A Chave do Tamanho
Capítulos 21 e 22
21 – A ordem nova
Saíram do balde. O Visconde queria conversar com o Doutor sobre certos pontos que o preocupavam. Para isso deitou-se na calçada, com o rosto na mão e o cotovelo no cimento.
— Estou gostando da sua “atividade adaptativa”, Doutor. Fazer tanta coisa em tão pouco tempo até me parece milagre. Acha que o homem pode subsistir, assim reduzido de tamanho?
— Perfeitamente. Não só subsistir, como até criar uma nova civilização muito mais agradável que a velha — sem os horrores da desigualdade social da fome, das “blitzkriegs” e das inúteis complicações criadas pelos inventos mecânicos.
— É como eu penso — berrou Emília.
— As minhas conclusões — continuou o sábio — resumo-as em poucas palavras. Aquele tipo de civilização que havíamos realizado era uma simples consequência do fogo. Enquanto o homem não descobriu o fogo, viveu muito bem dentro da lei biológica, a civilizar-se lentamente. Veio o fogo e tudo mudou — começou o galope sem fim. Que eram aqueles monstruosos arranha-céus deste país, que era a “blitzkrieg” dos alemães, que era a nossa pressa de transporte e comunicação por meio de trens, aviões, navios, telégrafos, telefone e rádio, senão uma consequência do fogo? Apague-se o fogo e tudo desaparece.
— Isso não — protestou Emília. — O rádio não dependia do fogo.
— Erro seu, minha filha. O rádio dependia da eletricidade, e para produzir eletricidade tínhamos de usar turbinas e dínamos, coisas feitas de ferro — e quem é o pai do ferro? O fogo.
Emília embatucou.
— Tudo naquela civilização era um produto do ferro, continuou o sábio, e o ferro era filho do fogo. Felizmente estamos livres do fogo, como eu ia dizendo quando o mensageiro nos interrompeu. Estamos livres do fogo e do seu filho o ferro e das mil reinações que os dois faziam no mundo, como as grandes guerras em que tudo era ferro e fogo. Estamos livres até da tremenda multiplicação dos homens sobre o planeta.
— Como?
— Foi o fogo que permitiu aos homens viverem em todos os climas e não apenas nos que lhes convinham naturalmente. Sem o fogo o homem só viveria nas zonas temperadas, as boas, e nunca nas zonas frias. E portanto haveria menos gente na terra — outra enorme vantagem tanto para o próprio homem como para os animais. E há ainda outro aspecto muito importante do fogo: os seus efeitos na alimentação humana. Graças ao fogo o homem pôde tornar comestíveis muitas coisas que não eram, e isso ainda aumentou a população humana no planeta, porque aumentou enormemente as possibilidades de alimentação. De modo que do fogo veio o calamitoso aumento da população humana, não só permitindo a invasão das regiões frias, como também transformando em comestíveis coisas que não eram naturalmente comestíveis. Quanto mais espaço vital e mais comida, mais gente. E veio o tal ferro que ia levando a humanidade ao mais desastroso fim. Que foi a última guerra senão o desabamento em cima do homem de toda a civilização baseada no ferro, sob forma de tanques, canhões, fuzis, metralhadoras, bombas aéreas etc? Sempre o ferro e o seu maldito pai fogo! Ora um, ora outro, quase sempre os dois juntos, não faziam outra coisa senão torturar os homens. Numa bomba aérea que os aviões derrubavam sobre Londres, o fogo vinha dormindo dentro do ferro. Quando o ferro da bomba chegava ao chão, o pai dele lá dentro acordava e, Bum! explodia e arrebentava tudo — e eram mortes e mais mortes, criancinhas despedaçadas, um horror! Nos incêndios o fogo trabalhava sozinho, dançava a sua horrível dança de chamas sobre casas e mais casas, sobre ruas inteiras, às vezes sobre cidades inteiras.
— E nas baionetas, espadas, punhais, facas, chuços, lanças, esporas, espetos, era o ferro sozinho que judiava dos homens, dos cavalos e dos frangos, — acrescentou Emília.
— Pois é — continuou o sábio. — Estou convenciono de que a desgraça da velha civilização veio das conseqüências sociais do fogo. Sempre pensei assim, porque sempre vivi na terra mais atormentada pelas reinações do fogo e do ferro: essa infinidade de máquinas que aqui na América nos fazia tropicar num galope sem fim — para que, meu Deus, para chegar ao quê? Imaginem, pois, o meu gosto quando sobreveio este súbito fenômeno da redução do tamanho — o maravilhoso remédio para o caminho errado em que o Homo sapiens se havia metido desde a descoberta do fogo.
Emília rebolou-se de contentamento, radiante de ter sido ela a descobridora do “maravilhoso remédio”.
