Monteiro Lobato

O PICAPAU AMARELO

Capítulos 17, 18, 19 e 20

 

17 – A sereia aprisionada

Ali pela tardinha a atenção de todos foi atraída por um movimento ao longe. Pedrinho e Peter Pan vinham voltando — mas voltavam a arrastar qualquer coisa pesada.

Emília correu ao binóculo.

— Ah, malandros! — exclamou ela. — Foram pescar e estão trazendo um peixe enorme. Esperem … Não é peixe, não! Parece uma sereia … É uma sereia, sim…

As palavras de Emília alvoroçaram a casa inteira; até Don Quixote levantou-se da rede para ir debruçar-se no gradil da varanda. O Príncipe Belerofonte fez o mesmo.

— Uma sereia, herói! — berrou Emília. — Lá na sua terra havia disso?

— Claro que havia — respondeu o herói. — As sereias foram criadas pela imaginação grega. Mas o que me espanta é que os meninos tenham apanhado uma. Na Grécia eu nunca ouvi falar de ninguém que houvesse pescado uma sereia.

Pedrinho e Peter foram se aproximando. A cena tornou-se visível mesmo sem binóculo. Vinham a arrastar a pobre criatura pelos cabelos — pelos lindos cabelos verdes, cor das algas do mar.

— Malvadeza! — exclamou Narizinho.

A curiosidade fez que todos descessem ao terreiro para assistir à chegada dos caçadores. Até tia Nastácia veio lá da cozinha com cara de “Que é?”

— Sereia, Nastácia! — gritou-lhe Narizinho. — Eles pegaram uma sereia…

— Credo! — exclamou a preta fazendo um pelo-sinal.

Os dois valentes caçadores chegaram muito esbaforidos, cansadíssimos, mas vitoriosos. A pobre sereia, exausta da luta, não resistia mais. Olhava para todos com os lindos olhos cheios de susto e incompreensão. Que formosa era! Os cabelos verdes pareciam finíssimos fios de esmeralda; o busto lembrava o duma menina de doze anos; e o resto do corpo tinha forma de peixe — uma elegantíssima cauda de peixe com escamas do tamanho de um níquel de tostão, desses com o retrato do Almirante Tamandaré. Escamas de  madrepérola, que faiscavam ao sol.

Rodearam-na todos, com as bocas abertas e os olhos arregalados.

— Coitada! — exclamou Narizinho. — A gente lê na fisionomia dela um grande sofrimento. Que ar triste…

— É a tristeza de ter perdido tantos “tamandarezinhos” — disse Emília apontando para as escamas desfalcadas. — Pelo menos uma dúzia ela perdeu no “arrastamento” — ficou valendo um cruzeiro e vinte centavos menos…

— Que maravilha! — murmurou Dona Benta.

Tia Nastácia era só “credos” e mais “credos.”

Depois de tomarem fôlego, Pedrinho e Peter contaram a história da tremenda proeza.

— Foi assim vovó. Nós tínhamos saído para dar um pega no maldito João-de-barro que derrubou o Visconde; mas no caminho, como estivesse fazendo calor, Peter Pan lembrou-se de um banho de mar. Fomos ao banho de mar; e estávamos nadando no Mar dos Piratas quando vimos de longe, num lugar de pedras, as sereias! Estavam ao sol sobre os penedos, penteando os cabelos com os pentes de ouro. Imediatamente nos acudiu a ideia de caçar uma, e combinamos o plano “Você segue pela direita, disse Peter Pan; e eu, pela esquerda; vamos avançando, escondidos pelas pedras; assim que chegarmos pertinho, mergulhamos os dois, para sairmos bem diante duma das sereias — a menor — nhoque”. E assim foi feito. Nadamos para lá com as maiores cautelas sempre ocultos pelos rochedos. Havia uma — esta aqui — que estava de bom jeito e era a menor. Mergulhamos. Fui sair bem defronte dela. Assim que ela me avistou, deu um grito de aviso às outras: — “Humanos!” — e atirou-se para trás — caindo nas unhas de Peter Pan.

Peter Pan rematou a história.

