Monteiro Lobato

O Minotauro

Capítulos 13 e 14

 

13 – Em procura de Hércules

         O pastor já estava desperto quando os três heróis lhe bateram a porta. Ergueu-se, assustado. “Quem será?” Correu a abrir.

         – Viva! – exclamou Pedrinho. – Desta vez quem madrugou fomos nós.

         O pastorzinho, surpreso, pediu explicações, e ao ouvir a história da subida ao Olimpo, sorriu. Tomou o caso como invenção das crianças.

         – Não quer acreditar? – disse Emília, tirando da maleta o vidrinho de néctar. – Olhe para isto, cheire, prove…

         O pastor olhou, cheirou, provou e ficou na mesma.

         – Parece mel, mas um mel diferente de todos que tenho visto.

         – Mel o seu nariz! Fique sabendo que é o legítimo néctar dos deuses. Entramos no Olimpo, sim, e vimos tudo, e furtamos esta amostra de néctar e ainda um bom pedaço de ambrosia, que comemos regaladamente. Tal qual curau, uma coisa feita de milho verde, que você não conhece porque nem sabe o que é milho.

         O espanto do pastor continuava. Parecia-lhe absurdo aquilo; mas tinha de ceder diante da prova provada. Um mel como o do vidrinho não era positivamente deste mundo, só podia ser coisa do mundo dos deuses. Além dessa prova concreta, os três heróis apresentavam outras, de ordem descritiva. O que disseram do Olimpo, os detalhes que deram de tudo lá em cima e sobretudo a reprodução da conversa dos deuses a propósito de Hércules, constituíam fatos surpreendentes, dos que nenhuma criança pode inventar. E o assombro do jovem pastor foi enorme.

         – Será possível? Será possível?… Os heróis gozavam o seu espanto.

         – E agora – disse Pedrinho – vamos para a tal terra onde existe o pântano da Hidra. Havemos de assistir de começo a fim ao segundo trabalho de Hércules.

         O pastorzinho ficou sem saber o que pensar. Parecia-lhe um sonho aquilo. Estava tonto – gago – bobo…

         – Muito bem – disse o menino. – Antes de mais nada, temos de remeter uma comunicação à vovó contando o que se passou. Visconde, arrume o rádio!

         O Visconde de Sabugosa, que era realmente um cientista, andou uns tempos lá no Picapau Amarelo estudando rádio, e tanto lidou que conseguiu introduzir nele um melhoramento prodigioso. O rádio que o mundo conhecia limitava-se a transmitir sons dum ponto da terra a outro, isto é, só atuava no espaço. O Visconde achou pouco. Achou que o rádio devia também transmitir sons no tempo, isto é, dum momento do tempo a outro. E tanto fez, tanto mexeu, que realizou a grande invenção.

         Construiu um aparelhinho muito simples, que pegava o som dum dado momento do tempo e o transmitia a outro momento do tempo, ainda que a separação fosse de séculos. De modo que Pedrinho podia do tempo em que se achava (século XV antes de Cristo) expedir mensagens para o século em que se achava Dona Benta (século IV antes de Cristo). O aparelho emissor, pequeníssimo, viera armado dentro da cartola do Visconde; o aparelho receptor ficara numa das cabinas do iate.

         Para chegar ao “Beija-flor das Ondas”, a mensagem de Pedrinho teria, portanto, de varar uma camada de dez séculos de tempo.

         – Vamos, Senhor Visconde! – disse o menino. – Prepare depressa o aparelho.

         O Visconde tirou da cabeça a cartola e colocou-a no chão, de boca para cima. Depois sacou do bolso um rolinho de fios e fez as ligações. O pastor olhava, olhava, sem entender coisa nenhuma. Tudo pronto, Pedrinho curvou-se para a cartola e recitou a sua mensagem para Dona Benta, como se estivesse falando ao microfone.

         – O.K.! – exclamou ao terminar. – Rabicó já deve ter apanhado a mensagem, e a mandará à vovó por um daqueles basbaques do Pireu. Podemos seguir viagem.

