
— Com seiscentos milhões de dromedários! Armar pano! Velejar a boreste, rumo à torre do castelo inundado! Recolher os náufragos e os respectivos tesouros! Trazer tudo para esta praia — depressa!
— Mas não sobe ao navio para comandá-lo? — cochichou Pedrinho.
— Ah, isso nunca! — protestou Sancho. — Não nasci para marinheiro. Só de olhar para as ondas já vomito os bofes — além de que eles poderiam perceber o embuste e darem-me cabo do canastro.
Peter Pan achou razoável a objeção.
— Nesse caso, nomeie um chefe — indique para o comando do navio ao Starkey, que de todos esses piratas me parece o melhor.
Sancho berrou de novo para a tripulação:
— Com seiscentos milhões de caranguejos! Ordeno que Starkey assuma o comando — e forca para quem o desobedecer!
Rapidamente o navio começou a apressar-se; minutos depois ergueu a âncora e partiu. Lá da varanda Emília tudo acompanhava através do binóculo.
— O plano está saindo certinho! — berrou ela. — A “Hiena dos Mares” já levantou a âncora e lá se vai de velas enfunadas na direção da torre.
Ah, por que foi a abelhuda criaturinha dizer aquilo em voz tão berrada? Imediatamente o Capitão Gancho percebeu a esparrela em que havia caído e, como estivesse a comer um bolinho, engasgou. Foi preciso que Belerofonte lhe desse vários tremendos murros nas costas.
— Traição! Traição! — urrou ele, depois que se viu livre do bolinho. — Fui miseravelmente enganado pelo infame sabugo! Juro que Peter Pan está por aqui! A alma danada disso tudo só pode ser ele — e, na cegueira da sua fúria, deu com o pé na bandeja de tia Nastácia, saltou a cerca e pôs-se a correr na direção da praia.
— E agora? — murmurou Dona Benta, a tremer de medo.
— Alcançar o navio ele não alcança — disse Belerofonte — mas o melhor é não o deixarmos sair daqui — e gritou para Pégaso que cercasse o Capitão no caminho. Quando o chefe dos piratas, lá longe, viu surgir diante de si o cavalo maravilhoso, estarreceu de assombro. Com a ponta das asas Pégaso o foi varrendo para trás, para trás, para trás, até o terreiro.
Lá chegado, o bandido não teve outro remédio senão subir de novo a escadinha da varanda e afundar na poltrona de vime.
Bufava que nem locomotiva — mas era bufo murcho. Compreendera que qualquer resistência seria inútil.
14 – Derrota dos piratas
A “Hiena dos Mares” conduzida por Starkey, chegou à torre do castelo submergido e recolheu os anões, com todos os tesouros de Branca de Neve. A vista, porém, de tantas preciosidades virou instantaneamente a cabeça daqueles homens sem Deus nem lei.
Starkey reuniu-os e disse:
— O Capitão Gancho ficou sozinho lá na praia; logo, somos nós os donos do navio! Proponho um motim. Deporemos o velho Gancho e ficaremos donos destes tesouros.
— E os anões? — quis saber um dos piratas.
— Os anões nós os venderemos como escravos. Devem ser ótimos para cuidar de jardins.
Todos concordaram — e um coro de hurras soou. Starkey prosseguiu:
— Em vista disso, proponho que velejamos na direção daquele palácio que se avista a bombordo. Podemos desembarcar lá e conquistá-lo; ficaremos morando nele, a gozar as delícias dos nossos tesouros.
A proposta foi aceita unanimemente. Mas os piratas amotinados não previram a esperteza da Emília. Sempre de olhos no binóculo, ela fora acompanhando todos os seus movimentos; viu que em vez de velejarem rumo à praia, eles estavam velejando na direção do palácio do Príncipe Codadade — e deu o estrilo.
— Os piratas estão nos traindo! — berrou ela com toda a força. — Em vez de tomarem a direção da praia, estão se afastando para longe.
— E agora? — exclamou Branca na maior das aflições.
O perigo faz que os cérebros trabalhem a toda força, de modo que naquela dura emergência houve ali um trabalho de miolos que dava gosto ver. Narizinho teve de repente uma ideia magnífica.
