Monteiro Lobato
O Minotauro
Capítulos 15 e 16
15 – Batatas e Sócrates
O jantar correu animadíssimo. Dona Benta reclinava-se no seu coxim, colocado entre o da dona da casa e o de Sócrates. Do outro lado da mesa, muito mais baixa que as modernas, reclinava-se Narizinho, entre Fídias à direita e Herodoto à esquerda. Uma coroa de rosas cingia a testa de todos os comensais. A conversa girou sobre vários assuntos e por fim caiu sobre a arte culinária.
– Pois é – disse Dona Benta – a razão da nossa viagem a estes séculos foi uma razão ao mesmo tempo sentimental e culinária: a procura de tia Nastácia, que é nossa amiga e nossa cozinheira. E que cozinheira! Como sabe manejar o violino do “gostoso” e tirar dele mil harmonias! O mais simples guizado, um picadinho com batatas, um virado de feijão com torresmos, um vatapá, tudo enfim que sai de suas panelas, está para o que chamamos comida, como os mármores ali dos Senhores Fídias e Policleto estão para as esculturas comuns. Perfeitas obras-primas.
– E os bolinhos, vovó? – lembrou a menina, do outro lado da mesa. – Os bolinhos de tia Nastácia já estão famosos no Brasil inteiro. Quantas cartas a senhora não recebe das crianças, pedindo a receita dos bolinhos de tia Nastácia?
Herodoto concordou que há realmente criaturas dotadas de verdadeiro gênio em matéria culinária.
– Certa vez, na Frígia – disse ele – fui hospedado por uma velhinha de nome Aretusa, que me surpreendeu com um prato inesquecível – um quitute, aliás muito comum feito de leite e toucinho, preparado em folhas de figo (Aristófanes se refere a este prato.). Com que regalo devorei o pitéu! Tive a sensação da ambrosia dos deuses. Que tempero, que arte não usou a velhinha para conseguir aquele prato!
– Talvez a arte estivesse do vosso lado, amigo Herodoto – disse Sócrates. – A arte denominada fome costuma operar desses prodígios. Também eu, na batalha de Potideia, comi um naco de carneiro de que não me esquecerei jamais – como igualmente não me esquecerei nunca da fome com que estava…
– A senhora falou em picadinho com batatas – disse a esposa de Péricles. – Que é batata?
– Um tubérculo, Dona Aspásia. O tubérculo duma planta da família das solanáceas, que foi o melhor presente da América aos Europeus.
– Por quê? – indagou Herodoto.
– Porque, sendo um tubérculo, fica enceleirado no solo, não exigindo colheita imediata, como as coisas que dão no ar e se não forem colhidas a tempo secam ou apodrecem. Depois do descobrimento da batata, e de sua introdução na Europa, melhoraram muito as condições alimentares de certos países. A fome que periodicamente os assolava diminuiu.
– E como é a batata? – quis saber Aspásia.
– A forma é irregular, mais ou menos arredondada. São uns tubérculos que se desenvolvem nas raízes da plantinha, revestidos duma película amarelada e muito ricos em fécula. Usamo-las cozidas em água, ou fritas.
– Há também a batata-doce – disse Narizinho – e de duas qualidades, a amarela e a roxa. São maiores e bicudas…
Tudo aquilo eram tremendíssimas novidades para os gregos, que por muito tempo ficaram no assunto, a ouvir histórias de batatas fritas, batatas “sautés”, purês de batata, doce de batata – e até dos erros de
língua que surgem na conversa e também recebem o nome de “batatas gramaticais.”
O assunto provocou uma breve dissertação de Sócrates sobre a infinita possibilidade de desdobramento das coisas do mundo – até na mesa.
– Sim – disse Dona Benta – a mesa, que é tão simples nesta Grécia, vai variar e enriquecer-se continuamente. O homem é um animal onívoro, come de tudo – e quanto mais progride, mais inventa comidas novas. Eu considero isso um mal. Quem come de tudo, fatalmente come errado, porque a comida certa há de ser uma só – como o leite para as crianças novas, o mel para as abelhas, os fungos para as formigas saúvas.
– Fungos para as saúvas? – admirou-se Policleto, que não tinha nenhuma noção a respeito do alimento dessas formigas.
– Sim – respondeu Narizinho – elas não comem folhas, como quase todos julgam. Apenas picam as folhas e levam-nas para dentro do formigueiro, onde as amontoam de certo jeito para que embolorem. O bolor que nasce nessas folhas é o tal fungo a que vovó se referiu. As saúvas só se alimentam desses funguinhos.