         Para um heleno daquele período, tudo no mundo eram mistérios e mágicas, de modo que o nosso pastorzinho aceitou aquilo como tal – com a diferença apenas de ser mágica de cuja existência ele nem sequer tinha noção.

         Emília resolveu tomá-lo à conta.

         – Meu caro, somos dum tempo em que as mágicas atingiram o apogeu. Moramos no Picapau Amarelo, a coisa mais mágica que existe no mundo. Tudo lá é mágica. A gente abre uma caixinha, tira um pauzinho cabeçudo e risca – e aparece o fogo! Chamamos a isto a Mágica do Fósforo. Linda, não?… Outra: a gente aperta um botão na parede e em vários pontos da casa surge uma luz mil vezes mais forte que a dos candeeiros daqui. Lindíssima, não?… Outra: a gente está com a mão suja; esfrega um tal sabão e a sujeira se dissolve. Utilíssima, não?… Outra: a gente abre a chave do aquecedor e um jorro de água quente começa a cair na banheira. Deliciosa, não?… Outra: a gente pega um pauzinho chamado lápis e escreve num papel; se saiu errado, a gente pega uma coisa chamada borracha e esfrega – e o erro desaparece…

         A enumeração das mágicas do Picapau Amarelo deixou o jovem heleno totalmente tonto. Eram na verdade prodigiosas e acima de seu entendimento.

         – Esse Picapau – disse ele – deve ser presidido por algum feiticeiro de espantosa força. A mágica do fósforo, por exemplo, só me parece possível a quem possua faculdades absolutamente extraordinárias.

         Emília deu uma risada gostosa.

         – Que engano! É a mais fácil de todas. Qualquer pessoa que compre uma caixa de fósforos pode fazer sessenta vezes a grande mágica. Cada caixinha tem sessenta pauzinhos de cabeça.

         – Mas de onde vem o fogo que aparece?

         – Da cabeça dos pauzinhos. Em vez de pensamentos, os tais pauzinhos têm fogo na cabeça – fogo recolhido. Mas eles não gostam de cafuné, isto é, não gostam que lhes cocem a cabeça. Nós, então, de maus, coçamos-lhes a cabeça, isto é, esfregamo-las numa lixa cor de chocolate que há nas caixinhas – e o desespero dos pobres fósforos é tamanho que explode no fogo…

         O pastorzinho ficou a meditar sobre aquilo; e por muito tempo ainda depois da partida dos três heróis, era aquilo que pensava em seus momentos de cisma. “Coçam-lhes a cabeça e elas rebentam em fogo! Que maravilha não deve ser!”

         Pedrinho apressou os preparativos. Como a Argólida ficasse muito longe, iria recorrer a pitadinhas do velho pó de pirlimpimpim, o qual sei via para a locomoção no espaço, isto é, dum ponto da terra a outro. O pó número 2, que haviam aspirado no iate, era para a locomoção no tempo, isto é, dum século a outro.

         Aceitaram ainda uma vez o leite de ovelha que o pastor lhes ofereceu – menos Emília, que o recusou dizendo: “Tenho medo que esse leite brigue cá dentro com a ambrosia.” Por fim, despediram-se.

         – Adeus, gentil pastor! – disse o menino. – Não nos esqueceremos nunca da sua amável hospitalidade.

         Emília disse:

         – Um dia, se houver jeito, mandarei a você uma caixa de fósforos.

         O Visconde ergueu aos ombros a maleta e com um suspiro lá se foi.     O pastorzinho ficou à porta da cabana, a segui-los com os olhos. Tinha as ideias completamente atrapalhadas.

         – Que mistério será este, ó grande Atena!… – murmurou, apalpando uma imagenzinha da deusa que trazia ao pescoço; mas a deusa nada lhe disse, porque também não estava entendendo coisa nenhuma.

