O MINOTAURO
Capítulos 07 e 08
07 – Visita às obras do Partenão
Depois do almoço, na sala que as crianças já conheciam, Péricles convidou Dona Benta para um pulo ao Partenão, cujas obras estavam quase no fim. A inauguração ia ser naquele ano.
Foram todos, Péricles adiante, a tratar com Fídias de assuntos graves e a boa velhinha atrás, com as crianças. Narizinho falava em voz cochichada para que os dois gregos não ouvissem.
– São atrasadíssimos, vovó! Num instante deixamos “ele” nocaute – e indicou Fídias com o beiço. – Nem a forma e os movimentos da terra sabia, calcule…
– Não é assim, minha filha – respondeu Dona Benta. – Os gregos de hoje sabem o que podem saber; claro que não podem saber o que os homens só vão descobrir séculos depois. Apesar disso, a primeira ideia da terra girar em redor do sol nasceu nesta Grécia.
– Como, vovó? Pois se eu estou dizendo que ele não sabe…
– Fídias poderá não saber, nem Péricles, mas quem primeiro lançou a hipótese dos movimentos da terra foi Aristarco, um grego de Samos. Numa obra sobre astronomia, esse Aristarco observou que “o sol é imóvel e a terra gira em redor dele numa curva elíptica, e é além disso, dotada dum movimento de rotação em torno de seu próprio eixo.” Afirmou mas não provou; só séculos depois, numa obra publicada em 1543, é que Nicolau Copérnico iria demonstrar isso. Os gregos adivinhavam as coisas.
Diante do Partenão todos pararam, Dona Benta sem fôlego por ter subido a pé uns cem metros da casa de Péricles até o alto da Acrópole. Acrópole era o nome da colina de pedra sobre a qual se erguia o templo. Dois homens lá estavam aguardando Péricles, o qual, voltando-se para Dona Benta, disse:
– Permita-me que apresente Ictinos e Calícrates, os arquitetos do monumento. Fídias é o superintendente geral. Graças aos três, Atenas pode orgulhar-se deste primor de harmonia e graça que pretendemos inaugurar este ano. Veja. Observe o equilíbrio do conjunto. Não há a menor dissonância em suas linhas.
Dona Benta ergueu os olhos e viu. Viu o que nenhuma criatura moderna jamais viu. Viu o Partenão fresquinho ainda, com andaimes internos, cisco e lascas de mármore pelo chão. Viu e extasiou-se, porque era uma senhora de apurada educação artística.
– Belo, realmente! murmurou depois de alguns instantes de contemplação. – Partenão que eu conhecia em desenhos, isto é, as ruínas do Partenão que chegaram ao meu tempo, mal deixam entrever o que isto na realidade é. Belo, belo, sim…
Enquanto a boa velhinha abria a boca, Ictinos, Calícrates e Péricles afastavam-se e penetravam no templo, a discutirem pormenores do assentamento da estátua da deusa Palas Atena. Fídias ficou de prosa com a visitante.
– O futuro – disse Dona Benta – vai considerar estes mármores a maior obra-prima de todos os tempos, e os séculos venerarão o nome dos seus criadores. A própria fama de Péricles caberá em boa parte à circunstância de ter sido o promotor desta obra.
Fídias, que não sabia que o Partenão fosse tão importante assim, ficou admirado daquelas palavras e começou a falar da oposição de muitos atenienses.
– Apesar do que a senhora diz, quanta luta para chegarmos a este ponto! O povo é incontentável. Por muito que Péricles se esforce, a campanha contra ele não arrefece. A inveja lança mão de todos os meios para ofendê-lo, e não podendo alcançar a pessoa de Péricles, atira-se contra os seus melhores amigos. Eu, que sou um deles, sinto contra mim uma surda corrente subterrânea. Damon, o mestre de Péricles, foi exilado. Anaxágoras, outro grande amigo e mestre de Péricles, foi denunciado como ímpio – e muito custou obter a sua absolvição. Mesmo assim a luta prosseguiu até forçá-lo a sair de Atenas.