Todos se admiraram daquilo.
– Estou vendo – observou Péricles – que, apesar da civilização a que chegamos na Grécia, muita coisa nova há de vir ainda.
– Se há! – exclamou Dona Benta. – Há tanta coisa a vir para os senhores, e já vinda para nós do mundo moderno, que se eu fosse contar uma pequena parte levaria anos e anos aqui. Quanto à maneira de comer, por exemplo. Os senhores comem ao modo natural, usando as mãos. Nós, modernos, só usamos as mãos para segurar os talheres.
– Talheres?
– Sim. Chamamos talheres a uns instrumentos intermediários entre nossas mãos e os petiscos vindos à mesa. Há o garfo, que é uma haste metálica com um cabo e quatro espetinhos, ou dentes…
– Uma espécie de tridente de Netuno em miniatura, com quatro espetos – explicou a menina. – Um instrumento espetante.
– Isso mesmo. Um tridentezinho de Netuno. A colher é esse mesmo garfo com um côncavo na ponta, em vez de dentes. Serve para levar à boca os alimentos líquidos – sopa, caldos…
– Óleo de rícino também… – lembrou a menina.
– Sim, tudo que for líquido, em suma.
– Ou pó, vovó – lembrou de novo a menina. – Coisas secas, como a farinha, só com as colheres.
– Exatamente. A colher serve para as coisas líquidas ou em pó. E a faca os senhores sabem o que é – o instrumento cortante.
Os gregos entreolharam-se, admirados. Dona Benta continuou:
– E muito mais coisas há ainda em nossas mesas. Pequenos suportezinhos em que apoiamos os talheres para que não sujem a toalha. Guardanapos. Galheteiras com vidrinhos de azeite, vinagre, molho inglês etc.
– E as saleiras, vovó! A senhora esqueceu as saleiras.
– Sim, as saleiras, os paliteiros… Por falar em paliteiro: em casa de meu pai havia um de prata, representando Cupido de asinhas abertas, arco na mão e o carcaz às costas. No carcaz é que se punham os palitos, em vez de setas. Esse paliteiro era uma reminiscência da Grécia.
– Mas os melhores são os paliteiros-cegonha – lembrou a menina. Aspásia assanhou-se. Queria saber como eram.
– Muito simples. Há uma cegonha de bico pontudo, de pé, diante de uma caixinha de palitos. Quando a gente abaixa o pescoço da cegonha, o bico fisga um palito e levanta-o no ar.
– Que interessante! – murmuraram todos.
– E na cozinha? – perguntou Aspásia. – Quais as novidades?
– Nem queira saber, minha senhora! – disse Dona Benta. – Uma cozinha moderna possui tanta coisa, tanta maquinazinha, tantas formas…
– A melhor é a máquina de picar carne – disse a menina. – A gente põe a carne numa moeguinha e vira a manivela – e a carne sai por uma bica, toda picada. Para fazer lingüiça, é ótimo.
Herodoto, que estava com a história do paliteiro do pai de Dona Benta na cabeça, voltou ao assunto.
– Mas então no seu tempo usam da imagem de Eros para um fim utilitarista? A irreverência é grande. Eros é um deus.
Essa observação levou a conversa para o campo filosófico.
– Sim – disse Dona Benta – os deuses gregos no meu tempo só exercem funções utilitárias ou decorativas. Figuram ainda na literatura como imagens poéticas, nada mais. São pitorescas reminiscências do passado.
Aquela revelação assustaria os gregos da rua, mas não assustou os presentes, dotados que eram de fino espírito filosófico. Nenhum deles ignorava que os deuses gregos haviam evoluído – e que muito naturalmente continuariam a evoluir.
– Não só evoluíram – disse Dona Benta – como ainda morreram. Os povos modernos só admitem um Deus único. Esta multiplicidade de deuses que noto aqui está destinada a desaparecer.
– Será possível? – exclamou Aspásia.
– Zeus também?
– Sim. Zeus tem o defeito de ser humano demais, e para criaturas como nós, vindas de séculos e séculos do futuro, o que sobretudo espanta é que os gregos de hoje ainda levem a sério essas divindades saídas da imaginação do povo e remodeladas pelos poetas.
