Monteiro Lobato

A Chave do Tamanho

Capítulos 15 e 16

 

15 – O Coronel Teodorico

         Depois de caminhar por uma hora pela estrada deserta de passantes, o Visconde avistou a fazenda do Coronel Teodorico. Bois e burros andavam soltos pelas roças, comendo à farta. Não havia ninguém para espantá-los.

         — Quero portar uns minutos naquela casa, Visconde! — berrou Emília lá da sua janelinha.

         O Visconde, que estava remoendo uma ideia, não ouviu. Emília recorreu à “campainha”. Com um forte puxão na corda, fez que a dor da barba acordasse o distraído gigante.

         — Que há lá em cima? — perguntou ele.

         Emília repetiu a ordem de portar no imensíssimo casarão branco que dali avistavam e Juquinha não queria crer que fosse uma simples casa velha de fazenda. Apesar de transformado no maior gigante do mundo, o Visconde, pela força do hábito, obedecia à Emília do mesmo modo que antigamente. E ela agora se tornara o seu verdadeiro cérebro, a manobradora da sua vontade. Parecia incrível que aquele piolhinho de gente, lá dentro da cartola, o conduzia para onde queria.

         Ao entrarem no terreiro da fazenda ouviram mugidos tristes de vaca faminta. O Visconde encaminhou-se para o estábulo. A vaca de leite do Coronel, irmã da Mocha de Dona Benta, estava presa na baia, sem capim nenhum no cocho. Perto, o seu bezerrinho chorava de fome.

         — Pobre animal! — murmurou o Visconde. — Ficou preso e morrerá de fome se eu o não acudir. Quantos viventes pelo mundo inteiro não se acham na mesma situação!

         Abriu a tranca da baia e escondeu-se, para não ser devorado de passagem pela irmã da Mocha que lá se foi muito lampeira. Ele era o maior gigante que jamais houve entre os homens, era a única esperança de salvação da humanidade — mas também era sabugo e as vacas “adoram” os sabugos de milho. Depois soltou o bezerrinho. Emília fez considerações sobre a antiga maldade dos homens que prendiam os bezerrinhos para roubar o leite de suas mães vacas. “Quero ver se agora continuam a fazer tamanha judiação.”

         A casa do Coronel estava com as portas escancaradas. Fora invadida por meia dúzia de leitões, que se regalavam na cozinha e na despensa. Por precaução o Visconde trepou a uma cadeira e desta subiu à mesa da sala de jantar ainda com os pratos do almoço da véspera. Olhou em torno.

         — Não escuto cheiro de nada — disse ele. — Parece que os leitões devoraram todos os moradores.

         Mas nesse instante uma vozinha lhe chamou a atenção.

         — Estou aqui, estou aqui!

         — Aqui onde?

         — Aqui nesta horrível caverna.

         Olhando na direção do som, o Visconde pôde ver, numa frincha do carunchado rodapé da sala, uma espécie de caroço de ervilha. Era a cabeça do Coronel Teodorico, dono da Fazenda do Barro Branco.

         — Estou escondido aqui — continuou a vozinha — por causa dos hipopótamos que invadiram a casa depois que tudo ficou enorme. Eles já devoraram a Quinota e a tia Ambrosia. Escapei porque me escondi a tempo nesta caverna que até ontem nunca existiu. Pela cartola e as barbas de palha de milho estou reconhecendo o viscondinho lá do sítio de Dona Benta, mas enormemente grande, como tudo mais. Não entendo coisa nenhuma. O mundo cresceu dum modo incrível. Será que estou sonhando?

         O Visconde examinou a situação. Para salvar o Coronel, teria de descer da mesa, coisa perigosa numa casa invadida de leitões. Que fazer? O Visconde não era criatura de grandes expedientes. Atrapalhava-se com pouco. Felizmente tinha Emília na cabeça.

