A Chave do Tamanho
Capítulos 11 e 12
11 – No ninho do beija-flor
O passeio de Emília pelos ares foi curto, porque todas as distâncias ficam curtas para a rapidez dos beija-flores. Aquele estava justamente acabando de construir o seu ninho num buraco da estrada, à beira da vila.
Chegou lá, soltou o algodão e ajeitou-o com o bico em certo ponto do ninho.
Depois afastou-se. Ia com certeza buscar os outros chumaços. Emília botou a cabecinha de fora e espiou. Um ninho enorme de diâmetro igual a cinco vezes a sua altura. Ovo não havia nenhum. Só paina de todos os lados. Emília estava a pensar no que fazer quando ouviu um barulho. Era o imenso beija-flor que voltava com outro chumaço no bico — o Juquinha. Na terceira viagem trouxe a Candoca. Emllia admirou-se de vê-la calada, mas aquele silêncio vinha dum aviso do Juquinha. “Se você continua a chorar, estes monstros descobrem o nosso mimetismo e adeus, Candoca!”
Ela compreendera e calara-se.
O lindo colibri arrumou do melhor jeito os dois algodões e acomodou-se no ninho. Era tarde já, hora das aves se recolherem. Emília ficou quietinha pensando. Não lhe passou pela cabeça falar com os companheiros. Muito distantes dela, além de que o beija flor podia perceber. Tratou de acomodar-se como melhor pôde e dormir. E dormiu a mais agradável noite de sua vida. Que deliciosa quenturinha!
Teve um sonho. Estava no sítio, escondida com tia Nastácia no canudo de bambu. Nisto Dona Benta apareceu montada numa taturana. “Que é que procura, Dona Benta?” “O meu tamanho”, foi a resposta. “Um ladrão entrou aqui na casa e me roubou o tamanho” E o sonho ia por aí além.
Quando Emília abriu os olhos, já era madrugada. O primeiro canto de passarinho que ouviu foi o duma corruíra. “Parece um colar de bolinhas borbulhalhas”, pensou ela consigo. O segundo canto foi o dum casal de joão-de-barro, gritadíssimo, como “briga de dois ecos”. Depois, o dum sabiá; “parecia um pingão d’água sonora caindo dentro duma cuia”. Depois, o dos canários, tico-ticos, saíras, pintassilgos, anus, bem-te-vis etc. — uma verdadeira orquestra sem maestro, em que cada músico toca o seu instrumento sem se importar com o vizinho.
Por fim o sol começou a iluminar o mundo; o beija-flor ergueu-se do ninho, abriu o bico num bocejo e voou. Ia cuidar do almoço.
Emília mexeu-se, em procura dos companheiros. Esbarrou logo adiante com um ovo que lhe dava pela cintura — o primeiro ovinho botado pelo beija-flor. Do outro lado do ovo deu com o Juquinha já de pé. Só a Candoca ainda dormia.
— Que tal a noite? — perguntou ao menino.
— Ótima! dormi como nunca — e a Candoca também, porque não ouvi choro nenhum. E o beija-flor?
— Saiu com certeza para o almoço.
— E vamos ficar aqui toda a vida?
— Não. Vamos almoçar também e depois descer.
— Almoçar aqui? Não veja nada…
— E o ovo?
— Mas como poderemos quebrar tamanho ovo?
Emília não abandonava nunca a sua lança de espinho. Tirou, a de dentro do chumaço e disse:
— Tenho cá este ótimo abridor de ovo.
E a festa começou. Os dois agarraram na lança e puseram-se a fazer movimentos de mão de pilão, batendo com a ponta sempre no mesmo lugar.
Era dura a casca, mas cedeu. De repente a lança afundou, deixando que saísse uma gotinha de clara.
— Bom — disse Emília. — Agora eu enfio a lança lá no fundo para varar a gema — e depois lamberemos a gemada que vier.
E assim fez. O primeiro mergulho da lança trouxe gemada suficiente para o estômago de duas Emílias. Juquinha não se contentou com uma fisgada. Exigiu três. Comiam com a mão. Passavam a mão sobre a ponta da lança amarela de gema e levavam aquilo à boca.