— Caiu nos meus braços, sim, e finquei-lhe as unhas na carne, porque essas criaturas são mais lisas do que sabão. Consegui assim impedi-la de mergulhar. Nisto chegou Pedrinho e agarrou-a pelos cabelos. O cabelo é o ponto fraco das sereias. Quem consegue agarrá-las pelos cabelos vence-as foi o que fizemos. Depois disso tudo se tornou fácil. Puxamo-la para a praia, e de lá até aqui veio arrastada.

— Malvados! — repetiu Narizinho cheia de dó. — Não tiveram medo de esfolá-la toda?

— Não esfolava, não, como não esfolou, você pode examinar — justificou-se Pedrinho. As escamas defendem a pele das sereias e dos peixes. Pode examinar.

De fato, a sereia só mostrava uma ou outra arranhadurinha leve, aqui e ali.

— Sim, senhor! — murmurou Belerofonte. — Está aqui uma  façanha que jamais julguei possível. É pena estes meninos serem de hoje, pois mereciam ter nascido nos tempos heróicos da Grécia…

Pedrinho e Peter Pan estavam que não cabiam em si de orgulho.

— E agora? — murmurou Dona Benta. — Onde vamos acomodar esta pobre sereia?

— Construímos um lago, vovó — sugeriu Pedrinho. — E se ela fizer questão de água salgada, botamos meia dúzia de sacas de sal na água.

Os dois meninos ainda conservavam a sereia segura pelos cabelos.

— Podem largá-la — disse Emília. — Sereia em terra é como peixe: não vale nada, não foge.

Os meninos largaram-na. A pobrezinha! Seus olhos não compreendiam coisa nenhuma. Estava completamente abobada…

O resto do dia foi empregado em fazer uma represa nas águas do ribeirão de modo a formar lagoa — e lá foi para a lagoa a pobre sereia. Os meninos, porém, não a deixavam um só instante. Não tinham ânimo de afastar-se daquela maravilha da natureza.

Quem não gostou muito da história foi Dona Benta. Emília pilhou-a na cozinha dizendo para tia Nastácia:

— A combinação que eu fiz foi de que “eles” ficavam para lá da cerca e nós para cá; mas um a um os meninos vão trazendo para aqui todos os personagens maravilhosos. Nesse andar, passam-se todos para cá e eu tenho de mudar o sítio para lá…

— Isso mesmo — concordou a preta. — Já estão aqui, de cama e mesa, o Senhor Don Quixote, aquele herói não sei quê, o horrível bicho de três cabeças, o tal cavalão de asas, o “Seu” Sancho, que é um segundo Rabicó, Sinhá — como come, o diabo! Não há o que encha aquela pança… E há ainda o Gancho e o coitadinho do Polegar. Agora a sereia…

— E como vai passando o Polegar? Com esta lufa-lufa nem tive tempo de visitá-lo.

— Vai indo, Sinhá, vai sarando. Aleijadinho fica, ah, isso fica mesmo. Quebrou a canela. Eu encanei o melhor que pude, mas não endireita mais — tem que usar muleta.

— Coitado! — exclamou Dona Benta. — O mais gentil personagenzinho da Fábula, estropiado, de muletas! …

— Bem feito, Sinhá. Quem mandou ele atropelar o João-de-barro? Neste mundo é assim, quem faz paga. Bem feito.

Dona Benta foi visitar o doentinho em sua cama de boneca.

— Então, como vai indo? — perguntou.

— Melhor. A dor já passou — mas tenho de ficar aqui muitos dias até que os ossos soldem. Ah, malditos passarinhos!

— Quem errou foi você, Polegar, não eles. Os passarinhos estavam no seu direito — estavam defendendo o ninho. O ninho é o lar — uma coisa sagrada.

— Eu pensei que fosse um ninho abandonado.

— Esse negócio de pensar é muito sério, Polegar. Temos que pensar, sim, mas pensar certo. Quem pensa errado quebra a perna…

Lá na lagoa os meninos procuravam consolar a sereia.

Contavam-lhe a história do sítio, falavam-lhe da amizade que ela teria de todos e dos quitutes da preta. Nada disso, porém, a consolava. A tristeza de seus olhos condoeu Narizinho.

— Podemos combinar o seguinte — disse a menina. — Você fica aqui por uns dias, para ver se acostuma ou não. Se acostumar, fica definitiva, para o resto da vida; se não acostumar, eu me comprometo a soltá-la.