         — Visconde — gritou ela — estou vendo uma corda sobre a mesa. Lance-a ao Coronel.

         O Visconde olhou e viu sobre a mesa um comprido barbante. Para jogá-lo até à “caverna”, teria de atar um peso na ponta. Que peso?

         — Essa colherona aí — lembrou Emília.

         Era uma colherzinha de café das menores. O Visconde atou-a à ponta do barbante e jogou-a.

         — Agarre-se nisso, Coronel!

         O Coronel, com muito medo e a olhar para todos os lados, saiu da caverna e agarrou-se à colherinha. O Visconde foi puxando o barbante.

         — Uf… exclamou o Coronel ao ver-se em cima da mesa e livre dos leitões. O Visconde colocou-o sentadinho na palma da mão.

         — Como tenho padecido! — suspirou o pobre inseto descascado. — Durante todo o tempo, lá naquela horrível caverna, um monstro com forma de barata esteve me cutucando com as pontas de duas varas de bambus — e fui obrigado a suportar tudo, de medo de ser comido pelos hipopótamos.

         Uma risadinha soou na cartola do Visconde. O Coronel ergueu os olhos, espantado.

         — Não eram varas de bambu, bobo! — gritou Emília da janela. — Eram antenas. E o monstro não tinha “forma de barata”, porque era uma barata em pessoa.

         — Quem está falando? — perguntou o Coronel. — Essa voz não me é desconhecida.

         — Claro que não é — respondeu Emília, saindo da cartola e vindo debruçar-se na cerca da aba. — Sou a Emília lá do sítio de sua comadre Dona Benta.

         O Coronel ficou assombrado.

         — Estou a reconhecê-la, sim. E a comadre como vai? As coisas por lá também cresceram?

         — Tudo está no mesmo; as pessoas é que diminuíram.

         Para facilitar a conversa, o Visconde tirou a cartola e depositou-a na mesa, onde também largou o Coronel.

         — Moro aqui agora — explicou Emília. — Este é o meu sítio. Não o faço entrar porque um homenzarrão como o senhor não passa pela nossa porta.

         — Quem são esses meninos aí na janela?

         Emília mandou que os meninos se recolhessem. Não podiam ouvir a conversa.

         — São dois órfãos que estou criando, filhos do falecido Major

Apolinário — explicou em seguida, baixando a voz.

         — Falecido? Pois então o Apolinário morreu? — murmurou o Coronel, empalidecendo.

         — Era tão amigo dele assim?

         O Coronel engasgou na resposta. Depois disse.

         — Amigo, propriamente, não, porque o Apolinário era perrepista e eu sempre fui democrático. Mas aquele homem devia 15 contos à minha sogra.

         Se morreu e só deixou esses órfãos, quem paga essa dívida?

         — Não há mais dívidas, Coronel. Nem há mais dinheiro, nem nada do mundo grande. Agora é tudo ali no pequenino; a vida dos homens vai ser a mesma dos insetos.

         — Pequenino? — repetiu o Coronel sem entender. — Acho que se deu justamente o contrário: tudo ficou enorme. Esta mesa onde tantas vezes me sentei e mal dava para oito pessoas, parece agora mesa de batalhão. Tudo se tornou monstruosamente grande.

         — Estou vendo o contrário, Coronel. Tudo está do mesmo tamanho de sempre. Nós, criaturas humanas, é que diminuímos. Isso que o senhor supõe ser um bando de hipopótamos, não passa de leitões da sua fazenda. A caverna em que o senhor estava escondido é uma simples fresta do rodapé podre da sua sala. Os 15 contos de sua sogra foram-se. Não pense mais neles. Na vida nova não existe dinheiro.

         O Coronel vivia de dar dinheiro a juros, e aquele 15 contos da sogra não eram da sogra, sim dele mesmo; por isso empalidecera tanto ao saber da morte do devedor. Mesmo pequenininho como estava, a sua maior preocupação era o dinheiro.

