O MINOTAURO
Capítulos 11 e 12
11 – O sonho de Pedrinho
Pedrinho sonhou. Sonhou que estava sentado numa pedra, com os olhos nos carneiros do rebanho. Súbito, foram se sumindo os carneiros e apareceu uma estrada que ia perder-se nas montanhas azuis.
Um vulto vinha vindo pela estrada. Um homem… Um velho de andar trôpego…
O velho chegou e sentou-se na pedra.
– É daqui? – perguntou-lhe Pedrinho.
– Sou de todos os lugares e de todos os tempos. Sou a História.
Pedrinho encarou-o, surpreso. O velho não era mais o velho, sim uma deidade semelhante a certa figura feminina que ele vira no Partenão, com a cara de musa.
– Como se chama isto por aqui, senhora musa?
– O nome das terras variam com o tempo. Hoje é a Tessália.
Pedrinho correu os olhos em volta, para decorar a Tessália. Um cavaleiro ao longe chamou-lhe a atenção, fazendo-o lembrar-se dos cavalos da frisa do Partenão.
– Será que os cavalos daqui têm o focinho fino como os de Fídias?
– O cavalo é o mais antigo dos companheiros do homem – murmurou a musa. – Já os havia na Tessália quando os Pelasgos apareceram.
Não era resposta às palavras do menino. A musa falava para si mesma, como a recordar-se.
– Quatro mil anos! – murmurou em seguida. – Há quatro mil anos que apareceu por aqui a horda dos nômades vindos da Ásia…
Pedrinho pensou consigo que nômades queria dizer “criaturas que não esquentam lugar” – ciganos.
– Eram os Pelasgos – prosseguiu a musa. – Mas o nômade só é nômade enquanto procura; quando acha, fixa-se. Gostaram os Pelasgos destas regiões e fixaram-se – e sua permanência iria marcar-se de modo indelével nos monumentos que eles ergueram. Foram os construtores das “muralhas ciclópicas”, isto é, feitas de pedras tamanhas que só homens agigantados poderiam movê-las. Mas a terra é mesa indiferente sobre a qual rolam as ondas humanas. A onda pelágica veio, espalhou-se e afinal quebrou-se em espuma. Uma onda mais forte a recobriu – a dos Helenos.
Um estranho brilho cintilou nos olhos de Pedrinho.
– Helenos! Hélade! Que lindo…
– Vinham do Cáucaso – prosseguiu a musa – e ao falar nesse nome o seu rosto assumiu um ar de tragédia. – O Cáucaso…A sinistra montanha onde Zeus acorrentou o titã amigo dos homens.
– Prometeu! – exclamou Pedrinho.
– Sim… Os helenos traziam no sangue o eco da dor do titã encadeado e permanentemente bicado pela águia divina. Prometeu roubara o fogo do céu para dá-lo aos homens. Esse fogo nas mãos dos homens significaria a libertação, dominação das forças da natureza – Civilização. O titã o sabia e proclamava entre urros de dor, como diz o grande Ésquilo: “Cairás, Zeus, do teu trono dos céus. O tridente de Poséidon será quebrado. Os homens farão do fogo arma de maior potência que o raio celeste. Vós todos, ó deuses do Olimpo, morrereis!”
Pedrinho recordou-se do que, nos “Serões”, Dona Benta dissera sobre o fogo, esse pai das indústrias e artes (SERÕES DE D. BENTA). Com as indústrias e as artes nascera a libertação do homem e desaparecera o terror inspirado pelos ferozes deuses antigos.
A musa continuou:
– Eram cruéis e vingativos os velhos deuses. Forçavam os homens à mais rastejante adoração. Os céus viviam toldados pelo fumo dos sacrifícios. A cólera divina só se aplacava com a visão do sangue das vítimas e com o cheiro da carne queimada. A grande preocupação da triste humanidade era uma só: aplacar a cólera divina. Foi a rebeldia de Prometeu que a libertou da sanha do Olimpo…
– Os Helenos…
– Sim – desceram da montanha os Helenos e derramaram-se por sobre os Pelasgos – como onda que cobre onda. E como onda nova que era, absorveu, assimilou, escravizou a onda velha, e por fim explodiu na mais opulenta floração humana.
Os homens do Cáucaso, ensinados por Prometeu, vinham livres do “terror teogônico” da Ásia e África, como livre desse terror para sempre fora a alma do titã. Uma palavra explica os Helenos: liberdade. Liberdade de pensar, de criar – de viver, em suma. “Homens somos, e à nossa imagem e semelhança faremos os deuses do Olimpo.”