A sereia suspirou.

Nisto apareceu lá na porteira um dos Meninos Perdidos da Terra do Nunca. Peter Pan correu-lhe ao encontro.

— Que há? — perguntou.

— Há que recebemos um recado de Wendy. Em duas horas ela estará aqui.

Na voz de Wendy, Peter Pan não quis saber de sereias, nem de coisa nenhuma. Afastou-se na volada, em companhia do menino recadeiro, sem nem sequer um “até logo” ao pessoal do sítio.

Narizinho ficou a acompanhá-lo com os olhos.

 

18 – Tia Nastácia e o escudo

A situação no sítio não estava boa. Don Quixote, sem falar em retirar-se, tinha caído no que Emília chamava “lambança”. Cafezinho a toda a hora, redinha de Dona Benta, almoço, jantar, cama — e divertimentos. Parecia julgar aquela casa como sua, ou hotel. Também o herói  Belerofonte não falava em ir-se. O caso entrou a preocupar Dona Benta.

— Como há de ser — dizia ela a Narizinho — para que esses dois senhores compreendam que nossa casa não é hotel?

— O jeito, vovó, é arranjarmos hospedagem para Don Quixote no castelo dalguma das princesas. São castelos enormes, com dezenas de cômodos e muita criadagem. Até hão de gostar de ter um hóspede dessa categoria.

— E o herói?

— O herói é o de menos. Dum momento para outro ele monta no Pégaso e prrrr!

E assim foi. Naquele mesmo dia o herói Belerofonte aproximou-se de Dona Benta e disse:

— Minha senhora, já me demorei demais em sua casa; é tempo de ir-me.

— Que pressa é essa herói? — mentiu Dona Benta. — Bem sabe que a casa é sua, para ficar quanto tempo quiser.

— Obrigado — respondeu Belerofonte — mas dá-se o seguinte. Minha vida passa-se mais no ar do que em terra. Vivo voando montado em meu valente Pégaso; e como é assim, já começo a sentir saudades das nuvens e dos céus azuis. Hoje é o último dia que passarei em sua casa. Parto amanhã.

— Que pena! — mentiu pela segunda vez Dona Benta. — E que destino vai dar ao monstro de três cabeças, herói?

— Ainda não sei, minha senhora. A Emília me propôs comprar…

— Era só o que faltava! Se eu consentisse, aquela diabinha transformava-me o sítio em jardim zoológico. Comprar a Quimera! Incrível… Pégaso, sim. Caso o senhor herói queira algum dia desfazer-se do cavalo de asas, converse comigo. Poderemos entrar em negócio. Mas a Quimera não me seduz. Feia demais. Caduca demais. Sinto até aflição ao pensar naquele horrível conjunto de três cabeças. Parece-me um verdadeiro despropósito da fábula grega.

— Muito bem — disse Belerofonte. — Nesse caso, basta que abram a porteira e apontem-lhe o caminho das Terras Novas. Ela afastar-se-á daqui imediatamente.

Logo que Don Quixote soube da projetada partida do herói, lembrou-se de que também ele era demais ali — e disse a Dona Benta:

— Minha senhora, muito já se prolongou a minha permanência nesta acolhedora mansão. Aproveitarei o ensejo da partida do grego para retirar-me também.

Dona Benta respondeu com terceira mentirinha, muito bem vestida à moda de dantes:

— Pois isso grandemente me dói, Senhor Don Quixote. A honra de tê-lo em minha humilde choupana é das mais subidas, e o conhecimento travado só serviu para confirmar-me na alta ideia que sempre fiz do mais nobre dos cavaleiros andantes.

Don Quixote agradeceu aquela beleza de estilo com um gesto de cabeça.

Emília foi perguntar a Narizinho o que era mansão.

— Don Quixote chamou isto aqui de “mansão”. Que história será esta? Será o mesmo que “pensão?”

Narizinho não sabia e recorreu ao dicionário. Encontrou lá:

“Mansão”: casa grande de requintado luxo etc.” e riu-se dizendo:

— Don Quixote tem levado tanta pancadaria e se hospedado em tantas hospedarias misérrimas, que esta nossa casa aqui é para ele um luxo de fidalgos. Quando pensou vovó que sua casinha ia receber o título de “mansão!…”

Quem não gostou das notícias foi Sancho.

