O Minotauro
Capítulos 17 e 18
17 – Ninfas, Náiades, Dríades e Sátiros
Os três “picapaus” foram andando, andando sem destino pela paisagem da Grécia Antiga. Paisagem que mudava de hora em hora – campinas, montanhas, florestas, bosques, rios…
Em certo ponto se detiveram. Que lindo lugar! A montanha azul lá longe, um formoso bosque à esquerda e ali ao pé um riozinho murmurejante.
Emília, que tinha paixão pelas águas em movimento, exclamou:
– Olhe, Pedrinho, como é “cabrita” esta água! Foge por entre as pedras como se fosse um peixe líquido; e quando não encontra passagem, pula por cima.
– Bom ponto para um descanso – gemeu o Visconde – e arriou a canastra da Marquesa de Rabicó.
Sentaram-se os três. Pedrinho tirou dos bolsos o sortimento de azeitonas e amoras colhidas pelo caminho.
– Temos de nos contentar com isto – disse ele, fazendo a distribuição.
O bosque dali avistado era desses que certos pintores põem nas telas. Um poema de verdura. Mas… que era aquilo? Uma “forma…”
– Espere!… – exclamou Pedrinho firmando a vista. – Querem ver que é uma ninfa?
Era uma ninfa. E eram depois duas ninfas, e três e quatro e todo um bando maravilhoso de ninfas.
Pedrinho havia puxado Emília e o Visconde para dentro de uma pequena moita, de onde podiam ver sem serem vistos. Que beleza! As ninfas não são criaturas humanas de carne e osso; são “formas.” Leves como o ar, verdadeiras gazes vivas.
– Oh, estou compreendendo – disse Pedrinho – elas são as “almas das coisas”. Bem que vovó me falou nisso. Almas das coisas – sim – almas das pedras, dos bosques, das montanhas, das árvores, das águas…
Aquelas ali eram as ninfas dos bosques e davam a impressão de belíssimas adolescentes, envoltas em gazes de lindos tons. Não tinham peso. Seu andar: uma dança! Perfeitas criaturas de sonho.
– E não são todas iguais – observou Emília. – Repare na da esquerda, que tem um brilho de água.
– Deve ser uma ninfa do orvalho. Parece vestida de pequeninos diamantes líquidos que não cessam de tremer. E aquela outra, lá adiante, deve ser uma ninfa de água parada. Em vez de brilhinhos, só tem reflexos de lagoa, lisos. A gente olha e percebe que é a alma dessas águas paradas, cheias de rãs verdes e plantinhas que boiam. E aquela mais à esquerda há de ser também uma ninfa de água, mas de água que corre, como este riozinho. Talvez até seja a própria ninfa deste nosso riozinho aqui.
– Há de ser – concordou Emília – é bem parecida com ele…
– Vovó já me explicou este caso da “alma das coisas”, e falou das “dríades”, que são as ninfas das árvores que andam soltas; e das “hamadríades”, que são ninfas sempre presas dentro das árvores; e das “orestíades”, que são ninfas das montanhas; e das “náiades”, que são também ninfas das águas…
Nem bem acabou de dizer e viu sair de outro ponto do bosque um bando de formas.
– Lá vêm elas! Mas que interessante! Eu sei porque vovó contou; mas ainda que nada soubesse eu adivinhava…
– Adivinhava o quê?
– Que são dríades. Repare como dão a sensação das árvores, com todos os seus ninhos e musgos, e cipós e flores e folhas. Que maravilha, hein?
– Nem fale, Pedrinho! Eu até tenho vontade de chorar, de tanto gosto…
Ficaram os dois embevecidos no bando das ninfas, com os olhos parados, como em sonho. Só o Visconde não se impressionava. De tanto mexer com a ciência, ficou de alminha completamente endurecida para as belezas do mundo.
– E lá vem vindo uma orestíade! – exclamou Pedrinho, apontando para uma ninfa diferente das outras, que se encaminhava para o bando. Diferente, sim; dava ideia de altura, de ar rarefeito, de torrentes escachoantes, de avenca nas barrocas, de caminhinhos de cabra – de tudo que há nas montanhas.
