Monteiro Lobato

O MINOTAURO

Capítulos 19 e 20

 

19 – Os gregos visitam o iate

         A visita ao iate foi um sucesso. O primeiro espanto dos ilustres gregos foi o Marquês de Rabicó.

         – Mas… – murmurou Aspásia, ao ser recebida por aquele estranhíssimo personagem. – Não é um porquinho?…

         – É e não é, minha senhora – respondeu Dona Benta. – A vida que levamos no Sítio do Picapau Amarelo desgarra do normal. Tudo diferente. O que os meus netos fazem, as aventuras em que se metem, nada têm que ver com a vida comum dos entes humanos. E seus companheiros de aventuras são a Emília, uma bonequinha de trapo que virou gente, o Visconde de Sabugosa, que é um sabugo científico, o Quindim, que é um rinoceronte de ótimos sentimentos e o Conselheiro, que é um burro falante.

         Todos se entreolharam. Dona Benta dizia às vezes coisas de velha caduca, tão disparatadas que os gregos sorriam.

         Mas ao lado do que dizia estava o que ela fazia, como, por exemplo, a sua vinda do futuro naquela embarcação comandada por um porquinho, de modo que todos eram forçados a calar-se. Impossível compreenderem tamanho mistério, nem discernirem se era verdade ou fábula.

         Quando, em certo momento, Narizinho perguntou qualquer coisa a Rabicó e este respondeu na sua vozinha gorda de leitão nutrido, Aspásia levou um susto.

         – Ele fala, então?

         – Claro que fala – respondeu Dona Benta. – E anda muito bem comportadinho agora. No princípio chegou a nos desanimar. Guloso em excesso, só pensava em comer.

         – Foi a gula dele que estragou a festa do meu casamento com o Príncipe Escamado – disse Narizinho.

         – Rabicó papou a coroinha do Príncipe.(VIDE “REINAÇÕES DE NARIZINHO”)

         Sócrates franziu a testa. Que quereria aquela menina dizer com o tal “papou a coroinha do Príncipe?…”

         – Eu cá não me admiro nada – disse Herodoto – porque em minhas excursões ouvi contar prodígios de todos os tamanhos. Na Pérsia, por exemplo… – e começou a desfiar para Sócrates uma história da Pérsia, enquanto Dona Benta levava Aspásia a ver as coisas do seu camarote.

         – Que interessante! – exclamou a grega ao entrar. – Tudo incompreensível para mim – e ia perguntando o que era isto, o que era aquilo. A cesta de costura foi o que mais lhe interessou. O agulheiro, os dedais, as tesouras, o ovo de cerzir meias, os carreteis de linha, os botões de madrepérola, os colchetes de pressão, o ziper. Dona Benta fez-lhe ver que o vestuário moderno exigia muita costura; as fazendas eram cortadas e emendadas por meio de pontos.

         – E para isso usamos a agulha de aço ou a máquina de coser. Eis aqui uma agulha.

         Depois de curiosamente examinar uma agulha muito fina, com aquele buraquinho na extremidade, Aspásia não resistiu: correu a mostrá-la a Péricles.

         – Veja, meu amigo, que coisa maravilhosa! Neste furinho passam um fio que vem enrolado em carretéis, e cosem, isto é, emendam dois pedaços de fazenda.

         Péricles examinou a agulha com a maior atenção, e passou-a aos outros. Ao experimentar-lhe a ponta, Sócrates espetou o dedo.

         Em seguida Dona Benta mostrou a máquina de costura na qual fez uma bainha. Assombrada com o prodígio, Aspásia gritou para os homens que viessem admirar a engenhosidade do “assombro moderno.”

         – Mas é realmente espantoso, minha senhora! – disse Péricles. – Este conjunto de peças age como se possuísse inteligência. Se as mais máquinas do seu mundo futuro mostram a sagacidade desta, chego a temer pela sorte dos homens: acabarão vencidos por tais inteligências mecânicas.