         A cem passos de distância, Pedrinho parou para distribuir o pó. Não o havia feito na cabana do pastor por um excesso de precaução. “A gente nunca sabe com quem lida. É preciso que ninguém aqui descubra a existência destes pós. Se me forem roubados, teremos de ficar na Hélade por toda a vida.”

         Aspiraram o pó de pirlimpimpim e pronto: Argólida!

         Correram os olhos em torno. A paisagem mudara. Eram outras as montanhas ao longe, e outra a vegetação.

         Pedrinho notou que as ervas da zona assemelhavam-se às que denunciam a proximidade das terras pantanosas. Solo turfoso, preto.

         – Isto já deve ser a beiradinha do pântano de Lerna.

         Olhou. Realmente um pântano estendia-se à direita, até alcançar uns feios penhascos, semelhantes a ruínas dum monte.

         – Está me cheirando que a Hidra mora naqueles penhascos – disse ele. – Todos os penhascos deste tipo têm cavernas. Vamos ver.

         Foram. Deram volta pela beira do pântano, de modo a atingirem a pedranceira pela parte de trás.

         – Bom, aqui temos de fazer alto para um reconhecimento. Suba ao topo do penhasco, Visconde, e observe o que puder.

         Bastante perigoso galgar o íngreme daquelas pedras, razão pela qual Pedrinho recorria ao Visconde.

         Ah, o triste destino das criaturas “consertáveis!” O Visconde suspirou, arriou a maleta e lá se foi, que nem aranha, pelas pedras acima. No ponto mais alto parou. Correu os olhos em torno. Súbito, recuou, tropeçou, perdeu o equilíbrio e veio rolando pela pedranceira abaixo como um corpo morto que cai.

         – Acuda! – gritou Emília, correndo a salvá-lo.

         Pedrinho também correu, e encontrou o Visconde entalado numa touça de espinheiro. Muito lhes custou arrancarem-no de lá; mas arrancaram-no, com a cartola amarrotada, uma perna ferida, um espinho espetado na ponta do nariz.

         – Pobre do meu Visconde! – ia repetindo Emília, enquanto sacava o espinho, endireitava-lhe a cartola, alisava-lhe as palhas do pescoço. – Que foi que o assustou tanto?

         O pobre sabuguinho científico mal podia falar. Estava arquejante. Deram-lhe água e uns tapas para avivá-lo.

         Foi voltando a si, até que por fim falou.

         – Ela!… – exclamou, com os olhos arregalados.

         – Ela quem, bobinho?

         – A Hidra!

         Ao ouvir essa palavra, Pedrinho sentiu um sorvete na espinha. Inquestionavelmente ele se achava na hora mais crítica de sua vida de aventureiro. A Hidra era o mais temeroso monstro ainda aparecido no mundo; e se desconfiasse da presença deles ali, fatalmente os devoraria com a maior facilidade.

         Apesar de valente, Pedrinho tremeu de medo. Sacudiu o Visconde.

         – A Hidra!… Vi-a lá embaixo… O corpo no pântano… as sete cabeças de fora. Perto dela, muitos cadáveres humanos…

         – Mas a Hidra enxergou você?

         – Creio que não. Parece que está dormindo.

         Uf! A informação aliviou Pedrinho. Está de papo cheio – refletiu êle – está digerindo. Isso a deixa sonolenta.

         – E que mais viu? Fale!…

         – Vi o pântano, que se estende até longe. Perto da Hidra há uma entrada de gruta, com montes de ossos pelo chão. Nada mais vi. Tropecei, desmoronei…

         Pedrinho pôs-se a refletir, e por fim concluiu que o melhor era treparem ao topo do penhasco e ficarem quietinhos lá em cima. Muito mais segurança no alto da pedranceira do que ali. Emília foi da mesma opinião.

         – Pois toca a subir – resolveu Pedrinho.

         E subiram os três, com grandes dificuldades, até ao topo de onde o sabuguinho despencara. E chegados lá olharam para o fundão e viram a Hidra.