— Manda-se o Visconde prevenir o Príncipe do ataque próximo. Estando prevenido, Codadade poderá defender-se. Basta que suspenda a ponte levadiça do palácio.
Belerofonte deu o assobio com que chamava Pégaso. O maravilhoso cavalo saltou para o terreiro, já de asas semi abertas.
— Monte, Visconde — disse a menina — e vá avisar o Príncipe de que o navio dos piratas pretende atacá-lo. Depressa!
Com muito má vontade, o Visconde montou e partiu… mas não chegou ao destino “a cavalo”, chegou “a crocodilo …”
— Homessa! Como? Por quê? Por uma razão que até parece mentira: por causa do casal de João-de-barro! Os dois passarinhos estavam voando justamente no ponto por onde Pégaso, com o Visconde no lombo, ia passar, de modo que viram o “sabinho” no lombo do Pégaso. Viram e avançaram contra ele, tomados de cólera, pois o supunham companheiro do intruso que lhes havia invadido o ninho.
Atacaram-no a bicadas — e tantas bicadas lhe deram que o Visconde caiu …
Emília ia acompanhando pelo binóculo.
— Que tragédia horrível, meu Deus! Os passarinhos atacaram o Visconde e o derrubaram n’água. E agora?
A aflição foi geral. Ao ver-se ali tão sem amparo, Dona Benta sentiu a célebre pontada no coração.
Pedrinho, ausente; Peter Pan, ausente; Pégaso, ausente; o Visconde, ausente; Sancho, ausente.
Belerofonte pouco valia sem Pégaso. Don Quixote também pouco valia sem Sancho. Dona Benta sentiu-se desamparada — e para aumento da sua aflição havia aquele desespero de Branca de Neve.
— Os meus queridos anões! — chorava a princesinha. — Os meus tesouros — tudo roubado! Ai, ai, ai…
A atrapalhação foi tanta que Emília teve de largar do binóculo para assumir o comando. Ideias! Venham ideias! Emília dava murrinhos na cachola, a ver se saía alguma ideia boa. No começo não saiu nada; depois, um sorriso de triunfo brilhou-lhe nos olhos.
— Acalmem-se! Ainda há “o supremo recurso” — disse a diabinha.
Todos voltaram-se para ela, suspensos.
— Fale, Emília, fale! — implorou Dona Benta.
— Há o “faz-de-conta”! Quando tudo parece perdido, eu recorro ao “faz-de-conta” e salvo a situação.
Continuaram todos em suspenso, de olhos muito abertos, sem compreender.
— Facílimo — explicou Emília. — Faz de conta que o Visconde cai bem em cima do crocodilo do Capitão Gancho, o qual fatalmente deve estar nadando no Mar dos Piratas em procura do “resto.” O Visconde cai bem em cima dele e conversa com ele e tapeia ele e faz ele acreditar que o “resto do petisco”, isto é, o Capitão Gancho, está no palácio do Príncipe Codadade — e o bobo do crocodilo, que é um estúpido, acredita e encaminha-se para lá — e o Visconde pula em terra, sãozinho e salvinho, e corre e avisa ao Príncipe. Que tal!
Todos acharam excelente a solução. Mesmo porque, ou aquilo ou nada! O único defeito era ser uma solução muito cheia de “eles”. Nos momentos angustiosos Emília desprezava os pronomes oblíquos.
Mas deu tudo certo. O Visconde caiu bem em cima do crocodilo, e conversou com ele, e “tapeou ele”, e “convenceu ele” de que o Capitão Gancho estava hospedado no palácio do Príncipe Codadade; e fez o crocodilo nadar para lá com a maior rapidez. O crocodilo, um verdadeiro bobo, engoliu tudo — e levou o Visconde à praia das “Mil e “uma Noites” e ajudou-o a pular em terra. Instantes depois o Visconde dava o recado ao Príncipe.
Codadade era um moço de coragem. Não se assustou. Subiu ao mirante do palácio e viu que realmente o navio vinha vindo de velas enfunadas na sua direção.
— Espere que te curo! — murmurou cerrando os punhos — e desceu para ordenar o levantamento da ponte levadiça.
A ordem foi executada; em seguida os guardas correram ao depósito do armamento, donde tiraram todas as espadas, lanças e escudos.
