Monteiro Lobato

A chave do Tamanho

Capítulos 7 e 8

 

7 – Juquinha conta a sua história

         Depois que o gato se foi embora, talvez em procura de mais insetos gostosos como aqueles, Emília pôs-se a refletir muito a sério. Podia sair da toca, mas já estava sem liberdade de ação. De um momento para outro o destino a transformara em mãe de dois órfãos. Juquinha não era nada; até lhe serviria de companheiro — menino taludo, de dois centímetros de altura.

         Já a Candoca não passava duma criança de três anos e meio, completamenta boba. Teria de andar pela mão de alguém. Que alguém?

         Juquinha ou ela, a “ama seca” Emília — que graça!

         — Nunca me casei de medo de ter filhos, e afinal me vejo tutora de dois marmanjos — um maior que eu, mas ainda sem juízo, e outro do meu tamanho, mas que só sabe chorar. A encrenca vai ser grande…

         Emília sempre teve fama de não possuir coração. Mentira. Tinha sim. Está claro que não era nenhum coração de banana como o de tanta gente. Era um coraçãozinho sério, que “pensava que nem uma cabeça”. Podendo deixar ali as duas crianças, já que a situação do mundo era a de um geral “salve-se quem puder”, não as deixou. Heroicamente resolveu salvá-las.

         — Bem. E agora? — pensou lá por dentro logo depois de passado o perigo. — Sozinha, eu ia me arrumando muito bem. Mas tudo mudou.

         As duas crianças me obrigam a estudar a defesa. Que defesa devo adotar?

         Evidentemente, o disfarce. Não me resta outro caminho senão essa forma de mentira. Tenho de disfarçar-me em bicho-folhagem ou qualquer coisa assim — e tenho também de disfarçar estas crianças.

         A ideia do bicho-folhagem foi sugerida pela lembrança de uma velha história de tia Nastácia. Para livrar-se da onça, o macaco besuntou-se de mel e rolou num monte de folhas secas, desse modo transformando-se em bicho-folhagem e enganando a onça. Emília tinha de inventar qualquer coisa assim.

         — Juquinha — disse ela voltando-se para ô menino — saiba que seus pais se mudaram para um país muito distante e deixaram vocês entregues aos meus cuidados.

         — Para onde foram?

         Emília demorou na resposta. Estava pensando. Isso de falar a verdade nem sempre dá certo. Muitas vezes a coisa boa é a mentira. “Se a mentira fizer menos mal do que a verdade, viva a mentira!” Era uma das ideias emilianas. “Os adultos não querem que as crianças mintam, e no entanto passam a vida mentindo de todas as maneiras — para o bem. Há a mentira para o bem, que é boa; e há a mentira para o mal, que é ruim. Logo, isso de mentira depende. Se é para o bem, viva a mentira! Se é para o mal, morra a mentira! E se a verdade é para o bem, viva a verdade! Mas se é para o mal, morra a verdade! Juquinha quer saber para onde os pais foram. Se eu disser a verdade, ele se desespera, chora, e fica uma ‘inutilidade de olho vermelho e ranho no nariz atrás de mim. Logo não devo contar a verdade.

         Poderei inventar uma mentirinha benéfica. Dizer, por exemplo, uma coisa que ele não compreenda bem, mas que o sossegue.” E respondeu:

         — Seus pais, Juquinha, foram obrigados a mudar-se para a Papolândia.

         — Onde é isso?

         — É uma terra em toda parte, onde só há papa-pospos. É a terra dos papa-pupu-dospos que voam, ou andam pelo chão miando como gato. E sabe o que é papapopo? — É uma espécie de colo. Antigamente as mães punham os filhinhos no colo; hoje os papapupudospos põem todo mundo no papapopo.

         — E é bom lugar esse papapopo?

         — Ótimo. Quentinho como cama. Quem adormece nesse colo gosta tanto que não acorda mais.

         A explicação deixou Juquinha na mesma, mas o sossegou. Sentia muito que seus pais fossem dormir um sono tão comprido numa terra tão esquisita; mas se era no quente, então bem. A expressão “quentinho como cama” agradou ao menino, que estava nu e com frio.

         — Não sei o que aconteceu com a nossa roupa, disse ele. — Eu estava com o meu capote vermelho, de boné na cabeça, pronto para sair com a tia Febrônia depois do almoço. De repente, tudo se sumiu diante de mim.

         Uma escuridão! Fiquei caído no meio de panos. Veio a falta de fôlego. Comecei a me debater e engatinhar para sair dali.

         — Dali de onde?