         – Como é horrenda! – sussurrou o menino com cara de horror, em voz quase de si para si, tal era o medo de que o monstro o ouvisse. Será que Hércules vai vencê-la?

         Emília contou as cabeças.

         – Duas e duas quatro, e três sete. Sete cabeças, sim. Dizem que uma delas é imortal. Para mim, é a terceira à esquerda.

         A Hidra estava cochilando com seis cabeças; só uma se conservava alerta, num movimento de vaivém – vai para a esquerda, vem para a direita, mas sem nunca erguer os olhos para cima.

         – Creio que acertamos – disse Pedrinho. – Ela só olha para os lados.

         E como era assim, acomodaram-se num desvão da rocha, muito encolhidinhos, à espera do grande herói exterminador de monstros. De vez em quando um deles se erguia para sondar os horizontes.

         Nada! Nem sinal de Hércules.

         – E se ele demora dois ou três dias? Como nos arranjaremos em matéria de bóia? – pensou Pedrinho.

         Mas não foi assim. Minutos depois os penetrantes olhos da Emília notaram qualquer coisa lá muito longe.

         – Esperem… Estou vendo… Estou vendo um grupo que se dirige para cá… Há de ser Hércules…

         Emília errou. Não era o herói ainda; sim, um bando de centauros no galope.

 

14 – Dona Benta e Sócrates

         A entrada de Dona Benta e Narizinho na sala de jantar de Péricles constituiu, sem dúvida nenhuma, o maior acontecimento da cidade de Atenas no ano 438 A. E. Desde a véspera que ninguém conversava outra coisa que não fosse a misteriosa aparição do “Beija-flor das Ondas” no Pireu, ou a primeira visita que a velhinha fizera ao Estratego. “É uma prodigiosa vidente”, comentavam todos.

         “Lê o futuro como se estivesse lendo um pergaminho.” A notícia correu de boca em boca, de modo que ao saberem do jantar em casa de Péricles não houve quem não disputasse um convite.

         Péricles, entretanto, homem de grande comedimento, só reuniu uma dúzia de íntimos. Isso determinou reunião defronte de sua casa. Dezenas de pessoas ali permaneceram durante a festa, espiando disfarçadamente, para “pescar” o que podiam.

         Assim que a velhinha entrou, os convidados rodearam-na como se rodeassem um ser caído da lua.

         Examinaram-na com a maior curiosidade, trocando entre si impressões cochichadas – sobretudo as damas que, não contentes de vê-la e ouvi-la, ainda lhe apalpavam a fazenda do vestido.

         Dona Benta havia posto o seu célebre vestido de gorgorão amarelo do tempo do imperador, que só tirava da arca nas ocasiões de grande gala. Saia rodada, com babados que desciam até ao chão. Botinas de pelica. Corpete justo na cintura, com gola e renda. Leque de cetim e vareta de madrepérola, com uma pintura a guache representando um minueto do tempo de Luís XV.

         Narizinho vestia um saiote de xadrez vermelho e um gracioso bolerinho de veludo preto. Cabelos amarrados com fita cor-de-rosa. Sapatinhos de bico chato; meia de fio da Escócia; uma pulseira de galalite e um colarzinho fantasiado – tudo muito vulgar e prosaico para os modernos, mas tremendamente novo e sensacional para as damas do século de Péricles.

         As perguntas de Aspásia e suas companheiras não tinham fim, sobre o gorgorão amarelo, sobre as botinas de pelica, sobre a gola de renda, sobre um velho broche de camafeu que Dona Benta herdara de sua avó Pulquéria Encerrabodes, bem como as meias de Narizinho, o colar de miçanga e a pulseira de galalite. “Onde há disto?” A pulseirinha foi uma sensação, por tratar-se de substância sintética, totalmente desconhecida naqueles tempos. Cleone, uma das amigas de Aspásia, chegou a propor a troca da “maravilha.” por uma estatueta de Artemis, de dois palmos de altura, feita de ouro maciço pelo escultor Miron. Narizinho ia aceitando o negócio – mas Dona Benta achou que era “exploração indigna duma Encerrabodes trocar uma pulseira de seis mil réis por uma obra-prima dos maiores artistas do mundo.”