— Partir! Partir! — exclamou ele. — Meu amo é o maior dos heróis de todos os tempos e um sábio — mas a sua mania de não esquentar lugar não me serve. Ando farto de correrias. Quem me dera ficar morando aqui toda a vida!…

— Pois não era coisa lá muito fora de propósito — declarou tia Nastácia. — Vosmecê me tem feito excelente companhia. As cozinheiras gostam muito dos que comem com prazer as comidas que elas fazem — e eu nunca vi ninguém comer com tanto gosto como vosmecê, “Seu” Sancho. Só o Rabicó…

O guloso escudeiro concordou.

— Lá isso é verdade. Nasci para comer, e nesta casa os petiscos têm qualquer coisa que bole no coração da gente.

Acredite, Senhora Nastácia, que cozinheira como vosmecê nunca jamais houve no mundo — nem haverá. Sou entendidíssimo em toda sorte de comidas, gordas ou magras, de sal ou açúcar, de forno ou fogão, e juro sobre a lança de meu amo que petisqueiras como as daqui, nem no céu.

Tia Nastácia por um triz não deu um beijo no bochechudo Sancho.

Na manhã seguinte, bem cedo, Dona Benta e os meninos foram à varanda para o bota-fora dos hóspedes. Belerofonte apareceu no terreiro caracolando Pégaso já de asas entreabertas. Fez uma despedida geral, e prrrr!… lá se foi pelos ares como um enorme gavião de deslumbrante alvura.

— Que maravilha! — exclamou Pedrinho extasiado.

Todos repetiram a exclamação, e de nariz para o ar enlevaram-se no portentoso vôo. Pégaso foi diminuindo com a distância. Virou um pontinho no céu. Desapareceu entre as nuvens …

Logo depois surgiu Don Quixote, bifurcado no Rocinante.

Suas pernas magras pareciam dois espetos.

— Sancho, Sancho! — gritou ele. — Minhas armas!

O escudeiro trotou para a varanda em busca das armas do herói da Mancha. Olhou: só viu a espada e a lança. O escudo desaparecera.

— Ué! Que fim levaria o escudo de meu amo? — e feito barata tonta em dia de chuva, que não sabe se voa ou corre, pôs-se a procurá-lo por todos os cantos. Encontrou-o na cozinha transformado em gamela de tia Nastácia, com umas linguiças em salmoura dentro.

— Que é isso, Nastácia? — ralhou Dona Benta. — Como é que você “rebaixa” assim a principal peça da armadura dum dos maiores heróis da humanidade?

A preta não se impressionou.

— Ah, Sinhá, quando eu vi “isso” lá no canto, pensei logo: “Que excelente gamela está se perdendo aqui!” e “truxe” a coisa para a cozinha. O meu gamelão está rachado, e essa gamela de Don Quixote é das boas, das que não vazam nem um pingo.

— Mas isso não é gamela, Nastácia. É escudo — uma arma. Tire a linguiça daí. Lave. Enxugue.

Tia Nastácia obedeceu suspirando. “Que pena, que pena! Uma gamela tão boa! …”

Quando o herói da Mancha enfiou no braço o famoso escudo, bem que sentiu um fortíssimo cheiro de cebola, alho e vinagre; mas de nada desconfiou. Julgou que fosse uma baforada vinda de Sancho. Sancho sempre recendera a vinagre, alho e cebola.

Don Quixote fez uma saudação geral com a lança e partiu majestosamente.

— Adeus, Latoeiro! — berrou Emília.

Restava a Quimera. Pedrinho seguiu as instruções de Belerofonte. Depois de escancarada a porteira, aproximou-se do monstro e, muito ressabiadamente, apontou-lhe o caminho. A triste criatura não tugiu nem mugiu. Baixando as três cabeças, tomou a direção das Terras Novas, no seu desajeitadíssimo trote de fábula caduca.

Dona Benta suspirou.

— A vista deste monstro me entristece — disse ela. — Não pode haver mais acabado símbolo da decadência fisiológica…

Tinha agora de resolver o caso do Capitão Gancho. Que fazer dele? Dona Benta ficou indecisa.