Depois acordaram a Candoca e deram-lhe uma fisgada. A menina lambuzou-se toda.
— Está com cara de quem comeu manga — disse Emília rindo-se, enquanto limpava a lança e guardava-a dentro do chumaço.
Veio-lhe uma ideia ótima.
— E se molhássemos de clara as nossas botas de algodão?
— Para quê?
— Bobinho. A clara é al-bu-mi-na. Repita! Seca num instante e une as fibras. Ficaremos assim com verdadeiras botas, da forma exata dos nossos pés.
E deu o exemplo. Ensopou de clara o algodão enrolado nos pés e espichou-os para um raio de sol a fim de que secassem. Juquinha gostou da ideia e fez o mesmo — e depois, à força, também “albuminou” os pés da Candoca.
— E agora? — disse ele depois que viu as botinhas secas e ainda melhores do que se fossem de couro.
— Agora, um voo de pára-quedas! Temos de nos jogar deste ninho abaixo. Assim, dentro do algodão, não há perigo de machucadura.
Treparam à beirada do ninho e olharam. Aquilo ali era um imenso barranco de cinco metros, rasgado na terra vermelha. Lá embaixo ficava uma larguíssima faixa da mesma cor — a estrada. Emília pensou e resolveu.
— Vamos primeiro jogar a Candoca. Depois nos atiraremos.
Assim fizeram. A menina berrou como nunca, quando eles a agarraram e a empurraram para o abismo — e lá se foi rolando. Infelizmente não chegou até à estrada. Ficou presa a um capim do barranco. Emília e Juquinha tiveram mais sorte; caíram sobre um “areal preto”. Os enxurros da chuva costumam deixar à beira das estradas essas pequeninas praias de areia preta. Aquela ali teria uns dois palmos de extensão, mas para a Emília pareceu bem grande. Experimentou andar com as botinhas albuminadas.
— Ótimo! Agora já não tenho medo de chão nenhum. Nunca me hei de esquecer do que os meus pés padeceram no pedregulho daquele jardim — e deu uma corridinha sobre a Praia Preta.
— E a Candoca? — lembrou Juquinha. Olharam para o alto. Lá estava o chumaço da Candoca, preso ao capim do barranco.
— O remédio é esperar que o vento sopre e ela caia — resolveu Emília.
— E se subíssemos até lá?
— Poderíamos subir mas não assim de ‘roupa” — e se tirarmos a roupa voltaremos a correr perigo. Há muitas aranhas nesses “buracos de raízes”.
Naquele ponto da estrada ainda não batera o sol, de modo que havia orvalho. Emília e Juquinha beberam os “diamantes líquidos” duma peluda folha de capim.
— E agora? — disse Emília para si mesma. — Que fazer? Não tenho serviço nenhum. Não tenho obrigações. Não tenho casa, nem esposo. Minha vida vai ser sempre esta. Ir andando pelo mundo, cautelosa na defesa e a cuidar do estômago. O problema da comida é fácil para quem se contenta com pouco. Ontem alimentei-me de mel. Hoje de gema. Por isso é que há tantos bichinhos no mundo — facilidade de alimentação. Qualquer isca lhes basta; o simples mel de duas ou três flores enche o papo duma vespa. E nem tenho medo do vento. Que o vento venha e me leve! Tanto me faz estar aqui como ali. Esta nossa invenção do pára-quedas vai ser a salvação da nova humanidade pequenina. Mas… e se vier chuva?