– Beleza! – exclamou Pedrinho.
– E assim foi. Os velhos deuses pelásgicos eram brutos como as pedras com que esse povo construía os seus monumentos. Os homens novos tomaram tais.
– Aí está uma coisa que eu não sabia: que os deuses helenos foram os mesmos deuses pelásgicos.
– Sim. Zeus, Poséidon, Hera, Atena, Deméter e Hefesto foram os rudes blocos de “rocha divina” que os helenos transformaram em deuses feitos à imagem e semelhança de si próprios. De igual maneira Fídias tirou das pedreiras do Pentélico as estátuas que tanto te seduziram, meu menino. As torvas divindades pelásgicas acabaram transfeitas em poesia pura.
– Que beleza! – exclamou de novo Pedrinho.
– Mas os Helenos tiveram a desdita de se desdobrarem em quatro ramos, ou tribos, com muitos pontos em comum e também muita diferenciação de língua, costumes e política. Isso os matou. Em meus sonhos de musa perco-me às vezes a imaginar o destino que teria o mundo se o feixe helênico se mantivesse coeso. Desgraçadamente cindiu-se em quatro varas – os Aqueanos, os Eólios, os Dóricos e os Jônicos. A divisão gera o ciúme. O ciúme gera a guerra – e na Guerra do Peloponeso os quatro ramos helênicos mutuamente se destruíram. E os bárbaros vieram – e facilmente afogaram a primeira, a grande, a maior eclosão de beleza e pensamento que ainda iluminou o mundo…
Pedrinho suspirou.
– Eis, meu menino – concluiu a musa – o que foi, em suas origens, essa Grécia de lenda que te chamou a estas paragens.
Ao recolher-se na noite anterior, Pedrinho havia formulado mentalmente aquela interrogação: “Como teria surgido esta Grécia?” A musa, no sonho, viera dar-lhe a resposta.
– Mas não há povo que não receba influencia de outros povos – prosseguiu a musa. Os helenos não fogem à regra. Do Egito vem Cécrope, que planta a civilização da Ática e funda Atenas. Da Fenícia vem Cadmo, que funda Tebas e introduz o alfabeto. Da Frígia vem Pélops, que dá o nome ao Peloponeso. São ôndulas de civilizações estranhas a interferirem na onda helênica – mas que em vez de a subverterem acabaram assimiladas e aproveitadas como fino material de construção. E desse modo começou o período a que a Posteridade chamaria – a Idade Heroica da Grécia. Nela estamos, meu menino…
Embora a linguagem da musa fosse das mais elevadas, e imprópria para menores da idade de Pedrinho, tudo compreendeu ele perfeitamente. Seu espírito era vivo como o dum heleno da idade de ouro. E Pedrinho exultou, porque estava justamente onde queria – em plena Grécia Heroica, ou melhor, na Hélade Heroica, visto como a palavra Grécia só muito mais tarde iria aparecer. O pastor com quem conversara no dia anterior não era ainda um grego, sim um puro heleno.
– E que há, musa, de mais importante para ver-se na Grécia Heroica?
– Não tem fim o número de acontecimentos de monta que as lendas fixaram. Lembrarei os Trabalhos de Héracles, ou Hércules. Lembrarei a instituição dos Jogos Olímpicos, essa novidade à qual o mundo deve o culto da beleza plástica. E a expedição dos Argonautas, início dum devassamento dos oceanos que culminou na descoberta de Colombo. E o reinado do Rei Minos da Ilha de Creta. E as façanhas de Teseu, o herói que enfeixou todos os burgos da Ática numa cidade só…
– E matou o Minotauro!
– Sim… E lembrarei também a Guerra dos Sete Chefes contra Tebas. E o reinado de Atreu em Argos. E a Guerra de Tróia, que enche a Ilíada do grande Homero. E o estabelecimento das colônias gregas da Ásia Menor. E a supressão dos reis da Ática para preparo da democracia. Neste ponto a Lenda pára e a História começa…
– Conheço Atenas – disse Pedrinho – Lá estive com vovó em casa do Senhor Péricles.
– Esse homem de gênio marca o zênite da civilização grega – observou a musa – Com a sua morte, por ocasião da peste de Atenas, começará a agonia da grande Grécia.
– Que dó!…
– Mas não morrerão nunca as formosas criações do espírito helênico. No sangue dos homens brilhará sempre a luz das ideias que a Raça Esplêndida soube gerar.