– Anaxágoras, sim… – murmurou Dona Benta, recordando-se das profundas ideias desse filósofo sobre o universo.
Fídias prosseguiu:
– Há ainda o eterno caso de Aspásia. Como a senhora talvez saiba, Péricles divorciou-se da primeira mulher e muito teve de lutar para o segundo casamento. O amor ligou-o a Aspásia desde o primeiro dia, mas as leis de Atenas opunham-se a que um ateniense se casasse com uma miletiana – e Aspásia era de Mileto. Por fim os obstáculos foram removidos e o casamento se fez – mas a mesquinharia de seus inimigos não dorme. O implacável Aristófanes persegue-lhe a esposa com infames ironias em suas comédias. Chegaram até ao ponto de conduzirem Aspásia aos tribunais sob acusação de impiedade. Isso deu um trabalhão a Péricles, que teve de defendê-la pessoalmente com todas as forças do seu gênio e do seu coração. Nesse dia até chorou – e foram essas lágrimas que a salvaram…
As crianças haviam penetrado no templo, onde remexiam tudo. Emília botava no bolso pedacinhos de mármore destinados ao seu célebre museu. Dando com uma escada tosca que servia aos pedreiros ocupados no teto, ela berrou:
– Toca a espiar lá em cima, gentarada!…
Subiram todos, e descortinaram o panorama inteiro de Atenas. Emília chegou a ver lá longe, a oito quilômetros de distância, o Porto do Pireu, com o “Beija-flor das Ondas” a destacar-se da maneira mais estranha entre as trirremes da esquadra grega. Umas quatrocentas havia lá, segundo o cálculo da diabinha.
– A cidade não é grande em comparação com as modernas – observou Pedrinho. – Uns quinhentos mil habitantes, no máximo.
– Mas é linda! Veja quantas brancuras – disse Narizinho. – Deve ser mármore. Quantos monumentos, hein?
– O mármore aqui é pedra à-toa – lembrou Pedrinho. – Já li que há um tal de Pentélico. Hei de saber do escultor onde fica a pedreira.
– Do que mais gosto é de não ver chaminés de fábricas, nem uma! Que limpeza! Que ar claro e gostoso!
Péricles, que voltara sozinho do interior do templo, começou a explicar a Dona Benta as alegorias do frontão oriental.
– Temos ali – disse ele, apontando com o dedo – a representação do nascimento de Palas Atena, obra de Fídias. Veja que primor.
Dona Benta parecia deslumbrada.
– Maravilha! – exclamou. – Que dó não ter tal obra chegado aos tempos modernos! Estou notando uma coisa: a leve curvatura de todas as linhas retas, ou que deviam ser retas. Estas colunas convergem imperceptivelmente como se fossem reunir-se nas nuvens, e também noto leve curva nas arquitraves, no frontão, em tudo…
– Foi uma das audácias de Fídias, minha senhora, e parece-me que acertou. Dessa leve curva emana uma leveza que não encontro em nenhum outro monumento.
Péricles sentia-se feliz diante da profunda compreensão da misteriosa velhinha. Até as quase imperceptíveis curvas de Fídias ela apanhara. E passou a explicar o alegórico do frontão.
– Fídias transpôs para o mármore uns versos de Homero que todos os atenienses sabem de cor – disse ele – e recitou: “Começo cantando Palas Atena, a deusa augusta, fértil em sábios conselhos, nobilíssima virgem de coração inflexível, guardiã das cidades, a forte diva que o prudente Zeus fez brotar de sua cabeça, toda revestida de cintilantes armas de ouro. Ao verem-na surgir, brandindo a lança aguda, os imortais pasmaram; o Olimpo estarreceu diante de sua força; a Terra soltou grandes gritos; os mares tumultuaram as ondas; e o filho de Hiperion susteve as rédeas de seus fogosos corcéis até que Palas Atena depusesse as armas. Zeus irradiava de orgulho.” Eis, minha senhora, os versos que Fídias pôs no mármore.