Péricles chamou Evângelo e perguntou se não havia gente na rua a escutar. Se o povo de Atenas soubesse daquele diálogo, inevitavelmente denunciaria a velhinha como incursa no crime de impiedade. Sócrates sorria. As palavras da “vidente” eram a confirmação de suas ideias mais íntimas sobre os deuses. Só na aparência ele os aceitava. No fundo apenas admitia um ser supremo, sem nada de humano. Mas evitou a discussão. Sócrates conhecia o alto valor da prudência.
Quem mais se assombrou com as palavras de Dona Benta foi Fídias. De tanto mexer com deuses, de tanto esculpir-lhes as imagens, estava na absoluta convicção da sua existência real, de modo que as ideias da “vidente” deixaram-no bastante atrapalhado. Foi a partir desse dia que a dúvida começou a entrar na alma do grande escultor.
Aquele jantar em casa de Péricles não lembrava nenhum banquete dos chamados “orientais”, em que o luxo excessivo e a extravagância dos pratos são obrigatórios.
Tudo muito simples e discreto. Carneiro assado – e ótimo! – merecedor até de tia Nastácia; pão; peixe; queijos de vários tipos; frutas secas e frescas, figos, uvas; mel; leite; ótimos vinhos…
Ao terminar vieram bacias com água para a lavagem das mãos – e todos se levantaram contentes e felizes.
Policleto declarou jamais ter ouvido tanta coisa prodigiosa e Sócrates confessou que recolhera excelente material para a modificação de muitas de suas ideias.
Eram nove horas da noite – tempo de dispersar. Fídias propôs a Narizinho um passeio no dia seguinte. “Quero mostrar a esta menina todas as obras novas que ando a dirigir.” Sócrates aconselhou Dona Benta a não perder a oportunidade de conhecer Sófocles.
– Está ele na cidade? – perguntou a velha.
– Sim, e não veio ao jantar por sentir-se adoentado. Procure conhecê-lo, minha senhora. Sófocles é uma compensação. Já que o destino pôs em Atenas um Cratino e um Eupolis, dois patifes do teatro, tinha também de pôr, a título de compensação, um Sófocles. É o veneno e o contraveneno.
– Por que citou Cratino e Eupolis e deixou Aristófanes de lado? – interpelou Aspásia.
– Porque Aristófanes tem gênio – respondeu Sócrates – e ao gênio até certas mesquinharias são perdoáveis.
Herodoto explicou a Dona Benta vários pontos das suas histórias, que ela lera no sítio e não compreendera muito bem; e ainda perguntou se a tal tia Nastácia era egípcia. “Não, meu senhor. Deve ser originária duma região africana muito ao sul do Egito – de Angola, talvez. Os pretos levados como escravos ao Brasil vinham de terras que os gregos de hoje ainda não conhecem.”
O “Pai da História” despediu-se de beiço pendurado. Aquilo de “terras que os gregos de hoje ainda não conhecem” deixara-o triste.
Policleto contou que terminara um mármore representando Hércules em luta com a Hidra de Lerna e que teria muito gosto em oferecê-lo a Pedrinho, já que Pedrinho era um devoto de Hércules. Dona Benta não achou palavras para agradecer o presente.
Depois que todos saíram, Aspásia levou-as ao aposento que lhes havia destinado.
– E amanhã – disse – temos de cuidar de modas. Não convém que a senhora ande pela cidade com esse vestido de gor… gor… gor, o que mesmo?
– …gorão. Gorgorão.
– Sim, de gorgorão. Dará muito na vista, provocará ajuntamentos. O sábio é nos vestirmos ao modo da terra. Por isso já mandei pôr aqui em seu quarto uma túnica minha e um peplo – e também uma tunicazinha para a pequena. Quanto ao penteado, minha camareira virá amanhã penteá-las na moda.
Boa noite e bons sonhos!
Quando ficaram a sós, Dona Benta sentou-se na cama.
– Que coisa absurda, minha filha! – disse, correndo os olhos pelo aposento. – Nós duas aqui no século de Péricles, em casa de Péricles, a conversar com Sócrates, Herodoto, Fídias e mais personalidades que para os modernos até parecem mitos!…
Narizinho estava experimentando a tunicazinha. Vestiu-a. Olhou-se a um espelho de prata.
– Que tal, vovó, a sua neta grega? Dona Benta contemplou-a com ternura.
– Um encanto, minha filha – só receio que nesses trajes você vire a cabeça do Alcebíades. Felizmente ele ainda está nos cueiros. Que homem perigoso vai sair dali…
O sono das duas naquela noite foi calmo, sobretudo para Dona Benta, que não cessara de murmurar consigo mesma: “Eu, na casa de Péricles! Eu, conversando com Sócrates! Eu, ganhando estátuas de Policleto!… É demais, é demais…”
Por fim, cansada de tantas emoções, dormiu e sonhou com a sua redinha lá na varanda do sítio.
