Monteiro Lobato

O MINOTAURO

Capítulos 21 e 22

 

21 – No labirinto de Creta

         Foram despertar na Ilha de Creta, onde logo descobriram o labirinto. Era um palácio imenso, com mil corredores dispostos de tal maneira que quem entrava nunca mais conseguia sair – e acabava devorado pelo monstro. O Minotauro só comia carne humana. Diante do labirinto, os três “picapaus” pararam para refletir.

         – Quem entra não sai mais e acaba no papo do monstro – disse Pedrinho. – Mas nós sabemos o jeito de entrar e sair: é irmos desenrolando um fio de linha. Ah, se eu tivesse trazido um carretel…

         – Pois eu trouxe três! – gritou Emília, triunfalmente. – E dos grandes, número 50. Desça a mala, Visconde, abra-a.

         A mala foi descida e aberta. Emília tirou os carretéis e deu um a Pedrinho, outro ao Visconde, ficando com o terceiro.

         Entraram no labirinto e foram desenrolando o primeiro carretel; quando a linha acabou, desenrolaram o segundo; e quando a linha do segundo acabou, começaram a desenrolar o terceiro. Eram corredores e mais corredores, construídos da maneira mais atrapalhada possível, de propósito para que quem entrasse não pudesse sair. Antes do terceiro carretel chegar ao fim, Emília “sentiu” a aproximação de qualquer coisa.

         – Percebo uma catinga no ar – disse ela baixinho, farejando. – O monstro deve ter os seus aposentos por aqui…

         Uns passos mais e pronto: lá estava o Minotauro, numa espécie de trono, a mastigar lentamente qualquer coisa que havia numa grande cesta.

         – Mas como está gordo! – cochichou Emília. – Muito mais que aquele célebre cevado que Dona Benta comprou do Elias Turco. Parece que. nem pode erguer-se do trono…

         De fato, o monstro estava gordíssimo, quase obeso, com três papadas caídas; o seu corpanzil afundava dentro do trono. Que teria acontecido?

         Mesmo assim era perigoso aproximar-se, de modo que novamente Emília recorreu ao Visconde.

         – Vá lá, meu bem, chegue-se ao “gordo” e com muito cuidado peça informações sobre tia Nastácia.

         – E se ele me devorar?

         – Não há perigo. Nem a Esfinge o devorou, quanto mais o Minotauro. Só as vacas devoram os sabugos.

         – Mas ele é touro, e os touros também comem sabugos.

         – Menos este, que é antropófago. Vá sem medo.

         O Visconde arriou a maletinha e foi. Instantes depois voltava.

         – E então? – perguntou Pedrinho.

         – Não fala, não responde. Perguntei por tia Nastácia e ele só me olhou com um olho parado, sempre a mastigar umas coisas que tira daquela cesta – “isto” – e mostrou o que havia na cesta.

         Emília arrancou-lhe o “isto” da mão. Era um bolinho. Era um bolinho de tia Nastácia! Imediatamente Emília o reconheceu pelo tempero. Que alegria! Aquele bolinho era a prova mais absoluta de que tia Nastácia estava lá – e viva! Pedrinho comeu o bolinho inteiro e lamentou que o Visconde só tivesse trazido um.

         – Vamos procurá-la com o resto de linha que ainda temos – disse Emília, examinando o carretel. – Há de dar.

         Continuaram o avanço pelos corredores sem fim. Em certo momento o narizinho de Emília farejou o ar.

         – Hum! – fez ela. – Estou sentindo um cheiro que não me engana. Até parece que estou lá no sítio…

         Instantes depois alcançavam uma dependência que parecia copa e afinal deram com a cozinha. E avistaram diante dum enorme fogão, de lenço vermelho na cabeça, a tão procurada criatura! A boa preta lá estava fritando bolinhos numa frigideira maior que um tacho. À sua direita erguia-se um montão de massa, e à esquerda jazia a peneira onde ia pondo os bolinhos já prontos.

         Os três “picapaus” entraram na ponta dos pés. Súbito, Emília gritou – Hu!

         A preta, assustada, voltou-se. Seus olhos arregalaram-se. A colher de pau caiu-lhe da mão.

         – Credo! Será que estou sonhando? – e esfregou a cara.