         — Daquela panaria escura.

         — Sair e ir para onde?

         — Não sei. Eu queria sair, sair — e fui saindo sempre engatinhando.

         — Por que sempre engatinhando?

         — Porque não podia ficar de pé. O pano não deixava.

         — E depois?

         — Fui indo, fui indo, até que rolei para um enorme buraco que já não era de pano. Parecia de couro. Escuro como a noite lá dentro. Felizmente vi uma luz. Era um buraquinho claro naquele buracão escuro. Encaminhei-me para lá e saí.

         — E que viu?

         — Vi este mundo de agora. Tudo tão grande que a gente nem reconhece as coisas. De repente, olhei; mamãe ia saindo de gatinhas de outro enorme monte de pano. E dum terceiro monte de pano, adiante, vi sair papai. Corri para eles. Estavam tão assustados que nem podiam falar. Mamãe afinal falou; papai nunca mais. Ficou totalmente mudo. Vovó, coitada, sumiu. A Zulmira também. Vi o chão forrado de pêlos enormes; andar por ali era o mesmo que andar por um capinzal cerrado. Pêlos vermelhos e azuis e pretos.

         Emília percebeu que Juquinha estava se referindo ao tapete da sala de jantar.

         — E Candoca? — perguntou.

         — A Candoca ia tomar banho naquele momento. A Zulmira já tinha tirado o vestidinho dela…

         Emília horrorizou-se. Se a pequena já estivesse no banho quando sobreveio a “redução” teria morrido afogada. E pensou nos milhões de criaturas que pelo mundo a fora deviam naquele momento estar no banho e fatalmente morreram afogadas.

         — Quem era a Zulmira?

         — A ama de Candoca.

         Um ponto da história do Juquinha Emília não compreendeu — o tal buracão escuro em que ele havia caído ao éscapar da montanha de pano.

         Mas desconfiou duma coisa.

         — Você estava calçado, Juquinha?

         — Estava, sim, com os meus sapatos amarelos. E ia sair com a Febrônia justamente para comprar uns sapatos novos. O do pé direito estava furado no dedão.

         Emília riu-se.

         — Compreendo agora, Juquinha. O tal buraco enorme em que você caiu foi o pé direito daqueles sapatos velhos, o buraquinho do buracão era o furo do dedão.

         O menino ficou pensativo, de rugas na testa. “Quem sabe se foi mesmo?”

         A Candoca principiou a choramingar de frio. Aquele cimento da escada não era bom berço. O choro da criança fez que Emília voltasse à ideia do bicho-folhagem. Tinha de descobrir qualquer coisa com que vestir-se e vestir os órfãos. Pano?… Impossível. Pano até que havia muito, por toda parte montanhas de pano; mas pano pede tesoura e agulha, e se acaso ela possuísse uma tesoura e uma agulha seriam proporcionais ao seu tamanho e tão pequenininhas que não cortaria nem coseria nenhum dos grossos panos existentes no mundo.

         Mas há uma coisa que pode substituir o pano: o algodão com que se fazem os panos. Se ela encontrasse um pouco de algodão, estariam resolvidos dois grandes problemas: o do vestuário e o da defesa.

         — É isso! Vou disfarçar-me em chumaço de algodão e fazer o mesmo às crianças. Chumacinhos de algodão valem pela melhor roupa e podem rolar à vontade pelo mundo, sem atrair a atenção de gatos, pintos ou passarinhos. Que bicho come algodão? Nenhum. Logo, o problema agora é descobrir um chumaço de algodão.

         E voltando-se para o Juquinha:

         — Lá dentro de sua casa não haverá algodão?

         — Algodão?

         — Sim, desse de botar em cova de dente ou no ouvido, quando há dor de ouvido.

         — Há, sim. Na estante dos remédios do quarto de mamãe há um pacote azul.

         — Ótimo. Fique sabendo que a grande coisa para nós três agora é irmos até lá e apanharmos um pouco desse algodão.

         — A senhora está com dor de ouvido? — perguntou o bobinho.

         Emília riu-se.

         — Não, meu amor. Estou com dor de papapopo e o remédio é algodão.

         — Que tanto papapopo a senhora fala? Emília riu-se de novo.

         — Juquinha, Juquinha. Papapopo era uma coisa que antigamente não preocupava a ninguém. Mas agora o papapopo é tudo. O grande perigo da humanidade nova, meu amor, é o Senhor Dom Papapopo. Saiba disso.

         O menino não entendia. Quis explicações. Ela tapeou.

