A Chave do Tamanho
Capítulos 19 e 20
19 – Viagem pelo mundo
Tudo estava pronto para a viagem. No último momento o Visconde achou melhor desistirem do plebiscito e, em vez do passeio pelo mundo, tocarem diretamente para a Casa das Chaves. Alegou que cada minuto de demora eram mais milhões de seres humanos que pereciam em todos os continentes.
— E não se perde grande coisa — respondeu Emília. — O infinito é um colosso, Visconde. Há lá pelos céus milhões e milhões de astros muitíssimas vezes maiores que esta pulguinha da Terra. E nesta pulguinha da Terra a humanidade é uma poeirinha malvada. Para o Universo tanto faz que essa poeirinha exista como não exista.
Aquele pouco caso da Emília pela humanidade não impressionou o Visconde. Ele viu que no fundo não era pouco caso, e sim muito caso. Emília revoltava-se com as guerras e as outras formas de crueldade dos seres humanos. O apequenamento causado pela sua reinação evidentemente não fora de propósito. Quando Emília virou a chave, sua intenção não fora fazer mal a ninguém, e sim bem: acabar com as guerras. Havia de haver uma chave da guerra, e o seu pensamento foi ir experimentando todas as chaves até acertar. Mas assim que virou a primeira, aconteceu o tal apequenamento, e ela nem sequer pôde suspender outra vez a chave, quanto mais experimentar as outras. “Emília é filósofa”, pensou o Visconde, “e quando se põe a filosofar parece que tem coração duro mas não tem. Emília é filosoficamente boa.”
Depois de tudo bem combinado, e de tomadas lá na cômoda todas as providências, partiram. O fiun foi formidável, porque quanto mais novo é o super-pó, mais forte. Emília, coitadinha, perdeu completamente os sentidos, e o Visconde ficou mais tonto que das outras vezes.
Por fim chegaram. O Visconde levou minutos sentado, de pernas estiradas, olhando sem ver, ouvindo sem ouvir. Quando se pôs de pé, quase caiu, de tão tonto.
— Emília! — chamou ele, e repetiu três vezes o chamado.
Como não obtivesse resposta, tirou a cartola e espiou pela janela. A coitadinha estava desacordada. O Visconde despejou-a na palma da mão, cuidadosamente, e soprou-a de leve. Nada. Soprou mais forte. Nada.
— Parece incrível — murmurou ele — que essa grande coisa chamada humanidade dependa desta formiguinha sem sentidos que eu tenho na palma da mão! Se Emília voltar a si, tudo poderá ser salvo; mas se morrer, é bem provável que estes insetos descascados também morram todos, e só fiquemos no mundo eu, o Conselheiro e o Quindim — os únicos seres falantes e escreventes — e que adiantará a “História do Grande Desastre” que eu possa escrever em minhas memórias? Não existirá ninguém para lê-la. E o curioso é que o mundo continuará a rodar como se não tivesse havido nada. O burro, Quindim e todos os mais rinocerontes e hipopótamos e leões e tigres e a bicharada inteira desde os pintos suras até os micróbios, continuarão a existir como até hoje — e até ficarão muito contentes com o sumiço do Homo Sapiens. Porque o Homo Sapiens era o que mais atrapalhava a vida natural dos bichos. Até Rabicó, aquele patife, continuará a fossar os brejos em busca de minhocas — e já sem medo nenhum do bodoque de Pedrinho ou das ameaças da Emília.
Estava nesse ponto da conversa consigo mesmo, quando a “formiguinha desmaiada” fez um leve movimento e logo em seguida outro. O Visconde respirou aliviado.
— Ora graças que está acordando
Emília despertou e sentou-se. Passou a mão pelos olhos ainda turvos.
— Onde estou?
— Aqui comigo, na palma da minha mão, em qualquer parte da Europa — disse o Visconde.
Emília sorriu e pôs-se de pé, ainda tontinha; firmou-se logo, porém, e pediu a cartola.
— Erga-me para a cartola, Visconde. Sua mão está muito quente e suada.
Assim foi feito.
— Onde será que estamos? — perguntou, logo que reapareceu em sua janelinha. — Isto aqui parece um campo de trigo sem trigo, mas de que país?