         — Mas como poderemos viver sem dinheiro? — disse ele. — Enquanto houver homens no mundo, haverá dinheiro.

         Emília teve dó daquela burrice. Mostrou que o dinheiro era uma das muitas consequências do tamanho, como tudo o mais que os homens chamavam civilização. Desaparecendo o tamanho, desaparecia o dinheiro e toda a velha civilização. Alegou que mesmo no mundo antigo muita gente já vivia sem dinheiro, como, por exemplo, o Visconde de Sabugosa, que nunca possuiu um tostão furado. Também os insetos viviam perfeitamente sem dinheiro.

         — Mas nós não somos insetos — protestou o Coronel ainda cheio de orgulho do tempo em que tinha um metro e oitenta de altura.

         — Somos menos que isso, Coronel. Os insetos possuem três pares de pernas e nós, só um par. E muitos têm asas com que voam e nós em matéria de asas só temos as asas do nariz, que não voam. E ainda possuem antenas, que são órgãos do tacto, algumas delas dotadas de ouvidos — para apalpar e ouvir ao mesmo tempo, coisa aperfeiçoadíssima. Aquelas “varas de bambu” com que o monstro, lá na “caverna”, o cutucava, eram as antenas dum inseto. Nós hoje não passamos de insetos descascados, só com um par de pernas, e sem garrinhas nos pés como as formigas. É com essas garrinhas que elas se agarram ao chão e suportam o vento — e sobem pelas paredes.

         O Visconde ia aprovando com a cabeça, e o Coronel, ignorantíssimo como era, admirou-se de que um gigante daquele tamanho aprovasse as “tolices” da Emília. A ideia de que ele estivesse diminuído, em vez de todas as coisas terem aumentado, não lhe entrava na cabeça.

         — Se todas as criaturas diminuíram — disse ele — como o Visconde ficou tão grande?

         — O Visconde não mudou porque é milho.

         — Mas ele fala, pensa, é uma perfeita gente…

         — Sim, e isso é um dos mistérios do mundo. O Visconde pensa, fala e me obedece. Comporta-se em tudo como gente — mas não come. Logo, não é gente. Já viu gente que não coma, Coronel?

         — E você, Emília? Se também diminuiu, então é que é gente — mas toda a vida ouvi dizer que era boneca. Como explica o mistério?

         — Muito simples. Eu de fato já fui boneca de pano. Mas evoluí e virei gente.

         O Coronel não sabia o que era evoluir. Emília explicou.

         — Evoluir é passar duma coisa para outra muito diferente. Um grão de milho começa grão de milho; vai evoluindo e vira pé de milho, broa de fubá ou Visconde de Sabugosa. Assim, eu. De simples bruxa de pano, fui evoluindo, virei gentinha e hoje sou o cérebro e a vontade do Visconde; moro em sua cabeça e dirijo-o do mesmo modo que o Totó dirigia o automóvel do Major Apolinário.

         — Ah, quem me dera ser também cérebro dum gigante e morar numa casa de cartola! — suspirou o pobre fazendeiro. — Estou sem saber o que pensar. Se tenho, como você diz, de ficar assim pequenino, sem dinheiro, perdido num mundo de coisas e animais tão grandes, mil vezes ser devorado por estes hipopótamos. Isto não é vida. E, ainda por cima, nu que nem um índio. Não sei que fim levou a minha roupa. Houve um “desabamento de panos” em cima de mim, e quando me livrei daquilo, estava em pêlo. Haverá coisa mais sem propósito? Se aparece uma senhora por aqui, como é?