Pedrinho recordou-se das palavras de Dona Benta sobre a penetração do pensamento grego até em terras só conhecidas muitos séculos depois do desaparecimento da Grécia. O discurso do promotor no casamento da filha do juiz. (O PICAPAU AMARELO) O nome e a classificação científica do Quindim…
A musa parou de falar. Foi-se esvaindo em fumo – e o velho reapareceu sentado na pedra. Ninguém se admira do que acontece nos sonhos. O menino não se admirou da mudança. Pôs-se muito naturalmente a conversar com o velho.
– Já sei onde estou, meu caro; só não sei que momento é este. Conte-me o que está acontecendo por aqui, as novidades do dia.
– Lá no burgo em que moro o povo discute muito uma propalada expedição de Héracles contra uma hidra – respondeu o heleno.
– Sei! – gritou Pedrinho entusiasmado. – Esse Héracles é o homem de mais força do mundo, e será eternamente conhecido com o nome de Hércules. Onde está a Hidra?
– Nos pântanos da Argólida, onde as Danaidas lançaram as cabeças de seus maridos. Lá nasceu o hediondo monstro que anda a destruir os rebanhos das redondezas. Só Héracles poderá vencê-lo.
– Quantas cabeças tem esse monstro? Sete ou nove?
– Não sei ao justo. Há até quem fale em cinquenta. São cabeças que depois de cortadas renascem – e dizem que uma delas é imortal.
Pedrinho estava radiante. Ia ter ensejo de assistir à formidável luta do homem de mais força do mundo, o grande Hércules! E tal foi o seu entusiasmo que despertou também entusiasmo nos outros.
– Emília, Visconde, levantem-se! Temos que ir já para Lerna, a tempo de ver com os nossos olhos a grande luta de Hércules com a Hidra.
Emília sentou-se no pelego. a esfregar os olhos.
– Não quero! – berrou. – Primeiro, o Olimpo! Tenho de ver como é a história do néctar e da ambrosia!
– Gulosa e mandona! – exclamou Pedrinho. – Pensa que está no sítio? Cá na Grécia quem manda sou eu – e eu quero, ouviu? Quero correr já para a Argólida.
Emília abespinhou-se todinha.
– Alto lá com esse negócio de “quero.” Se estamos na Grécia, o que vale é o voto. Temos de botar o caso em votação – e olhou para o Visconde, que estava bocejando; olhou-o com olhos magnetizadores que pareciam os da Medusa, e disse. “Qual o seu voto, Visconde? Lerna ou OLIMPO?”
O Visconde nem sabia do que se tratava, mas leu tão grande nos olhos de Emília a palavra Olimpo que repetiu, tontinho, tontinho – Olimpo.
Emília sorriu, vitoriosa.
– Está vendo? A assembleia decidiu que vamos primeiro ao Olimpo.
– Falta um voto! – gritou Pedrinho, lembrando-se do velho. – Mas… que é do velho?!…
– Que velho?
– O que estava conversando comigo e contou da próxima façanha de Hércules. Onde está ele?
Procura, que procura, nada. O velho desaparecera.
– Ah! – gemeu Pedrinho num desconsolo. – Foi sonho…
12 – Em marcha para o Olimpo
A madrugada vinha rompendo. Os três “penetradores” levantaram-se dos pelegos e olharam em redor.
Que é do pastorzinho? Já estava por fora.
– Bom dia, pastor! Gosta de madrugar, hein?
O pastorzinho sorriu, e contou que todas as manhãs se levantava muito cedo para assistir ao nascimento do sol.
O sol naquele tempo não era simplesmente o sol, e sim o deus Hélios.
– A divina Aurora de dedos cor-de-rosa abandona todas as manhãs o leito de Hélios para trazer ao mundo a luz que a Noite recolheu na véspera. Ei-la, que chega em seu carro deslumbrante! – foi o que disse o pastor, com o dedo a apontar o céu.
Emília achou aquilo uma beleza, mas o Visconde fez ar de quem diz: “Passo.” Era um cientista, e os cientistas pensam do sol de maneira muito diferente dos poetas. Acham que o sol é um astro como todos os outros, e que a luz é uma vibração dum tal éter que eles ignoram o que seja. Mas Emília barrou a preleção astronômica que o Visconde ia começando a impingir.
– Cale-se! – disse ela. – O que vejo lá em cima é a Aurora mesmo, com os seus dedinhos cor-de-rosa, a guiar o carro de fogo. Muito mais bonito assim.
O pastor e os três “picapaus” assistiram ao nascer do sol como se estivessem num teatro vendo a fita de Branca de Neve – e Pedrinho declarou nunca ter presenciado cena de maior beleza.