— Sim — concordou o Visconde. — Todas as outras espécies animais vivem muito bem neste mundo sem recorrer ao fogo. O Homo sapiens foi o único a entrar por esse caminho.
— Um caminho errado — insistiu o Doutor. Livres do fogo, nós vamos agora construir uma civilização muito mais natural e vantajosa para nós mesmos — sem guerras, sem máquinas, sem aquele desvario das invenções que nos iam levando para o beleléu.
— Iam levando não senhor — disse Emília. — Que levou! Aquela civilização está por aí em cacos — cacos de automóveis, cacos de aviões, cacos de trens, cacos de navio e cacos de ideias — como a velha ideia de leão ou a ideia de pinto. E as máquinas de todas as fábricas logo estarão enferrujadas. E as cidades virarão ruínas cobertas de mato. Mas nós poderemos continuar a viver perfeitamente, comendo minhocas em vez de bois, mel de flores em vez de cocadas, e a voar a cavalo em besouros em vez de correr em automóveis.
— Isso mesmo — concordou o Doutor. — Será regressarmos ao período da evolução humana anterior à descoberta do fogo, mas com toda a nossa bela ciência na cabeça — e podemos ser muito mais felizes que os nossos avós daquele tempo. Olhe, — disse ele apontando para os homenzinhos que construíam um cercado para besouro rente à calçada. Um segura o espinho-moirão, outro bate com um malho. Que é aquele malho? Um velho instrumento do homem do período da pedra lascada — um pedregulho aqui do jardim que eles amarraram num cabo.
— Mas a ciência vai levar a breca, porque a ciência está nos livros e os livros já não podem ser usados — observou Emília. — Pedrinho fez a experiência lá na cômoda. Leu dois ou três períodos dum livro e cansou.
— Para tudo haverá jeitos. Antes de existirem os livros já existia cultura. Temos as nossas cabeças, e dentro delas a memória. Iremos transmitindo a ciência de uma cabeça para outra. E muita coisa poderemos escrever em palhinhas ou pétalas secas.
— Papirinhos!
— Sim — e mandou buscar lá dentro o seu livro de notas. — Aqui tem, disse ele mostrando um caderno de dez folhas de pétalas de rosa. Cortei as pétalas em retângulos e deixei-as ao sol prensadas entre dois pedacinhos de vidro aí do chão. Secaram sem enrugar.
— E para escrever?
— Usei um finíssimo espinho de figo da Berbéria. A tinta foi o caldo duma frutinha preta muito abundante por aqui.
Emília admirou aquele livro de pétalas de rosa, que talvez fosse o livro número um da nova humanidade.
— E que acha da domesticação dos besouros? — quis saber.
— Acho uma ideia excelente e já mandei apanhar um para começo de estudo. A variedade de insetos é enorme. Estou convencido de que encontraremos inúmeros aproveitáveis e preciosíssimos, não só para o voo, como para o transporte de cargas.
— Para o transporte de cargas nem há necessidade de estudo — disse Emília. — As formigas nasceram carregadoras. E que força elas tem. Lá no sítio vi saúvas carregando grãos de milho inteiros, uma coisa muito mais pesada que elas. E Pedrinho atrelava besouros em caixas de fósforos com muita coisa dentro — e eles puxavam. A força dos besouros é incrível. E para as grandes velocidades teremos as libelinhas.
— Não vamos ter precisão de velocidade nem de pressa — volveu o Doutor Barnes. — Graças a Deus já estamos livres desses dois horrores. Para que pressa? Para que velocidade? Toda aquela imensa velocidade alcançada pelos homens tamanhudos, como você diz, só serviu para precipitá-los no abismo da matança em massa. As nossas possibilidades de domesticação dos insetos parecem-me infinitas.
Emília desembestou:
— Isso mesmo! Domesticaremos os serra-paus, para serrar paus. E as brocas das laranjeiras para servirem de verrumas. E os mede-palmos para as medições. E os pernilongos para a a música do fiun. E os gafanhotos para substituírem as pontes — pularemos riozinhos montados neles! E os caranguejos para abrirem túneis. E as taturanas para tecerem fios de casulo. E as mamangavas para buldogues das nossas casinhas. Com uma boa mamangava amarrada no quintal, quero ver quem entra! E os pulgões para termos leite de vaca.
— Sim — concordou o sábio. — As formigas estão nos indicando esse caminho. Elas tratam os pulgões exatamente como os homens tratavam as vacas. Os pulgões chupam a seiva adocicada de certas plantas e parece que se enchem demais. Ficam estufadinhos — e até gostam quando uma formiga chega e lhes tira aquele mel, como os leiteiros tiravam o leite de vacas. No inverno elas recolhem os pulgões aos formigueiros, como os homens recolhiam as vacas aos estábulos. Lá ficam eles bem defendidos do frio. Se faz um belo dia de sol, as formigas os levam para fora, para junto das tais plantinhas de seiva doce — e eles se enchem daquele leite com que as formigas se regalam.