         – Pois fique sabendo, Senhor Péricles, que a máquina de coser é das mais simples. Há-as na verdade prodigiosas, como, por exemplo, o linotipo…

         Ah! por que foi ela falar em linotipo! Teve de fazer um curso completo sobre a invenção de Gutenberg, sobre os tipos móveis e os prelos de impressão para, só depois, conseguir dar uma pálida ideia do “tipógrafo mecânico” inventado por Mergenthaler.

         – A característica do mundo moderno – concluiu Dona Benta – é o desenvolvimento da máquina até aos últimos limites. Tudo é feito por meio de máquinas – e cada vez mais.

         – Não inventaram também máquina de substituir gente, minha senhora?

         – Como não? Temos os robôs, uns aparelhos armados de célula elétrica, que executam atos que sempre foram privilégio das criaturas humanas. Basta dizer, meu senhor, que na aviação já existe o vôo cego, isto é, o vôo dirigido unicamente por aparelhos; os aviões sobem, caminham centenas de quilômetros na direção desejada e descem no ponto certo sem que o piloto intervenha. Os aparelhos controlados dessas máquinas de voar executam todos os serviços.

         Era difícil fazer os gregos daquele tempo compreenderem as coisas do mundo moderno, e volta e meia Dona Benta pilhava-os a sorrirem uns para os outros. Foi assim com aquela história do “vôo cego.”

         No camarote de Pedrinho causou grande sensação um canivete que Dona Benta lhe havia dado no dia de anos – desses gorduchos, que têm lâminas de todos os formatos, e lima de unha, e tesourinha, e furador, e chave de parafuso, e saca-rolha. O instrumento passou de mão em mão, considerado um verdadeiro prodígio.

         Péricles interessou-se profundamente por um exemplar das “Reinações de Narizinho” encontrado lá.

         – É um modelo do livro moderno – explicou Dona Benta – feito de papel, uma substância que os gregos ainda não conhecem. Não usamos mais o papiro nem o pergaminho. Este papel é fabricado de celulose, isto é, da substância que forma o lenho das árvores. A impressão faz-se nos prelos, por meio de tipos, ou caracteres móveis, quando não por meio das linhas inteiras compostas e fundidas por aquele linotipo de que falei. A invenção do livro permitiu que as obras se divulgassem dum modo incrível. Nos países mais cultos as edições sobem a milheiros de exemplares. Às vezes a milhões.

         – Milhões, minha senhora?

         – Sim, milhões! Um dos característicos desses países é que todos os seus habitantes recebem educação escolar e, portanto, podem ler qualquer livro. Daí as grandes tiragens.

         – E estes desenhos, como entram nos livros? – perguntou Herodoto.

         – Por meio do mesmo prelo que imprime as letras. O desenho do artista é transportado para uma chapa de metal, num processo chamado zincogravura, e depois é impresso juntamente com os tipos.

         Temos vários processos de reproduzir desenhos com todas as cores.

         – Com as cores também?

         – Claro. Quer ver? – e Dona Benta remexeu os guardados de Pedrinho, em procura duma tricromia.

         Achou uma página de revista com o retrato a cores de Shirley Temple.

         – Aqui temos uma. É um retrato fotográfico reproduzido no papel pelo processo da tricromia.

         – Maravilhoso! – foi a exclamação geral. – E quem é esta encantadora criança?

         – Ah, é a flor do Cinema! – respondeu a menina. – Uma estrelinha maravilhosa. Oito anos de idade só e ganha, sabem quanto? Sete mil dólares por semana.

         Foi uma atrapalhação para explicar o que era “estrela”, o que era dólar, quanto valia um dólar comparado à moeda grega. A menor coisa que Narizinho e sua avó diziam provocava digressões explicativas sem fim – e o pior é que todos ficavam na mesma; impossível os gregos, por mais inteligentes que fossem, compreenderem de modo perfeito as coisas da vida moderna.