         — Pois eu acho o contrário — tornou Emília. — Isto é que é vida — a questão é a gente adaptar-se. Até já inventei um sistema de camuflagem que deu resultados ótimos. Virei chumaço de algodão, de modo que pude andar por toda a parte sem o menor medo de gatos ou passarinhos. Porque hoje, Coronel, um pinto é um milhão de vezes mais perigoso que um tigre. Os pintos nos tomam por içás ou baratas descascadas — e lá vem bico e papo. Aqui na sua casa convenci-me de que os leitões também são perigosos. Dos gatos eu já sabia, os tais gatos comedores de baratas, porque com meus próprios olhos vi o Manchinha comer Dona Nonoca, o Major e a tia Febrônia. Pois apesar desses perigos novos, estou encantada com a vida pequenina. Para a alimentação, que beleza! Qualquer isca nos enche o estômago. E não é preciso trabalhar para ganhar a vida. A vida está sempre ganha. Mas temos de copiar os insetos; temos de aprender com eles mil coisas, como o sistema de morar em buraquinhos e vãos. Os buracos feitos já vi que são perigosos. Os bons são os “acontecidos”. Buraco-de-raiz é ótimo — nem que tenha caranguejeira dentro -— mais isso só quando estamos no chumaço. Aranha não liga a algodões.

         O Coronel não entendeu nada daquilo, e no seu desconsolo nem procurava entender. Para quê? O melhor era lançar-se no meio dos hipopótamos e acabar com uma vidinha tão insignificante. Mesmo assim lembrou-se de que estava com fome.

         — Parece incrível — disse ele — que ainda numa situação destas o estômago da gente fale! Tenho vergonha de dizer que estou com fome.

         — Pois é regalar-se, Coronel — volveu Emília. — Há ovo de beija-flor ali na cartola — mas nem é preciso. O senhor está sobre a maior mesa do mundo. Estas comidas dão para alimentar um exército inteiro. Olhe só para a terrina de feijão.

         O Visconde havia deposto a cartola sobre a mesa e largado o Coronel perto da terrina de feijão. Que enorme terrina! Media três vezes a altura do Coronel. Já o prato de arroz era mais acessível. Erguendo a munheca, o Coronel pescou lá em cima dois grãos; comeu um e ofereceu outro a Emília.

         — Juquinha, quando acabar o seu passeio leve este presente lá para o meu sítio — disse ela entregando-lhe o grão de arroz.

         O menino e a irmã haviam saído da cartola e passeavam por entre os colossais pratos de comida. Diante dum queijo de Minas, Juquinha parou, perguntando que roda de carro era aquela. O Visconde explicou e deu-lhe um pedacinho de queijo.

         — Também quero queijo no meu sítio! — gritou Emília.

         O Visconde cortou um bloco de meio centímetro cúbico — grande demais para as forças do Juquinha. Foi necessário dividi-lo em três partes para que ele pudesse levar tanto queijo para dentro da cartola.

         — Haverá água por aqui? — indagou o Coronel.

         A moringa estava na mesa, mas nem o Visconde podia, apesar de ser o maior gigante do mundo, com o peso da moringa. Emília foi à cartola e trouxe um pedaço de algodão.

         — Amarre isto na ponta do barbante e pesque água.

         O Visconde assim fez. Mergulhou o barbante na moringa e puxou-o.  O algodão subiu, pesado de água. Todos beberam com delícia. Juquinha quis levar um pingo para o sítio, mas não encontrou no que.

         — E agora? — perguntou o Coronel. — Que vai fazer de mim?

         — Vou levá-lo à casa de sua comadre Dona Benta. Não convém que fique aqui sozinho, no meio destes leitões canibalescos.

         — E como irei?

         — Na aba do meu sítio — lembrou Emília.

         O Coronel Teodorico acomodou-se na aba da cartola do Visconde, com as pernas de fora e debruçado na cerca.

         — Toca o bonde, Visconde! — gritou Emília.

         Cuidadosamente, o Visconde botou a cartola na cabeça. Espiou se havia algum leitão por ali. Não vendo nenhum, desceu da mesa e, pé ante pé, encaminhou-se para a porta da rua. De passagem Emília entreviu o movimento dos leitões lá na cozinha e ficou apreensiva.