Pedrinho “sentiu” que ela era uma orestíade, uma ninfa ou alma da montanha – e acertou.
Era a ninfa da montanha azul que se avistava ao longe. Súbito, apareceram, vindos de certo ponto, vários seres masculinos.
– Os Sátiros! Bem certo como vovó disse…
– Que feiuras! – murmurou Emília.
– Têm pernas e pés de bode e chifrinhos na cabeça. E trazem flautas duplas e tambores. Mas aquele espeto enleado de ramagens, com uma pinha na ponta, que é aquilo?
– Aquilo é o tirso – explicou Pedrinho: – Uma lança curta e leve, ou “dardo”, que eles disfarçam com um festão de hera e uma pinha na ponta. O tirso é uma arma de arremesso camuflada, isto é, arma de arremessar com a força do braço, como uma flecha que a gente lançasse com a mão em vez de a lançar com o arco.
Os Sátiros vieram muito risonhos e começaram a tocar músicas das que ninguém resiste. As ninfas imediatamente se assanharam – e foi uma dança maravilhosa. Leves como eram, dançavam conforme a música, “inventadamente”, mal tocando o chão com os pés. As gazes em torno de seus corpos ondeavam, como que também dançavam – “dançavam a dança do ondeio” – como observou Emília.
– Isto é que é dança! – disse Pedrinho. – Aqueles moços e moças lá no mundo moderno, que suam nos salões, atracados uns com os outros nas tais valsas e fox-trots, deviam vir aprender com as ninfas o que é a verdadeira dança.
Mas a festa maravilhosa foi subitamente interrompida pelo aparecimento dum bando de peludos faunos. Pânicol
As ninfas dispararam para os bosques. As dríades sumiram dentro das árvores. As náiades mergulharam nas águas. A orestíade correu para o seio da montanha.
– Que pena! – exclamou Pedrinho. – Estes brutos vieram estragar a festa – e lá vão eles a perseguir as coitadas…
Em breve a natureza ficou totalmente limpa de “formas”, tão desenxabida como as paisagens modernas.
– Se é assim – disse Emília – por que não aparecem ninfas lá nas matas do sítio?
– Já consultei vovó a respeito. Ela acha que os nossos olhos modernos é que não veem as ninfas, mas que elas tanto existem lá quanto aqui, e também dançam por lá estas mesmas danças. Só que nos são invisíveis.
– Que triste coisa ser moderno! – suspirou Emília. – Imagine se conseguíssemos ver a alma das coisas como aqui nesta Grécia! Se, por exemplo, víssemos as dríades e as hamadríades dos flamboaiãs, dos ipês, dos mulungus vermelhos! A dríade do mulungu! Que linda não será…
Emília tinha paixão pelos mulungus. Sempre que os três pés que havia no sítio de Dona Benta derrubavam as folhas e ficavam só flores vermelhas, Emília vinha saudá-los todas as manhãs, logo que pulava da cama. “Salve, mulunguzinhos cor de brasa, dizia ela, flor do meu coração, de vermelho mais bonito que o do “papagaio” e o de todas as flores vermelhas daquém e dalém mar.”
Bom. Estava terminada a festa das ninfas. Eles podiam sair da moita. Saíram e continuaram a andar sem destino pela maravilhosa paisagem da Grécia Antiga.
– Que iremos ver agora? – ia pensando Pedrinho.
O que havia para ver naqueles tempos, fabulosos não tinha conta. Tudo eram assombros e encantamentos. A Hélade não passava de uma misturada de deuses, semideuses, heróis e simples mortais. E como até as coisas tinham alma, a vida grega era uma representação teatral como nunca houve outra no mundo. Só as façanhas de Hércules davam para encher um livro enorme. Pedrinho, que as sabia todas, foi contando as principais.
– Depois do caso do Leão de Neméia e deste caso da Hidra – explicou Pedrinho – o Rei Euristeu mandará Hércules fazer uma coisa ainda mais difícil: pegar a Corça de Pés de Bronze e Chifres de Ouro que mora num templo de Diana, no Monte Cirineu. Não é nenhum animal feroz, como o Leão de Neméia, nem monstro terrível, como a Hidra de Lerna, mas um serzinho dotado da velocidade do relâmpago. Ah, que trabalhão o pobre Hércules vai ter!