         Na cozinha o espanto não foi menor. O fogão usado no navio, o fogareiro de álcool, as panelas de alumínio, o açúcar, tudo era novidade. Aspásia achou lindo o açúcar e provou-o deliciadamente.

         – Veja, Péricles, que maravilha! Tem a doçura do mel, mas um sabor diferente. Como se consegue isto?

         Os gregos ignoravam o açúcar, só usavam o mel, de modo que Dona Benta teve de fazer um curso a respeito da cana e da beterraba, e explicar todo o processo de obtenção da maravilhosa “farinha doce”.     Aspásia não resistiu: levou um pacotinho para o mostrar às amigas.

         – E olhe o que é batata! – disse a menina, trazendo uma da despensa. – Ontem ao jantar falou-se muito nisto.

         A batatinha inglesa passou de mão em mão, cheirada, provada, comentada. E para que a demonstração fosse completa, Dona Benta mandou Narizinho preparar um prato de batatas fritas. A menina era doutora nisso, de modo que produziu em poucos minutos um prato de “batatinhas pururucas” merecedoras da assinatura de tia Nastácia.

         Todos comeram com delícia.

         Sócrates arregalou o olho.

         – Já não será aquele naco de carneiro que comi em Potideia o único pitéu que me ficará na memória; também não me esquecerei deste delicioso petisco.

         Péricles e Herodoto concordaram – e lamberam os beiços.

         – E se eu rebentasse umas pipocas, vovó? – propôs a menina.

         – Excelente ideia, minha filha.

         O preparo das pipocas foi uma festa. Aspásia parecia tão infantil quanto a Emília. Levantava a tampa da caçarola para ver os pulinhos do milho, pegava e assoprava as que caíam fora. Depois de terminado o “tiroteio”, Narizinho derramou a caçarola de pipocas numa peneira.

         – Pronto – disse. – Agora é comer. Péricles, Sócrates, Herodoto e Aspásia rodearam a peneira e regalaram-se.

         – Não sei que gosto terá a ambrosia dos deuses, mas há de aproximar-se disto – foi a opinião de Sócrates.

         – Na Líbia apresentaram-me um prato que lembra este – disse Herodoto. – A variedade dos alimentos humanos é imensa.

         Aspásia separou um punhado de pipocas. Queria também levar um pouco daquela “maravilha” para deslumbrar sua amiga Cleone.

         O Marquês de Rabicó, que havia sentido o cheiro do piruá, aproximou-se. Narizinho deu-lhe o fundo da caçarola.

         – Que é isso? – indagou Aspásia.

         – O piruá – explicou a menina – isto é, os grãos de milho que não rebentam.

         – Por que não rebentam?

         – Enjoamento deles. Preferem ficar totalmente torrados a rebentar. Fedorências, como diz a Emília.

         Depois das pipocas – Dona Benta foi mostrar-lhes a bússola.

         – Aqui está a grande coisa – disse ela. – Graças a este simples aparelhinho é que a navegação regular se tornou praticável dum continente a outro, sem perigo de extraviamento. Invenção dos chineses. Reparem que a agulha marca sempre a mesma direção, por mais que viremos a caixa.

         Todos fizeram a experiência. Tomaram a caixa da bússola e viraram-na em todas as direções, sem que a agulha deixasse de marcar o mesmo rumo.

         – Extraordinário! – murmurou Péricles. – Os navegantes não necessitam ficar de olhos ferrados nas estrelas, como hoje. Extraordinário…

         Outra coisa que os encheu de assombro foi uma caixinha de fósforos. Quando a menina riscou um e apareceu a chama, o silêncio tornou-se geral. Prodígio! O fogo que Prometeu roubara ao Olimpo e dera aos homens estava completamente domesticado e preso dentro daquelas cabecinhas escuras!

         Péricles também quis experimentar, e desajeitadamente riscou outro fósforo. Sócrates e Herodoto fizeram o mesmo. Aspásia riscou três – e guardou a caixa. Ah, como aquele milagrezinho iria tontear as suas amigas!