         – Mas explique-nos tudo – dizia Aspásia. – Onde é sua terra? Como pôde chegar até aqui? Herodoto, que escreveu sobre tantos países, não fala de nenhum de onde a senhora possa ter vindo.

         A menção do nome de Herodoto veio assanhar Dona Benta.

         – Conhece-o, Senhora Aspásia?

         – Como não? Lá está ele – e apontou para um homem duns quarenta e poucos anos, que conversava com um moço de nariz muito feio.

         Nos seus serões no sítio, Dona Benta lera e relera com grande interesse uma tradução das “Histórias de Herodoto”, de modo que não tirava os olhos do grande historiador, cognominado o “Pai da História.”

         – Vai ter um grande nome no futuro, esse homem… – murmurou ela.

         – Já tem nome hoje – disse Aspásia. – Herodoto, que é um dos nossos melhores amigos, apareceu cá em Atenas depois de muitos anos de excursões pelo Egito, pela Líbia, Fenícia, Pérsia, Traria, Macedônia, Cítia e nossas colônias da Ásia. Tudo viu e observou com grande penetração – e aqui em Atenas nos comunicou as suas notas de viagem. Péricles, encantado, aconselhou-o a dá-las a público. Isto há uns oito anos, mais ou menos. Herodoto leu suas histórias no Odeon. Foi tamanho o entusiasmo dos ouvintes, que logo depois, por proposta de Péricles, a Assembléia Ateniense votou-lhe um prêmio de 10 talentos.

         Narizinho, que tudo ouvia com a maior atenção, fez a conta de cabeça. Dez talentos a 297 libras cada um, são 2.970 libras – ou sejam, 297 contos de réis. “Sim, senhor!” – pensou ela. “Estes gregos sabem dar valor ao talento!”

         – E aquele moço de nariz feio que está a conversar com o historiador? – quis saber Dona Benta. – Suponho que já o vi no Agora, numa roda de amigos.

         – Aquele? É um moço que esteve na guerra e hoje anda a ganhar fama de bom argumentador. Sócrates.

         Dona Benta quase caiu no chão. Suas pernas bambearam. Sócrates! O grande Sócrates, cujo nome iria atravessar os séculos, ali diante dela, tão feio em moço como seria na velhice…

         Aspásia estranhou aquele interesse, pois Sócrates não passava dum ateniense como inúmeros outros, bom soldado nas guerras, bom conversador, bom argumentador e muito amigo de discussões – mas só. Por que razão a velhinha espantava-se tanto? Interpelou-a.

         – Ah, minha senhora – respondeu Dona Benta – o nome de Sócrates vai ser um dos mais altos da humanidade e dos mais honrados no futuro. Quanto mais séculos se passarem, mais se falará de suas virtudes e de sua filosofia. Daqui a 2.377 anos seu nome estará bem maior do que hoje…

         Aspásia refranziu a testa.

         – Como? Que história de 2.377 anos é essa?

         – Sim, falo do tempo em que vivo, lá no mundo moderno. Porque eu sou do ano 1939 da Era Cristã – uma nova era que vai começar daqui a 438 anos. Sou portanto, de um futuro que fica a 2.377 anos deste ano em que Atenas está.

         Poucas mulheres antigas revelaram a inteligência, a largueza de vistas e a compreensão da segunda esposa de Péricles, mas mesmo assim as palavras de Dona Benta deixaram-na atrapalhadíssima.

         Sempre de testa franzida, Aspásia levou uns segundos para alcançar a significação do que a velhinha dizia. Finalmente sorriu.

         – Por Afrodite! Com que então a senhora não se contenta de ver o futuro – também vem do futuro…?