Os campos de trigo sem trigo são todos semelhantes, de modo que por meio deles ninguém consegue identificar um país. Para isso, só as cidades.
— Vamos tomar por aquele caminho, Visconde — disse ela referindo-se à estrada que se via dali. — Todo caminho dá em cidade.
O Visconde dirigiu-se para a estrada e pôs-se a caminhar. Uma larga estrada deserta, com sinais de tráfego nas curvas e pontos perigosos. Esses sinais também não permitiram a identificação do país, porque são os mesmos em toda parte. Só quando chegaram a um cruzamento puderam ler a tabuleta indicadora da direção. Havia de cada lado uma flecha com um nome embaixo. O Visconde viu imediatamente que o superpó os havia largado na Alemanha.
— Muito bem. Este nome de Furstenwalde mostra que estamos perto de Berlim. O melhor é irmos diretamente para lá.
— Ótimo — concordou Emília. — Com a cheirada de alguns grãos de superpó, estaremos em Berlim em meio segundo.
— Mas não vá perder os sentidos outra vez — disse o Visconde, dando-lhe apenas meio grãozinho de superpó e aspirando um inteiro.
O passeio do Visconde e da Emília pela cidade de Berlim dava assunto para todo um livro. Quanta coisa observaram! A capital da Alemanha pareceu-lhes perfeitamente morta. A enorme quantidade de montinhos de roupa em toda as ruas revelava a sua grande população. Na maioria eram montinhos de farda, com um capacete ou quepe em cima. Inúmeros automóveis despedaçados, quase todos militares. O apequenamento havia acontecido às 4 horas, que é a hora de Berlim correspondente às 10 da manhã lá no sítio. A população estava em plena atividade nas ruas, quando subitamente desapareceu. O que de fato havia acontecido à humanidade inteira fora isso — um desaparecimento. No mesmo instante, em todos os continentes, em todas as cidades, em todas as casas e ruas, em todos os navios e trens, os seres humanos derreteram-se como sorvete, dentro das roupas, mas de modo instantâneo, e as roupas ficaram no lugar, em “montinhos largados”, quase sempre com um chapéu em cima. E em substituição de cada criatura apareceu dentro de cada montinho de roupa um inseto bípede de várias cores — uns cor-de-rosa, outros amarelos, outros cor de cobre, outros pretos como carvão.
Foi isso o que se deu: completa extinção da Humanidade, porque os insetos de dois pés que a substituíram já não eram propriamente a Humanidade — eram a Bichidade, como Emília os classificou. E, portanto, ela, a Emília, a Emilinha do sítio de Dona Benta, havia realizado um prodígio sem nome: suprimido a Humanidade! O que os gelos dos períodos glaciais não conseguiram e o que não conseguiram as erupções vulcânicas, e os terremotos, e as inundações, e as pestes, e as grandes guerras, a marquesinha de Rabicó havia conseguido da maneira mais simples — com uma virada de chave! Aquilo era positivamente o Himalaia dos assombros.
Todas as casas de Berlim estavam abertas e desertas. Ninguém, de ninguém, de ninguém. Só cachorros e gatos. Esses novos antropófagos andavam livremente por toda parte; os cães tinham aprendido a revolver os montinhos de roupa e os gatos pescavam com a mão os insetos mal escondidos nas frestas. Muitos passarinhos dos campos também vieram caçar em Berlim. Emília recordou o tempo da saída de içás lá no sítio em outubro, coisa que tanto assanhava os passarinhos e as aves domésticas.
— Veja! — exclamou o Visconde filosoficamente. — Esta gente, que era a mais terrível e belicosa do mundo e estava empenhada numa guerra para a conquista do planeta, ainda é mentalmente a mesma — quero dizer, ainda sente e pensa da mesma maneira. E ainda sabe tudo quanto aprendeu. Os químicos sabem fazer prodígios com a combinação dos átomos. Os físicos e mecânicos sabem todos os segredos da matéria. Os militares sabem todos os segredos da arte de matar. Mas como perderam o tamanho, já não podem coisa nenhuma. Sabem, mas não podem. Que coisa terrível para eles!