O palácio estava em rigorosa prontidão quando a “Hiena dos Mares” encostou num caís que havia. Os piratas desembarcaram sem demora, armados de trabucos de boca, de sino, com as facas entre os dentes. E avançaram. Mas ao perceberem a ponte levadiça já suspensa, romperam em pragas e maldições.
— Com seiscentos milhões de infernos! — rugiu Starkey. — Fomos traídos. Alguém avisou ao dono deste palácio…
Nisto deu com os olhos numa coisa que o fez sorrir: cinco barrilotes enfileirados ali perto. A vista de pipas, barris ou barrilotes causa sempre grande prazer aos amigos da pinga, porque pode ser pinga. Starkey esqueceu os milhões de infernos e correu a espetar com a espada um dos barrilotes. O cheiro do líquido que jorrou fez que suas ventas se dilatassem.
— Pinga, rapaziada! — gritou ele e os piratas lançaram-se aos barrilotes como gatos a ratos. Minutos depois estavam babando, caídos por terra — bebedíssimos. Então os guardas do Príncipe vieram, amarraram-nos de pés e mãos e carregaram-nos para o calabouço do palácio.
Codadade espantou-se daquilo. Quem teria tido a luminosa ideia de vencer os piratas com pinga?
— Foi o sabuguinho de cartola que veio montado no jacaré — respondeu o chefe dos guardas. — Chegou-se a mim e sugeriu—me a ideia. Achei-a boa e, antes de levantar a ponte, mandei depositar lá barrilotes de espírito de vinho.
Codadade, muito satisfeito, disse:
— Isto é o que se chama uma vitória incruenta. Vencemos sem derramar uma só gota de sangue…
Em seguida foi com o Visconde inspecionar e tomar posse da “Hiena.” Que chiqueiro imundo! Os dois visitantes tiveram de tapar o nariz. Tudo sebento, encardido, gorduroso.
— Vou mandar fazer neste navio uma esfregação com caco de telha. Depois transformá-lo-ei no meu iate.
— E se Vossa Alteza me permite — disse o Visconde — eu proporei um bom nome para o futuro iate — “O Beija-Flor das Ondas.”
Codadade concordou com a poética denominação.
15 – Sancho e Rabicó
Cansados de esperar pela volta da “Hiena”, Sancho, Peter e Pedrinho resolveram voltar ao sítio. Vinham caminhando em silêncio, bastante apreensivos, quando o escudeiro viu sair da macega um leitão. Com a fome com que estava, pôs-se a correr atrás do animalzinho, disposto a pegá-lo, assá-lo e comê-lo ali mesmo.
Pedrinho riu-se para Peter Pan.
— Dou um doce se Sancho alcançar Rabicó. O Marquês é “taco” na corrida.
Sancho, muito gordo, continuava a esbofar-se atrás de Rabicó, até que foram os dois parar na cozinha de tia Nastácia. Ao vê-lo surgiu de supetão, a negra assustou-se.
— Que fúria é essa, “Seu” Sancho?
— De um leitãozinho que achei lá no mato — respondeu o escudeiro, tentando alcançar Rabicó escondido debaixo da mesa.
Tia Nastácia soltou uma gargalhada gostosa.
— Ché! Isso não é leitão, não, “Seu” Sancho. É o Marquês, marido desquitado da Emília. Não mexa nele que o mundo cai.
Sancho ficou na mesma. Olhou para ela com cara de bobo.
— Sim — continuou a preta. — É o Marquês de Rabicó, marido da Emília — e contou toda a história do famoso leitãozinho, o seu casamento com a boneca, o divórcio, a vida regalada que o Marquês tinha no sítio.
— É um leitão sagrado, “Seu” Sancho. Muito desejo já tive eu de botá-lo na mesa, com um ovo na boca e rodelas de limão por cima — mas não houve jeito. Narizinho “pune” por esse malandro como se fosse filho dela.
Sancho ficou assombrado. Era a primeira vez que via porquinho assim — “Marquês” e adorado pelos donos. Suspirou.
— Que pena! Minha fome está danada e eu já vinha “fazendo boca” para o petisco.