         — Rabicó! Parece que vi Rabicó lá no bando. E se é realmente ele, juro que foi o comedor de tia Ambrosia e da Quinota…

 

16 – O Terror do Lago

         O Visconde, com o “Sítio da Emília” na cabeça, marchava muito esticadinho na direção do Picapau Amarelo. Postada à sua janela, entre os dois órfãos, a dona da propriedade ia contando ao Coronel os seus projetos.

         — Vou introduzir vários melhoramentos. Metade da aba quero coberta de musgo, daquele que nasce nos barrancos úmidos e dá umas hastes com uma urnazinha na ponta. Na outra metade quero uma horta.

         O Coronel achou que as hortaliças eram muito grandes para caberem ali.

         — Planto fungos, como fazem as saúvas dentro de seus formigueiros.

         Apesar de eterna vítima das saúvas em sua fazenda, o Coronel ignorava que as formigas fossem cultivadoras dos fungos com que se alimentam. Quanto aos musgos, lembrou que eram plantinhas de sombra.

         — Pois planto um chapéu-de-sapo que lhes dê sombra — resolveu Emília. — E uma orelha-de-pau para sombrear esta janela. Bate muito sol. E outro chapéu-de-sapo em cima da cartola para que em dias de chuva não pingue água aqui dentro pelo canudo da ventilação.

         Os projetos do Juquinha eram diferentes. Queria amarrar ali na cerca dois besouros de sela, um para ele, outro para a Candoca, e também um gafanhoto verde, para o esporte do pulo. A Candoca, que já estava se desembaraçando, declarou querer um besouro verde — preto não.

         Quando a loucura da Emília desembestava não havia lembrança que não lhe acudisse. Falou até duma gaiola de passarinho pendurada à janela.

         — E onde acha passarinho que caiba nessa gaiola? — perguntou o Coronel.

         Há os pernilongos que cantam a música do fiun. E quero mobília. Três caminhas, mesa, um cabide para pendurar o nosso algodão. De cadeiras não preciso. Estes pedacinhos de queijo servem de bancos. Já estou me utilizando de um para sentar-me à janela.

         O Visconde teve de parar no caminho, descobrir musgos e chapéu-de-sapo, e besourinhos, e fungos, e deixar a cartola como a dona queria. Só ficou faltando a gaiola de pernilongo. E foi com aquele “jardim botânico” na cabeça que ele chegou ao Picapau Amarelo.

         Lá estava o fiel Conselheiro montando guarda junto à varanda. A vaca Mocha, com a cabeça por cima da cerca, suspirava pela sua habitual ração de milho. Quindim ressonava debaixo da figueira. E Rabicó? Nada de Rabicó por ali.

         — Eu bem sei por onde anda aquele canibal! — disse Emília.

         O Visconde entrou. Encaminhou-se para o quarto. Tudo em ordem em cima da cômoda. Dona Benta, sentada numa caixa de fósforos tão grande que seus pés não tocavam no chão. Perto dela, tia Nastácia escarrapachada. Pedrinho e Narizinho lidavam na amarração duma rede de retrós entre a cestinha de costura e a caixa de fósforos.

         Emília estranhou vê-los vestidos. É que a cestinha de costura ficava em cima da cômoda, a famosa cestinha de costura de Dona Benta onde não havia o que não houvesse — botões, colchetes, alfinetes, agulhas, linhas de vários números, fios de lã de bordar, retroses de seda, um ovo artificial de cerzir meia, a lâmina Gillette com que Narizinho cortava um célebre calo de Dona Benta, grampos e mais uma dúzia de miudezinhas. Aquilo lhes foi da maior vantagem depois da “redução”, quando o Visconde os colocou em cima da cômoda. Por um buraco da palha os dois meninos conseguiram entrar na cesta, e lá fizeram prodígios. No fio da lâmina cortaram os pedaços de lã de bordar com que Dona Benta e tia Nastácia se tinham vestido à moda dos casulos — “enleadamente”. As duas velhas haviam passado a noite no quente. Os meninos, como não fossem friorentos, contentaram-se com tangas de seda — uma franjinha de fios de retrós atada à cintura. Viraram uns perfeitos “índios de luxo”. Depois tiveram a ideia de tecer uma rede de fios de linha e armá-la entre a cesta e a caixa de fósforos. Estavam nisso quando o Visconde apareceu.