— Estou vendo que a grande força dos homens estava no tamanho — disse Emília. — O tamanho era como o cabelo de Sansão. Quando Dalila cortou o cabelo de Sansão, o coitado perdeu toda a força.
— Exatamente — concordou o Visconde. — O tamanho era tudo, isto é, todo o aparelhamento mecânico da humanidade fora feito para os homens daquele tamanho. Assim que aquele tamanho mudou, adeus viola! Tudo ficou absolutamente inútil. Até as invenções dependem do tamanho. Agora compreendo por que as formigas não inventam nada. Não podem, por falta de tamanho. Que coisa tremenda o tamanho! Está aí uma ideia que nunca me passou pela cabeça.
E realmente era assim. Aquela grande cidade, com todas as suas máquinas e veículos e organizações, valia menos, para os novos insetos louros, do que um buraquinho na terra (dos sem dono dentro) ou uma fresta de rodapé.
O Visconde parou diante do palácio do governo e ficou a balançar a cabeça filosoficamente.
— Aqui morava o ditador que levou o mundo inteiro à maior das guerras, e destruía cidades e mais cidades com os seus aviões, e afundava os navios com os seus submarinos, e matava milhares e milhares de homens com os seus canhões e as suas metralhadoras — o homem mais poderoso que jamais existiu. Tudo isso por quê? Porque tinha oito palmos e meio de altura. Assim que foi reduzido a quatro centímetros, todo o seu poder evaporou-se. Ele, se é que ainda não foi para o papo de algum pinto sura, permanece o mesmo, com a mesma energia mental, a mesma disposição destruidora e a mesma vontade de aço — mas não pode mais nada.
— Ah, se conseguíssemos encontrá-lo! — suspirou Emília.
— Quem sabe? É possível que ainda esteja dentro deste palácio.
O Visconde subiu as escadarias e entrou. Enormes salões desertos, com o chão coalhado de montinhos de farda. Aqui e ali, um gato ou cachorro vagabundo. O silêncio era impressionante. O Visconde lembrou-se de sacudir um dos montinhos de farda e viu cair pela manga um inseto louro, nu, mortíssimo. O pano amontoara-se de mau jeito em cima dele; o inseto, que não pudera sair, morrera abafado. Examinando os bolsos da blusa, o Visconde encontrou a carteira de identificação do falecido. Era um grande general, famoso pelas destruições feitas na Polônia. Emília ficou a olhar para aquela tripinha que o Visconde erguia no ar por um pé.
— Extraordinário! — disse ela. — Esta simples tripinha foi um dos terrores do mundo, só porque era dotado de tamanho. Estou vendo, Visconde, que o tamanho dos homens era realmente a pior coisa que havia — e fiz muito bem de acabar com ele. O melhor será irmos à Casa das Chaves e também suprimirmos o tamanho de todos os outros animais. Para que tamanho? Um micróbio vive perfeitamente — e é pequenininho a ponto de ser invisível.
Outros montes de farda foram sacudidos sem que nada caísse de dentro.
— Os insetos destas roupas puderam safar-se, disse Emília — mas onde andam?
Não tardaram a descobri-los. Embaixo dos móveis, nos cantinhos mais escuros, nas frestas, por toda parte onde houvesse minúsculos abrigos naturais, o Visconde descobriu medrosos ajuntamentos de insetos louros.
Inúmeros já estavam no papo da gataria invasora e dos cães. Cão não come inseto, mas inseto feito de carne humana é petisco diferente e raro. Além disso, os gatos e cães da Alemanha andavam com rações muito curtas de modo que se aproveitavam daquela imprevista oportunidade.
O Visconde foi andando de sala em sala. Uma delas parecia a do Grande Ditador.
Era aqui — disse Emília — que ELE mandava e desmandava. Agora, com certeza, anda escondido nalgum buraquinho.
— Mas como poderemos reconhecê-lo?
— Pelo bigode. Nada mais fácil.
Com um pauzinho o Visconde começou a tirar os arianos escondidos nas frestas ou debaixo dos móveis.
De sob a secretária do Grande Ditador saíram vários, evidentemente generais e homens de governo. Um deles tinha bigodinho. A entrevista de Emília com o Grande Ditador dava um livro de mil páginas, mas temos de resumir. A pedido dela o Visconde ergueu-o até a altura da janelinha para que pudesse ouvir o seu discurso.