Persegui-la-á durante todo um ano, sempre com a veadinha a rir-se dele. Basta dizer que duma feita ela irá num só galope até o país dos hiperbóreos.
– Onde é?
– Nas regiões boreais, onde há os ursos brancos e as focas. A veadinha irá e voltará sem descansar um só momento, veja que danada! Hércules terá de recorrer à astúcia, porque contra a velocidade de nada vale a força. E vai, então, e esconde-se à beira dum rio que ela, forçosamente, terá de pular – e quando a veadinha pular o rio ele a apanhará no ar com uma rede.
– Há de ser como aquela com que você caça borboletas lá no sítio.
– Isso mesmo – e a levará viva ao Rei Euristeu, o qual ficará desapontadíssimo. Esse vai ser o terceiro trabalho de Hércules.
– É bem delicado. Sem sangue, nem aqueles golpes de maça que até arrepiam a gente. E o quarto?
– O quarto trabalho de Hércules será um pega no célebre javali que costuma descer do Monte Erimanto para assolar as terras vizinhas.
– Que é assolar?
– É destruir tudo, arrastar, escangalhar – e o tal javali anda a divertir-se com a brincadeira. Indo liquidar o caso, Hércules encontrará no caminho um bando de centauros e os derrotará completamente.
– Como aperitivo – para experimentar a força…
– Depois de derrotar os centauros e ainda quente da façanha, ele lançar-se-á contra o javali – e pega daqui, pega dali, corre, cerca, avança, recua, conseguirá por fim encurralá-lo num bosque, onde o agarrará bem agarrado, e o botará às costas para o levar ao Rei Euristeu.
– E o tal Euristeu, que era uma boa bisca, desaponta e inventa um quinto trabalho…
– Exatamente. O quinto trabalho de Hércules será limpar as cavalariças do Rei Augias, que são imensas e andam com uma camada de esterco maior que as de guano das Ilhas Chinchas, nas costas do Peru. Hércules chega, olha para aquilo e promete limpá-las, se o rei lhe der como prêmio um décimo dos seus animais. Certo de que o “prosa” não limpará coisa nenhuma, por ser impossível, Augias aceitará o trato. Hércules então derrubará uma das paredes das cavalariças e desviará o curso de dois rios próximos, fazendo que as águas ali penetrem e arrastem a esterqueira. Fará uma beleza de serviço, não deixando nem o cheiro do estrume; mas Augias, que é um grande patife, vai negar-lhe o prêmio e ainda por cima o expulsará de suas terras. Furioso com a deslealdade, o herói reunirá um exército e fará com o Rei Augias o já feito com o esterco: varrê-lo-á para longe.
– Toma! E o outro trabalho?
– O sexto trabalho será bonito. Existe numa cidade da Arcádia, de nome Estinfalo, um pântano habitado por umas horripilantes aves de bronze que só comem gente. Arrancam do corpo as penas de bronze e lançam-nas como flechas contra os transeuntes. A dificuldade de Hércules será fazer as aves saírem do pântano. Para isto terá uma ideia: pedir a Minerva um famoso sino de bronze que Vulcano forjou e lhe deu de presente. E com esse sino se instalará na beira do pântano, e o tocará dia e noite, até que as aves, atordoadas fujam espavoridas – e ele então as flechará uma por uma.
– Bonito! E o sétimo?
– O sétimo trabalho de Hércules será com um touro da Ilha de Creta, ainda mais feroz que o javali do Erimanto.
– Que anda a assolar as redondezas, já sei…
– Isso mesmo. Hércules irá à ilha e falará com o Rei Minos, que é o dono de tudo, e dele obterá licença para caçar o touro – e o pegará a laço. E sabe o que vai fazer em seguida? Vai levá-lo às costas ao Rei Euristeu, sem parar uma só vez pelo caminho. E sabe o que o malvado do Euristeu vai fazer? Soltar o touro! Soltá-lo na Ática, onde a fera continuará em suas destruições até que o herói Teseu a destrua.
– E o oitavo trabalho?