— Com os hóspedes “bons”, tudo foi fácil, disse ela; mas Gancho é hóspede “mau” — perigosíssimo. Não sei o quê fazer…

Pedrinho deu uma risada.

— Bobo esse seu medo, vovó. O pirata já não oferece nenhum perigo. Está sem a única arma que possui.

— Como?

— Venha ver — e mostrou a Dona Benta uma coisa esquisita oculta sob uns sacos, num canto. Era o célebre gancho do Capitão Gancho!

— Que história é esta Pedrinho?

— Ah, tirei-lhe o gancho assim que ele ferrou no sono — e o menino apontou para o pirata a dormir pesadamente na poltrona de vime. — Ora, sem o gancho ele não vale nada. Logo, onde está o perigo?

Dona Benta murmurou “Amém” — palavra latina que quer dizer “Assim seja!”

 

19 – O “Beija—Flor das Ondas”

A limpeza da “Hiena dos Mares” foi a obra mais completa que os sete anõezinhos de Branca jamais realizaram. Que grandes trabalhadores eram eles! Pareciam formigas. Num instante lavaram e esfregaram com cacos de telha o navio inteirinho — e o caldo preto que saiu foi tanto que toldou a água do mar em redor.

Concluída a reforma da velha embarcação, o Príncipe convidou o Visconde para comandante e o Dunga para “imediato.” Imediato é o oficial que manda mais num navio depois do comandante.

O Visconde teve de mudar de vestuário. Botou, em vez da famosa cartolinha, um boné de oficial e vestiu uma sobrecasaca de galões nos punhos e dragonas nos ombros. Ficou ótimo!

No mesmo dia em que assumiu o comando, chamou o Dunga para uma conversa muito séria.

— Que notícias há do marido de Branca de Neve, Senhor Imediato? — perguntou ele.

— Nenhuma, Capitão. O Príncipe consorte estava caçando no momento em que o mar de Peter Pan derramou.

— Supõe que tenha morrido afogado?

— Estou quase certo disso, Capitão.

— Nesse caso, a princesa está viúva — raciocinou o Visconde — e não convém que fique morando no sítio de Dona Benta. Não há hipótese de encontrar por lá novo marido, nunca. Temos de trazê-la aqui para o “Beija-Flor”, e de promover um baile em que ela se encontre e dance com o Príncipe Codadade. Acho que formam um parzinho perfeito.

Dunga concordou plenamente.

— Mas só faremos o enlace — continuou o Visconde — se entre eles nascer o amor. Sou absolutamente contra os casamentos sem amor — como o da Emília.

— Como foi esse casamento?

— Pois a Emília casou-se apenas por interesse — para virar marquesa. Nunca sentiu o menor pingo de amor pelo Rabicó. Resultado: separação, e ela ficou impedida de aceitar as ótimas propostas de casamento que lhe apareceram mais tarde. Por essas e outras, sou absolutamente contrário aos casamentos sem amor. Nunca dão certo.

Dunga foi discutir o caso com os outros anões, e depois de longos debates ficou assente o seguinte: Branca viria morar no iate até a reconstrução do castelo ou o seu casamento com o Príncipe Codadade. Eles, anões, dariam uma grande festa; se entre ambos nascesse o amor, seria uma coisa; se não nascesse, seria outra.

Firmes nessa decisão, o iate partiu para a Prainha — nome dado ao ponto onde a “Hiena” ancorava nos tempos do Capitão Gancho. E chegado lá, o Visconde mandou um dos anões — o Zangado — parlamentar com a Princesa.

Zangado obedeceu.

Dona Benta estava na janela e foi quem o viu chegar.

— Olhe lá, Pedrinho, um catatau de cara feia que vem se aproximando …

O menino olhou e adivinhou quem era.

— Há de ser o Zangado, vovó, um dos sete anões de Branca de Neve.

O anão parou no primeiro degrau da escadinha na varanda e com muitos maus modos disse que desejava falar com a Princesa. Branca não tardou a aparecer, vinda do pomar, onde estivera chupando laranjas com Emília e Narizinho. Ao ver o anão ali, abraçou-o enternecida e pediu-lhe que contasse toda a tragédia. Zangado contou tudo tintim por tintim, exceto a morte do marido de Branca. Também contou da decisão dos anões de a conservarem no iate até a reconstrução do castelo, ou…

— Ou o quê? — interveio Emília, que não gostava de reticências.