— Meu senhor — disse ela — tenho a honra de apresentar a Vossa Excelência o Visconde de Sabugosa, o milho falante lá do sítio de Dona Benta. E também me apresento a mim mesma — frau Emília, Marquesa von Rabicó. Viemos dar uma vista dolhos pelas Europas e o acaso nos largou nesta Alemanha de Vossa Excelência. Mas estou admirada do que vejo.
Esperei encontrar o grande arsenal das ditaduras dando tiros de canhão e espirrando fogo, e o que no próprio palácio do Grande Ditador eu vejo são montinhos de farda vazia e arianos insetiformes, tímidos, nus, escondidos pelos cantos e vãos e frestas. Que foi que aconteceu, Excelência?
Para uma criaturinha de quatro centímetros, um “milho” como o Visconde, de dois palmos de altura, equivalia a um formidável gigante. Nada mais natural, pois, que o Grande Ditador se encolhesse todo, sem ânimo de soltar uma só palavra. Mas Emília o sossegou.
— Não se assuste, Excelência. O Visconde é o maior gigante do mundo, mas também é milho — um vegetal extremamente pacato. Além disso é um grande sábio — hoje o maior sábio do mundo. E não é judeu, não, Excelência. Não tenha medo. O Visconde é arianíssimo. Quando esteve no milharal que foi o seu berço, o vento dava na sua linda cabeleira louro-platina. Hoje está velho e careca e anda sempre com o meu sítio na cabeça. Não entende? Meu sítio é esta cartola. Pois bem, Excelência. Cheguei até cá para dizer uma coisa só — que o Tamanho morreu. E quem acabou com o Tamanho eu sei quem foi, e sei também que essa pessoa é a única que pode novamente restituir aos homens o antigo e querido tamanho — aquele tamanho malvado, porque se não fosse ele os homens não teriam sido maus como foram, fazedores de guerras, incendiadores de cidades, afundadores de navios, judiadores de judeus. Mas esse misterioso alguém só restaurará o tamanho perdido se tiver a certeza de que Vossa Excelência vai fazer a paz, e botar fora todas as horrendas armas que andou amontoando, e desse momento em diante viverá na mesma paz e harmonia com o mundo em que vivem as formigas e abelhas. Se o Tamanho voltar e tudo ficar como estava, quero vida nova, sem guerras, sem ódios, sem matanças, sem armas, está entendendo? E se por acaso algum dos futuros poderosos romper o trato, o castigo será terrível. Sabe qual será o castigo? O tal “alguém” desce a chave duma vez, e o Tamanho fica reduzido a zero. Em vez de 4 centímetros, como Vossa Excelência tem hoje, passará a ter 4 milímetros, ou menos, e será devorado até pelas moscas e pulgas. Está entendendo?
Claro que ele estava entendendo. Quem não entenderia uma linguagem tão pão pão queijo queijo como aquela?
O Grande Ditador animou-se e quis falar. Emília o deteve com um gesto.
— Não diga nada, meu senhor. Já houve falação demais. Quem fala agora sou eu. Quero todos muito direitinhos e humildes. Esta semana de “redução” não passa duma advertência que o tal “alguém” faz ao mundo. Compreende?
Assim terminou Emília o seu sermão ao chefe do Eixo. Depois ordenou ao Visconde:
— Enfie-o no buraquinho onde estava e vamos ver o outro.
O Visconde enfiou o Grande Ditador na fresta do rodapé, de onde o seu Estado-Maior espiava com os olhos arregalados.
Um dos mais interessantes aspectos do mundo novo era o da enorme quantidade de aviões despedaçados. Todos os aparelhos que haviam erguido voo no dia do apequenamento ficaram sem governo e foram caindo aqui e ali. O mesmo sucedeu aos trens e navios. Os trens em movimento descarrilaram todos, depois que seus maquinistas viraram insetos. O mesmo desastre nos oceanos. Os navios transformaram-se em “navios fantasmas”, isto é, que andam soltos pelo mar ao sabor dos ventos sem tripulação que os dirija. A cada passinho as ondas arremessavam um deles à praia.