         – Não está sonhando, não! – disse Pedrinho. – Somos nós mesmos, que viemos do sítio especialmente para socorrer você. Vovó e Narizinho ficaram no século de Péricles. Apronte-se para a fuga.

         A negra custou a voltar a si do espanto. Por fim voltou, e numa alegria louca, rindo e chorando, abraçou o menino, beijou a Emília e o Visconde. Logo que sossegou um pouquinho, disse, num suspiro: “Mas daqui ninguém sai; isto é uma “corredoria” que ninguém entende.”

         – Nós entendemos. Acompanhe-nos, que não se perderá no labirinto. A pobre negra, ainda com a cara escorrida de lágrimas, acompanhou-os por uma hora. O fio de linha os guiava. E sem novidade nenhuma foram ter à porta de saída. Estavam salvos!

         Ao ver-se livre do labirinto, tia Nastácia caiu sentada no chão.

         – Ah, meu Deus! Nem acredito…

         – Pois acredite, que é verdade. Você está salva e vai voltar para o sítio. Mas que foi que aconteceu lá naquela festa? Conte.

         A boa preta assoprava-se, ainda meio fora de si. Depois disse:

         – Pois eu estava assando aqueles faisões lá na cozinha do Príncipe Codadade, quando chegou a bicharia, aqueles cavalos com corpo de gente, e tantos animalões que pareciam pesadelo. Corri em procura de meu povo. “Sinhá! Narizinho! Emília! Pedrinho!” Nada. Ninguém respondeu. E foi então que tudo virou um despropósito de brigas e galopadas que não acabava mais. O Príncipe com a Princesa nem sei que fim levaram, só sei que de repente uma coisa me agarrou pela cintura. Olhei: era um homem gigante com cabeça de touro. Meu medo foi tanto que perdi os sentidos. Quando abri os olhos, estava neste “labirinto”, com ele me olhando. Nossa Senhora! O medo que senti! Ajoelhei, rezei, pedi misericórdia com todas as palavras do meu coração – e o bicho quieto, a olhar.

         De vez em quando punha pra fora uma língua deste tamanho e lambia os beiços. Felizmente ele estava com a barriga cheia e me deixou para o dia seguinte. Jogou eu na cozinha e saiu. Eu fiquei que nem sabia de mim nem de nada, mas fui serenando. Minhas rezas me consolaram. Vi aquele fogão e muita farinha. Tive a ideia de fazer uns bolinhos, só pra matar as saudades. Me lembrei de todos lá do sítio e disse comigo: “Vou fazer pela última vez o que eles gostavam tanto”, não pra comer, porque numa ocasião dessas o estômago da gente até some. Fiz os bolinhos só por fazer, só pra me lembrar da minha gente lá do sítio…

         Os olhos de Pedrinho umedeceram-se.

         – Pois é – continuou tia Nastácia – eu ia frigindo os bolinhos e botando numa peneira. E dizia: “Este é pra Narizinho, este pra Emília, este é pra Pedrinho, este pro Visconde, este é pro Quindim, este é pro Conselheiro…” De repente, quem vinha entrando? O monstro! A fome apertou e ele vinha vindo, lambendo os beiços. “Minha hora chegou”, pensei comigo e caí no chão de joelhos, rezando pra Nossa Senhora. Mas aconteceu um milagre. O monstro viu a peneira com os bolinhos e tirou um. Provou. Ah, que cara ele fez! Aqueles olhos de coisa-ruim brilharam. Pegou outro, e outro e outro, e comeu a peneirada inteira.

         Depois apontou para o fogão num gesto que entendi que era pra fazer mais. E desde esse dia não parei um instante de fazer bolinhos. O apetite desse homem-boi não tem fim. Come sem parar. E tantas peneiradas de bolinhos comeu que foi engordando, engordando, a ponto de nem mais aparecer na cozinha. Eu é que levava as peneiradas de bolos lá pro trono dele. Acabou completamente manso. Esqueceu até a mania de comer gente.

         – Bem disse a Pítia! – recordou Emília. – “O trigo venceu a ferocidade do monstro de guampas.”

         – Pois é, foi o bolinho que me salvou. Nunca pensei…

         – Sim, você está salva, Nastácia, e vai voltar para o Picapau, e vai continuar por toda a vida a fazer bolinhos para nós. Vê como é bom saber fazer uma coisa bem feita?

         A negra concordou, com um suspiro.