Dona Benta absorvia-se nas esculturas.
– Sim, vejo ali os corcéis do carro do sol estacados pelo empuxão das rédeas. E vejo a radiância de Zeus. E vejo Palas Atena, sua filha cerebral, depondo as armas para o sossego da Terra…
Péricles explicava, explicava.
– Quando o sol se ergue cada manhã, seus primeiros raios batem neste frontão. As cabeças dos cavalos estremecem, e como que eles anunciam com relinchos o nascer do dia. O titã que os conduz retesa-se no empuxão das bridas. Quanta beleza nestes mármores!…
Dona Benta parecia transfigurada. Emudecera.
– E ali naquele ângulo – continuou Péricles – note como os corcéis da Noite surgem suavemente do velhíssimo Oceano. O grande Teseu os sustem…
Dona Benta volveu os olhos para o ponto indicado; Péricles continuou:
– E temos ali Deméter e Perséfone, sua inseparável filha. Note a graça com que Perséfone se apoia ao ombro materno. Ao lado está a inquieta e violenta íris que anunciou ao mundo o nascimento de Atena. E há, ainda, aquela Vitória alada. E há o grupo das Três Parcas, que acho uma extraordinária manifestação do gênio de Fídias.
– Sim – murmurou Dona Benta – vejo ali as três parcas – Cloto, a fiandeira de vidas; Laquesis, a cortadeira do fio da vida; Átropos, a implacável medidora do cumprimento dos fios…
Péricles não deixou de admirar-se do conhecimento da visitante.
– Elas representam Moira, o destino – disse ele. – Estão sentadas e severamente vestidas. A mais moça reclina-se sobre os joelhos da irmã – e é a sorrir que corta o fio da vida dos mortais…
– Realmente! – murmurou a boa velhinha. – Fídias deu ao grande mito das Três Parcas a melhor das representações.
E como essas figuras de mármore alvíssimo se destacam sobre o fundo vermelho!… Nós lá no mundo moderno sempre imaginamos a escultura grega uniformemente branca – mas aqui observo um sábio uso das cores. Já notei na frisa que as métopes são vermelhas e os tríglifos são azuis.
Depois de bem examinarem aquele frontão, passaram-se para o lado oposto, onde se via a luta entre Poséidon e Palas Atena a propósito da Ática. Num irresistível ímpeto de dominação, Palas Atena estarrecia com a sua presença os cavalos de Poséidon, o deus dos oceanos. Atrás de Atena figuravam as cecrópidas Aglaura e Herse, e também o Ilisso – um dos rios que passam por Atenas. E atrás de Poséidon figuravam Tétis, a deusa do mar; Anfitrite, esposa de Poséidon; e a formosa Latona com suas filhas Ártemis e Afrodite. Dona Benta notou que o tridente de Poséidon e o escudo de Atena eram de metal.
– Bronze? – perguntou.
– Sim – respondeu Péricles – o bronze é o melhor companheiro do mármore nas esculturas. Foi Alcamenes o autor deste frontão. Considero-o o melhor discípulo de Fídias.
– Não há dúvida que são dois gênios – disse Dona Benta. – A posteridade os consagrará – sobretudo ao último. A situação de Fídias na história das artes vai ser a de primus inter pares e seu nome será mais popular e citado no futuro do que o é hoje.
Péricles sorriu com amargor.
– Hoje, minha senhora, o pobre Fídias é atacado e difamado – sobretudo por causa da amizade que nos une. Algumas de suas ousadias estéticas me causam apreensão. No escudo da estátua de Atena, que iremos ver, ele representou-se a si próprio e a mim em duas figuras centrais. Muito receio que o bom povo de Atenas se aproveite disso para uma nova acusação de impiedade.
Dona Benta sabia que ia ser assim, e que por causa daquela inocente bobagenzinha o maior escultor grego morreria na prisão. Mas calou-se. Não teve ânimo de o dizer a Péricles.
Antes de penetrar no templo passaram a examinar as frisas – que eram uma longa alternação de métopes e tríglifos, uma fita de esculturas fragmentadas mas ligadas pelo assunto.