– Parece incrível que só agora eu haja descoberto como é lindo o nascer do sol, uma coisa de todos os dias mas que bate quanta fita há no mundo. Que assombro!…
Emília também se extasiava.
– Olha aquelas nuvens de gaze, lá… Vão se estirando como um fichu de musselina, mudando de forma e cor, passando dos tonzinhos ralos para os vermelhos vivos do fogo. Só mesmo uma alma de sabugo não admira este espetáculo…
Era indireta para o pobre Visconde, o qual fungou, muito desapontado.
Finda a festa do nascimento do sol, os meninos aceitaram a refeição que o pastor lhes ofereceu. Leite – leite só, tirado por eles mesmos das ovelhas com cria.
– Que regalo! – exclamou Pedrinho lambendo os beiços. – Que leite divino! Lá nas nossas cidades a refeição da manhã é sempre aquela pretura de café, tomado na mesa, sem este frescor do ar livre a nos envolver com os seus oxigênios picantes – e respirou a largos haustos o ar da manhã como se estivesse respirando a maior das novidades.
– Lá estão à nossa espera as montanhas do Olimpo…
O pastor riu-se da “ingenuidade.”
– Continua com a ideia de subir ao Olimpo? – perguntou.
– Claro! – respondeu Emília. – Não foi para outra coisa que chegamos até aqui.
– Que absurdo! – Mortal nenhum ainda conseguiu penetrar no Olimpo. Zeus fulmina com seus raios quem se atreve a pensar nisso.
Emília teve dó do heleno.
– Bem se vê que não nos conhece, pastorzinho! Não somos criaturas iguais às comuns. Somos do Picapau Amarelo, entende?
Está claro que o pastor não entendeu.
– Até pela Via-Láctea já andamos – continuou Emília. – Até nos anéis do planeta Saturno estivemos brincando de escorregar (VIAGEM AO CÉU).
O pastor abriu a boca. A linguagem da estranha criaturinha era inteiramente nova para ele. Emília riu-se.
– Sua cara está que nem a do “marmorista” Fídias quando lhe contei aquela história do cigarro…
Depois de mais uns minutos de prosa, os três “picapaus” se despediram do jovem pastor e tomaram a direção das montanhas azuis. O Visconde com a maleta da Emília às costas, seguiu resmungando.
Para que quereria ela a maleta lá no Olimpo?
– Adeus, adeus, amigo pastor, – gritava Pedrinho, de longe. – Na volta viremos dormir mais uma noite aqui nesta casa.
Foram andando, andando. No fim da planície começaram a galgar as encostas da montanha azul, que de perto não era azul coisa nenhuma, sim verde como todas as montanhas.
– Estou vendo que o tal azul é a maior das petas – observou Emília. – Quando a gente se aproxima ele foge.
O Visconde deu a sua opinião de sábio.
– O azul das montanhas e do céu não passa da cor do ar visto em quantidade. Só percebemos essa cor quando há uma grande quantidade de ar, como a da camada atmosférica.
Emília chamou a atenção de Pedrinho para um ponto.
– Já reparou – disse ela – como a ciência fica uma coisa sem graça aqui na Grécia? Tudo cá é poesia – e a ciência é prosa.
Foram andando, andando, sempre a subirem as encostas.
Passaram por um grupo de oliveiras silvestres, carregadas de azeitonas. Pedrinho mordeu uma e cuspiu.
Horrível! Só prestam depois de curtidas. Emília apenas murmurou de si para si: “Interessante, isto de azeitonas em árvore! Sempre imaginei que nasciam dentro de latas.”
Foram subindo, subindo. Lá bem no alto detiveram-se. A natureza começava a mudar.
– E creio que estamos chegando – observou Emília. – Notem o esquisito da vegetação. Parecem olímpicas. A morada dos deuses deve ser atrás daquele bosque maravilhoso que começa a aparecer lá em cima.
Acertou. Justamente atrás do bosque maravilhoso erguia-se a mansão dos deuses e eram eles – eles, os três “picapauzinhos” do Picapau Amarelo – as primeiras criaturas humanas que chegavam até lá!…
Pedrinho ficou sério.
– Temos de pensar. O pastor insistiu muito nos tais raios com que Zeus fulmina os invasores do Olimpo. Temos de pensar muito bem, senão…
Puseram-se a debater o jeito de invadir o Olimpo sem serem vistos e fulminados. Cada um teve sua ideia. A melhor, como sempre, foi a da Emília.