         Pronto! Estava terminada a excursão dos três “picapaus” pela Grécia Antiga. O que por lá tinham a ver era todo um mundo – mas não havia tempo. Dona Benta os esperava no século de Péricles

         – Então, Sinhá também veio? – perguntou a preta.

         – Claro que veio. Viemos todos no “Beija-flor das Ondas”, que ficou ancorado no Porto do Pireu.

         – Onde é isso?

         – É no seu nariz – respondeu Emília. – E por falar, prepare as ventas para uma pitada de pó. Vamos regressar.

         Pedrinho tirou do bolso o canudo do pó número 2, despejou-o na palma da mão e deu uma pitadinha para cada um.

         – E agora, um… dois… e TRÊS!

         As quatro pitadas foram absorvidas pelos quatro narizes e fiun!… Quando abriram os olhos estavam no tombadilho do iate, diante da boca aberta de Rabicó.

         – Credo! – exclamou tia Nastácia. – Como ele está bonitinho com esse boné de marinheiro na cabeça! Parece um almirante…

 

22 – Sófocles aparece

         Depois da visita dos gregos ao “Beija-flor das Ondas”, Dona Benta e Narizinho prepararam-se para receber o Estratego Sófocles.

         – Estratego, vovó? – perguntou a menina, muito admirada. – Pois esse Senhor Sófocles também é Estratego, como Péricles?

         – Sim, minha filha. Há dez Estrategos em Atenas, e se só ouvimos falar em Péricles é porque a sua posição corresponde à dum verdadeiro ditador. Não ditador imposto pela força bruta, mas escolhido pelo povo na assembleia, reeleito anualmente e aceito por todos como o primeiro homem da república. Sófocles é um dos dez estrategos atenienses; mas sua fama não vem disso, sim de suas peças teatrais. O futuro o considerará um dos maiores gênios da humanidade.

         – Mas como virou Estratego?

         – Há cerca de dois anos foi representada aqui em Atenas a sua tragédia Antigona. O entusiasmo do povo subiu tanto que na primeira assembleia o elegeram Estratego – e nessa qualidade já tem funcionado como general em algumas guerras.

         – E vão hoje levar alguma peça dele?

         – Não. O que está anunciado é a tragédia Alceste, de Eurípides, outro grande gênio ateniense. Ah, minha filha, a história do teatro grego é muito curiosa. Foram os gregos os criadores do teatro no mundo, e a coisa começou, sabe como? Com as festas, os cantos e danças rústicas em homenagem a Dionisos, ou Baco, o deus da vinha e da alegria. Vem daí a palavra “tragédia”, ou “tragoidos” em grego, isto é, “canto do bode”.

         – Que têm os bodes com isso?

         – É que os cantadores e dançadores eram homens disfarçados em sátiros, ou “bodes”, como os gregos diziam. Mas a festa foi mudando, foi se aperfeiçoando e acabou virada no teatro como o temos aqui e também em nosso mundo moderno. O primeiro grande avanço nesta evolução da simples festa dos bodes para o verdadeiro teatro foi promovido por um homem de nome Téspis, que teve a lembrança de introduzir na cerimônia um ator, isto é, um personagem que vinha “bater papo” com o coro dos cantadores. Teatro é diálogo, e para haver diálogo torna-se preciso que haja dois lados, um que fala e outro que responde. Antes de Téspis só havia cantos, porque o coro não podia dialogar consigo mesmo.

         – Mas podia monologar, disse a menina.

         – Sim, mas no monólogo não há ação, movimento – e teatro é isso: diálogo, ação, movimento. De modo que a grande coisa que é a arte teatral saiu dum ovo de Colombo; a ideia de Téspis de por um personagem a discutir com o coro.

         – Interessante! Tudo na vida é sempre um ovo de Colombo…

         – Depois da entrada em cena do primeiro ator, a coisa se tornou fácil. Como na América. Depois de Colombo descobrir a primeira ilha, todo o continente americano foi surgindo.

         – E quais os grandes homens do teatro grego?

         – O primeiro grande nome que aparece é o de Frínico, do qual só conhecemos o nome das tragédias, porque nenhuma escapou à destruição. Aparece depois Prátinas, cujas obras também se perderam; e por fim surge Ésquilo, um grande gênio. Escreveu 90 tragédias, das quais só 7 chegaram até nós – e ganhou 28 prêmios. Ésquilo ficou no teatro como o Senhor Péricles ficou na política: o número 1, o homem que ninguém discute. Mas um dia apareceu Sófocles e derrotou-o.