– Quantas métopes, Senhor Péricles?
– Noventa e duas.
Dona Benta estranhou a altura do alto-relevo.
– Sim – explicou Péricles – vai até palmo e meio, para que as métopes fiquem harmonizadas com as saliências das cornijas e capiteis. Fídias possui o instinto das proporções justas. Este monumento não passa disto: justeza de proporções.
– E quem esculpiu as métopes?
– Os discípulos de Fídias, segundo seus desenhos. Note o ar de família dessas esculturas. Tudo é água da mesma fonte. Aqui temos o começo da procissão das Panatenéias.
Dona Benta arregalou os olhos.
– Oh, a grande festa à deusa Atenal Sei, sei…
Não havia o que a diaba não soubesse.
– É a mais imponente das nossas festas – e se a senhora permanecer alguns dias em Atenas poderá assistir a uma. Está a chegar.
– Panatenéia: a cerimônia em que os atenienses mudam o peplo da padroeira – lembrou Dona Benta.
– Isso mesmo. Mas note com que finura, com que equilíbrio, os nossos escultores representaram a procissão do peplo. A cena começa aqui e vai se desdobrando até o fim. Abre com os preparativos para a procissão. Estes cavaleiros, montados em belos corcéis da Tessália, apressam-se em seguir os que já partiram. Aquele ali mostra-se ansioso .por que lhe tragam o cavalo. Aquele outro enverga a túnica; aquele outro ata o calçado. Interessante o movimento de impaciência dos cavalos a sacudirem a crina…
– Os cavalos identificam-se com os nossos sentimentos, tanto na guerra como na paz – observou Dona Benta. – Até com os burros é assim, Senhor Péricles. Tenho lá no sítio o Conselheiro. Pois há de crer que esse burro está tão identificado com os meninos como se fosse um membro da família?
Péricles não entendeu e continuou a falar nas esculturas.
– Observe a arte com que os nossos artistas “resumiram” a impaciência dos corcéis – disse ele. – Sente-se que há no ar moscas importunas.
– Mutucas…
– Só lá na outra extremidade da frisa é que aparecem os deuses, ladeando a entrada do templo. A procissão vai-lhes ao encontro.
Dona Benta não tirava os olhos dos cavalos.
– Quem há de encantar-se com isto é meu neto. Pela-se por cavalos! Mas que fim levou Pedrinho – e os outros? Sumiram-se…
As crianças vinham descendo a escada dos pedreiros e breve apareceram fora do templo.
– Corram aqui! – gritou-lhes Dona Benta. Estão perdendo uma coisa única no mundo – a frisa do Partenão explicada pelo Senhor Péricles.
Os meninos aproximaram-se.
– Que tal acha estes cavalos, Pedrinho? – perguntou Dona Benta. – São da Tessália.
O menino examinou-os com ares de entendido.
– Bons, sim, vovó. São “mangas-largas” legítimos – só que têm o focinho muito fino. Os cavalos que eu conheço não são assim.
– Nem os daqui – disse Péricles. – Os escultores não reproduzem a natureza tal como é. Modificam-na num certo sentido, com uma certa intenção. Arte é isso.
– Mas então o belo não é o natural “escarrado”, vovó? – perguntou o menino.
– Não, meu filho. Se fosse, os melhores museus do mundo seriam as escarradeiras, e a maior das artes seria a fotográfica, porque a fotografia reproduz exatamente a natureza. A arte é uma estilização, isto é, uma falsificação da natureza num certo sentido, como acaba de dizer o Senhor Péricles. Você bem sabe que não é nas fotografias que encontramos o belo – é nos desenhos que modificam o real segundo o gosto do desenhista.
Fídias, que também se havia aproximado, estranhou aquela palavra “fotografia” e perguntou o que era. Dona Benta foi obrigada a desenvolver um verdadeiro curso a respeito da invenção de Niepce e Daguerre, e muito naturalmente também falou do cinema, ou a fotografia que reproduz o movimento.