Foi o que o Visconde observou em sua viagem à Alemanha — e na Alemanha tomou nova pitada de pó e foi parar no Japão.
O aspecto das cidades japonesas era o mesmo das europeias. Montinhos de roupa por toda parte, fardas, e também quimonos. Automóveis escangalhados, trens arrebentados, aviões despedaçados.
Foi fácil em Tóquio darem com o palácio do Imperador, e por mero acaso descobriram o soberano amarelo. O Visconde vira numa das salas um gato brincando de dar tapinhas numa tampa de caneta-tinteiro caída no chão. Era o Gato Imperial — o gato de estimação de Sua Majestade.
Evidentemente havia dentro da tampa qualquer coisa que o interessava. Não conseguindo fazer que essa qualquer coisa saísse lá de dentro, o gato ficou de banda, imóvel, como fazem os gatos do mundo inteiro quando encontram um buraquinho de camundongo.
O Visconde espantou o Gato Imperial e tomando a tampa de caneta virou-a de boca para baixo, sacudindo-a. Caiu de dentro uma tripinha cor de cuia. Era o Imperador do Japão, o Filho do Sol…
A viagem à Rússia foi a mais trágica de todas. O Visconde parou na zona da guerra e assombrou-se. O frio era horrível, muitos graus abaixo de zero, e aqueles milhões de homens que os Ditadores tinham remetido para os gelos estavam todos mortos. Ao lado dos tanques e canhões viam-se montinhos de fardas em quantidade incrível, em muitos pontos já totalmente recobertos pela neve. Nenhum inseto beligerante pôde salvar-se depois do apequenamento. Nem procuraram sair de dentro das roupas desabadas, porque então morreriam ainda mais depressa no entanguimento do frio exterior. Ficaram dentro das roupas e capotes, aproveitando o último calorzinho. Em minutos, porém, os exércitos alemães e soviéticos viraram picolés.
Parece incrível, mas não se salvou ninguém, nem mesmo os que estavam dentro das casas ainda de pé, porque logo que os fogos acesos se apagaram o congelamento foi geral.
O palácio do governo era o célebre Kremlin, onde haviam residido tantos czares da Rússia antiga.
O número de insetos existentes naquele ponto devia ser grande, não só por causa da imensidão do palácio como pelos bons abrigos que os inúmeros montes de peles proporcionavam aos insetos russos. Os russos sempre se defenderam do frio por meio de roupas e capotes de peles — e dos pêlos que deixavam crescer na cara — as formidáveis barbas e os bigodes. Cada monte de pele em que o Visconde mexia, levantando uma aba ou manga de capote, punha à mostra vários insetos apavorados, que corriam a esconder-se.
Emília lembrou-se dos “tatuzinhos” ou bichos-de-conta que vivem debaixo dos vãos de pedra ou tijolo: assim que a gente ergue o tijolo, eles correm a esconder-se no escurinho mais próximo.
O que Emília viu na Rússia não deixou de assustá-la. Percebeu que o apequenamento havia causado ali mais mortes que em qualquer outro país, em virtude da intensidade do frio daquele inverno. E como começasse a ficar entanguida, deu ordem ao Visconde de ir para um bom clima, dos quentinhos.
— África? — perguntou o milho.
— Não. Califórnia — respondeu Emília com o pensamento em Hollywood.
O Visconde tomou o canudinho de pirlimpimpim, calculou cuidadosamente a pitada e levou-a ao nariz — fiunn!…
20 – A Cidade do Balde
Acordaram num jardim. O Visconde correu os olhos em torno. Jardim velho e maltratado, com matinhos crescendo nas ruas e grama tal qual cabelo de homem da roça quando passa três meses sem ir ao barbeiro.
— Estou vendo um enorme balde de cabeça para baixo — disse Emília já na sua janelinha.
Sim, era um balde velho na beira da calçada. Percebendo em redor dele agitação de insetos humanos, o Visconde aproximou-se pé ante pé.
Ficou espiando de trás duma moita de esporinhas.
Que espetáculo maravilhoso! Um verdadeiro núcleo de civilização nova que se ia formando — um começo de tribo. Aqueles insetos acomodaram-se debaixo do balde e estavam construindo coisas.