— Podemos utilizar esses pulgões como mamadeiras para as nossas crianças — lembrou Emília.
O Doutor Barnes concordou. Aquele sábio era uma verdadeira Emília masculina. Sua imaginação também disparava sem freio nos dentes. Depois se referiu aos cupins.
— Com as térmites, que são as formigas brancas — disse ele — temos muita coisa a aprender. Esses insetos constroem maravilhosas cidades de barro — os cupins — onde vivem aos milheiros. Amassam o barro dum tal modo que essas cidades resistem a todas as chuvas durante anos e anos. Dentro constroem galerias com uma substância preta, que é a celulose das plantas mascada e misturada com qualquer líquido colante que não conheço. O que sei é que aquilo equivale a um maravilhoso material de construção, resistente, elástico, mau condutor do calor, higiênico. Também revelam uma alta ciência na construção das galerias e ninhos e salas e tudo mais. O asseio e a higiene dos cupins era uma das maravilhas que mais assombravam os entomologistas.
— Eu sei o que é entomologista! — berrou Emília. — É o sábio que estuda inseto.
O Doutor Barnes riu-se.
— E também podemos cultivar aqueles fungos de que as formigas se alimentam. Meu Deus! Que é que não poderemos fazer com a nossa inteligência, mergulhados na infinita abundância de materiais que daqui por diante vamos ter à nossa disposição?
— Isso mesmo — concluiu o Visconde. — O Tamanho era o mal. Produzia escassez. É no destamanho que está a abundância.
Aquela história de andar com a Emília em cima da cabeça estava “emiliando” o Visconde. — Destamanho! É boa.
22 – Na Casa Branca
A vida em Pail City era um encanto. Ninguém tinha pressa de nada. Iam construindo coisas por prazer e não por necessidade, como no tempo tamanhudo, em que os homens que não morriam no trabalho morriam de fome e miséria. Aquele jardim imenso dava-lhes de graça tudo quanto era necessário à vida — ar, água, alimento e materiais de construção.
Além do cercado para os besouros haviam construído um parque de recreio onde gozavam a vida nas horas de temperatura agradável. Emília encantou-se com o parque de Pail City, um verdadeiro mimo de plantinhas graciosas. Havia vários cogumelos com assentos embaixo, nos quais as damas de tanga foram sentar-se para emendar e torcer as fibras de algodão que ela lhes dera. Entre um chapéu-de-sapo e outro, Emília viu uma rede com uma estrela de cinema dentro, a balançar-se com uma estrelinha ao colo. Pail City ficava perto de Los Angeles.
Junto ao jardim havia um pomar de laranjeiras. Eles tinham conseguido rolar para ali uma laranja encontrada no chão. Abriram-na. Desfizeram um gomo e levaram para o bar do parque as “garrafinhas” de caldo. Lá estavam elas sobre um balcão de pedregulho. Quem tinha sede, tomava um daqueles pequenos odres transparentes, cortava o bico e bebia à moda dos espanhóis, despejando-o na garganta.
Emília levou várias garrafinhas de laranja para o seu quarto de badulaques na cartola do Visconde.
O Doutor Barnes aproveitou o bom gigante para várias coisas da maior emergência, como a colocação do vidro no rombo do balde. Houve embaraço na escolha da cola. Com que cola colar o vidro? Quem resolveu o problema foi a Emília.
— Dê um passeio pelas ruas da cidade e procure “mascadinhos” de chiclete debaixo dos montes de roupa. Juro que encontrará muitos. Melhor cola não há.
O Visconde assim fez. Saiu do jardim e percorreu a rua próxima, levantando os montes de roupa sem gente dentro — e voltou com um punhado de “mascadinhos” de chiclete.
Os habitantes de Pail City juntaram-se na calçada para assistir ao glorioso acontecimento da colocação do vidro pelo providencial gigante — e o Doutor Barnes inscreveu em seu caderno de pétalas o nome do Visconde de Sabugosa como o grande benfeitor da cidade.
Nada mais tendo a fazer ali, despediram-se. O Doutor Barnes declarou que aquela visita iria permanecer gravada em todos os corações.
Emília sentiu um nó na garganta. Por sua vontade ficaria morando ali para sempre. Uma das consequências do conhecimento de Pail City foi a resolução que ela tomou de “sabotar o Tamanho” no dia do plebiscito, porque entre outras desgraças o Tamanho viria estragar aquele lindo começo de cidade.
Por fim, depois de muitos abraços e beijos, e troca de presentinhos, o Visconde cheirou um grão de superpó e — fiunnn!… Washington.
Foram parar exatamente na rua do palácio onde sempre residiram os presidentes americanos. Tudo deserto, como em toda parte. Montinhos e mais montinhos de roupas, com chapéus em cima, guarda-chuvas, óculos e dentaduras.