Essa revelação interessou profundamente os dois gregos, embora lhes parecesse a coisa mais absurda do mundo.
– Será possível, minha senhora, que se possa fixar mecanicamente as imagens e reproduzir o movimento de um cavalo a correr, de um homem a andar?
– Possibilíssimo; tão possível que já foi realizado. Considero a invenção da fotografia a melhor que os homens fizeram, porque é a mais pacífica – uma pura invenção da paz. Isso porque há as invenções de guerra, isto é, mais empregadas na guerra do que na paz, como a aviação ou a pólvora.
– Que é pólvora? – quis saber Fídias. Mas Dona Benta não teve ânimo de responder. Teria de iniciar novo curso, e naquela hora o que interessava eram as figuras da frisa.
– E ali? – perguntou, apontando para as métopes seguintes, fingindo não ter ouvido a pergunta do escultor.
– Ali – respondeu Fídias – são os carros que precedem os cavaleiros. Note que são conduzidos por mulheres.
– Que mulheres?
– Figuras simbólicas. Vitórias. Atrás de cada vitória pusemos um guerreiro de pé. Adiante dos carros temos aquele coro de moços e velhos, – explicou Fídias caminhando mais uns passos. Estão tocando flautas e liras.
Emília, que os acompanhava muito alerta, meteu o bedelho. – Lira não se toca – tange-se. – Eles estão tangendo a lira. Tocar, Dona Benta diz que é só para sino ou galinha.
O grego não ouviu.
– E adiante – continuou ele – vemos os ascóforos, ou portadores de odres de couro – são os estrangeiros domiciliados em Atenas.
Emília fez nova graça.
– Se Don Quixote aparecesse, espetava com a lança todos esses odres de vinho.
Dona Benta espantou-a dali.
08 – A estátua de Palas Atena
Péricles, que se afastara por uns instantes, voltou e retomou a palavra explicando todo o desenvolvimento da extensa frisa até chegar à procissão das virgens atenienses, portadoras de vasos.
E quanta coisa mais naquela frisa! Havia o grupo dos magistrados de Atenas; o dos pontífices etc.
Vinham, por fim, os portadores do novo peplo oferecido à deusa.
Dona Benta admirou grandemente aqueles primores, dos quais a posteridade só iria conhecer fragmentos.
– Tudo isto vai ter vida muito breve – murmurou com tristeza. – Lá no meu tempo, que é a 2.377 anos de hoje, destes mármores só restará o que foi recolhido ao Museu Britânico, em Londres.
– Londres?
– Sim, a capital da Inglaterra.
– Inglaterra?
– Sim, um país que ainda vai nascer e formará o maior império moderno. O Museu Britânico abrigará estes mármores, ou a parte destes mármores que escapará ao martelo do fanatismo barbaresco. O mundo é um perene fazer e desfazer, Senhor Péricles. Aqui nesta Acrópole, o meu século só encontrará ruínas – colunas e lajes roídas pela erosão…
A “vidência” da velhinha possuía algo de impressionante.
Os dois gregos sentiram um aperto na alma.
– Bem – disse Péricles – podemos agora ir ver o Partenão por dentro – e convidou Dona Benta a segui-lo.
Entraram no templo. Ainda havia por lá andaimes e operários entretidos nas decorações. Dona Benta chamou para perto de si os meninos e explicou:
– Aqui é a “pronaos”, isto é, a parte que vem antes da “naos”. “Naos” é como os gregos chamam à nave de seus templos, duas palavras que também significam navio. Estas colunas são dóricas, reparem – o estilo mais severo de todos. Notem que saem do chão como troncos de palmeiras, sem que se apoiem em bases, ou plintos… Isto faz que o Partenão nos dê a impressão duma coisa naturalmente brotada do solo; se as colunas se apoiassem em plintos a impressão seria outra – seria de uma coisa colocada sobre o solo. Os meninos ficaram cientes – e o grupo transpôs o portal que se abria para a “naos”, ou o santuário da deusa.