         Dona Benta, que já notara o difícil de fazer os atenienses  compreenderem o seu estranho caso, respondeu:

         – Minha senhora, ando embaraçadíssima. Tudo quanto eu digo vos parece absurdo, fantástico, coisa de demente. Mas já que me interpela, responderei. Venho dum tempo muito longe deste, e venho dum

continente que para os gregos de hoje só será descoberto daqui a 1.930 anos pelo navegante genovês Colombo – mas que para mim já está descoberto há 447 anos…

         A explicação desenhou novas rugas na testa de Aspásia e na de todos os presentes. Era absurda, incompreensível…

         – Mas de que país a senhora é?

         – Vovó é do Brasil – respondeu Narizinho – uma terra descoberta em 1500 pelo almirante português Pedro Álvares Cabral.

         A resposta da menina complicou ainda mais o embrulho. Continente novo? Navegante genovês? Colombo? Pedro Álvares Cabral? Tudo nomes e expressões absolutamente sem sentido. E como as caras permanecessem as mesmas, Dona Benta resumiu:

         – Coisas a virem, meus senhores, coisas a virem…

         O “resumo” não melhorou o embrulho. Coisas a virem, como? Está claro que há sempre coisas a virem, já que o tempo é uma continuidade. Do mesmo modo que admitimos o passado, temos que admitir o futuro, ou o tempo a vir. Mas se eram “coisas a vir”, isto é, não existentes ainda, como então a velhinha afirmava com tamanha segurança que chegara de lá? Como pode alguém chegar dum tempo que ainda não existe?

         – Não existe para os senhores – insistiu Dona Benta. – Para mim existe.

         Sócrates, que se havia aproximado, meteu o bedelho na conversa.

         – Perdão, minha senhora – disse ele – mas o que na realidade chamamos tempo é só o presente. A realidade-tempo é essa – o presente. Passado e futuro são representações do nosso espírito; porque o que passou já passou, e portanto não existe; e o que está para vir ainda não veio, e portanto igualmente não existe. A senhora não pode ter chegado do futuro, isto é, do que ainda não existe.

         Dona Benta sentiu as pernas moles e a boca seca. Sócrates diante dela, a argumentar com ela, a humilde velhinha do Picapau Amarelo! Que prodígio dos prodígios!

         Mesmo assim atreveu-se a dizer:

         – Meu senhor, logicamente tudo é assim como vossas palavras dizem, e no entanto a verdade é bem outra, porque realmente eu vivo a 2.377 anos daqui no Sítio do Picapau Amarelo – e de lá vim, recuando no tempo e no espaço.

         Aquela afirmativa desnorteou o filósofo de nariz feio. Por mais hábil que fosse na técnica de argumentar, Sócrates  compreendeu que era impossível discutir com quem dá respostas como aquela, absurdamente disparatadas – e afastou-se, a sorrir, voltando para a companhia de Herodoto. “Evidentemente, meu amigo, a velhinha está fora do juízo. Diz coisas sem o menor nexo lógico.”

         – Foi a primeira impressão de Péricles – disse Herodoto – mas Péricles já mudou de parecer. Acha que a velhinha não é nenhuma tonta, e que o caso não pode ser resolvido apenas com a lógica. Anda nisto um grande mistério, meu caro.

         Sócrates deu de ombros.

         – Tudo pode ser – murmurou. – De mim confesso que nada entendo.

         Péricles, que havia saído da sala para atender a um negócio, voltou acompanhado dum conviva retardatário.

         – Permita-me, Senhora Encerrabodes, que lhe apresente um dos nossos grandes escultores – Policleto.

         Falar a Dona Benta em Policleto era o mesmo que falar no tio Barnabé, no Elias Turco ou outro qualquer conhecidíssimo personagem do Picapau Amarelo. A velhinha sabia toda a história desse grande escultor grego, não só a que vinha desde o seu nascimento em Argos até àquele momento, como ainda a que iria dali até sua morte no ano 403 A. C. Policleto estava então com 42 anos e em pleno fulgor do seu gênio.