         – É então Sófocles maior que Ésquilo?

         – Não, minha filha. Sófocles venceu porque era menos terrível, mais humano – e o povo de Atenas já não suportava a atroz violência dos dramas de Ésquilo. Tão terríveis eram as suas tragédias, que sempre se davam desastres nas representações: crianças que morriam de susto, mulheres que desmaiavam.

         – Que horror…

         – Sófocles sucedeu a Ésquilo na glória. Estreou com a tragédia Triptólemo, que foi premiada apesar de concorrer com uma de Ésquilo. Sófocles produziu 113 peças, entre tragédias e dramas, das quais se salvaram apenas 7. Tudo mais foi devorado pelo monstro da Destruição. Veja, minha filha, quanto o mundo perdeu só no que diz respeito aos trabalhos de Esquilo e Sófocles! Das 203 obras-primas que os dois produziram, só se salvaram 14… Eu até sinto tonturas quando me lembro deste naufrágio da Grécia o pavoroso naufrágio que destruiu a maior parte das obras de gênios como Frínico, Esquilo, Sófocles, Fídias, Scopas, Miron, Policleto, Praxíteles, Zêuxis, Ictinos, e de tantos poetas, prosadores e filósofos.

         – E que idade tem Sófocles hoje?

         – Deve estar com 57 anos. É uma criatura privilegiada. Aos 16 anos foi escolhido como o mais belo rapagote da Grécia, para corifeu do coro das crianças que cantaram o peã em louvor à grande vitória de Salamina.

         – Que é corifeu e que é peã?

         – Corifeu é o chefe dum coro, o puxa-fila; e peã é um hino de alegria em agradecimento a Apolo, como temos hoje no futebol os hinos de vitória que terminam sempre com um estribilho – Ale guá e outros. O estribilho dos peãs era “Io péan!”

         A boa velhinha estava nesse ponto quando Aspásia apareceu no quarto.

         – Viva! – disse a esposa de Péricles. – Sófocles já veio.

         Dona Benta assanhou-se, arrumou as pregas de sua túnica grega, deu uma olhadela ao espelho de prata e foi receber Sófocles.

         A conversa da dona do Picapau Amarelo com o grande trágico ateniense foi dessas coisas que na vida moderna chamamos “do outro mundo”, e para reproduzi-la inteira teríamos de escrever um livro maior que este. Jamais houve duas criaturas que se entendessem melhor e mais se entusiasmassem uma com a outra. Conversaram sobre tudo, principalmente sobre o teatro grego e o moderno. Dona Benta contou-lhe o que era o teatro moderno, e discorreu sobre o cinema – último galho saído do “canto do bode.”

         – Sim – disse ela – porque foram os sátiros com os seus cantos que deram origem a tudo, e quando lá no mundo moderno eu vejo em cena o Wallace Beery ou o Lionel Barrimore, ou mesmo a encantadora Shirley Temple meu pensamento mergulha no passado e recorda os “bodes” gregos…

         – A evolução do teatro é contínua – disse Sófocles. – Hoje temos aqui Eurípides e Aristófanes, dois autores inimigos, mas ambos dotados de gênio. Um é a sátira, é o cômico; o outro é a inquietação, a dor, o desespero. Eurípides, que nos dá hoje o seu último drama, Alceste, pinta os homens como eles são; eu na minha obra pintei-os como deviam ser…

         Dona Benta “sentiu” um peso na alma de Sófocles; percebeu que ele já era passado – que o futuro estava com as inquietações de Eurípides.

         – Oh, Eurípides é quase um misantropo. Foge de qualquer convivência humana. Não conheço criatura mais arredia.

         Aspásia contou a Sófocles a visita ao “Beija-flor” e os assombros que vira por lá.

         – O mais prodigioso – disse ela – foi o que “eles” chamam fósforo. Quer ver? – E foi buscar a caixinha de fósforo trazida do iate. Riscou um.

– Fogo, hein? – disse ela com os olhos a faiscarem, numa alegria de criança. – Pela simples fricção destas cabecinhas escuras na lixa da caixa, irrompe a chama. Não é o prodígio dos prodígios?