         – Estou vendo, minha senhora, que esse tempo do futuro é a verdadeira era dos prodígios – observou Péricles. – Tudo prodígios!…

         – Realmente, o progresso do homem é um fato – confirmou Dona Benta. – Não parará nunca, apesar das longas interrupções da barbárie. Esta maravilhosa Grécia de hoje, por exemplo, desaparecerá esmagada pela avalancha da estupidez barbaresca – mas nem tudo ficará perdido. O pensamento de Sócrates e a arte de Fídias ressuscitarão numa fase chamada Renascimento, a qual virá depois de longos séculos de torpor. E os homens retomarão o archote de luz e prosseguirão na marcha. Infelizmente, parece que há uma coisa irredutível: a estupidez humana. Por mais que a inteligência se desenvolva, a estupidez não deixa o trono – e as guerras, filhas dessa estupidez, vão sendo cada vez mais terríveis. Eu não quero desiludi-los, meu senhores, porque também não me desiludi totalmente. Mas afirmo que daqui a 2.377 anos Sua Majestade, a. Estupidez Humana estará mais gorda e forte do que hoje… Sócrates notou contradição nas palavras da velha.

         – Não entendo – disse ele. – A senhora afirma que o progresso humano é contínuo. Ora, se o progresso é contínuo, a estupidez não pode prosperar.

         Dona Benta riu-se.

         – O progresso é contínuo, sim, mas tanto nas coisas boas como nas más. Progridem as ciências, progridem as técnicas, progride o Bem, mas a Maldade também progride e também progride a Estupidez. Minha filosofia é essa.

         – Nada de discussões – disse Aspásia. – São horas do almoço, e temos de aguardar a visita de Sófocles. Ele está interessadíssimo em conhecer as nossas ilustres visitantes, e aparecerá em casa depois das sete horas para levá-las à representação de Alceste.

         Dona Benta gemeu com a célebre pontada. Sófocles! Ela a receber a visita de Sófocles, um dos maiores gênios da humanidade!…

Deixaram o iate. Uma hora depois estavam à mesa, almoçando e discutindo o teatro grego e a excelência das batatas fritas.

 

20 – A esfinge e o oráculo de Apolo

         – Mas, afinal de contas – disse Pedrinho – nossa viagem a estes séculos não foi para aventurar, sim para procurar tia Nastácia. Temos de refletir nisso…

         – De refletir, não! – contestou Emília. – Temos de indagar, de perguntar por ela a toda gente. Lá vem um homem. Vamos “bater papo” com ele.

         Um homem de meia-idade caminhava na direção dos três “picapaus.” Pedrinho foi-lhe ao encontro.

         – Meu senhor – disse ele – andamos perdidos por estas terras e muito precisamos de informações – e contou quem era e o que buscavam no mundo helênico.

         O heleno parou, muito admirado da figurinha da Emília e do Visconde; por fim foi respondendo a todas as perguntas que lhe faziam.

         – Pois é isso – disse Pedrinho. – Andamos atrás de tia Nastácia. Prometi a vovó não voltar de mãos abanando e estou atrapalhado. Quase que sei que ela está aqui, aprisionada por um dos monstros que atacaram o palácio do Príncipe Codadade. Mas onde?

         O heleno declarou não ter visto preta nenhuma que se parecesse com a descrita.

         – O remédio me parece uma consulta ao Oráculo de Delfos – concluiu ele. – Por que não o fazem? Para Delfos vou indo, e justamente para consulta ao Oráculo. Vocês poderão acompanhar-me.

         – Ótimo! – exclamou Pedrinho. – Mas o tal Oráculo adivinha mesmo as coisas?

         – Por Zeus! Claro que adivinha, e por isso anda o santuário de Delfos sempre cheio de consultantes vindos de todas as partes do mundo. Reis e príncipes, negociantes e pastores – não há quem não recorra ao divino Oráculo. A quantidade de donativos em depósito no templo é enorme. Não existe em parte nenhuma do mundo santuário mais rico de prendas. Uns dão blocos de ouro; outros dão estátuas de mármore ou bronze. Há mais estátuas em Delfos do que em todas as cidades helênicas reunidas.