Zangado encarou-a carrancudo, com ar de quem diz: — “Que é que você tem com isso?” — Emília, porém, não se deu por achada.

— Vamos, desembuche. Ou o quê? — insistiu ela.

Zangado desembuchou.

— Ou então casá-la com o Príncipe Codadade.

Branca arregalou os olhos. Não estava compreendendo coisa nenhuma.

— Casar com o Príncipe Codadade? Como, se sou casada?

— Foi casada, Princesa — murmurou o anãozinho, baixando os olhos. — O seu esposo estava caçando no momento da inundação; fatalmente o mar o tragou…

Ao ouvir tais palavras, Branca de Neve correu para o colo de Dona Benta, aos berros. — “Meu Príncipe, ai, ai, ai! O meu amado esposo já não existe mais!…”

A cena abalou profundamente a todos — menos Emília, que disse;

— Boba! Aquele Príncipe gostava mais dos veados e faisões do que de você. Além disso era um príncipe sem importância, dos que não têm história. Já o Codadade é de outro naipe — pertence às “Mil e Uma Noites”, coisa mil e duas vezes melhor. Eu, se fosse você, até pulava de contentamento.

Mas Branca não se consolava. — “Meu Príncipe, meu amado Príncipe!” — era só o que dizia, e suas lágrimas molhavam o colo de Dona Benta.

Mas como o que não tem remédio, remediado está, acabou concordando em residir no iate até a reconstrução do castelo ou… Despediu-se de Dona Benta, fungando muito, e com os olhos vermelhos lá se foi para a Prainha.

Quando entraram no iate e deram com o Visconde transformado em Capitão, de sobrecasaca de galões e boné de oficial, Emília botou as mãos na cintura.

— Sim, senhor! Está um perfeito Almirante Nelson — mas eu muito queria saber quem lhe deu licença para aceitar esse posto. O Senhor Visconde esquece-se de que é propriedade nossa lá do sítio . . .

Pedrinho e Narizinho percorreram a embarcação da popa à proa, admirando o asseio e o bom arranjo de tudo. O camarote destinado a Branca era um primor, um verdadeiro ninho de fada. Embaixo do leito viam-se doze sacos de diamantes extraídos das pedreiras pelos anões.

Ao terminar a visita, Pedrinho teve uma lembrança muito boa.

— E se aproveitássemos o “Beija-Flor” para um cruzeiro pelo Mar dos Piratas? Assim ficaríamos conhecendo todas as terras que esse mar banha. Vovó vai gostar da ideia.

— Ótimo! — exclamou Narizinho batendo palmas.

— Bis-ótimo! — berrou Emília, já com um plano na cabeça: apoderar-se do “Beija-Flor” para transformá-lo novamente em navio de piratas — com ela no comando. Seu maior sonho sempre fora “mandar num navio de piratas.”

Branca de Neve também gostou da ideia do cruzeiro em companhia de Dona Benta, Nastácia, e os mais. Seria um consolo para a sua dor.

Restava conseguir o consentimento da vovó, coisa fácil.

Apesar dos seus 70 anos, Dona Benta parecia ainda mais assanhada que os netos. Assim que Pedrinho falou no cruzeiro a boa velhinha aderiu e determinou que tia Nastácia fosse também, por que:            — “Duvido que os anões façam comidinhas gostosas como as dela.”

Os preparativos para a excursão correram a galope. Num instante toda a bagagem ficou pronta para o embarque. Puseram tudo sobre o lombo do Quindim e, montado nele, dirigiram-se à Prainha. Ao ver o Visconde vestido de Capitão, tia Nastácia soltou mais um dos seus “credos !”

— O mundo está perdido! Até sabugo já é Capitão, Sinhá…

O “Beija-Flor das Ondas” levantou a âncora, armou as velas e garbosamente partiu de rumo ao palácio de Codadade.

 

20 – Perfídias do pirata

O Capitão Gancho acordou e deu com a casa vazia. Foi à cozinha — ninguém. Varejou todos os quartos — ninguém.

— Ué! Que fim levaria o pessoal daqui? No terreiro encontrou o Burro Falante de conversa com o rinoceronte.