16 – A Hidra de Lerna
Enquanto a boa velhinha gozava a hospitalidade de Péricles, os três “pica-paus”, lá nos fundões da Hélade, punham os olhos no horizonte. Que seria que vinha vindo? Centauros?
Era, sim, um bando de centauros, os mesmos que Hércules havia destroçado nas vésperas da sua façanha com o javali do Erimanto. O caso fora assim: indo Hércules em procura do javali, hospedou-se de passagem com o centauro Folo, filho do deus Sileno e duma ninfa dos bosques. Pediu de beber.
As sedes de Hércules tinham fama. Folo apontou para um tonel de vinho que era propriedade comum de todos os centauros ali residentes – e o herói foi e bebeu.
– O tonel inteiro?
– Está claro. E vai então e aparecem os outros centauros, e vendo o tonel vazio enfurecem-se e atacam o herói a pedradas e pauladas. A reação de Hércules foi tremenda. Tonteou os dois mais avançados com os irresistíveis golpes de sua maça e perseguiu os outros a flechaços até muito longe dali, encurralando-os na Maléia.
– Que Maléia era essa?
– O lugar onde se haviam escondido aqueles outros centauros que Teseu e os Lápitas bateram. Depois disso não houve centauro que não se pusesse em fuga sempre que Hércules aparecia.
Foi o que sucedeu naquela tarde. Hércules vinha vindo na direção do pântano para combater a Hidra e passara por uma zona de centauros. Assim que o reconheceram, os monstros fugiram no mais desapoderado galope.
Pedrinho, no alto do rochedo, contemplava a maravilhosa corrida. Eram seis formidáveis monstros, num galope lindo.
– Como correm! Veja, Emília, que arrancos dão e como sacodem no ar as cabeças. O nosso mundo moderno é bem sem graça. Imagine um casal destes prodígios lá no Picapau…
Emília deslumbrava-se.
– Se eu fosse Dona Benta, mudava o sítio para aqui. Lá não dá gosto. Só o tio Barnabé, o Elias Turco, o Coronel Teodorico – só cobras em vez de hidras, só o Conselheiro em vez de centauros…
Mas os monstros breve desapareceram num bosque distante.
– Que pena! – exclamou Pedrinho. – Eu passaria a vida inteira vendo estes centauros em disparada pelos campos. Que maravilha das maravilhas…
O tropel chegou aos ouvidos da Hidra, que se pôs muito atenta.
– Olhe! – disse Emília. – Ela acordou. Está com os quatorze olhos brilhando como estrelas e as sete línguas de fora, vibrando…
Pedrinho viu que era assim mesmo. Estava alerta o monstro, como que farejando inimigos nas redondezas.
– Parece aquele mancebo do quarto de Dona Benta – murmurou Emília, referindo-se a um desses antigos cabides de uso nas fazendas, com jeito de candelabros.
– E veja quantos corpos pelo chão…
O monstro emergia do monte dos cadáveres de suas últimas vítimas. Pedrinho fez cara de horror.
Nisto os olhos penetrantes de Emília divisaram qualquer coisa no horizonte.
– Mais centauros? – perguntou o menino.
– Não. Não é centauro agora. É um carro a toda…
Era Hércules que vinha se aproximando de carro, em companhia do seu fiel amigo Iolau. Chegou.
Saltou em terra e sem a mínima vacilação avançou contra a Hidra.
Que maravilhoso espetáculo! O monstro de sete cabeças estava como que eletrizado, reteso, com as sete línguas numa vibração permanente e os quatorze olhos mais vivos do que diamantes ao sol.
Havia ali sete botes armados contra o agressor! Hércules, entretanto, atacou-a sem medo nenhum, como se atacasse um cordeirinho, e foi malhando naquelas cabeças com a sua invencível maça.
Notou, porém, que as cabeças destruídas rebrotavam instantaneamente, de modo que por mais que as esmagasse nunca deixava de ter pela frente as mesmas eternas e horríveis sete cabeças. Além disso, os seus movimentos já estavam embaraçados pelas roscas da Hidra: a cauda do monstro enleara-lhe as pernas e as ia apertando como num torno. Para agravamento da situação, surgiu da caverna um horrendo e enorme Caranguejo, que veio ferrar no calcanhar do herói as terríveis pinças. Hércules foi obrigado a largar a Hidra para atender ao novo atacante.