Dona Benta parou, estarrecida. Dez majestosas colunas erguiam-se de cada lado, cercando, como sentinelas, a maravilhosa Palas Atena, a mais rica obra-prima da escultura grega. Uma estátua de doze metros de altura sobre um pedestal de três, toda de marfim e ouro. A padroeira de Atenas lá estava em atitude erecta, na sua túnica talar, isto é, que descia até aos pés e sobrava – túnica de pregueamento muito bem estudado e toda de ouro. As partes nuas eram de marfim – os braços, os ombros e o severo rosto olímpico. A morna tonalidade do marfim translúcido dava a sensação da carne.
– Que maravilha! – exclamou Dona Benta deslumbrada. – Tudo ouro, marfim, pedras preciosas e arte – a mais requintada das artes… E pensarmos que este prodígio não chegará aos tempos modernos – será em caminho destruído pela bárbara rudeza dos fanáticos… Martelos e picaretas desfarão tudo isto, de modo que a posteridade só conhecerá esta maravilhosa Palas Atena através das descrições. A obra de Fídias será vítima do muito ouro nela empregado…
Péricles, que a ouvia, deu uma informação curiosa.
– Só no vestuário empatamos 400 talentos de ouro.
– Quanto significa isso em moeda moderna, vovó? – quis saber Pedrinho.
– O talento é a medida do ouro e da prata destes povos. Tem variado de valor com o tempo e o lugar. Aqui, hoje, o talento ático vale 297 libras esterlinas.
– Cáspite! – exclamou Narizinho – e fez a conta de cabeça. – Quatrocentos talentos de 297 libras dão 118.800 libras – ou seja, 11.880 contos de réis na moeda do Brasil. Vestido mais caro, nunca houve no mundo.
– E as pedrarias? – observou Dona Benta.
– E o marfim? E o trabalho do artista?
– Repare nos olhos – disse Péricles. São feitos de duas enormes opalas cuja transparência copia o tom dos olhos humanos. Muito nos custou descobrir esse par de gemas…
Com efeito, os olhos de Atena davam a ilusão de vivos. Dona Benta continuava em êxtase.
– Sinto-me como que diante duma constelação que reduz as obras de arte a simples estrelas. Que riqueza! Que maravilha!…
Ao pé do escudo de Atena havia uma serpente de bronze enroscada no cabo da lança. Pedrinho, que já estivera com Fídias no interior do templo e se informara daquele detalhe, resolveu dar um “tombo” em Dona Benta.
– Vovó sabe tudo – disse ele – mas aposto que não sabe o nome desta serpente.
Dona Benta declarou que de fato não sabia.
– Pois é o Erectônio – disse o menino todo lampeiro – um filho de Hefesto e Átis, que ora é representado assim, sob forma de serpente, ora meio serpente, meio homem. Foi o criador da festa Panatenéia e tinha no corpo duas gotas de sangue da Górgona, uma que matava, outra que fazia viver.
Pelo menos foi isso que o Senhor Fídias nos contou. Desta vez vovó ficou nocaute – concluiu ele, piscando para Narizinho.
– E com o maior prazer, meu filho. Não há avó que não se delicie com os nocautes que leva dos netos – respondeu Dona Benta, sorrindo para Péricles.
O estadista grego fez várias observações sobre a inteligência daquelas crianças, e teve de ouvir da boa avó algumas passagens da vida deles lá no sítio.
– Imagine agora, Senhor Péricles, quando voltarem daqui! Os quinaus que vão dar em todos os “adultos” que tiverem o topete de falar em coisas gregas…
Em seguida Péricles explicou a significação das esculturas em alto-relevo do pedestal.
– Temos aqui uma série de combates, porque foi em conseqüência destas lutas que Palas Atena emergiu do crânio de Zeus. Nesta face a senhora vê a terrível refrega entre os deuses e os gigantes; nesta outra, o combate das amazonas; e nesta outra, a luta dos Lápitas, com os centauros.