         — O Senhor Dom Papapopo, Juquinha, deve ser filho daquele Papão que outrora assustava as crianças. O tal Papão, porém, era mentira. Nunca existiu. Começou a existir desde que alguém mexeu na Chave do Tamanho. Está entendendo? Desde esse instante o Papapopo, ou o Senhor Dom Papão — pois tudo é a mesma coisa — apareceu no mundo e anda por toda parte nos rondando. Felizmente eu não sou boba. Percebo as coisas muito bem. Penso em tudo e “adapto-me”, como diz o Visconde. Por isso estou certa de que o grande remédio contra o Papão é o Algodão. Juquinha amigo toca a procurar o Senhor Dom Algodão por causa do Senhor Dom Papão.

         Juquinha ficou na mesma e Candoca pôs-se a berrar.

         — Vamos! — disse Emília, dando a mão à manhosa e saindo da fresta.

 

8 – A travessia das salas

         Para chegar à varanda tinham de subir o último degrau da escada. Por onde? Pelo único caminho existente, o pau da vassoura. Como? Muito bem. Juquinha a ergueria nos ombros e a poria lá. Depois, lá de cima, ela ajudaria Juquinha a subir, dando-lhe a mão. “Não! Isso não serve. Posso escorregar e cair. O melhor é eu ir sozinha engatinhando pelo pau até a varanda, e ver se lá existe alguma corda. Se houver corda, Juquinha subirá por ela — e em seguida a Candoca. Está certo.

         Depois de bem planejada a subida, explicou tudo ao menino e deram começo à realização da ideia. Juquinha, menino forte, ergueu-a facilmente ao ombro e empurrou-a para cima do cabo da vassoura.

         — Muito bem — disse Emília lá do alto. — Agora eu subo até a varanda em procura de corda, e você me espera aí com a Candoca — e pôs-se a engatinhar pelo cabo da vassoura acima. Chegando ao nível da varanda, pulou.

         Encontrou lá um montinho de lixo da manhã. Emília compreendeu que a criada estava no meio da varreção quando ficou reduzida — e a vassoura escorregou pela escada. Nesses ciscos de casa de família, “corda” é coisa que não falta nunca. Emília encontrou vários pedaços de fios de linha, bons para o fim desejado. Arrastou um deles até à quina do degrau e gritou para o menino lá em baixo:

         — Achei uma corda ótima. Vou jogar a ponta. Faça uma laçada e passe-a pela cintura da Candoca. Depois suba pela corda acima como os marinheiros sobem pelo cordame dos navios. Mas antes de jogar a corda tenho de amarrar a outra ponta em alguma coisa aqui. Espere.

         Emília olhou em torno. Onde amarrar a ponta da “corda”? O chão da varanda era de ladrilhos, sem felpa nenhuma ou prego. Emília foi examinar a soleira da porta, que era de madeira. Descobriu uma excelente lasquinha, ajeitadíssima para o caso, mas inútil, porque ficava a três centímetros de altura. Inútil? Com um pau ela poderia enfiar lá uma laçada feita na ponta da “corda”. Só restava achar o pau.

         Emília voltou para o montinho de cisco. Que riqueza de materiais! Havia tudo ali. “Cordinhas”, paus, pedras, fiapos de pano e rolos de “penugem de cisco”.

         O pau encontrado foi uma palhinha da vassoura. Emília enfiou a laçada num gancho da palhinha e ergueu-a até à lasca.

         — Ótimo! A laçada cerrou e não escapa.

         Depois jogou a ponta da “corda” pelo degrau abaixo.

         — Pronto, Juquinha. Deixe a Candoca amarrada e suba. Aqui de cima nós dois suspenderemos essa manhosa.

         E assim foi feito. O menino subiu com a maior facilidade, porque era mestre em trepar em árvores. Em seguida os dois juntos suspenderam a Candoca. Aí é que ela chorou de verdade, aos berros, como se fosse o fim do mundo. “É natural”, pensou Emília fazendo a conta. “Este degrau tem 15 vezes a alturinha dela; corresponde, pois, a uma altura de 27 metros para o Coronel Teodorico. Até ele, um homenzarrão, era capaz de chorar se alguém o suspendesse 27 metros na ponta de uma corda.”

         Muito bem. Lá estavam os três na varanda, Tinham agora de entrar na casa, o que foi fácil, porque a soleira da porta era apenas de 5 centímetros de altura e havia aquele precioso cisco para ajudá-los. Emília e o menino tomaram duas palhinhas de vassoura de igual comprimento, quebraram outra mais fina em pedaços iguais e amarraram esses pedaços nas duas palhinhas — e lá subiram pela escada feita. A Candoca resistiu. Não queria subir. Estava com medo e a chorar que nem um bezerro. O remédio foi repetirem a operação anterior. Passaram-lhe a corda sob os braços e suspenderam-na à força.