Ao entrar no jardim da Casa Branca, o Visconde lembrou-se do Presidente Lincoln, do qual ele havia herdado a cartola. Dona Benta era a maior admiradora desse homem. Dizia sempre: “Depois de Jesus Cristo, o ente que eu mais venero é Abraão Lincoln.”
Com os olhos nas janelas do palácio o Visconde murmurou, como que falando para si mesmo;
— Ali estiveram assentados os dois enormes pés do velho Abe…
— Que história é essa? — gritou Emília da janelinha.
— É um caso histórico que vem nos livros. Um sacerdote tinha vindo em procura do Presidente. Ao entrar neste jardim, viu numa dessas janelas dois pares de pés com as solas para fora. “Que é aquilo?” perguntou ao jardineiro que podava as plantas. “É uma reunião do Ministério”, respondeu o homem. “Os dois pés grandes são os do velho Abe.” Abe era o apelido popular do nome Abraão.
Emília comoveu-se com a história.
Entraram. Todas as portas abertas. Aqui e ali, os eternos montes de roupas que eles estavam cansados de ver por toda parte. Foram andando pelos corredores e salas. Numa, que devia ser a das reuniões do governo, o Visconde parou e espiou, escondido atrás do reposteiro. Sobre o tapete, por entre as roupas em monte, um pequeno grupo de insetos descascados discutia a situação. Era o governo americano. Um dos ministros tinha a palavra.
— O governo já não existe — dizia ele — pela simples razão de que já não existe o que governar. O extraordinário fenômeno que destruiu o tamanho dos homens desta grande nação veio alterar completamente as antigas condições de vida — e impossibilitar a existência do governo. O governo americano, que era o mais poderoso do mundo, está hoje nu, com frio, sem sequer uma tanga para os rins, sem sombra de povo, sem força, sem a menor ideia na cabeça. Quais são hoje os problemas do governo americano? pergunto eu, — e olhou para o Presidente.
— Ele é bom orador, cochichou Emília. Aquilo é discurso.
— Sim — continuou o ministro. — Eu pergunto ao Senhor Presidente quais são os problemas do governo americano? Qual é o problema número um, que devemos abordar antes de todos os outros?
O Presidente respondeu que já haviam decidido aquele ponto. O problema número um do governo americano, o problema que tinha vindo substituir o da luta contra o Japão e a Alemanha, era fechar a janela da sala e manter o fogo da lareira.
— Por enquanto o palácio ainda está aquecido — disse ele — mas logo que as fornalhas do aquecimento lá nos porões se apagarem e as brasas da lareira se extinguirem, estaremos inexoravelmente condenados ao congelamento. Os problemas são esses.
Outro ministro pediu a palavra.
— Meus senhores, acho que não podemos prever coisa nenhuma. A situação é das mais absurdas e ilógicas. Sinto-me completamente incapaz de raciocínio. As observações do Senhor Presidente sobre as brasas, entretanto, parecem-me das mais sensatas. Estamos no inverno. Se as brasas da lareira se apagarem, o governo americano estará perdido. Há também o caso da janela. Como poderemos resistir ao frio, se as brasas se extinguirem e a maldita janela continuar escancarada?
Foi neste momento que o Visconde saiu detrás do reposteiro e adiantou-se para o tapete.
A inesperada aparição daquele formidável gigante deixou os ministros sem fala. Todos os olhos se arregalaram e todas as bocas se abriram.
Emília pediu ao Visconde que a arriasse. O Visconde depôs a cartola-sítio no tapete, perto do governo americano. Emília saiu pela portinha, adiantou-se, apertou a mão do Presidente e disse:
— Não se assuste, pois somos de paz e velhos conhecidos. Tanto eu como Senhor Visconde de Sabugosa já estivemos aqui neste palácio há uns cinco anos, em companhia de Dona Benta e seus netos. Não se recorda, Senhor Presidente? (*) O Presidente franziu a testa. Começou a lembrar-se.
— Sim, lembro-me da visita de Dona Benta e seus netos. Veio também uma bonequinha falante e um milho de cartola. Mas aquele Visconde era um sabugo de pernas e não esse tremendo gigante que agora surge diante de nós.
— Pois fique sabendo que é o mesmo. O Visconde que é um vegetal, não diminuiu como nós, que somos gente — e por isso parece agora um verdadeiro gigante. E eu sou a “evolução genial” daquela bonequinha pernóstica.
— Como?
— Artes do mistério. Fui virando gentinha e gente sou; belisco-me e sinto a dor da carne. E também como. Já o Visconde permaneceu milho. Fala, pensa, raciocina muito bem, sabe todas as coisas, mas não come nem sente dor de beliscão.
* no livro Geografia de Dona Benta.