— Pra tudo há remédio, “Seu” Sancho. Ali no forno tem uma perna de porco assando, dessas da gente comer e berrar por mais. Tenha paciência. Daqui meia hora tá no ponto…
Sancho foi espiar o forno; contentou-se com o cheirinho, mas seus olhos não saíam de Rabicó.
— Que pena! Que pena! — suspirava ele.
16 – A carta do Visconde
Enquanto isso, todos lá na sala inquietavam-se com a sorte do Visconde. Pelo binóculo da Emília ficaram sabendo que ele alcançara a praia montado no crocodilo — mas só. Daí por diante nada mais sabiam.
Nisto chegaram Pedrinho e Peter Pan. Emília contou-lhes a tragédia do Visconde caído n’água e a necessidade que teve de pedir socorro ao “faz-de-conta.
Pedrinho danou, e deliberou sair com o bodoque atrás dos passarinhos culpados de tudo aquilo, mas nada disse, de medo da repulsa de Narizinho. Chamou Peter Pan de lado e cochichou.
Em seguida saíram os dois de rumo ao Cedro Grande.
Don Quixote e Belerofonte estavam conversando sobre façanhas. O Capitão Gancho ouvia, embezerrado. O herói grego declarou que sua façanha era uma só, e isso porque fora uma tão grande que depois dela qualquer outra ficaria pequenininha.
— Sim, lutei e venci a Quimera, e conquistei Pégaso. Depois disso, que mais? Além de que a posse de Pégaso veio transformar-me a vida. Que maravilhosos passeios fiz pelas alturas, montado nele! Acostumei-me a voar. Desci em todas as terras, bebi de todas as fontes. Pégaso tinha o seu pouso no Monte Hélicon, um dos mais altos e belos da Grécia, e também eu elegi esse monte como o meu pouso habitual. Depois dos longos vôos, ele descia lá para descanso e para tosar o excelente capim que lá viceja. Ficamos os maiores amigos do mundo — e até hoje, séculos passados, não há maiores amigos do que nós. A minha façanha foi uma só — mas vale por mil.
Don Quixote tomou a palavra.
— Pois a minha vida, senhor, correu bem ao contrário da sua. Já perdi a conta das façanhas que pratiquei. Combati gigantes terríveis, e exércitos — mas o maldito mágico Preston sempre me roubou a maior parte das glórias. Era, por exemplo, um gigante que surgia na minha frente. Eu o atacava de lança em punho e, quando o ia vencendo, o maldito mágico, para roubar-me a glória, transformava o gigante em qualquer outra coisa — moinho de vento ou odres de vinho. Hoje estou velho, cansado — e difamado. O tal Cervantes escreveu um enorme livro em que me pinta como me imaginou — não como na realidade sou. E o mundo cruel aceita com a maior ingenuidade tudo quanto esse homem diz …
— Console-se comigo — disse o Capitão Gancho. — Tive o meu Cervantes num historiador inglês de nome Barrie, o qual me meteu a riso diante do mundo inteiro. Imagine, Senhor Don Quixote, que esse Barrie me pinta em seu livro como derrotado várias vezes por uma criança — um menino de nome Peter Pan! E, ainda mais, como perseguido e devorado por um jacaré… Ora, isso é infâmia pura, porque na realidade sou, um dos maiores chefes de flibusteiros do mundo e gozo de perfeita saúde.
Emília, que estava ouvindo a conversa, não se conteve.
— Desculpe, “Seu” Gancho, mas eu sei da esfrega que o senhor levou de Peter naquele dia do combate. Não queira negar. Peter Pan bateu-se com valentia rara, escapou de todos os golpes que o senhor lhe deu e foi levando o senhor até à amurada do navio. E o senhor até deu um grito de desespero, lembra-se? Gritou: “Quem és tu, menino infernal?” E ele respondeu: “Sou a juventude eterna!” e soltou um coricocó. E foi, então, e o senhor caiu n’água, bem dentro da boca do crocodilo.
— Sim, é isso o que os livros dizem — concordou o velho pirata — mas tanto é falso que aqui estou, são como um pero.
— Mas eu li! — gritou Emília.
— E que tem que você tenha lido, bonequinha? O fato de a gente ler uma coisa não quer dizer que seja exata. Os livros mentem tanto como os homens.
A conversa foi interrompida pela chegada duma pombinha com um papel no bico. Carta do Visconde!