         Ao vê-lo surgir no quarto, enorme, com o seu cartolão à Presidente Lincoln transformado em sítio, os netos de Dona Benta  romperam num berro de selvagens: Ale guá, guá, guá! Abati pocanga!

         A gritaria fez que os dois besouros voassem. Que pena!

         O Visconde foi trepando pela escadaria de livros com que antes de sair de lá ele havia preparado o acesso à cômoda. No último degrau parou.

         Suas palhas de milho ficavam ao nível do “assoalho”.

         — Tenho uma grande novidade a contar — disse ele.

         — Já sei, a Emília apareceu! — gritou Narizinho — e desse modo estragou metade da “surpresa”.

         Surpresa, sim. Emília tinha planejado uma surpresa e para isso escondera-se com os dois órfãos dentro da cartola e fizera o Visconde guardar no bolso o Coronel Teodorico.

         — Onde está ela? — gritou Pedrinho. A resposta do Visconde foi tirar da cabeça a cartola imensa e depositá-la em cima da cômoda.          Os meninos aproximaram-se cheios de curiosidade. Aquela janelinha, aquela porta, os sete degraus de casca de laranja, as plantações, a escada de corda, o fio da campainha que o Visconde teve o cuidado de desamarrar da sua barba de palha, os chapéus-de-sapo, o canudo lá no alto — tudo era o que podia haver de mais imprevisto. E numa pétala de malmequer pregada na cartola estava o letreiro: “Sítio da Emília.”

         — Que história é esta? — exclamou Pedrinho, intrigado. Nesse momento Emília apareceu à janela e fez Hu!

         Foi um acontecimento. Até Dona Benta ergueu-se da sua caixa de fósforos e aproximou-se para ver.

         — Pois é! — começou Emília. — Encontrei o Visconde na estrada e instalei-me em sua cartola. Isto aqui dentro está virando um verdadeiro quarto de badulaques. Temos chumaços de algodão, bancos de queijo, um grão de arroz, uma lança — e vamos ter muitas coisas mais.

         — E essa escadinha de corda?

         — É para descer até ao chão sem incomodar o Visconde. O assoalho é de casca de laranja. Mandei cercar a aba e fiz uma plantação de musgos e fungos alimentícios, como os da saúva. Os chapéus-de-sapo da aba dão sombra ao musgo e o do alto impede que a chuva pingue pela chaminé.

         Pedrinho e Narizinho pularam a cerca e foram espiar pela janela.

         — É verdade, sim, vovó! — gritou Narizinho. — Tudo como ela diz. E essas crianças? — exclamou, muito admirada, ao ver a Candoca e o irmão, sentadinhos.

         — Ah, são os meus órfãos — e Emília contou a tragédia do Major Apolinário e Dona Nonoca, comidos pelo Manchinha. Dona Benta sentiu muito, porque se dava com aquela gente. Dias antes havia ido à cidade e tomado café em casa de Dona Nonoca.

         — Então por lá foi a mesma coisa que aqui?

         — A mesmíssima, Dona Benta. Todo mundo perdeu o tamanho. Galinhas e passarinhos percorrem as ruas no maior assanhamento, como nos dias em que caem içás.

         — Que horror!

         — Só se salvam os espertos — e Emília foi desfiando as suas próprias espertezas, o disfarce do algodão, a noite passada no ninho do beija-flor, a história da caranguejeira e do voo da mutuca.