         – E quem faz as adivinhações? – perguntou Emília.

         – A Pítia. É em Delfos que o grande Apolo se manifesta por meio de uma fenda na montanha, donde saem uns vapores miraculosos. A mulher que respira esses vapores sente logo uma tontura, fica descabelada, de olhos enormes, a espumejar, e por fim solta as palavras de Apolo. Mas como nem sempre o que ela diz nos é inteligível, há os sacerdotes do santuário que as interpretam, isto é, explicam o significado das palavras divinas.

         – Pois aí está uma coisa que só vendo – murmurou Emília. – Duvido que a Pítia adivinhe quem é o Visconde de Sabugosa.

         – Esse um? – disse o heleno, apontando para o Visconde, que suava com a maleta da Emília às costas.

         – Esse até eu adivinho. É uma aranha…

         – Não; quero que a Pítia adivinhe de que substância ele é feito, porque o Visconde é um produto do milho, coisa que não há por aqui.

         – Adivinha, sim – assegurou o heleno. – Não há segredos para o grande Apolo.

         Iam os três, lado a lado do heleno, por um caminho sem fim, que cortava uma região pouco povoada.

         Em certo ponto viram uma casinha de campo onde morrera gente. Preparavam-se para o enterro.

         – Vamos espiar – disse Pedrinho. – Quero ver como é a morte neste século.

         Não viram grande novidade. Tudo lembrava as cerimônias fúnebres dos modernos. Uma coisa, porém, causou-lhes espécie. Em dado momento um dos amigos do defunto abriu-lhe a boca e enfiou lá dentro um óbolo, que era a menor moedinha de cobre em circulação.

         – Que perigo! – exclamou o Visconde. – O cobre produz um óxido chamado verde-paris, que é um veneno.

         Todos riram-se da “emilice” do Visconde. O heleno explicou que era na boca que os defuntos levavam o dinheiro para a passagem da Lagoa Estígia, porque nada é veneno para os defuntos.

         – Há nos infernos a Estígia, que todos os mortos têm de atravessar na barca do velho Caronte – e o preço da passagem é um óbolo. Quem não o leva, não passa.

         Emília gostou muito do sistema.

         Continuaram a caminhar. Uma hora depois penetraram em zona montanhosa, que o heleno explicou ser a Montanha Esfíngia.

         – E temos aqui de andar com muitas cautelas – disse ele – porque a região é assolada por um monstro de grande crueldade. Aparece de improviso aos passantes e propõe-lhes enigmas. Quem não dá a solução certa é devorado.

         – Não é a Esfinge? – perguntou Pedrinho.

         – Sim, é esse o seu nome. A Esfinge é filha de outro monstro famoso, a Quimera de três cabeças.

         – Da Quimera? Oh, conhecidíssima nossa! Já esteve lá no Sítio do Picapau com o Senhor Belerofonte. Está velha e caduca a pobre, sem dentes e sem fogo…(PICAPAU AMARELO)

         – Pois a Esfinge anda mais viva e feroz do que nunca. Há pouco tempo devorou o jovem Hemon, filho de Creonte. Se nos aparecer pela frente, estamos perdidos.

         Ah, por que foi aquele homem falar naquilo? Parece que o monstro o ouviu e veio – e apareceu diante deles como por encanto, em plena estrada. Um monstro horrível, cabeça e busto de mulher, corpo de leão, asas de águia.

         Dos olhos saíam chispas ferozes.

         Ao ver diante de si a Esfinge, o pobre heleno sentiu as pernas  paralisadas. O terror o transfez em estátua.

         Pedrinho também bambeou de pernas – mas Emília nada sentiu. Seus olhinhos examinavam a Esfinge da cabeça aos pés, para bem decorá-la.