– Podemos nos disfarçar em arbustos. Amarramos folhagens em redor do corpo, como aquele “BichoFolhagem” da história de tia Nastácia, e vamos avançando devagarinho. Juro que os deuses nada percebem.
Pedrinho aprovou a ideia, e cortando uma porção de galhos bem folhudos atou-os com cipozinhos à cintura do Visconde e da Emília – e depois em si mesmo. A maleta às costas do Visconde atrapalhava a operação. Pedrinho danou.
– Esta sua mania de andar sempre com bagagem nos atrapalha, Emília. Você e eu estamos bem disfarçados. Viramos uns perfeitos arbustos. Mas o pobre do Visconde ficou um arbusto esquisito, de maleta de fora, como um corcunda.
– Não faz mal – disse Emília. – Ele fica sendo o Rigoleto da Floresta.
Rigoleto é o corcunda de uma das mais célebres óperas de Verdi, aquela que tem o pedacinho do “La donna é mobile”…
Os três arbustos foram se movendo com a maior lentidão.
Ainda que os imortais possuíssem binóculos melhores que o de Dona Benta, era-lhes impossível perceber qualquer coisa. E foi desse modo que os “picapaus” chegaram à beira da mansão dos deuses, feita de nuvens, num ponto de onde podiam espiar à vontade.
E espiaram! E viram o que nenhum ser humano ainda havia visto! Viram o imponente Zeus em seu trono de ouro, a conversar com as demais divindades do Olimpo.
– Que esplendor de homem! – cochichou Emília dentro das folhas. – Parece mesmo o Teófilo Gautier que Dona Benta nos mostrou em retrato.
– O que acho formidável é o cabelo e a barba – sussurrou Pedrinho. – Encaracolados. A verdadeira ondulação permanente é essa, porque é eterna. Agora estou compreendendo o que vovó disse da “beleza olímpica.” É isso – essa serenidade de quem não vê nada acima de si.
– Repare na águia que ele tem à direita – disse Emília muito baixinho. – É a tal que comia os fígados de Prometeu. E à esquerda há um feixe de raios em forma de ziguezagues.
Os deuses do Olimpo estavam a discutir coisas da terra – justamente o caso de Hércules, um dos mais complicados.
Hércules, filho de Zeus e duma mortal de nome Alcmena, sempre fora muito protegido de Zeus, e muito perseguido pela deusa Hera, ou Juno, esposa de Zeus.
Juno, ciumentíssima e vingativa, não perdoava o filho de Alcmena. Logo que soube de seu nascimento, lançou contra ele duas horríveis serpentes.
Os monstros penetraram no palácio de Alcmena e insinuaram-se no quarto onde estava o berço de Hércules.
Um irmãozinho de Hércules, de nome íficles, viu-os e gritou. Alcmena acudiu, assustada, e com a maior das surpresas encontrou o pequenino Hércules segurando as duas serpentes pelo pescoço, uma em cada mão – a asfixiá-las!…
Tão assombrada ficou diante do estranho acontecimento, que correu à casa do famoso adivinho Tirésias. Queria saber o futuro daquela criança. Tirésias pensou, pensou, e disse: “O menino vai ser um herói invencível, que destruirá os mais horrendos monstros e derrubará os mais fortes guerreiros”- e muitas outras coisas disse, que com o tempo todas se confirmaram.
Hércules foi crescendo em idade e vigor, até que um belo dia deu começo à sua prodigiosa carreira de herói – mas nunca deixou de ser atrapalhado pela vingança de Juno.
Não houve peça que a deusa não lhe pregasse. Um dos seus ardis foi colocá-lo na dependência de Euristeu, um rei que a obedecia cegamente, e Juno sugeriu a Euristeu impor a Hércules uns tantos trabalhos acima de todas as possibilidades humanas. Veio daí o plano dos “Doze Trabalhos de Hércules”, isto é, doze façanhas verdadeiramente impossíveis. Fatalmente sucumbiria o homem que tentasse realizá-las.
O primeiro trabalho de Hércules foi a luta contra o terribilíssimo Leão da Nemeia, monstro fabuloso que supunham caído da lua. Mas era um leão invulnerável. O herói o percebeu imediatamente, quando viu que suas flechas nem lhe arranhavam o couro. Mas não desanimou. Abandona o arco e agride o leão com a sua poderosa maça, e tantos golpes lhe pespega no crânio que o monstro recua, foge, esconde-se num antro. Hércules entra no antro, fecha-o com um grande penedo e atraca-se com o leão em luta corpo a corpo. E acabou asfixiando-o em seus braços! A pele desse leão iria, por toda a vida, ser a égide do herói.