Pedrinho, que andava com os instintos belicosos muito assanhados, quis saber que luta fora essa.
Fídias explicou.
– Os Lápitas eram um antiquíssimo povo da Tessália, cujo rei, Pirito, ao casar-se com Deidamia, caiu na asneira de convidar para a festa os Centauros, os quais, embebedando-se, tentaram raptar a noiva e as mais belas convidadas. Veio a medonha luta. Afinal, os perturbadores da festa foram vencidos e expulsos pelos Lápitas, ajudados pelo heróico Teseu. Eis a história.
– Muito bem – disse Pedrinho. – Na nossa “penetração” no fundo da Grécia, havemos de visitar e apresentar cumprimentos a esses Lápitas.
A palavra “penetração” causou espécie aos dois gregos.
– Ah, meus senhores – disse Dona Benta – estes meninos são do chifre furado. Coisa nenhuma os contenta. Vão continuar pela Grécia adentro essa viagem – esta “penetração” no passado. Eu ia com eles, mas já estou de ideias mudadas. Prefiro ficar por aqui com a minha neta Narizinho, enquanto os outros fazem o tal mergulho.
– Sério, vovó?
– Sério, meu filho. Terei mais gosto em passar algum tempo nesta cidade de Péricles, estudando costumes e conversando com vultos eminentes, do que andar à aventura com os monstros da Fábula. Deixo isso para vocês, que estão no período heróico da existência.
– E esta! – exclamou Pedrinho, voltando-se para a Emília e o Visconde. – Temos que afundar na velha Hélade sozinhos…
– E que tem isso? – animou Emília. – Você bem sabe que nas ocasiões difíceis Dona Benta não vale nada, até atrapalha. Ela que fique coçando estas artes de Atenas. Eu quero façanhas. Sou quixótica…
O Visconde, que nunca fora grande amigo de aventuras, gemeu desculpinhas para não ir.
– Porque, afinal de contas, disse ele, o “Beija-flor” não pode ser largado sem comando no porto.
– Olha o pulha! – exclamou Pedrinho. – Está com o célebre medo, é isso. Não se incomode com o iate.
Rabicó está lá. Vovó o promove a comandante e pronto. Você não escapa, não, Visconde! Há de ir conosco para ver a Hidra de Lerna, e os Centauros, e as Górgonas…
O sabuguinho científico suspirou resignadamente.
Péricles e Fídias não entenderam grande coisa daquela prosa, nem o suspiro do Visconde. Dona Benta teve de explicar, e falou das funções do velho fidalgo nas eternas aventuras dos meninos.
– Como é o único que é consertável – disse ela – os meninos sempre recorrem ao Visconde nas ocasiões de maior perigo.
– Por quê?
– Porque se ele perecer, tia Nastácia faz outro. Esse corpinho que os senhores estão vendo já é o terceiro ou quarto…
Os dois gregos entreolharam-se. Não entendiam coisa nenhuma.
O exame da estátua da deusa continuou.
– Note que Atena traz ao ombro e ao peito a égide – disse Fídias.
– Sim, a égide – repetiu Dona Benta – recordando-se desse termo. Primitivamente queria dizer a pele de cabra que os guerreiros punham ao ombro e ao peito como resguardo. A égide dos deuses era feita da pele da cabra Amaltéia que havia aleitado Zeus. Na égide de Atena o escultor colocara a cabeça da Medusa.
Depois de demorados comentários sobre a égide, os colares, os brincos e a túnica, todos se retiraram da “naos”, para irem ver a outra parte do templo que tinha entrada pelos fundos. Nessa parte havia dois recintos – um mais estreito, de nome Epistódomo, e outro mais amplo, de nome Partenão.
– Partenão? Então Partenão é o nome especial disto aqui? – admirou-se Dona Benta.
– Sim – respondeu Fídias. – A parte central, onde está a deusa, é o Hecatômpedos; esta aqui é o Partenão – nome que já anda a denominar o templo inteiro.
– E para que servem estes recintos?
– Para depósito dos tesouros, das oferendas feitas à deusa.