         – Muito honrada me sinto, meu senhor, de ser apresentada ao grande artista de tantos primores, e sobretudo do Diadúmeno e do Cânon…

         Policleto julgou que ela o estivesse confundindo com algum outro e respondeu a sorrir:

         – Sua erudição a traiu, minha boa senhora. Entre meus trabalhos não há nenhum Diadúmeno.

         – Sei disso – replicou Dona Benta – mas vai haver. O senhor vai esculpir um jovem efebo na atitude de atar na testa uma faixa: o Diadúmeno. E depois de escrever um pequeno tratado sobre as proporções, esculpirá uma formosa estátua de adolescente, em que as boas proporções do corpo humano serão fixadas de modo definitivo e à qual dará o nome de Cânon…

         Aconteceu com Policleto o mesmo que com Sócrates: embatucou. A resposta da velhinha deixara-o tonto.

         – Meu caro amigo – foi ele cochichar a Péricles – o que a “vidente” acaba de dizer parece-me o assombro dos assombros, pois de há muito que ando a parafusar na ideia de compor um tratado sobre as proporções, e de esculpir uma estátua que fixe no mármore as medidas ideais do corpo humano. Mas se tenho essa ideia, jamais a comuniquei a ninguém – e a velhinha adivinhou-a e acaba de expôla com clareza solar. Por Apolo! A coisa é absolutamente extraordinária…

         Evângelo, o mordomo, acenou da porta com qualquer coisa na mão. Péricles fez-lhe sinal que entrasse. “Um marujo do Pireu vem trazer isto” – murmurou ele, passando ao amo uma carta para Dona Benta.   Péricles tomou-a e fez a entrega.

         – Acaba de chegar do Pireu, minha senhora.

         O rosto da velhinha iluminou-se. Letra de Rabicó! Mas os óculos estavam com a menina.

         – Narizinho, meus óculos!… Que é de Narizinho?…

         Narizinho desaparecera da sala.

         – Anda lá dentro brincando com o Senhor Alcebíades – declarou Evângelo.

         – Vou chamá-la.

         – Alcebíades? – repetiu consigo Dona Benta, franzindo a testa. – Será por acaso o famoso general ateniense que encheu esta Grécia com a sua beleza, o seu gênio e as suas loucuras?

         Narizinho veio dos fundos a correr, seguida dum formoso menino de doze anos.

         – Meus óculos, minha filha! Rabicó mandou-me esta carta lá do “Beija-flor.” – E em voz baixa: – Quem é,esse menino que apareceu com você?

         – Alcebíades, vovó, o pupilo do Senhor Péricles. Esteve a mostrar-me a casa inteira, os viveiros, a piscina, os quadros. Vi pinturas lindas lá dentro – não emolduradas como as nossas, sim nas paredes.

         Dona Benta não tirava os olhos de Alcebíades.

         Toda a prodigiosa vida do futuro general ateniense perpassava pela sua memória, como em tela de cinema.

         Iria ser o mais belo homem de seu tempo – e aos doze anos já o anunciava. Dona Benta suspirou e voltou à carta, depois de colocar os óculos.

         – “Que são aquelas rodas que ela põe no nariz?” foi a pergunta que percorreu a sala – e Péricles, o único que já examinara os óculos de Dona Benta, disse num grupo: “São cristais duma pureza maravilhosa. Possuem a propriedade de aumentar as coisas vistas através – ótimos, portanto, para auxiliar a visão das pessoas de vista cansada. O nome que ela dá àquilo é “óculos.” Aparelho realmente extraordinário.”

         No silêncio completo que se fez, Dona Benta leu a carta, com todos os olhares convergidos para a sua pessoa.