         O monstro não tardou a abrir a boca e deixar escapar um enigma, que ou eles decifram ou…

         – Que é que anda com os pés na cabeça? – perguntou à ex-boneca.

         – Piolho! – respondeu prontamente Emília.

         A Esfinge espantou-se da rapidez da resposta e deixou-a passar.    Em seguida foi a vez de Pedrinho que, ainda de pernas bambas, avançou.

         – Qual é o homem que tem cabeça de boi, coração de carneiro e pés de porco? – perguntou o monstro.

         Pedrinho era mestre em adivinhações, de modo que, apesar do medo, deu a solução certa:

         – O carniceiro!

         A Esfinge tornou a admirar-se da rapidez da resposta e deixou o menino passar. Era a vez do Visconde. O sabuguinho avançou, de maleta às costas, gemendo.

         – Qual é a coisa mais pesada do mundo? – perguntou a Esfinge.

         O Visconde deu um suspiro e respondeu sem nem pensar:

         – É o raio desta canastrinha da senhora Marquesa de Rabicó.

         A Esfinge franziu a testa. Estava errada a resposta e, portanto tinha de devorar o Visconde. Mas ao firmar a vista achou-o tão exótico, tão insignificante, tão parecido com uma aranha de cartola, que não deu confiança. Aquilo não era comida de esfinge. Seus olhos voltaram-se para o heleno, que dos quatro lhe pareceu a melhor presa. O pobre homem não podia despregar-se do chão. Suas pernas recusavam-se a obedecer-lhe.

         – Qual é o animal que anda de quatro patas de manhã, de duas ao meio-dia, de três à tarde? – perguntou a Esfinge.

         O homem nem podia falar, quanto mais resolver enigmas.  Gaguejou, sem conseguir soltar nem meia palavra.

         – Temos de ajudá-lo – disse Emília. – Ele é bobo. O enigma da Esfinge poderá ser enigma para as gentes daqui, mas para nós é velharia coroca. Vá por trás dele, Visconde, e dê a resposta, que é: “Homem”, porque o homem é que anda de quatro patas na manhã da vida, quando engatinha; e depois de duas, quando cresce; e depois anda de três, quando envelhece – as duas que tem e mais um porretinho, que é a terceira.

         O Visconde foi. Colocou-se atrás do heleno e cochichou-lhe a resposta exata. Mas quem disse da boca do heleno poder falar? O Visconde então fez uma voz grossa e disse, fingindo que era o heleno:

         – O animal que de manhã anda de quatro patas, e ao meio-dia anda de duas, e à tarde anda de três, é o Homem!

         Ao ouvir aquela certíssima resposta, o monstro ficou assombrado. Já havia proposto semelhante enigma a dezenas de passantes sem que nenhum atinasse com a solução, e a todos ela devorou. Mas agora…

         – Passe, e depressa antes que eu me arrependa! – urrou a  desapontadíssima Esfinge para o heleno, o qual imediatamente desentanguiu as pernas e passou de corrida, com o Visconde atrás. O monstro lá permaneceu no meio do caminho, tonto, abestalhado, sem saber o que pensar. Nunca lhe acontecera aquilo – cercar quatro passantes e não conseguir comer nenhum…

         – Uf! – exclamou o heleno lá adiante, enxugando o suor da testa. – Escapei de boa. Mas como é que vocês sabem decifrar estes enigmas? Eu, nem que levasse a vida inteira pensando, não era capaz de resolver um só.

         – É que nós somos “macacos de circo!” – disse Emília, piscando os olhinhos. – Nunca nos apertamos. Não tive o menor medo da Esfinge pela certeza em que estava de que suas adivinhações seriam “canja” para nós.

         Continuaram na viagem, e por longo tempo o heleno só falou naquilo. Que assombro! Que milagre! Como uma aranha daquelas, de cartolinha na cabeça e mala às costas, pudera acertar na decifração dum enigma que era o terror daquela zona?