Esse primeiro trabalho produziu grande surpresa na Hélade. Por muito tempo em todos os burgos não se falou de outra coisa. Vinha daí o enorme interesse dos helenos pelo segundo trabalho de Hércules, já anunciado – a sua luta contra a Hidra.
Os deuses do Olimpo estavam justamente a debater o assunto no momento em que os “três arbustos” começaram a espiar.
Juno parecia cheia de esperanças. Não ignorava que as mordeduras da Hidra eram venenosíssimas, de modo que o menor ferimento em Hércules ser-lhe-ia fatal. Ora, tendo a Hidra muitas cabeças, pelo menos de uma arranhadura não se livraria o herói – e era o bastante. A vingativa deusa sorria de íntima satisfação.
Zeus, entretanto, zelava pelo filho de Alcmena. Adivinhando o pensamento de Juno, chamou o deus Hermes, ou Mercúrio, que era o mensageiro do Olimpo.
– Hermes – disse-lhe em voz baixa – corra a Delfos e avise à Pítia que numa planta do Oriente está o remédio contra as mordeduras da Hidra. Se Hércules for ferido, fatalmente consultará a Pítia, que é a adivinha do Oráculo de Delfos.
Juno pôs-se a cismar. Que ordens teria seu esposo dado ao mensageiro do Olimpo?
Os “três arbustos” acompanhavam a cena com a maior atenção. Outra deusa apareceu, que foi imediatamente reconhecida por Pedrinho.
– Palas Atena, ou Minerva! – sussurrou ele. – A tal que brotou da cabeça de Zeus armada de escudo e lança.
A esplendorosa deusa trocou breves palavras com seu pai.
Juno mordeu os lábios. Percebeu que Minerva também favorecia o herói. O Olimpo estava dividido em dois partidos, um que apoiava Zeus, outro que apoiava Juno.
Naquelas intrigas olímpicas Zeus acabava sempre triunfando, mas tinha de empregar muita astúcia.
Se ele era o mais poderoso, os outros também dispunham de grande poder.
Juno disfarçadamente retirou-se. Foi conspirar em outro grupo.
– Que malvada! – murmurou Emília. – Não desiste…
Mais um deus surgiu – belo, extraordinariamente belo.
– Apolo, juro! – exclamou Pedrinho, lembrando-se duma estátua de Apolo que ele vira em casa de Péricles. – Esse é o mais sábio de todos. Repare, Emília, como Zeus se mostra satisfeito com o que está ouvindo. Apolo é um danado para prever o futuro.
– E aquela? – perguntou Emília. Vinha entrando uma deusa de formas enérgicas, com um arco na mão e carcaz de setas a tiracolo. Um galgo a seguia.
– Artemis, ou Diana, a caçadora – disse Pedrinho. – Uma danada para perseguir animais ou gente.
Vovó contou a trágica história das Nióbidas, filhas daquela desgraçada Niobe, princesa da Lídia. Niobe, orgulhosíssima dos doze filhos que tinha, cometeu, certa vez, a imprudência de gabar-se da sua superioridade sobre a deusa Latona, que só tivera dois filhos, Apolo e Diana. Latona, irritada, mandou que Apolo e Diana lhe matassem os doze filhos. Apolo flechou os rapazes e Diana flechou as meninas. Tão grande foi a dor de Niobe, que Zeus, compadecido, a transformou em pedra.
Emília indignou-se.
– Quem os vê tão belos não imagina a dureza de seus corações! Vão matando os pobres mortais como quem mata pulgas, sem a menor cerimônia. Creio que já vi um grupo de mármore representando a
cena.
– Viu, sim, lá no sítio. Vovó nos mostrou uma gravura em que Niobe está num desespero de louca. Esperem… Olhem quem vindo lá. Poséidon, também conhecido como Netuno. Que tipo exótico…
Netuno entrou majestosamente, a bater no chão com a ponta do tridente. Não revelava a beleza dos outros; parecia um monstro do mar sob forma humana. Pedrinho disse:
– Foi um dos que mais ajudaram Zeus na luta contra os titãs, e contam que também teve a ideia do cavalo de Tróia e construiu as muralhas dessa cidade. Com aquele garfo de três dentes é que ele espeta os tubarões.
Netuno não conversou com Zeus sobre o caso de Hércules. Coisa da terra. O deus do mar só se interessava pelos assuntos do mar.
Depois que Netuno saiu, entrou um deus coxo.