         Sorriu triunfalmente e falou:

         – Boas notícias, meus amigos! Antes de mais nada, porém, devo dizer que temos lá no iate um aparelho receptor das “ondas sabuguianas”, irmãs das tais ondas hertzianas que percorrem o espaço e por meio das quais nós, modernos, transmitimos mensagens, cantos, músicas etc, dum continente a outro. O nosso ilustre Visconde de Sabugosa foi o descobridor de umas ondas novas, que receberam o nome de ondas sabuguianas, por meio das quais podemos transmitir mensagens, cantos, músicas etc, dum século a outro. Neste momento, meu neto Pedrinho, a Emília e o Visconde estão mergulhados no século XV A. C, em plena Grécia Heróica, e de lá enviaram ao receptor do nosso navio uma mensagem, que o Senhor Marquês de Rabicó, lá no iate, apanhou e fixou na cartinha que acaba de vir.

         A assistência estava de boca aberta, sem perceber coisa nenhuma. Aspásia sentia estranhos arrepiamentos pelo corpo. O cérebro de Sócrates parara de funcionar. Só os artistas ali presentes não se espantavam, porque para os artistas tudo no mundo é sonho.

         – Meus senhores – prosseguiu Dona Benta – o que aqui me conta Pedrinho talvez os vá assombrar. Diz que, depois de aspirarem no iate o pó número 2 e de perderem os sentidos, foram abrir os olhos na Tessália no século XV A. E, num campo onde havia um rebanho de carneiros e um pastor. Ao longe levantava-se bela montanha azul – o Olimpo.

         Aspásia sentiu uns começos de faniquito. Herodoto interrompeu a observação que fazia num grupo a propósito dos persas. Sócrates pensou nas ideias filosóficas de Anaxágoras e sentiu em seus miolos a comichão dum “Quem sabe?”

         – Sim, o Olimpo, meus senhores, a morada dos deuses. E Pedrinho, Emília e o Visconde galgaram a montanha sagrada e surpreenderam os deuses em reunião, discutindo o próximo trabalho de Hércules, que vai ser o ataque à Hidra dos pântanos da Argólida. E à noite penetraram na copa do Olimpo, donde furtaram um vidrinho de néctar e um bom pedaço de ambrosia. Diz a carta que o néctar lembra o mel das abelhas, embora muito mais gostoso; e a ambrosia lembra o curau de milho verde, um creme que os senhores não podem imaginar o que seja, uma vez que nada sabem do milho. A aventura correu felicíssima. Desceram do Olimpo sem novidades, voltaram à cabana do pastor, remeteram-me esta comunicação e foram preparar-se para a ida à Argólida, a fim de assistirem à luta de Hércules com a Hidra.

         Depois de breve pausa, Dona Benta prosseguiu:

         – Meus senhores, leio na vossa atitude o maior desnorteamento. Nossa situação é de tal modo extravagante que chega a fazer mal aos nervos da Senhora Aspásia e outras damas…

         Aspásia estava já em pleno faniquito, com Péricles a abaná-la  freneticamente. Outras damas preparavam-se para fazer o mesmo.

         – Sim, extravagante, absurda, incompreensível, tanto para mim quanto para todos vós. As teorias do Senhor Sócrates sobre o tempo-realidade parecem-me destruídas. Onde as separações entre presente, passado e futuro? Todas as paredes caíram. Sou do futuro; do futuro vim e para o futuro voltarei. Sois dum presente que para mim já é recuadíssimo passado. E meu neto Pedrinho está numa era que é remotíssimo passado para mim e para todos vós. E apesar de tantos séculos nos separarem, eis-nos aqui reunidos – eu ligada ao meu neto pelas ondas sabuguianas! Se os senhores se espantam de ver em Atenas uma velhinha do futuro, também eu me espanto de ver-me a conversar com seres do passado. Nada mais tenho a dizer senão que entrego este quebra-cabeça à perspicácia do Senhor Sócrates.

         Dona Benta tirou os óculos e guardou a carta. O silêncio era tão profundo que todos ouviram o canto dum rouxinol ao longe. Péricles correu a mão pela testa. Estava a suar – ele que jamais suara nos campos de batalha, nem nas terríveis pelejas da assembléia ateniense…

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