         – Por Apolo! Este caso é tão maravilhoso que vou erigir um templo com a estátua do prodigioso entezinho que me salvou a vida.

         – Mas não se esqueça de me pôr atrás do “entezinho” a assoprar-lhe no ouvido a decifração certa, alegou Emília – porque o Visconde foi apenas o meu speaker. Por si só este coitado não fazia nada. Ia lá e saía-se com uma bobagem qualquer a respeito da minha maleta. Quando me carrega esta maleta, o senhor Visconde não pensa em outra coisa e só fala “indiretas”…

         Ao longe apareceram uns começos de cidade.

         – Estamos chegando – disse o heleno. – Lá está o santuário de Delfos.

         A entrada dos “picapaus” em Delfos causou sensação. Inúmeros peregrinos ali reunidos vieram rodeá-los, cheios da maior curiosidade. “Quem eram?” “Donde vinham?” Ao saberem do caso da Esfinge, o assombro geral cresceu. Depois Pedrinho indagou dos costumes locais e do que era necessário fazer para que a Pítia os atendesse.

         – Os consulentes têm de oferecer ao santuário uma dádiva de valor. Sem isso não são recebidos.

         – E esta agora! – exclamou Pedrinho. – Não temos ouro, nem nada de valor para oferecer ao santuário. Como há de ser?

         Emília resolveu o caso num instante.

         – Nada mais simples – disse ela. – Se não temos ouro nem estátuas, temos o Visconde. Podemos oferecer o Visconde como uma das maiores curiosidades da natureza – e juro que os sacerdotes aceitam.

         E como ao ouvir isso o pobre sabuguinho fizesse bico, ela completou o seu pensamento: “E depois ele foge e continuamos a nossa viagem.”

         E assim foi feito. Pedrinho aproximou-se do sacerdote e disse que viera consultar a Pítia, trazendo como dádiva um dos maiores prodígios do mundo – um “milhóide” que falava muito bem, sabia mil coisas e não tirava a cartolinha da cabeça. O sacerdote examinou o Visconde com grande interesse, fê-lo falar, mexer-se, mover-se dum ponto para outro – e gritou para os companheiros que viessem observar o estranho fenômeno.

         – Não há dúvida que é um estafermozinho deveras curioso – disse ele, por fim. – Aceitamo-lo como donativo ao santuário – e lá foi o pobre Visconde, com a maleta ao ombro, para o depósito das dádivas, conduzido pela mão por um ajudante do sacerdote.

         Para consultar a Pítia, Pedrinho e Emília tiveram de esperar a vez, porque havia muita gente antes. Ficaram na grande praça onde se erguia o templo de Apolo, de conversa com o heleno e vários outros peregrinos. A fim de matar o tempo contaram histórias do mundo moderno, fizeram mágicas apreciadíssimas, como a de produzir fogo por meio de um pau de fósforo riscado na caixinha.

         Os gregos ali reunidos estavam de boca aberta. Assombro maior nenhum deles tinha visto.

         Chegou afinal a hora de consulta; Pedrinho e Emília foram introduzidos na câmara do Oráculo.

         Lá estava a Pítia com o seu ar de louca, sentada em cima duma trípode, por baixo da qual subia da terra um vapor.

         Com o maior desembaraço Pedrinho disse ao que vinha.

         – Queremos saber onde está uma tia Nastácia que sumiu lá do sítio de vovó e deve ter afundado nestas terras.

         – Uma mulher cor de carvão – completou Emília – de quase setenta anos, beiçuda, lenço de ramagens na cabeça, mestra em bolinhos.

         A Pítia concentrou-se, babou, escabujou, arrepelou os cabelos e por fim disse, com os olhos parados:

         – O trigo venceu a ferocidade do monstro de guampas.

         Pronto. Era só aquilo. Pedrinho e Emília retiraram-se desapontadíssimos. Não encontravam sentido nenhum nas palavras do oráculo.

         – Parece que a Esfinge foi a professora desta pitonisa – disse Emília. – Em vez de nos dar uma resposta clara, vem com um quebra-cabeça. Confesso que fiquei na mesma.