– O oitavo trabalho de Hércules consistirá em dar cabo dos terríveis cavalos antropófagos do tirano Diomedes. Este sujeito os havia ensinado a comer carne humana, e os nutria com os marinheiros naufragados nas costas dos seus domínios e arremessados à praia pelas ondas. Hércules irá lá, derrotará as forças do tirano e fará que os terríveis cavalos devorem Diomedes vivo.
– E que vai fazer dos cavalos?
– Vai soltá-los num monte cheio de lobos famintos.
Depois disso Euristeu mandará Hércules em busca dos ferozes bois de Gerião, um monstro composto de três corpos humanos ligados entre si pela barriga e Hércules irá e liquidará com tudo – os bois e o dono.
– E Euristeu, então…
– Manda-o realizar o décimo trabalho: obter de Hipólita, rainha das amazonas, um cinto maravilhoso muito cobiçado por Admeta, filha de Euristeu. As amazonas moram nas encostas do Monte Termodonte, num reino só de mulheres. Como são guerreiras invencíveis, Hércules terá de levar companheiros, entre os quais Teseu, Peleu e Telamon. Lá chegando, tentará com Hipólita um acordo amigável, e quase o conseguirá; mas Juno, a grande inimiga de Hércules lá no Olimpo, descerá à terra disfarçada em amazona e irá cochichar com as guerreiras que o que Hércules quer é raptar Hipólita. As pobres amazonas, enganadas, montarão em seus valentíssimos corcéis e atacarão com o maior vigor os heróis, forçando-os a se defenderem. Resultado: morte de muitas amazonas e aprisionamento de Hipólita, com cinto e tudo.
– Aquela Juno bem que merecia uma boa roda de palmadas – disse Emília. – E o décimo primeiro trabalho?
– O décimo primeiro trabalho de Hércules vai ser a captura do pomo das Hespérides. Estas damas são as ninfas do Monte Atlas onde possuem um maravilhoso jardim com as célebres árvores dos pomos de ouro. Hércules para lá se dirigirá e chegará justamente quando as Hespérides estão sendo atacadas por um bando de facínoras do Rei do Egito. E aquilo vai ser sopa no mel. Em três tempos ele arrasa os facínoras e sem dificuldade nenhuma obtém os pomos de ouro.
– Pomo eu sei que é maçã ou laranja – disse Emília. – E o último trabalho?
– Esse foi lindo. Euristeu mandará Hércules descer ao inferno em busca de Cérbero, o cão de três cabeças. Vai ser um trabalho dificílimo, exigidor de muitos estudos e preparos. Por felicidade, Palas e Hermes, que protegem o herói, oferecer-se-ão para acompanhá-lo. Hércules descerá ao inferno, e ao verem-no aparecer, as sombras dos mortos fugirão espavoridas, exceto a sombra da Górgona que Perseu matou. Hércules levará a mão à espada, para atacá-la, mas Hermes sorrirá dizendo: “Não vês que é uma sombra?” Muitas coisas haverá nesse dia, entre elas a libertação do grande herói Teseu, que Hércules encontrará aprisionado, com grossas cadeias nos pulsos. Ele quebrará essas cadeias e soltará Teseu. Em seguida chegará à mansão de Hades, o deus dos infernos, e explicará o que o traz.
– Muito bem – responderá Hades. “Se queres pegar o Cérbero, pega-o, mas sem o emprego das armas”. Hércules cobrir-se-á com a pele do Leão de Neméia e avançará contra o monstro de três cabeças. Terribilíssima luta vai ser, mas Cérbero, quase asfixiado, terá de ceder e acompanhar o vencedor à presença de Euristeu, com as três cabeças baixas.
– Que danadinho, o tal Hércules! – exclamou Emília.
– Sim, invencível. Nunca houve no mundo um herói mais destemeroso – e no entanto teve um fim trágico: acabará vencido por uma mulher…
– Que mulher?
– A Rainha Onfale.
– Como? – quis saber Emília.
– Não sei – respondeu Pedrinho – e aqui não tenho meios de me informar. Eles aqui ainda estão no segundo trabalho de Hércules, que é o da destruição da Hidra de Lerna. E nem esse caso o povo ainda sabe – só nós. A notícia ainda não se espalhou…