         Sófocles ficou de olhos parados.

         – Pobre Prometeu! – murmurou, depois dum silêncio. – Tanto esforço, tanta dor para dar aos homens um elemento que no futuro iria dormir em caixinhas, totalmente escravizado aos homens…

         – Vovó, são horas! – veio dizer Narizinho.

         – Sim, são horas, confirmou Aspásia, olhando para a clepsidra do pátio. Vamos.

         Dona Benta correu a vestir-se à grega e lá foi com os outros. O teatro de Atenas era ao ar livre e dava para 27.500 pessoas, segundo a afirmação de Aspásia.

         – Vinte e sete mil e quinhentas? – admirou-se a menina.

         – E temo-los ainda maiores. O de Éfeso comporta 56.000 espectadores.

         Dona Benta ia explicando como eram os teatros modernos, com as suas representações noturnas.

         – A descoberta de vários processos de iluminação – disse ela – permitiu que o teatro passasse a ser um divertimento noturno, e sempre em recintos cobertos.

         – Aqui tudo é ao ar livre – observou Sófocles – é festa para o dia inteiro. Atenas toda se reúne no teatro nos dias de representação. O preço é convidativo: dois óbolos.

         Narizinho, já muito entendida em moeda grega, fez o cálculo mental. A moeda corrente era a dracma, que valia um franco moderno; e o óbolo valia 16 cêntimos. Uma entrada de teatro em Atenas, portanto, custava mais ou menos uns 20 centavos em moeda do Brasil.

         Chegaram. Compraram as entradas, que eram discos de osso em que vinha escrito o nome do lugar.

         Narizinho comprou duas entradas, uma para si, outra para o museu da Emília.

         O teatro de Atenas consistia numa arquibancada enorme, cavada numa encosta de morro, perto da Acrópole. No centro ficava o altar de Dioniso e a orquestra – e lá adiante o palco. A primeira fila era reservada às autoridades e visitantes ilustres. Aspásia levou as suas hóspedas para o melhor ponto, bem central.

         Antes do início da representação houve um desfile de tropas, e a imagem de Dioniso foi trazida do templo e colocada no altar.

         Oh, Dona Benta e Narizinho não se esqueceriam nunca daquele dia, ainda que vivessem mais que Matusalém. Que maravilhosa festa foi!   Os modernos nem em sonhos podem imaginar o que o teatro representava para os gregos – como eles sentiam as peças, como se comoviam, como se integravam no pensamento dos autores. Contínuos aplausos ou outras demonstrações, e nos lances dolorosos um silêncio cheio de emoção.

         O que Narizinho mais estranhou foi o uso de máscaras pelos atores, e duns coturnos altíssimos que os fazia gigantes. E ainda acolchoavam o corpo sob as vestes, para se aumentarem de volume.

         O drama de Eurípides causou a mais profunda emoção – e não era para menos. Perfeita obra-prima.

         O enredo era assim: O deus Apolo, certa vez em que andou exilado do Olimpo, empregou-se nos domínios, do Rei Admeto na qualidade de pastor, e em paga dos favores recebidos jurou defender esse rei contra tudo e contra todos.

         Logo depois, as Parcas resolveram que era tempo de riscar o Rei Admeto do rol dos vivos. Apolo intervém. Vai ter com as Parcas para conseguir a modificação do terrível decreto. “Sim, pouparemos a vida de Admeto, se alguém o substituir”, foi o mais que obteve. Admeto era esposo de Alceste, a mais suave e encantadora das princesas. Vendo que ninguém se oferecia para morrer em lugar do rei, Alceste se apresenta. Ela daria sua vida pela do esposo amado, já que os decretos das Parcas eram irrevogáveis. Chega o dia. Surge no palácio do Rei Admeto, a horrível Morte de coração de bronze, igualmente detestada pelos mortais e imortais. Apolo afasta-se quando ela entra.

         Alceste diz adeus ao sol, à terra, ao palácio, às gentes – e nada mais emocionante do que as palavras que Eurípedes põe na boca da suave rainha. “Adeus, filhinhos queridos!…” – murmura ela, por fim.