         Nesse ponto Pedrinho assanhou. Também queria voar. Queria que o Visconde fosse ao terreiro descobrir mais besouros — e aquela igualdade de amor pela aviação fez que ele e o Juquinha nunca mais se largassem.

         Dona Benta chamou Candoca e sentou-a no colo, contando que havia assistido ao batizado daquela criança.

         — E tia Nastácia? — perguntou Emília. — Que está fazendo lá, escarrapachada e muda?

         Dona Benta explicou que a negra não se conformava com a Ordem Nova e perdera o interesse em tudo. Vivia assim, escarrapachada no chão, de mão no queixo, pensando naquele misterioso transtorno do mundo. Tão abatida que nem dava resposta ao que lhe perguntavam.

         Pedrinho gostou muito da escadinha de corda e quis descer, porém viu que era muito curta. Tinha a altura do Visconde — dois palmos. Só chegava até à segunda gaveta da cômoda, a qual estava entreaberta. “Bom, se não posso descer até ao chão, poderei entrar naquela gaveta”, e desceu com o Juquinha. Era a gaveta em que Dona Benta guardava as roupas de cama, lençóis, colchas e fronhas.

         — Isto aqui dá uma morada ótima — gritou ele lá de dentro. — Só brancuras. Parece um campo de neve.

         Emília foi sentar-se na caixa de fósforos de Dona Benta, rodeada de todos os mais, e começou a contar tudo o que se passara com ela. A história da ingratidão do Manchinha horrorizou tia Nastácia, que, afinal, por efeito da animação da Emília, foi saindo do seu marasmo.

         — Comer os donos dele! Já se viu um gato mais malvado? — disse ela.

         — Manchinha não sabia, nem podia saber — defendeu Emília. — Enxergou no degrau da escada aqueles três insetos descascados e está claro que os comeu. Se você fosse gata, faria o mesmo.

         — Três insetos? Não foi só o Major e Dona Nonoca?

         — O Manchinha também comeu a tia Febrônia, aquela cozinheira que esteve aqui naquele dia.

         — Cruz, credo, canhoto! — berrou a pobre tia Nastácia, persignando-se.

         Enquanto conversavam, o Visconde foi ao terreiro trocar impressões com o Burro Falante.

         — Pois é verdade — disse ele. — Todas as criaturas do mundo perderam o tamanho. A vila acabou. Não há mais ninguém nas ruas — só automóveis escangalhados, animais soltos e a passarinhada. Pelo caminho, os casebres de palha da gente da roça estão desertos. A galinhada comeu todos os moradores. Paramos na casa do Coronel Teodorico — por sinal que ele está aqui, disse tirando o Coronel do bolso e sentando-o na palma da mão.

         O Burro Falante havia pertencido ao Coronel, em cuja fazenda nascera. Ao ver o seu antigo patrão reduzido às proporções dum gafanhoto, sacudiu a cabeça filosoficamente. Aquele homenzarrão de outrora, que o cavalgara tantas vezes e lhe metera as esporas e o chicote, estava reduzido a uma coisinha sobre a palma da mão dum milho!

         — E como vai ser a vida dos homens daqui por diante? — perguntou o burro.

         — Ainda não sei. Isso depende da Emília. Há duas hipóteses: ficar tudo como está, ou voltar tudo ao que era. Emília acha que com a minha ajuda a Chave do Tamanho pode ser de novo levantada.

         O Conselheiro não entendeu aquela história de Chave do Tamanho, mas não insistiu. Sua extrema delicadeza de sentimentos impedia-o de ser indiscreto.

         — Bom — disse o Visconde. — Continue a tomar conta do terreiro. E Rabicó?

         — Ainda não apareceu esta manhã. Com certeza anda correndo mundo atrás de minhocas.

         — Eu sei quais são as minhocas de agora! — disse o Visconde guardando o Coronel no bolso e voltando para dentro.