– É a sacristia! – berrou Emília.
Os dois recintos ainda estavam sem função, vazios, com operários trabalhando em remates.
Dona Benta continuou nas suas expansões:
– Que pena, meu Deus! Que pena os modernos só conhecerem as ruínas deste primor! A estupidez humana! O fanatismo religioso! Quantas e quantas maravilhas, únicas no mundo, não foram boçalmente destruídas por esses dois cascos de cavalo…
Péricles contou a história do velho templo que existia naquele ponto e de como veio a ideia de levantar o atual, maior e infinitamente mais rico.
– Atenas entrou numa era de grande prosperidade – disse ele – e quer agradecer a proteção da deusa com uma obra de valor excepcional. Estamos a fazer isto sem olhar a trabalho e despesas. Estamos a fazer o máximo. Que melhor emprego poderíamos dar ao tesouro de Delos?
Na luta com a Pérsia, as repúblicas gregas haviam dado a Atenas o comando supremo. Para isso entregaram-lhe um grande tesouro comum, correspondente a dois e meio milhões de libras esterlinas de hoje. Mas Atenas saiu vitoriosa da luta sem ter necessidade de bulir no tesouro – e Péricles, muito sabiamente, o estava empregando no embelezamento da cidade.
– Ah – exclamou Dona Benta – se todos os tesouros de guerra, isto é, os destinados a destruir, fossem, como o de Delos, empregados em construir! Em que assombro não estaria transformado o mundo moderno…
Péricles olhou para o sol.
– Quase onze horas. Tenho de ir-me para casa.
Aquele “onze horas” pareceu esquisitíssimo a Pedrinho, pois o seu relógio de pulseira marcava quatro menos dez.
– Onze horas, nada! – disse ele. – Quatro menos dez, isso sim.
Péricles levou-o a uma clepsidra que havia ao lado do templo e apontou para o quadrante. A clepsidra marcava onze horas menos dez minutos.
– Não estou entendendo – disse Pedrinho. – O meu relógio marca pouco menos de quatro – e é um relojinho que não nega fogo.
Travou-se a discussão sobre o assunto, até que descobriram a causa do desencontro. Os gregos contavam as horas a partir do nascer do sol, de modo que o meio-dia moderno era para eles a sétima hora, não a décima segunda, como para nós de hoje. Assim sendo, as onze horas marcadas pela clepsidra do Partenão correspondiam às quatro do relógio de Pedrinho.
Aquele relojinho tornou-se um acontecimento. Péricles e Fídias examinaram-no com a maior atenção.
Dona Benta explicou.
– É a nossa máquina moderna de marcar as horas. Há lá dentro um sistema de rodinhas e peças combinadas, postas em movimento por uma certa mola de aço em espiral. Aqui temos o mostrador, que corresponde ao quadrante da clepsidra.
O pequeno aparelho causou o maior assombro aos dois homens que, por mais que se esforçassem, não conseguiam entendê-lo. Dona Benta suou para dar uma ideia do maquinismo.
Chegou por fim o momento de separarem-se.
– Pois, minha senhora – disse Péricles – muito gosto me deu a sua resolução de ficar em Atenas enquanto os meninos dão lá o tal “mergulho no passado”, que não sei o que seja. E faço questão de tê-la como minha hóspede.
– Não sei como agradecer tamanha honra, Senhor Péricles. Não conheço aqui ninguém, nem sei de hotéis. Minha intenção era ficar a bordo do “Beija-flor”; mas já que me oferece hospedagem, aceito. Ficarei em Atenas com a minha neta, enquanto os outros fazem a penetração”. Tenho agora de ir ao iate para uns arranjos. Mais tarde aparecerei em sua casa…
– Ótimo – disse Péricles. – Espera-la-emos para o jantar. Quero que conheça alguns dos meus amigos.
– Adeus, Senhor Péricles! Adeus, Senhor Fídias! – disse Dona Benta afastando-se.
E lá se foi para o “Beija-flor das Ondas”, com a criançada a correr na frente.