Caso simples. Com um golpe de maça esmagou-o.
– Que horror! – exclamaram os três heroizinhos lá no alto da pedra, quando um mingau verde-escuro saiu de dentro do Caranguejo moído.
Mas Hércules verificou que sozinho não conseguiria vencer a Hidra – e deu um berro para Iolau.
– Venha queimar as cabeças que eu for esmagando!
Iolau correu a uma floresta que havia à esquerda e ateou-lhe fogo – e até que as chamas a devorassem e reduzissem os troncos a tições, Hércules, sempre engalfinhado com a Hidra e enleado em suas roscas, teve de prosseguir no incessante esmagamento de cabeças.
– Que horror! – exclamava Pedrinho. – Ele já moeu duzentas cabeças e nada consegue. Ainda que esmague duzentas mil nada adiantará, porque renascem no mesmo instante. Estou vendo que Hércules vai perder a partida…
– E uma das cabeças é imortal – disse Emília. – Nem que ele a mate e remate e tresmate, e quatremate, esfole-a e queime-a ou reduza-a a pó, de nada adianta porque é imortal. Também penso que o pobre Hércules desta vez se estrepa.
Era tão eletrizante a luta que por um triz Pedrinho não se despenhou da pedranceira, como o Visconde. Ele “torcia” como se também estivesse atracado ao monstro.
Por fim não resistiu: começou a lançar pedrinhas com o seu bodoque novo. Uma delas atingiu um dos olhos da Hidra, fazendo-a piscar.
Lá no bosque Iolau precipitava o fogaréu, ansioso por obter tições. Um pé-de-vento mandado por Éolo veio ajudá-lo, varrendo as chamas e deixando ao seu alcance vários troncos em brasa. Iolau correu a eles, e com muito jeito conseguiu um magnífico tição. Apagou o fogo duma das extremidades, segurou-o por ali e correu a ajudar Hércules.
– Vá queimando as cabeças que eu esmagar – disse este – e bá! esmagou uma. Sem perda dum segundo, Iolau aplicou o tição em cima. O som do chiado subiu ao topo da pedranceira, e logo em seguida um terrível fedor de hidra assada. Pedrinho tapou o nariz.
– Bá! fez Hércules e esmagou a segunda cabeça – e o tição de Iolau chiou em cima. E bá! a terceira, e bá! A quarta, e bá! a quinta, e bá! a sexta, e bá! a sétima. Os três heroizinhos ouviram exatamente sete bás! e sete chiados – e sentiram sete bafos de hidra assada.
A sétima cabeça, que era imortal, caiu a certa distância, mais viva do que nunca, de língua de fora, a vibrar, com os olhos cheios do fulgor da imortalidade.
Contra ela de nada valia o tição de Iolau, porque o que é imortal é também inqueimável. Hércules teve de enterrá-la num buraco bem fundo e colocar em cima um bloco de pedra que o Visconde avaliou em dez mil arrobas.
Estava, afinal, vencido o horroroso monstro de Lerna.
Privada de suas sete cabeças, e com a imortal enterrada, a Hidra descaiu por terra, convulsa de tremores.
– É o veneno que está agindo – observou Emília.
O Visconde, sempre sábio, riu-se.
– O veneno ofídico não mora no corpo das serpentes – disse ele – sim numa bolsinha localizada no fundo dos dentes caninos.
– Isso é com aquelas cobras de bobagem lá do sítio – caçoou Emília. – Aqui na Grécia tudo é diferente. Esta Hidra há de ter no corpo só veneno, em vez de sangue. Você vai ver.
E o Visconde viu. Viu Hércules rasgar o papo da hidra escabujante para molhar no sangue negro a ponta de suas flechas.
– Eu não disse? – exclamou Emília vitoriosa. – Se Hércules molhou naquele sangue a ponta de suas flechas, claro que foi para envenená-las.
– Superstições – murmurou baixinho o Visconde.
Finda a luta, Hércules examinou o seu próprio corpo e viu nele vários ferimentos. Também Iolau tinha uma arranhadura no braço. Estavam ambos envenenados, perdidos!…
Hércules olhou para o companheiro. E agora? Contra os monstros ele dispunha de sua invencível maça, de suas agudíssimas flechas e da prodigiosa força dos seus músculos. Mas contra um veneno daqueles de nada valiam maças, nem flechas, nem músculos. E agora?
Hércules sentou-se numa pedra, a cismar.
Sua triste situação condoeu Emília.