Emília pensou em chuva porque o céu estava escurecendo. Um ronco de trovoada ecoou longe. Pôs-se a refletir. “Se a chuva molha meu algodão, adeus pára-quedas e adeus defesa! Fico reduzida a um pinto pelado que caiu no melado. Logo, tenho de defender-me das chuvas. Como? Escondendo-me em lugares onde a chuva não caia. Que lugares são? Isso depende do ponto em que eu estiver. Nas cidades há as casas — mas em campo aberto, como aqui?…”
Olhou em redor. A estrada corria pela encosta dum morro, com o barranco vermelho dum lado e uma grota do outro, no fundo da qual deslizava um ribeirão entre pedras. Emília viu no barranco muitos buracos de raízes, e pensou: “Foi bom que o Visconde me explicasse a origem desses buracos. Muita gente pensa que são buracos de cobra ou outros bichos, mas não são. São “buracos de raízes”. Quando os homens abrem as estradas, os enxadões dos cavoucadores cortam muitas raízes dentro da terra. Essas raízes cortadas vão apodrecendo e afinal se desfazem em pó de madeira podre, deixando na terra o molde vazio. Os buracos que estou vendo são, portanto, buracos de raiz, e não buracos de bichos. O perigo é o buraco de bicho, porque todos têm dono. Que donos? Os bichos que abriram esses buracos. Mas buraco de raiz não tem dono, porque a dona deles era a raiz e a raiz apodreceu e foi-se embora reduzida a pó de pau podre. Logo, apesar de redondo é também um buraco “acontecido” como os vãos de tijolo ou de cacos de telha.
— Juquinha — disse ela — a chuva vem mesmo. E quando a chuva vier, esta praia virará um Amazonas que nos levará na correnteza.
— Que bom! — exclamou o bobinho. — Podemos pescar pirarucu.
Emília teve dó. Que falta de juízo! Pescar!… Um algodão pescando!…
E disse que os pescados seriam eles.
— As chuvas formam ribeirões nas estradas, esses ribeirões correm para os rios, os rios correm para o mar, o mar corre para as nuvens — e as nuvens “correm de novo por aqui”
Juquinha deu uma risada de ignorante.
— Rio correndo para o mar eu entendo, mas mar correndo para as nuvens nunca vi.
— São modos de falar, Juquinha. Se você lesse o poeta Castro Alves, compreenderia. Realmente, o mar não corre para as nuvens; mas a água do mar evapora-se e sobe ao céu, onde forma as nuvens, e depois essas nuvens viram chuva e a água da chuva corre de novo pelas estradas. Entendeu?
Nesse momento um trovão trovejou e logo em seguida sobreveio um forte pé-de-vento. Emília mal teve tempo de abraçar-se a uma folha de capim; Juquinha lerdeou — e foi arrastado para longe. Emília ergueu os olhos para o barranco. O algodão da Candoca tinha se soltado do gancho e lá ia pelos ares, que nem paina! “Aposto que está chorando e chamando a mamãe…”
Emília examinou o barranco. A certa altura viu um buraco de raiz muito jeitoso. Era fácil subir até lá, mesmo com o algodão. Esqueceu o Juquinha, esqueceu a Candoca e tratou de subir, porque o momento era dos tais do “salve-se quem puder”.
A chuva vinha vindo. O verde do morro lá adiante embaciou-se como os vidros da janela que Pedrinho bafejava para depois escrever com o dedo.
Vinha vindo chuva de verdade’ Emília subiu, agarrando-se no que pôde. O buraco de raiz tinha quatro vezes a sua altura. Entrou. Que azar! Era um buraco já ocupado por alguém: uma enormíssima e peludíssima aranha caranguejeira! O coraçãozinho de Emília bateu. Ficou como o Garimpeiro do Rio das Garças quando se viu entre a Onça e o Jacaré.
Mas pensou depressa. “Entre a aranha e a chuva, antes a aranha. Chuva é mil vezes pior, porque chuva não tem remédio e com aranha muita coisa pode acontecer. Ela pode não desconfiar do meu algodão. Pode estar dormindo. Pode até ter dó de mim. As aranhas são ‘enganáveis’ — mas quem engana chuva? E Emília ficou imóvel de cabeça enterrada no algodão, espiando por entre as fibras. Como fosse um buraco muito escuro, ela mal percebia o vulto da aranha. Só depois que seus olhos se acostumaram as trevas é que pôde distinguir o ferrão vermelho.
A aranha não fazia o menor movimento. Estava como a Cuca do Saci, parada — vivendo. Esses bichos gostam de viver, de ficar vivendo, só, sem mais nada. Não era das de teia. Era aranha de toca.
