O MINOTAURO
Capítulos 05 e 06
05 – Discussões em Atenas
Enquanto se desenvolvia a conversa de Dona Benta com os dois gregos, os meninos examinavam as estátuas, os móveis, as pinturas das paredes.
– Coitados! – exclamou Narizinho. – Estão completamente tontos. Não entendem nada do que vovó diz.
– Pois eu estou entendendo tudo nesta casa, e estou até adivinhando que ali dentro é o lugar dos comes – cochichou Emília, apontando para uma sala vizinha. – Vamos espiar?
Espiaram pela porta. Sala das refeições, sim. Uma escrava punha à mesa o almoço de Péricles – pão, queijo, mel, vinho, uvas e figos – daqueles maduríssimos que fazem vir água à boca.
Narizinho e Pedrinho lamberam os beiços. A servente sorriu e aproximou-se com três figos na mão, um para cada um.
– Quem no mundo vai acreditar – disse Narizinho, abrindo o seu – que já comemos figos na casa de Péricles? E que bom está! Um melado…
A escrava não entendeu – nem podia entender, mas levou-os para dentro, a mostrar a casa. Móveis lindos, mas discretos. Tudo muito elegante e sóbrio. Pedrinho achou graça nas lâmpadas de azeite.
– Isto é o tal candeeiro que vovó conta que havia na casa do pai dela. Aqui a gente põe o azeite; aqui é a mecha. Engraçado, não?
– Não é assim também na terra onde vocês moram? – perguntou a escrava.
– Foi assim – respondeu Pedrinho. – Hoje temos a eletricidade – a luz elétrica.
– É algum azeite especial?
Pedrinho deu uma risada gostosa e bobeou-a:
– Sim, é um azeite feito de vibrações do éter.
A pobre escrava ficou na mesma.
Narizinho estranhou muito o sistema de mesas dali. Baixinhas, tendo em redor, em vez de cadeiras, coxins. Os gregos comiam reclinados em coxins.
– Só que não vejo talheres. Que é dos talheres, escrava? – perguntou Emília.
A escrava não entendeu – nem podia entender, porque naquele tempo todos comiam com as mãos.
Ao saber disso, a ex-boneca berrou:
– Ché! Quando vem à mesa um peru assado, como se arranjam?
A escrava não sabia nada sobre o peru, que Pedrinho lembrou ser originário da América do Norte, e, portanto, desconhecido dos gregos.
– Mas pavões há por aqui – disse Narizinho, vendo uma pena de pavão espetada na parede.
– Sim – disse a escrava – e lindos. Querem ver? E levou-os a visitar a meia dúzia de lindos pavões do aviário de Péricles.
Lá no pátio o grande heleno continuava de prosa com a velha. Discutiam política.
– Vencemos a aristocracia, minha senhora – dizia ele. – Hoje a Grécia é positivamente governada pelo povo. Sólon revelou gênio ao conceber a nossa forma de governo. Não há imposição dum homem. O governante é escolhido pelo povo. Eu, por exemplo, executo o que o povo deseja – e por isso me reelegem.
– O senhor é um caso excepcional – argumentou Dona Benta – diz que segue os desejos do povo, mas na realidade a sua inteligência e os seus excelentes discursos é que fazem o povo desejar isto ou aquilo. Quem realmente governa é o senhor, não o povo.
– Vejo que a senhora possui um alto descortino psicológico – disse Péricles sorrindo. – O povo tem muito das crianças. Quer ser conduzido – mas com aparências de que é ele quem de fato conduz e manda. O meu sistema, entretanto, é nada querer em contrário aos interesses do povo. Sou o intérprete desses interesses – e o esclarecedor da cidade. Esta minha ideia de fazer de Atenas uma obra-prima de arte é hoje a ideia de todos os atenienses. Consegui passá-la de meu cérebro para o de todos – e sinto grande satisfação ao ver o orgulho dos atenienses quando os visitantes se deslumbram com a nossa cidade.
– Noto um erro nas suas palavras quando se refere a “povo”, Senhor Péricles. Não é o povo quem governa Atenas, sim a pequena classe dos cidadãos. Povo é a população inteira e aqui há 400 mil escravos que não têm o direito de voto. Isto é injusto e será fatal à Grécia. Péricles muito se admirou daquele modo de ver.
– Mas eles são escravos, minha senhora! Escravo é escravo.