– Héfesto, ou Vulcano. Pedrinho disse: – O caso deste filho de Juno é interessante. Nasceu tão feio, o coitado, que sua mãe, furiosa, o arremessou do Olimpo à Ilha de Lemnos.
– E ele quebrou a perna…
– Exatamente. Quebrou a perna, ficou manco para sempre, e não quis saber de voltar ao Olimpo.
Estabeleceu-se na terra como ferreiro, abrindo uma enorme forja no Monte Etna. O vulcão que há lá é a chaminé.
– Mas que faz aqui, então?
– O forjador dos raios de Zeus é ele. Aposto que vem trazer raios novos.
O menino acertou. Vulcano dirigiu-se ao feixe de raios que Zeus tinha à sua esquerda e substituiu os estragados por novos.
O Visconde riu-se lá dentro da sua folharada.
– Isso é raio de teatro! – murmurou ele. – O que chamamos raio não passa de faíscas elétricas.
– Elétricas ou não, quem fabrica os raios é este deus manquitola – protestou Emília. – Olhem… olhem quem vem vindo na direção dele… A mãe de Cupido…
Vênus, a maravilhosa esposa de Vulcano, acabava de entrar, seguida do pequeno Eros – o mesmo Cupidinho que já conversara com Emília (O PICAPAU AMARELO).
– O nome dela aqui é Afrodite – explicou Pedrinho. – Em Atenas vi inúmeras imagens de ouro desta deusa, grandes e pequeninas. É a mais estimada no Olimpo e a que mais lida com as criaturas da terra. Intrometidíssima. Mete o bedelho em todos os negócios do coração.
A deslumbrante deusa trocou duas palavras com Vulcano; em seguida foi contar a Zeus as últimas travessuras do menino de asas, ao qual o deus dos deuses fez uma festinha no rosto.
Os “arbustos” estavam a regalar-se com a cena quando tiveram a atenção atraída por um rapagote de grande beleza, mas que não dava a ideia de um deus. E não era.
Era Ganimedes, o menino que Zeus raptou da terra para transformá-lo em garção do Olimpo. Entrou com uma bandeja de ouro na qual se viam várias ânforas e taças.
– Chegou a hora! O garção do Olimpo vai oferecer uma taça de néctar a Zeus.
Ao ouvir a palavra néctar, Emília ficou assanhadíssima, chegando a botar a cabeça fora da galharada.
Pedrinho teve de pregar-lhe um beliscão.
– O néctar! O néctar! – repetia a diabinha. – Olhem o regalo de Zeus! Que delícia não deve ser o tal néctar…
Depois de servir a divina bebida, Ganimedes apresentou os pratos de ouro com ambrosia.
Segundo assanhamento da Emília e segundo beliscão de Pedrinho. Ela queria por força correr até lá, ver, pegar, cheirar – devorar o alimento dos deuses.
Concluída a sua olímpica refeição, o deus dos deuses mandou que Ganimedes servisse aos demais.
Imediatamente Eros espichou a mãozinha e “pescou” uma dedada de ambrosia – e Emília, lá dentro da sua túnica de folhas, lambeu os beiços. Seus olhos seguiam Ganimedes.
– Quero ver para onde ele vai depois de servir a todos.
Ganimedes serviu a todos e retirou-se para certo ponto do Olimpo, onde uma nuvenzinha cor de madrepérola servia de copa.
– É lá a copa do Olimpo – sussurrou Emília. – É lá que guardam as ânforas de néctar e os pratos de ambrosia – e começou a arquitetar um plano. Assim que viesse a noite e os deuses ferrassem no sono, os três se aproximariam da nuvenzinha-copa e mandariam o Visconde furtar um pouco de néctar e de ambrosia.
O Visconde suspirou. Ele, sempre ele. Só se lembravam dele nos lances perigosos, ai, ai…
A impaciência de Emília aumentava, e por proposta sua foram se afastando dali a fim de escolherem posição mais estratégica.
O novo ponto em que se colocaram revelou-se ótimo. Permitia-lhes ver todo o interior da copa e localizar o deslumbrante móvel, todo de ouro, em que Ganimedes guardava as divinas substâncias.
– É a geladeira do Olimpo – disse Emília – e o garção esqueceu-se de fechar a porta. Que bom…
Ah, como estava custando a anoitecer! A ex-boneca sapateava de impaciência. Punha os olhinhos no sol e dizia: “Mais depressa, Hélio. Deite-se hoje mais cedo.”