A chuva chegou — chuáááá… Tudo escureceu. Emília já não enxergava o vermelho do ferrão. Só via negrores. Sua cabeça ficava a um terço da altura da aranha e num movimento que ela fez para ajeitar-se melhor, tocou num pêlo daquelas pernas. Emília lembrou-se do caso de Dona Benta, quando se sentou no dedo do Pássaro Roca pensando que era raiz de árvore. O pêlo da aranha parecia um espinho de cacto.
A chuva lá fora era um chuáááá sem fim.
Aquele barulho de chuva, sempre o mesmo, começou a dar-lhe sono. Seus olhinhos se fecharam — e Emília viu-se outra vez no Sítio do Picapau Amarelo. Estavam todos na varanda, do mesmo tamanho antigo, a comer pipocas. De repente, a cara do Manchinha apareceu na escada. “Parece o gato Félix, vovó” — disse Narizinho — mas logo arregalou os olhos, como louca, porque o gato foi crescendo, crescendo, até ficar maior do que a casa.
E daí por diante o sono de Emília virou pesadelo.
Quando acordou, o aguaceiro já havia passado. Uma nesga de azul apareceu no céu e logo veio o sol. O ferrão vermelho da aranha estava agora bem visível. Vermelho de tomate. A aranha fez um movimento para sair.
Emília encolheu-se toda quietinha. A aranha moveu uma perna, depois outra, e foi saindo. Na entrada do buraco parou e esteve muito tempo quentando sol. “Será que vai ficar ali toda a vida?” Não, não ficou. Depois de aquecer-se ao sol, saiu, subiu pelo barranco. Ia caçar no mato, lá em cima.
12 – O gigante de cartola
Emília foi para a entrada do buraco. A estrada vermelha parecia mover-se, de tantas águas que escorriam. Todos os galhos pingavam. O mundo parecia polvilhado de mica em pó — de tantos brilhos.
— Onde andarão o Juquinha e a Candoca? — pensou ela. — Mortíssimos, com certeza, afogadíssimos. Bobos como são, de que modo poderiam resistir a uma chuva destas?
Foi descendo pela terra úmida. Felizmente, nos barrancos a água corre depressa, não empoça. Ao chegar perto da prainha preta não viu praia nenhuma. Estava coberta de água vermelha.
Emília sentou-se, resignada. “Tenho de esperar pelo que der e vier, como diz tia Nastácia.”
Ficou vendo as últimas águas vermelhas seguirem seus caminhos de descida. No começo aquelas águas haviam sido verdadeiros Amazonas; depois foram se tornando rios comuns; depois viraram ribeirões; e agora estavam reduzidos ,a agüinhas. Acabaram-se as correntezas. Só ficaram poças e lagos. A areia preta da praia começou a aparecer. Emília desceu o resto do barranco e pisou naquela areia tão linda. Muito úmida. Suas botinhas eram capazes de derreter. Emília não se importou. “Querem derreter? Pois derretam. Depois terão o trabalho de secar de novo.”
Uma coisa surgiu lá longe. Uma coisa móvel, que vinha andando. Emília firmou a vista. Um enormíssimo espeque de cartola.
— Será o Benedito?
Era sim. Era o Visconde de Sabugosa! Era o Visconde que vinha vindo — mas que Viscondão, meu Deus! O maior visconde do mundo! Um gigante gigantesco.
Emília abriu a boca, num assombro.
— É isso mesmo! — murmurou consigo. Ele não diminuiu porque “vegetal falante” não é gente. Que bom! Grande assim, o Visconde vai ser a minha salvação.
O Visconde media exatamente 44 centímetros de altura, contando com a cartola nova, que era de copa alta como a do Presidente Lincoln.
Quarenta e quatro vezes maior que a Emília — um verdadeiro arranha-céu de cartola.
A alegria de Emília foi imensa. Bateu palmas. Pulou. Dançou. E quando ele se aproximou da Praia Preta deu um berro:
— Visconde, sou eu! A Emília!… Mas o Visconde continuou a andar, como se não tivesse ouvido. “Será que ficou surdo ou a minha voz não chega até à imensa altura daquelas orelhas?”