Na alça do balde, caída sobre o cimento da calçada, viram um varal com umas tripinhas penduradas. Roupas? Não. Minhocas secando ao sol.
— Será possível que comam minhocas? — exclamou Emília.
— E por que não? — disse o Visconde.
— É uma carne como outra qualquer, e fácil de obter, porque a abundância das minhocas no seio da terra é uma coisa incrível. Para a carne, antigamente, os homens tinham de promover a criação de bois, carneiros, porcos e aves, indústria que exigia grandes pastagens, além da plantação de muitas roças de milho, aveia, mandioca, alfafa etc. E havia a trabalheira de prender aqueles animais, engordá-los, levá-los aos matadouros, matá-los, tirar-lhes o couro, esquartejá-los, salgar a carne, cozê-la, enlatá-la — mil coisas. Agora não. A carne já sai por si mesma do seio da terra, sem couro e sem osso e na maior abundância. Como há minhocas no mundo! Lá no sítio, quando íamos pescar, cada enxadada de Pedrinho punha à mostra meia dúzia. E são ótimas para charque. Num instante o sol seca uma minhoca.
— Mas é porcaria comer minhoca! — disse Emília com carinha de nojo.
— Por quê? Se a carne é sadia, não vejo nenhuma objeção razoável. Rigorosamente falando, porcaria era comer porco — e você mesma vivia elogiando o lombo de porco de tia Nastácia, com farofa e rodelas de limão.
— E era mesmo um suco.
— Logo, tudo é questão de hábito. Os chineses sempre comeram coisas que os ocidentais consideravam porcarias — e não me consta que essas comidas tenham prejudicado a China.
O movimento em redor do balde era grande. Uns entravam, outros saíam, carregando coisas. Passou um homenzinho com uma casca de caramujo vazia às costas — ia levando-a para dentro do balde, com certeza para quebrá-la e fazer pratinhos. Logo em seguida apareceram mais dois, com uma vara ao ombro e pendurada nela vinha uma minhoca se mexendo. Subiram por um talude e se foram na direção dos varais da charqueada. O talude era um belo trabalho de engenharia. Eles foram acumulando terra junto ao fio da calçada e assim construíram um plano inclinado que ia se alargando à medida que descia. Em cima da calçada havia uma escadinha, dando para um pequeno rombo do velho balde. Era a porta de entrada.
— Olhe, Visconde! — gritou Emília apontando. — Eles tiveram a mesma ideia que eu.
O Visconde olhou e viu dois homenzinhos tocando um besouro — um puxava-o pelo cabresto, outro empurrava-o.
— Aquilo talvez seja o primeiro passo para a domesticação dos insetos — observou o Visconde. — Eles vão fazer a experiência com um coleóptero. O sistema das asas dobráveis e guardáveis dentro dos élitros já lhes atraiu a atenção. Acho naturalíssimo que comecem pelos besouros.
À beira da calçada um homenzinho de tanga, com ar de chefe, dirigia os serviços. Seu guarda-sol era uma folhinha de trevo.
— Lá no sítio Dona Benta vivia arrenegando esse trevo de jardim que nós chamamos “azedinhas”. Dizia que era uma praga. Hoje são preciosos pés de guarda-sóis. Vamos conversar com aquele homem. Está me dando ideia de Robinson em sua ilha.
O Visconde saiu de trás da moita e aproximou-se do balde. Foi um pânico. Todos largaram do serviço e correram a esconder-se. O besouro no cabresto abriu as asas e fugiu. A minhoca, livre do varal, lá se foi pelo chão, muito depressa, que nem uma cobrinha. O chefe jogou fora o guarda-sol e também correu.
O Visconde agarrou-o antes que chegasse ao talude e botou-o na aba da cartola, diante da janelinha da Emília.
— Não tenha medo, disse esta. — Somos de paz.
O apavorado Robinson ficou algum tempo sem fala, tamanho havia sido o seu susto. As palavras de Emília, porém, o foram sossegando, e ele por fim perguntou a meia voz quem era aquele gigante.