– Engano seu, Senhor Péricles. Pelo fato de ser escravo, um homem não deixa de ser homem; e uma sociedade que divide os homens em livres e escravos, está condenada a desaparecer.
Essa ideia fez o grego sorrir.
– Acha então que pode haver uma sociedade sem escravos e senhores? Quem fará os trabalhos pesados?
– Uma sociedade justa não pode ter escravos, Senhor Péricles, e nela todos os trabalhos serão feitos por homens livres. Assim é lá no mundo moderno donde vim. Bem sei que aqui todos pensam como o senhor, e até o grande filósofo Aristóteles, que para os gregos de hoje ainda vai nascer daqui a 54 anos, dirá na abertura de seu tratado sobre a Política, estas palavras absurdas: “Os homens dividem-se naturalmente em escravos e senhores.” Está errado. Artificialmente é que é assim; naturalmente, não. Já no meu país também tivemos escravos, até o ano de 1888 que foi quando a Princesa Isabel, a Redentora, promulgou a Lei 13 de Maio, também chamada Lei Áurea. Foi o fim da escravidão no Brasil.
Péricles abriu a boca. Ele julgava perfeita a forma social de Atenas e aquela misteriosa criatura tinha o topete de dizer que não…
Dona Benta mudou de assunto.
– Pois, Senhor Péricles, saiba que o problema de governar os povos talvez não seja resolvido nunca. Na era em que vivo, a 2377 anos daqui, o problema continua cada vez mais ameaçador. Fazem-se experiências de toda sorte. Uns povos se inclinam para a democracia, que é como chamam esta forma grega de governar; outros estão sob as unhas da ditadura; outros tentam um comunismo que nada tem com o que Platão sonhou.
– Que Platão?
– Um grande filósofo que ainda está no calcanhar da avó e irá nascer justamente no ano da sua morte, Senhor Péricles, em 429 A. E. Esse filósofo sonhou uma forma de governo adiantada demais para criaturas tão imperfeitas como os homens, mas mesmo assim os modernos do meu tempo tentam pô-la em prática. Outros povos experimentam uma coisa chamada “totalitarismo”, em que o Estado é tudo e nós, as pessoas, menos que moscas. Neste regime o indivíduo não passa de grão de areia do Estado.
– Mas não há Estado, minha senhora! – disse Péricles. Isso é uma ideia abstrata. O que há são criaturas humanas com interesses em conflito; a política não passa da arte de harmonizar esses interesses individuais com um máximo de benefício geral. O meu governo não é mais que isso.
– O sonho é esse, Senhor Péricles, mas a realidade para a qual caminhamos afastar-se-á muito dessa sensatíssima concepção. A pobre humanidade, depois de tremendas lutas para escapar à escravização aos reis, caiu na escravização, pior ainda, ao Estado – à palavra Estado.
– Quer dizer que no futuro os reis de carne e osso serão substituídos por um “som” – o som “Estado?”
– Sim, e isso virá fazer mais mal ao mundo do que todos os velhos reis reunidos, somados e multiplicados uns pelos outros. Esta forma democrática de Atenas tropicará no meio do caminho. Será destruída pela palavra “Estado”, que crescerá e dominará tudo até chegar à forma “totalitária” em que o som “Estado” é o total, e nós, os indivíduos, simples pulgas.
Péricles ficou meditativo. Aquela revelação vinha contrariar as suas ideias sobre a continuidade do progresso humano.
– Então… então a prova provada de que uma forma de governo é boa não tem valor nenhum? O progresso não é uma consolidação de conquista?
– Nem na arte é assim, Senhor Péricles. Ao ver aqui em sua casa estas maravilhas da escultura grega, sinto pontadas no fígado.
– Por que, minha senhora?
– Porque o futuro vai afastar-se disto…
– Como? Não admite então que nestas estátuas há o máximo de beleza que os escultores já conseguiram?
– Admito, sim – mas “sei” que no futuro isto será motejado, e esta beleza substituída por outra, isto é, pelo horrendo grotesco que para os meus modernos constituirá a última palavra da beleza. Como prova do que estou dizendo vou mostrar um papel que por acaso tenho aqui na bolsa – e Dona Benta tirou da bolsa uma página de “arte moderna”, onde havia a reprodução dumas esculturas e pinturas cubistas e futuristas.
Péricles olhou para aquilo com espanto, e mostrou-o a Fídias.