– Coitado! Venceu mas vai ser vencido – se nós o não ajudarmos.
– Ajudarmos como, Emília? Que ideia! Nós, uns coitadinhos, umas pulgas modernas, a ajudarmos Hércules! Isso chega até a ser uma besteira olímpica…
– Podemos ajudá-lo perfeitamente – insistiu Emília. – Não se lembra das palavras de Zeus ao tal mensageiro de asas nos calcanhares?
Pedrinho franziu a testa, como quem não se recorda.
– Não lembra que Zeus previu a hipótese de Hércules ser ferido e envenenar-se, e mandou pelo tal mensageiro um recado à Pítia de Delfos?…
– É verdade, é verdade! – exclamou Pedrinho. – Estou me lembrando! Mandou, sim, dizer à Pítia que, caso Hércules a consultasse, respondesse que numa planta do Oriente ele encontraria o contraveneno da Hidra. Isso mesmo…
– Pois é. E sendo assim, está claro que podemos ajudar Hércules, aconselhando-o a ir consultar a Pítia.
– Mas aconselhá-lo como, Emília? Quem de nós possui a coragem louca de falar com Hércules? Eu não vou. Tenho medo de perder a fala. Só se o Visconde… – e olhou para o Visconde, o qual deu um suspiro, com os olhinhos postos no céu.
Emília concordou.
– Isso mesmo. Vai o Visconde…
E o Visconde teve de ir! Teve de descer do alto da pedranceira para “aconselhar” o tremendo herói.
Mas o Visconde usou dum estratagema. Refletindo que, se se apresentasse pura e simplesmente diante de Hércules o certo era ser esmagado pelo seu pé como sendo o filho do Caranguejo, aproximou-se de modo a não ser visto e, oculto numa fenda, murmurou com voz cavernosa:
– Ide a Delfos, ó grande Hércules! A Pítia vos indicará a planta do Oriente que anula o veneno do monstro.
O Visconde pronunciou essas palavras num tom verdadeiramente impressionante. Hércules ouviu-as e disse a Iolau:
– Salvos estamos, amigo! A pedranceira falou. Manda-nos correr a Delfos em consulta à Pítia. Há no Oriente uma planta que nos curará – ergueram-se os dois e foram ao carro e partiram numa corrida louca para Delfos.
Quando o Visconde se reuniu aos companheiros, estava ainda pálido de susto, assoprando.
– Uf! Escapei de boa. Felizmente o brutamontes não me viu. Fiquei bem escondidinho num buraco da pedra. O que ele fez para o Caranguejo me assustou…
Emília deu-lhe parabéns pela esperteza.
– Isso, Visconde. Na vida é assim; temos de usar da astúcia, quando não podemos empregar a força.
E agora?
– Agora – disse Pedrinho – vamos descer e espiar o campo de batalha.
Desceram e foram espiar o campo da batalha. Que fedor horrível! Mais de dez cadáveres jaziam lá, alguns verdes de podridão, outros recentes – e por cima o corpo morto da Hidra ainda com estremecimentos na cauda. Espetáculo arrepiante! Mesmo assim Emília não desistiu de levar para o seu célebre museuzinho “uma ponta de língua de hidra.” Abriu a canastra, tirou uma tesoura, e com mil cautelas, para não envenenar-se, cortou a ponta da língua duma das cabeças esmagadas.
– Olhe, Pedrinho – disse ela. – Tem duas pontinhas.
– É bífida – observou o Visconde. – Essas línguas de ponta dupla chamam-se bífidas.
– Que quer dizer?
– Quer dizer partida em dois. É uma palavra que vem do latim bis, dois, e findo, eu parto, ou racho, ou fendo. Bífido: fendido em dois.
– Sim senhor – disse Emília. – O Visconde em matéria de gramática é um verdadeiro rinoceronte.
Era alusão ao Quindim, o grande gramático do Picapau Amarelo.
– Muito bem – disse Pedrinho. – Fomos felizes. Presenciamos de palanque o tremendo combate de Hércules contra a Hidra de Lerna, coisa que o mundo só sabe pela descrição dos livros. Ajudamos o herói a livrar-se do veneno; mas agora? Que iremos fazer agora? Estamos completamente sem destino.
– Ótimo! – exclamou Emília. – O gostoso é ir andando ao léu para ver o que acontece. Sempre detestei programas.
Como não surgisse outra solução, adotaram essa; e os três “picapaus” foram andando, andando, pela Grécia Antiga a fora, a ver o que acontecia.