Emília riu-se e respondeu:
— A melhor e maior criatura do mundo, meu caro senhor inseto. Dele não vem mal a ninguém. É milho. E eu? Ah, ah, ah! Eu sou a “mãe da criança”.
O homenzinho ficou na mesma. Emília queria dizer que era ela a autora da prodigiosa transformação da humanidade.
Depois de alguma prosa, Emília pediu ao Visconde que depusesse a cartola na calçada, pois queria conhecer de perto a vidinha dos habitantes do balde.
O Visconde assim fez. Depôs a cartola na calçada. Emília saiu pela porta e, dando a mão ao chefe, encaminhou-se para o talude.
— E o senhor quem é? — perguntou pelo caminho.
— Eu era o Doutor Barnes, professor de antropologia na Universidade de Princeton; hoje sou o dirigente deste grupo humano. Elegeram-me chefe, porque acham que tenho muito boa cabeça.
— E tem?
O Doutor Barnes riu-se.
— Sei que tenho minha cabeça no lugar, e vou conduzindo como posso este curioso trabalho de adaptação dum grupo de pessoas altamente civilizadas. Perdemos o tamanho e…
— Perderam o tamanho? Ótimo! — exclamou Emília com entusiasmo. — Estou encantada de ouvir um sábio como o senhor falar assim, porque os ignorantes pensam de modo contrário. Acham que se conservam tamanhudos como sempre e que as coisas em redor é que aumentaram.
— Absurdo! — exclamou o sábio de Princeton, depois de rir-se do “tamanhudo”. — Um aumento de todas as coisas é uma ideia que a ciência não pode aceitar, mas a ciência pode perfeitamente aceitar a ideia da redução do tamanho duma espécie de animais.
— Eu sei que é assim — declarou Emília — mas quando quis provar isso àquela tia Febrônia do Major Apolinário, confesso que engasguei.
— É que você não é bem científica, minha menina. Qualquer sábio sabe que as espécies animais têm variado de tamanho no curso da evolução. Os cavalos já foram do tamanho de cães e cresceram. Os tatus já foram enormes e hoje estão pequenininhos.
— Eu vi no museu uma casca de tatu fóssil dentro da qual todos lá do sítio podíamos nos esconder da chuva.
— Perfeitamente. Ora, isso quer dizer que a redução do tamanho duma espécie não é fenômeno desconhecido — é até bem vulgar. A novidade, porém, é que, nos casos de redução de tamanho que a ciência verificou, o fenômeno foi acontecendo aos poucos, no decorrer de milhares de anos; e neste caso da humanidade o fenômeno ocorreu de um momento para outro. Todas as teorias da evolução que eu conheço não previram esta hipótese da redução instantânea.
— Nem eu, quanto mais as teorias! Quando abaixei a chave, pensei em tudo, menos nisso.
O Doutor não entendeu aquela história de chave.
Chegados ao rombo do balde, entraram.
Tudo muito bem arranjadinho lá dentro. O Doutor Barnes era de fato um chefe digno do cargo. Tinha dirigido a construção do talude e também dirigira a obra do calafetamento da fresta entre a beirada do balde e a calçada. Emília observou o trabalho.
— Que massa é esta?
— Massa de papel — respondeu o Doutor Barnes. — Encontramosno jardim um jornal velho. É um dos melhores materiais de construção de que dispomos. Note que tudo aqui é de papel ou massa de papel.
Emília viu quê o cimento do chão estava atapetado de papel de jornal, e que havia bancos feitos de quadradinhos de papel superpostos e colados. A grande mesa de centro era feita do mesmo modo, e também as camas e muitas coisas mais.
— E como junta as folhas de papel?
— Nada mais simples. Depois de cortadas do mesmo tamanho
(cortamo-las com um caquinho de vidro), pomos umas em cima das outras coladas com o nosso cola-tudo, que é a resina de uma árvore aí do jardim.
— E a massa com que calafetou as fendas?
— Massa de papel. Deixamos pedaços de papel dentro dágua até que fiquem quase desfeitos. Depois amassamos aquilo com a resina, como se amassa o trigo para o pão. Obtemos uma substância ótima para mil coisas — uma excelente matéria plástica. É mais ou menos o que usam as vespas na construção de seus ninhos.