         – Temos de pensar, Emília, pensar muito, mas aqui é impossível. Vamos sair do meio desta multidão.

         Saíram. Foram ter a um jardim deserto onde se sentaram na relva, com as mãos na cabeça, pensando, pensando.

         Súbito, Emília deu um grito. “Heureca, Heureca!” Achei, achei… Tia Nastácia está sã e salva nos domínios do Minotauro. É isso!…

         Pedrinho não entendeu a decifração.

         – Por quê?

         – Tudo está claro como água, Pedrinho! “O trigo” quer dizer tia Nastácia, porque ela, como cozinheira, lida muito com trigo, farinha de trigo, massa de trigo, pastéis, bolinhos etc. E com as coisas gostosas que ela fez com a farinha de trigo “venceu”, isto é, amansou a “ferocidade do monstro de guampas” que não pode ser outro senão o Minotauro. De todos os monstros que invadiram o palácio do Príncipe Codadade só havia um de guampas, ou chifres: o Minotauro. Logo, tia Nastácia está sã e salva nas unhas do Minotauro. Viva!…

         Pedrinho achou bastante lógica a interpretação emiliana.

         – E onde mora o Minotauro?

         – O heleno que nos acompanhou deve saber. Vamos procurá-lo.

         Foram em procura do homem e souberam que o monstro morava na Ilha de Creta.

         Tinham de partir imediatamente para a Ilha de Creta, mas antes era preciso acudir o Visconde. Como arrancá-lo do Santuário? Foram os dois para lá e deram várias voltas em redor. Paredes altas, sem janelas.

         – A única abertura é a porta de entrada – observou Emília. – Por ela o Visconde passou e só por ela poderá sair. Mas o Visconde é a lerdeza em pessoa. Se fosse eu, já havia escapado, porque os sacerdotes volta e meia abrem a porta para guardar mais dádivas. Fiquemos aqui por perto. Talvez o Visconde compreenda que o único meio de salvação seja aproveitar-se dum dos abrimentos da porta e fugir.

         Assim fizeram. Ficaram por ali de olho na porta, espiando pela fresta cada vez que um sacerdote abria o santuário. Mas nada do Visconde aparecer. Impaciente com a demora, Emília resolveu agir.

         – Vou pregar uma peça no primeiro sacerdote que chegar – disse ela.

         – Que peça?

         – Você vai ver.

         Vinha vindo um deles carregando uma pesada estátua de ouro. Assim que abriu a porta, Emília lançou-se-lhe aos pés como tomada de convulsões, pôs-se a gritar coisas que ninguém ali entendia.

         Era na língua do “p.”

         – Fupujapa, vispisconpondepe! Sapaiapa apatráspás dopo sapacerperdopotepe quanpandopo epelepe vipierper sapainpindopo epe nãopão espesquepeçapa apa mapalepetipinhapa.

         O sacerdote ficou espantadíssimo daquilo; abriu a porta do templo, entrou, guardou lá a estátua e voltou apressadamente para acudir àquela criatura. Na sua atrapalhação não percebeu que o Visconde também saíra atrás dele, sempre com a maleta às costas. Ao perceber isso, Emília fingiu que ia voltando a si.

         – Que é que teve? – perguntou o sacerdote, abaixando-se para cuidar dela.

         – Um ataque “pepilético!” – disse a diabinha, assoprando-se e passando as mãos pelos olhos. – Mas já estou boa. Ah, sou muito sujeita a estas coisas, meu senhor…

         Enquanto Emília entretinha o sacerdote, o Visconde, na ponta dos pés, esgueirava-se dali. Momentos depois estavam os três reunidos num lugar deserto, já prontos para a partida.

         – A Ilha de Creta é longe – disse Pedrinho. – Temos de tomar uma pitada do pó de pirlimpimpim – e sacou do bolso o canudo que continha o maravilhoso pó vencedor das distâncias.

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