Dona Benta leu em voz alta.
— Tudo bem aqui — dizia o “sabinho.” — Avisei ao Príncipe e o resultado foi os piratas caírem numa esparrela. Estão neste momento de algemas nos pulsos, metidos no porão do palácio.
— Inferno! — rugiu o Capitão Gancho, trincando os dentes, com as unhas a cravarem-se no vime da poltrona.
Dona Benta limitou-se a olhar para ele por cima dos óculos, e prosseguiu na leitura:
“O Príncipe já tomou posse do navio, o qual, depois da esfregação de caco de telha que estamos fazendo, será transformado num iate, “O Beija-Flor das Ondas.”
— Que lindo! — exclamou Branca de Neve batendo palmas. — Que amor de nome! Com um iate desses, o Príncipe vai fazer verdadeiros estragos no coração das princesas…
Dona Benta continuou:
“Mas isso é nada diante do resto. Imaginem que, com a maior das surpresas, descobri que o Reino das Águas Claras ainda existe, e que o Príncipe Escamado, com toda a sua corte, já se mudou para as Terras Novas. Assim que souberam da colocação do Mar dos Piratas no sítio, vieram a galope.”
Narizinho e Emília deram pulos de contentamento. Ambas supunham que o Reino das Águas Claras já não existisse mais.
— Que encanto! — dizia a menina. — Escamado, vivo! Vivos, todos! Continue, vovó — não posso mais de curiosidade.
Dona Benta continuou:
“Não falta nenhum; nem o Doutor Caramujo com as suas pílulas, nem Dona Aranha com a sua perna manquitola, nem o Major Agarra com os seus agarramentos. O Príncipe continua solteiro e cada vez mais apaixonado por Narizinho. Tive a explicação daquela história do falso gato Félix. Realmente, o miserável bichano tentou agarrar o Príncipe; deu um bote; mas errou e só pegou uma sardinha que estava conversando com ele.”
— Eu bem estranhei o cheiro! — disse Emília. — Quando cheirei as fuças do gato Félix, o cheiro era mais de sardinha do que de Príncipe. Continue, Dona Benta.
Dona Benta continuou:
“Mas a grande coisa, a maior de todas, a novidade de arromba, é a seguinte: O Peninha anda por cá! Está claro que não o vi, porque é invisível — mas vi flutuando no ar a pena de papagaio que a Marquesa de Rabicó lhe colocou na cabeça.”
— O Peninha! O Peninha! — exclamaram todos batendo palmas. — Nesse caso, nós todos erramos, porque todos pensamos que o Peninha fosse o mesmo Peter Pan.
— E por falar — onde anda Peter Pan? — indagou Narizinho.
Ninguém sabia.
— Quando ele se encontra com o Pedrinho, esquece do mundo — observou a menina. — Nunca vi criaturas que se entendam melhor. Juro que estão nadando no Mar dos Piratas.
Essa ideia apertou o coração de Dona Benta.
— Ah, meu Deus! Pedrinho é capaz de afogar-se…
— Não tenha medo, vovó — sossegou a menina. — Pedrinho nada como um lambari, e além disso está com Peter Pan, que é mestre em sair-se de apuros.
Ao ouvir o nome de Peter Pan o Capitão Gancho estremeceu na poltrona, de ódio.
Mas Dona Benta perdeu o gosto de ler até o fim a carta do Visconde. A ideia do neto nadando num mar que até crocodilo tinha, fazia-a suspirar.
A interrupção da leitura dissolveu o bando. Don Quixote ferrou no sono ali na rede. Belerofonte saiu para uma volta pelo pasto. Narizinho e Emília correram à “enfermaria” para dar remédio ao Polegar.
Tia Nastácia entrou com a bandeja do lanche.
— Ué, Sinhá? Onde estão os outros?
— Grite por eles — murmurou Dona Benta pensativa.
Tia Nastácia largou a bandeja na mesinha e foi saindo. De passagem esbarrou com as armas de Don Quixote. A vista do escudo fez seus olhos brilharem. Namorou-o por algum tempo e depois o levou para a cozinha. Só então deu o berro do costume:
— Café, criançada! “Seu” “Bolorofonte”, café!…