– Mas é simplesmente grotesco, minha senhora! – disse depois. – Estas esculturas lembram-me obras rudimentares dos bárbaros da Ásia e das regiões núbias abaixo do Egito…
– Pois não são. São as maravilhas que embasbacam os povos mais cultos do meu tempo – a 2377 anos daqui…
Os dois gregos ficaram literalmente tontos, sem saber o que pensar. As revelações da estranha velhota vinham opor-se a todas as suas ideias sobre a marcha indefinida do progresso humano. Totalitarismo, cubismo, futurismo… Pobre humanidade!
06 – Fídias nocaute
O escultor grego, depois de dar um profundo suspiro, não teve ânimo de ouvir mais. Deixou Dona Benta engalfinhada com Péricles sobre um ponto da política de Atenas e foi conversar com os meninos lá no pátio dos pavões.
– Conhecem estas aves? – perguntou-lhes ao vê-los tão interessados na roda que os pavões abriam.
– Muito. Temos por lá quanta ave existe – pavões como estes, papagaios, periquitos, curiós, perus – respondeu Emília. – A única novidade que Narizinho encontra em Atenas é o sossego, diz ela.
– Está então gostando de Atenas? – perguntou o grego à menina.
– Muito. Por mim, mudava-me para cá só pelo gosto de comer estes figos. Um mel!
– Atenas é uma cidade realmente gostosa – disse Pedrinho. – Só isso da gente poder brincar nas ruas sem o menor perigo, quanto não vale?
– Lá na sua terra não é assim?
– Nem queira saber! As nossas ruas são sinônimos de inferno. Uma barulheira horrível de automóveis que não respeitam cara. Atravessar uma rua é um problema.
– Automóveis? Que é isso?
– Ah, são uns carros de ferro que andam sem cavalos, isto é, têm os cavalos dentro, H. P. ou HorsePower, em inglês.
Fídias não entendia nada de nada.
– E que é que puxa esses carros?
– Não são puxados, são empurrados pelo motor que há interiormente.
– Como? Explique-me o mistério. Que motor é esse?
– Motor é uma máquina que usa as explosões da gasolina para produzir cavalos de força.
Fídias franziu a testa. Máquina? Explosões? Gasolina? Cavalos de força? Não entendia nada…
– Você, menino, fala uma linguagem que me é inteiramente nova. Não entendo palavra do que me diz.
Emília deu uma risada gostosa.
– Engraçado! Vivemos no nosso mundo moderno a falar da inteligência grega e no entanto os gregos não entendem nem o que qualquer negrinho lá do sítio entende…
– Isso nada tem que ver com a inteligência – observou Narizinho. – É que a vida mudou muito por causa das invenções, e um homem daqui está claro que não pode entender a linguagem da vida moderna. Agora é que estou vendo como as invenções mudaram o mundo. À menor coisa que a gente diga, eles abrem a boca.
– Realmente – disse Fídias – a linguagem que vocês usam me deixa tonto.
Pedrinho riu-se.
– Ah, se o senhor aparecesse no nosso mundo, por um só dia que fosse… Que tontura, hein Narizinho? Ele num cinema, num avião…
– Nem precisava isso – respondeu a menina. – Ele num trem ou no bonde…
– Que trem ou que bonde, Narizinho! – berrou Emília. – Ele diante dum homem fumando. Bastava isso. Sabe o que é um cigarro, senhor “marmorista?”
O escultor fez cara de ponto de interrogação.
– Pois é um foguinho, uma brasa que os homens chupam. Sai uma fumaça…
– Fumaça?
– Sim. O cigarro é um rolinho de papel com fumo dentro…
– Papel?
– Ou palha de milho… Papel é uma espécie de papiro feito em fábricas. Os homens enrolam o fumo picado e acendem o roletinho com um tição, ou com fósforo, ou com o acendedor…
– Fumo? Fósforo? Acendedor?…
– Ou isqueiro. Na roça a caipirada só usa isqueiro – mais barato. Acendem. Fica uma brasinha na ponta. E chupam a fumaça que sai, e soltam essa fumaça para o ar – assim! – e Emília imitou o gesto do fumante que solta uma baforada.
Fídias estava cada vez mais bobo.
– E para que isso? – perguntou.
– À toa – respondeu a Emília. – Por gosto. Dizem que é gostoso – mas eu acho fedorentamente horrível. O fumo tem uma tal nicotina que é venenosa. Dizem que uma só gota na língua dum cachorro mata o cachorro.