         Morre Alceste. Seu corpo está vazio de alma. As crianças choram no maior desespero – e o coro canta maravilhosos versos em louvor da infeliz rainha. Pelo anfiteatro imenso, trinta mil espectadores também choram…

         Outro ato. Um tremendo herói aparece a pedir hospitalidade. É Hércules, o homem bom, o matador dos monstros, justiçador dos tiranos. Está de passagem para o reino do feroz Diomedes, que ensinara os seus cavalos a comerem carne humana. Hércules é imenso. Tudo nele é grande, inclusive a sede e a fome. Não há o que lhe chegue. Certa vez assou ao espeto dois bois e comeu-os com tal fúria que muitas brasas lá se foram para o seu estômago. Senta-se à mesa de Admeto e come o que há. Devora. Bebe todo o vinho do palácio, ri um riso gigantesco, pula, salta, dança – e aquilo forma um horrível contraste com o luto da mansão, porque o corpo de Alceste ainda está para ser recolhido ao seio da terra.

         Todos disfarçam a tristeza. Procuram rir também, mas é riso sem alma, porque dentro de todos está a dor. Afinal, apesar de bêbedo, Hércules percebe qualquer coisa. “Que há?” Um servidor abre-lhe os olhos, conta-lhe toda a tragédia da suave rainha. O herói jura vingança. Sim, ele descerá ao Hades e lutará contra todos os deuses das trevas para arrancar de lá a sombra de Alceste (O inferno dos gregos nada tem que ver com o inferno dos cristãos. Era um lugar muito afastado e sem sol, rodeado de quatro rios, governado pelo deus Hades, casado com a deusa Perséfona, e guardado pelo Cérbero, o cão de três cabeças. Todas as almas dos mortos iam para lá, tanto as dos bons como as dos maus.). E Hércules vai e invade o Inferno, e luta, e vence todos os obstáculos, e volta para o palácio de Admeto conduzindo pela mão um vulto de mulher velada. Apresenta-a ao rei e pede-lhe que a guarde consigo até que ele regresse da expedição contra o dono dos cavalos antropófagos.

         Admeto recusa-se. Alega que jurara a Alceste nunca receber em sua casa mulher nenhuma. Hércules então levanta o véu da criatura. “Ó minha doce amada!” – exclama o rei, ao reconhecer o rosto pálido da esposa ressurgida. “És tu! Contra todas as esperanças, voltas a quem não contava rever-te nunca mais!”

         Narizinho chorou várias vezes durante a representação, e Aspásia também; só Dona Benta se manteve de olhos firmes, porque era uma filósofa. Ao terminar o espetáculo, disse a Sófocles, que se sentara ao seu lado:

         – Este drama me fez compreender muita coisa, e sobretudo o que para um povo inteligente significa uma “arte geral.”

         Sófocles não entendeu.

         – Sim, uma arte que interessa a todos da cidade, absolutamente a todos, desde gênios como Sófocles, Péricles, Aspásia e Sócrates, até modestos vendedores de figos, como aquele ali – e apontou para um vendedor de rua, que se sentara perto e que “sentira” o drama de Eurípedes tão bem quanto o próprio autor. Isto, meu senhor, é o que nos falta no mundo moderno, esta absoluta identidade entre o sentimento do povo e a arte. A arte lá é uma coisa para os eleitos, para as chamadas elites; aqui é para todos, sem a menor exceção – para ricos e pobres.

         – Sim – concordou Sófocles – os cidadãos pobres, que não dispõem dos dois óbolos da entrada,  recebem do theoricon o dinheiro necessário.

         – Que é o theoricon? – perguntou Narizinho.

         – Uma verba do tesouro público destinada a custear as festas, os sacrifícios, as embaixadas, a construção dos templos.

         Eram 12 horas (ou seis horas da tarde dos modernos) quando Dona Benta e a menina se retiraram. Ao pé da liteira despediram-se de Sófocles.

         – Nem queira saber, meu senhor – disse Dona Benta – o que este dia vai representar para mim. Ficará marcadinho em minha memória com um alfinete de ouro.

         – E o meu prazer de encontrar um espírito afim, apesar da separação de 23 séculos, constitui um tema a ser desenvolvido em arte. Não se espante, pois, minha senhora, se na lista das minhas peças o futuro achar uma com este título: O Encontro de Dois Séculos…

         Narizinho também ganhou o seu elogio:

         – Helenazinha do século XX, que Palas Atena te proteja! – disse-lhe Sófocles, fazendo-lhe uma festa na ponta do nariz…

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