Devia ser isso e, na maior aflição, Emília ficou sem saber o que fazer. Não achava meio de atrair a atenção do Visconde. “Berrar não adianta. O remédio é acompanhá-lo, até ver.” E pôs-se a seguir o Visconde.
Mas o Visconde dava passos de 10 centímetros de comprimento e os passos da Emília eram de 3 milímetros, de modo que não havia maior asneira do que tentar segui-lo. Naquele desespero, porém, Emília não fez caso da asneira e “fincou o pé” na lama, atrás do Visconde. Quantas dificuldades, meu Deus! Havia as grandes lagoas que tinha de rodear — as pocinhas de água barrenta formadas nas impressões das ferraduras dos cavalos. E havia os morros e montanhas a trepar — as irregularidades do tijuco da estrada. E agora era um grande tronco de árvore ou uma grande pedra — os pedacinhos de pau ou os pedregulhos que há em todas as estradas. Esses tremendos obstáculos retardavam-lhe horrivelmente a marcha, além de que suas botinhas molhadas começaram a esfiapar.
Diversas vezes parou para amarrar as pontas das fibras do algodão. E o Visconde cada vez mais longe, com aquelas passadas gigantescas! “Parece que calçou as botas de sete-léguas do Pequeno Polegar!”
Felizmente o Visconde era um sábio, e os sábios não sabem andar na toada firme e contínua dos ignorantes. O Visconde andava um pouco e parava para observar qualquer coisa. Aqui, um coleóptero novo que ele via pela primeira vez — e ficava de cócoras examinando o bichinho e tomando notas em seu caderno. Depois, uma pedrinha qualquer — ou um “mineral”, como ele dizia. Ou era um “efeito de ótica” numa teia de aranha. E cada vez que parava, Emília o alcançava. Mas assim que ela o alcançava, ele punha-se de novo a andar, até que nova “curiosidade da natureza” o detivesse.
Parecia esses curiangos que ao anoitecer vão voando e pousando nas estradas à frente dos viajantes.
Em certo ponto, uma biquinha nas pedras do barranco o deteve. O Visconde parou naquele ponto para examinar um reflexo na água. Depois sentou-se. Depois com a cabeça apoiada numa das mãos e os olhos fixos no reflexo. “É hora!” — disse Emília, apressando o passo. “Naquela posição o seu ouvido esquerdo fica ao alcance da minha voz. Resta que eu chegue antes que ele se erga de novo.”
Emília caminhou firme, aproveitando as prainhas de areia para correr — e afinal alcançou. Estava, porém, tão cansada que nos primeiros momentos a voz não lhe saiu. Deteve-se diante do cotovelo do Visconde, a arquejar, sem fôlego.
O enorme sábio não a percebeu. Estava distraído na contemplação do reflexo.
Depois de bem descansada, Emília encheu de ar os pulmões e berrou com a maior força possível:
— Visconde! Sou eu, a Emília! Estou aqui embaixo, perto do seu cotovelo.
O sábio acordou da contemplação científica. Pendeu a cabeça. Tinha ouvido um som de fala; mas como o seu pensamento estivesse ocupado com outra coisa, não percebeu o que a fala tinha dito. Emília berrou de novo, com mais força ainda.
— Visconde! Sou eu mesma — a Emília!
O gigante franziu as sobrancelhas.
— Emília? Onde?…
— Aqui embaixo, perto do seu cotovelo.
O Visconde desceu os olhos para o cotovelo, com o rosto iluminado pela curiosidade.
— Estou ouvindo uma voz mas não vejo nada. Perto do meu cotovelo só há um chumacinho de algodão.
— Pois esse algodão sou eu — estou dentro. É a minha defesa. Pegue-me e levante-me.
O Visconde ergueu o algodão — e com algum esforço distinguiu no chumaço uma cabecinha do tamanho duma cabeça de saúva e dois pezinhos embaixo, do tamanho de cabeças de alfinetes.