— Pois foi o que aconteceu — dizia o burro. — Dona Benta partiu com os meninos e deixou-me na administração do sítio. Minha  responsabilidade é grande. Há plantações a fazer, caminhos a consertar, mil coisas…

— Dona Benta partiu? — exclamou o chefe dos piratas, aproximando-se. — Para onde?

— Embarcaram todos no “Beija-Flor”, para um cruzeiro pelo Mar dos Piratas.

Gancho, que já sabia da transformação da sua “Hiena” em “Beija-Flor”, explodiu numa praga tremenda.

— Com seiscentos milhões de Belzebus! “Beija-Flor”, nada! Eles roubaram a minha “Hiena” — isso sim.

O Conselheiro e o rinoceronte entreolharam-se.

— Mas hão de pagar-me — continuou Gancho, — e hão de pagar-me caríssimo! …

Os dois animais nada disseram. Limitaram-se a trocar novos olhares de entendimento. Gancho pôs-se a medir passos pelo terreiro, de cá para lá e de lá para cá, remoendo-se de raiva.

Depois concebeu um plano diabólico.

— Meus caros — disse ele — a vida é de quem pode mais. Eles roubaram-me o navio; nada mais natural que eu também lhes roube o sítio. Por que não havemos de fazer entre nós uma combinação?

O Burro Falante piscou para Quindim como quem diz: — “Lá vem pirataria!”

— Sim, uma combinação — continuou Gancho. — Podemos nos apossar deste sítio — e vocês vão lucrar ainda mais do que eu. Transformo tudo. Planto capim por toda parte, as melhores espécies de capim. Em vez dos cafezais, capim. Em vez dos algodoais, capim. Vocês dois poderão até nadar num oceano de capim! …

Com essa ideia ele pretendia conquistar as boas graças dos dois herbívoros para os quais o capim tem muito mais importância do que o café, o algodão ou as pérolas. Mas o Conselheiro não concordou.

— Senhor pirata — disse ele — a sua proposta nos ofende. Somos quadrúpedes no físico e no moral ; isto é, a nossa lealdade se firma em quatro pés, não só em dois, como a dos bípedes humanos. Por capim nenhum no mundo nós trairíamos os nossos amados donos.

Gancho desapontou.

— Não se trata de trair ninguém — disse ele ainda. — Trata — se dum ato de justiça. Já que eles me apanharam o navio, nada mais justo que eu lhes tome o sítio. É ou não é justo?

O Burro Falante respondeu como um juiz de direito; — Seria, senhor pirata, se a “Hiena” fosse um navio “bom”; mas era um navio “mau”, dos que vivem assaltando os outros, para matar e roubar. Ora, o sítio é um sítio “bom” nunca matou nem roubou ninguém. Logo, os seus argumentos nada valem, Senhor Gancho.

O pirata ringiu os dentes. Percebeu que com aquele burro incorruptível nada conseguiria — e afastou-se para ruminar novo plano. Esse novo plano consistia em juntar malfeitores dos arredores para um assalto ao sítio de Dona Benta. A coisa ficou tão bem formada em seu cérebro que o facínora sorriu com a cara inteira.

— Sim, vou já, já, reunir capangas — pensou consigo e vou montado neste impertinentíssimo pedaço d’asno. Ele vai ver o que é chicote e espora…

Mas quando se aproximou do Burro Falante com os arreios, viu logo que nada arranjaria.

— Perdão, Senhor Gancho! — disse o burro delicadamente. — Eu hoje estou na administração do sítio e já não posso servir de animal de sela. Vocência poderá selar ali o senhor Quindim…

Disse isso por ironia, porque não ignorava o verdadeiro pavor que o Capitão Gancho tinha do rinoceronte. Aquele chifre único, pontudo, dava-lhe ideia dum esporão de espadarte.

Muito aborrecido, o chefe dos piratas jogou a sela no chão e teve de ir a pé em procura dos capangas.

Os dois animais seguiram-no com os olhos até longe.

— Juro que ele vai reunir gente má para um ataque ao sítio — murmurou o Conselheiro.

Quindim limitou-se a dar uma chifrada no ar, espécie de amostra do modo como receberia os atacantes.

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