A luz descia por um rombo do balde.
— Aquilo ali — disse o Doutor Barnes apontando — está sendo uma das minhas maiores preocupações. Foi excelente que houvesse tal rombo, pois do contrário não teríamos luz aqui dentro. Mas quando chover?
— Ainda não choveu por aqui desde o dia do apequenamento? Lá na estrada do sítio já houve um dilúvio.
— Ainda não — mas dum momento para outro chove e como
vamos nos arranjar? Se pudéssemos colocar naquele rombo um vidro, seria a maravilha das maravilhas. Vidro, vidro! Quem somos nós hoje para lidar com vidros?
— Além de que há a altura — lembrou Emília.
— A altura não é o pior. Não viu do lado de fora uma comprida
escada de pau? Mandei fazê-la justamente para que eu em pessoa pudesse examinar a situação do rombo.
Emília teve uma ideia.
— Plante uma orelha-de-pau em cima do rombo, como fiz sobre
minha janela na cartola do Visconde.
O Doutor Barnes riu-se.
— Impossível, menininha. O balde é de metal. Os cogumelos não nascem nos metais.
— Não precisa que nasçam. Basta que pregue um com o seu
colatudo. Vou mandar o Visconde resolver esse problema. Sossegue.
O Doutor Barnes apresentou Emília aos habitantes de Pail City, ou a Cidade do Balde. Havia lá umas vinte pessoas, entre homens, mulheres e crianças, todos de tanguinhas — umas de papel, outras de musgo.
— Estou fazendo uma série de experiências para verificar a melhor substância para tangas — disse o Doutor. — Todas as que estão em uso são provisórias e experimentais. Um dos meus companheiros, que é químico, anda pensando numa tanga sintética.
— Isso é bobagem — disse Emília. — O algodão resolveu tudo — e contou as suas aventuras no tempo do chumaço. E ainda conservo as botinhas de algodão endurecido com clara de ovo de beija–flor, concluiu espichando um pé.
O Doutor Barnes abaixou-se para ver e chamou o químico.
— Excelente! — disse este. — Mas a maçada é que não temos por aqui clara de ovo de beija-flor, nem algodão.
— Eu tenho — berrou Emília. — No meu quarto de badulaques na cartola do Visconde tenho algodão e um ovo pelo meio. Como só faço caso da gema, o senhor pode ir lá e retirar toda a clara — mas só metade do algodão.
O químico foi — e Pail City enriqueceu-se de mais dois materiais de grande número de empregos.
— E a alimentação? — perguntou Emília.
— É o que menos me preocupa — respondeu o Doutor Barnes. — No começo pensei no mel das flores; depois desisti da ideia. Há a dificuldade de chegar até às flores, sempre tão altas, e o perigo de nos expormos ao ataque das aves e vespas. E há ainda as estações sem flores. Depois de muito refletir, fixei-me nas minhocas como o alimento básico da humanidade reduzida. A caça é fácil, porque em certas épocas as minhocas saem espontaneamente da terra; e como secam muito bem ao sol, já organizei um serviço de caça e charqueamento de minhocas, para uso nos tempos de escassez. Tenho ali — e apontou para um depósito — uma reserva de vinte minhocas charqueadas, o suficiente para nossa alimentação durante um mês. Mesmo assim não paramos de caçá-las. Ainda hoje apanhamos uma, que fugiu.
— Eu vi. Mas que gosto tem carne-seca de minhoca?
— Isso de gosto é questão de hábito. No começo houve por aqui muito focinho torcido. Agora já comemos minhoca seca sem a menor repugnância — e eu até acho uma delícia. Tem um gostinho muito especial.
— De quê?
— De minhoca. Quimicamente é uma carne como outra qualquer. E como as minhocas possuem dez corações e cem rins, também organizei um serviço de tirada de corações e rins de minhoca. Já é um alimento mais especializado, bom sobretudo para as crianças.
— E comem-nas cruas?
— Sim. Felizmente estamos livres daquela peste chamada fogo, que foi a verdadeira perdição da humanidade.
— Por que, Doutor?
Nesse momento foram interrompidos por um mensageiro.
— Dona Emília, o Visconde está chamando a senhora — disse ele.