         Encontrou Emília a contar a história das suas aventuras na sala de jantar do fazendeiro.

         — E ele então foi puxado pela corda, — dizia ela — e veio para cima da mesa e contou que lá na “caverna” um “monstro” estivera todo o tempo a cutucá-lo com duas varas de “bambu” (explicou que não eram varas e sim as antenas duma enormíssima barata.)

         — Figa, rabudo! — exclamou tia Nastácia persignando-se.

         — E onde ficou o compadre? — quis saber Dona Benta.

         O último número da surpresa da Emília ia ser aquele. A diabinha olhou para o Visconde e disse com a maior naturalidade:

         — Onde andará o Coronel Teodorico, Senhor Visconde? Talvez esteja em seu bolso. Veja.

         O Visconde enfiou a mão no bolso e tirou lá de dentro um insetão descascado, que depôs sobre a cômoda. Mas todos ali estavam vestidos, de modo que a nudez do compadre de Dona Benta provocou verdadeiro escândalo.

         Tia Nastácia protestou, — T’esconjuro! Onde se viu um pai de família aparecer nesses trajes de Adão na presença de uma senhora de respeito?

         Na sua aflição de espírito o Coronel esquecera-se de que estava nu, de modo que a advertência da negra o fez encolher-se todo, desapontadíssimo.

         — Arranje uma tanga, homem! — continuou a negra. — Faça como nós fizemos. Tire essa indecência daqui, Visconde!

         O Visconde levou o Coronel para o jardim. Que tanga arranjaria para ele? Olhou, olhou. Decidiu-se finalmente por uma flor de angélica, depois de cortá-la de certo jeito. Deu uma tanga ótima, mas que deixava o fazendeiro que nem uma dançarina de saiote.

         — Aquela negra é cheia de histórias, Coronel, mas tem bom coração.

         Ela mesma é quem vai lhe arranjar uma roupa melhor, feita de seda, como a dos meninos.

         Ao voltar para a cômoda, vestido daquela maneira, o Coronel foi recebido com palmas.

         — Agora, sim — disse tia Nastácia. — Está mais apresentável — e só falta dançar…

         O Visconde já havia deixado ali açúcar e outras provisões de boca. Mas como a população da cômoda aumentasse, foi à despensa em busca de novo sortimento — um pedacinho de marmelada, mais miolo de pão, um dedo de manteiga. Trouxe também uma xícara dágua.

         — Temos piscina! — gritou Emília quando o Visconde despejou a água no pires — e correu para lá arrastando pela mão a Candoca. Ia dar um banho na pequena. Candoca, pobrezinha, fez feio. Diante daquele enorme lago de água fria, pôs-se a berrar. Mesmo assim foi esfregada com uma esponjinha de algodão.

         — Não se afastem da beira dágua! — gritou Dona Benta. — Basta de desgraças. Não quero nenhum afogamento aqui.

         Nesse momento Pedrinho e Juquinha apareceram no alto da escada de corda, vindos da segunda gaveta onde haviam matado uma traça. Dando com a piscina, correram para ela — e banharam-se e nadaram regaladamente.

         Emília quis uma barquinha no lago.

         — Na caixa de fósforos de Dona Benta há paus excelentes. Faça uma jangada, Visconde.

         O Visconde tirou da caixa um pau de fósforo e partiu-o em três pedaços, unindo-os com um fio de linha. Deu uma jangada excelente. Emília pôs-se a “sulcar os mares”. Quis depois uma vela e um letreiro: “O Terror do Lago” — e como não houvesse vento, o pobre Visconde teve de ficar ali assoprando.

         Pedrinho e Juquinha, sentados na beira do pires, com grande inveja acompanhavam aquela navegação; por fim resolveram fazer uma jangada muito maior e mais bonita.

         E desse modo a Ordem Nova da Humanidade Sem Tamanho foi tendo os seus começos em cima da cômoda de Dona Benta.

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