O sol, afinal, deitou-se na sua cama do horizonte. A Noite foi desenrolando por sobre o mundo as suas peças de crepe. Os deuses recolheram-se cada qual à sua nuvem.
Entrou a reinar um silêncio verdadeiramente olímpico.
– É hora – murmurou Emília – e deu as últimas instruções ao Visconde, o qual as ouviu com o suspiro de sempre.
“Agora desça a mala” – e depois que o Visconde arriou a maleta, Emília abriu e tirou de dentro um vidro e um pires.
– Para que isso? – perguntou Pedrinho.
– É boa! Para pegar o néctar e a ambrosia.
– Ah, linda…
– Claro. Costumo prever tudo. Se não fosse a minha ideia de trazer esse vasilhame, como iríamos nos arranjar agora? Quando penso num caso, penso direito, penso até o fim, sem esquecer coisíssima nenhuma. Tome, Visconde, este vidro e este pires; encha o vidro de néctar e ponha no pires um bom pedaço de ambrosia – um bom pedaço, veja lá! Faça isso e volte correndo, porque se o garção o pilha, faz como Juno fez para o Vulcaninho – arroja-o sobre a Ilha de Lemnos.
O Visconde tomou o vidro e o pires e lá se foi, pé ante pé, para a nuvem-copa. Diante da geladeira executou as ordens recebidas – néctar no vidrinho e um bom pedaço de ambrosia no pires. E, olhando para todos os lados voltou, no maior dos ressabiamentos.
Mal se reuniu aos companheiros, Emília quase lhe arrancou das mãos as duas preciosidades. Cheirou o vidrinho e provou o conteúdo na ponta do dedo.
– Ah, era o que eu pensava! Mel dos deuses – mas um mel mil vezes mais gostoso que o das abelhas. Não enjoa, não é doce demais. Prove, Pedrinho. Veja que suco…
Pedrinho provou o néctar e estalou a língua.
– Maravilhoso, Emília! Vale a pena ser deus só para chuchurrear este assombro de gostosura – e provou de novo, e daria conta do vidro inteiro, se Emília lho não arrancasse das mãos. “Isto vai para Narizinho. Vejamos agora a ambrosia.”
Tomou o pires, cheirou o alimento dos deuses, provou-o com a ponta da língua e fez cara de quem procura lembrar-se duma semelhança. Por fim exclamou:
– Curau de milho verde, Pedrinho! Curau do bom – mas muito melhor do que o de tia Nastácia. Prove…
Pedrinho tirou uma dedada e levou-a à boca. Seus olhos se arregalaram.
– Sim, curau, não há dúvida. Mas que curau, Emília! Gostosíssimo – e tirou outra dedada. Emília puxou o pires para continuar no exame do creme divino. Pensou:
– Se é da família dos curaus, não vale a pena levar, porque azeda. Que pena! Narizinho vai morrer de desgosto…
E como não valia a pena levar porque azedava, resolveram comer toda a ambrosia ali mesmo. O Visconde lambeu o pires.
Emília estava ainda a comentar o “gosto da gostosura”, quando sua atenção foi despertada por um barulhinho.
Alguém que se dirigia para a copa. Os “três arbustos” encolheram-se dentro da folhagem.
– Quem será que vem vindo? – pensaram os três.
Era um menino de asas. Era o travesso filho de Vênus, que se levantara da cama para vir furtar ambrosia.
Chegou, abriu a geladeira e regalou-se. Em seguida escapou na pontinha dos pés.
– Que galanteza! – sussurrou Emília. – Tal qual Florzinha das Alturas.(MEMÓRIAS DA EMÍLIA) Depois que Eros desapareceu, o silêncio tomou de novo conta de tudo.
– Muito bem – disse Pedrinho. – Acho que é hora de batermos em retirada. Já vimos o que queríamos ver e a prudência manda não abusar muito. Toca a recuar!
Os “três arbustos” foram recuando, recuando; mas como os deuses estivessem no melhor dos sonos, já não havia necessidade de grandes cautelas. A cem passos de distância Pedrinho parou.
– Podemos dispensar esta galharada – e os três arbustos foram desmanchados.
– E agora – concluiu ele – é abrirmos no pé até à casa do pastor.
Assim fizeram. Desceram a montanha no galope.
Estava uma noite de lua, só com as maiores estrelas no céu. O luar permitia-lhes ver o caminho tão bem quanto de dia.
Foram degringolando morro abaixo. Ao chegarem à planície, um coricocó coricocou ao longe.
– O galo do pastor! – disse Pedrinho. – Estamos chegados.