– Quer dizer então que eles chupam a fumaça dum veneno?
– Tal e qual.
– E não morrem envenenados?
– Muitos até engordam. Os médicos dizem que a nicotina é um grande veneno, mas os fumantes respondem “Qual o que!” Lá no sítio há o tio Barnabé, um negro de mais de noventa anos, que não tira o cachimbo da boca. Os médicos dizem que se ele não fumasse estaria já com cem anos.
– Cachimbo? – repetiu Fídias.
– Sim, é um cigarro de barro em vez de papel – continuou Emília. – Um potinho de barro na ponta dum canudo – o canudo de pito. Tio Barnabé bota fumo picado no potinho e uma brasa em cima e chupa aquela fumaça fedorentíssima…
Fídias começou a suar, e mais ainda quando Narizinho lhe perguntou:
– E o rádio, então? Sabe o que é?
– ?
– Um sistema da gente falar aqui e ser ouvida no fim do mundo no mesmíssimo instante. E o cinema? E as fitas do Walt Disney? Nem queira saber, Senhor Fídias! “Branca de Neve e os Sete Anões” foi um assombro. Vi quatro vezes. A Emília ficou apaixonada pelo Dunga…
– Dunga? Disney? Fitas?…
Os meninos riam-se do atrapalhamento do grande homem. Por fim a ex-boneca achou que nem valia a pena conversar.
– Estamos perdendo o tempo, Narizinho. O “marmorista” só sabe abrir a boca e arregalar os olhos. Não tem a menor ideia do mundo em que vivemos – e afastou-se do grupo para ver se filava mais um figo.
Narizinho e Pedrinho tentaram explicar ao escultor muita coisa moderna; por fim desistiram. Ele sabia menos que um aluno de qualquer grupo escolar. Ignorava as coisas mais simples, como a redondeza da terra, o tamanho do sol.
– De que tamanho o senhor pensa que é o sol? – perguntou a menina.
Fídias suava, suava.
– Tivemos aqui um filósofo – disse ele – que afirmou ser o sol do tamanho do Peloponeso – e por causa dessa asneira foi expulso da cidade.
– Pois mandem chamar esse homem e expulsem aos que o expulsaram, porque o sol é 334.500 vezes maior que a terra inteira, a qual é milhões e milhões de vezes maior que essa pulga do Peloponeso.
Fídias sorriu da ousada afirmação. Crianças, crianças…
– E como é a forma da terra, Senhor Fídias? – perguntou Pedrinho.
– A terra é côncava e montanhosa, e está sustentada nos ombros do gigantesco Atlante, segundo uns, ou sobre colunas, segundo outros. Na índia cometem o erro de admitir que o mundo repousa sobre elefantes.
Os meninos deram uma gargalhada gostosa.
– A terra é redonda, Senhor Fídias, e gira solta no espaço em redor do sol. Está mais que provado.
– Provado?
– Sim. A viagem de circunavegação de Fernão de Magalhães provou pela primeira vez a redondeza da terra. Hoje até é bobagem falar nisso. Quem duvidar, que suba a um avião e dê a volta; é coisa de três dias. Voando, ou navegando sempre em linha reta, a gente chega ao mesmo ponto de onde partiu.
Fídias estava literalmente apatetado.
– E que é fogo? – perguntou Pedrinho.
– É um dos quatro elementos que formam o mundo.
– Elemento, nada! O fogo é o resultado da combustão do oxigênio. E a água?
– Outro elemento.
– Elemento nada! A água é composta de elementos, isso sim. E de que elementos se compõe a água, vamos ver?
Fídias nem entendeu a pergunta.
– É composta de hidrogênio e oxigênio. A fórmula química da água é H2O, aprenda. E o ar? Elemento? Olha a mania dos elementos!… O ar é uma mistura de gases – azoto, oxigênio e umas iscas de hélio, neônio, xenônio e outros gasezinhos vagabundos. E o que é… o que é…
– O que é um figo? – disse Emília que vinha entrando a comer o segundo figo filado.
– Uma fruta – respondeu Fídias.
– Fruta o seu nariz – disse a diabinha. – O figo é uma flor que abre para dentro. A parte que a gente come são os estames. – E voltando-se para a menina:
– Olhe, Narizinho, se nós ficássemos aqui e abríssemos uma escola para ensinar mil coisas a esta gente, que tacada, hein? São atrasadíssimos…