         Lá dentro da casa Emília admirou a imensidão de tudo. No assoalho viu um tapete verde-cana com ramagens cor-de-rosa. Tinha meio centímetro de espessura — metade da altura dela!

         — Este tapete está me parecendo um pasto de capim-catingueiro florescido que os bois ainda não amassaram.

         Como fosse impossível atravessar a sala por cima do tapete, tiveram de dar volta junto ao rodapé. Em certo ponto viram um enorme balde vermelho: o dedal de celulóide da Zulmira, caído por ali.

         — Ótimo! — exclamou Emília. — Vamos deixar a Candoca guardadinha neste “balde”, enquanto procuramos o algodão. Esta manhosa só serve para nos atrapalhar.

         A Candoca foi sentada à força dentro do dedal e lá ficou chorando, enquanto Emília e Juquinha continuavam a viagem pela beira do rodapé.

         Em certo ponto encontraram uma pulga dormindo. Que tamanho! Era como um leitão para um homem comum. Juquinha pregou-lhe um pontapé. A pulga arregalou os olhos, assustada, e deu um pulo gigantesco. Logo adiante viram uma traça, dessas que parecem semente de abóbora e caminham com a cabecinha de fora, arrastando a “casa”. Pararam para ver bem.

         — Estes bichinhos aprenderam o sistema, com os caramujos — disse Emília. — Com eles não há isso de “ir para casa” porque a casa anda com eles.

         Notou que a casa da traça era feita de pedacinhos de lã, cortados do tapete e ligados entre si dum modo especial. Emília quis fazer uma experiência.

         — Será que se eu trepar em cima ela continua andando? — e trepou.

         A traça, porém, encolheu a cabeça, como faz a tartaruga, e ficou imóvel. Emília desceu.

         — Não presta. Isto não dá cavalo.

         E contou ao Juquinha as suas proezas com o mede-palmo, com o caramujo, com o besouro de pintas amarelas e a mutuca.

         O menino ficou radiante à ideia de montar num besouro.

         — Muito melhor que os cavalos — disse ele — porque os besouros voam.

         — Antigamente os cavalos também voavam, disse Emília.

         — Quando? Nunca ouvi falar nisso.

         — Na Grécia houve um tal Pégaso que voava maravilhosamente. O Walt Disney pintou o retrato dele, da Pégasa e dos Pegasosinhos, naquela fita Fantasia. Não viu?

         — Eu bem quis ver, mas papai não deixou. Disse que era muito caro.

         — “Pão duro!” Por isso mesmo está “empapado”.

         — Quê?

         — Está dormindo na Papolândia — atrapalhou Emília. — Mas depois da Grécia os cavalos perderam as asas, como as içás quando enjoam de voar e descem. Já agora podemos ter quantos Pégasos quisermos. Podemos montar em besouros, em borboletas, e até em libelinhas. Imaginem que gosto, voarmos montados na velocidade incrível das libelinhas!

         E assim, na prosa, chegaram ao quarto de Dona Nonoca. Lá estava a estante dos remédios, imensa, com caixas de pílulas e vidros. Também lá estava o pacote azul do algodão com um chumaço aparecendo. Mas muito alto — na segunda prateleira.

         — O algodão está encimíssimo — observou Emília. — Está como papagaio de papel enganchado no fio telefônico. Como derrubar aquilo?

         O jeito era esse: derrubar. Pacotes de algodão pesam pouco. Se conseguissem alcançá-lo com uma vara… Mas que é da vara?

         Emília espiou entre a estante e a parede.

         — Achei! Achei! Há aqui um vão escuro, cheio de velhas teias de aranha pelas quais podemos subir.

         — E a aranha? — perguntou o menino.

         — Não vejo nenhuma. É teia velha, e estes fios agüentam perfeitamente o meu peso — disse Emília experimentando. — Não há como não ter peso nem tamanho. Tudo vira fácil — e foi subindo.

         Juquinha de nariz para o ar, acompanhava a manobra.

         — A estante tem forro — disse ele. — Quero ver como a senhora passa.

         — O forro é de pinho — respondeu Emília. — As tábuas de pinho às vezes têm nós que caem e deixam um buraco. Estou rezando para que este forro seja de tábua de pinho com buraco de nó. Se não houver passagem, paciência. Descerei e procurarei outro meio.

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