Monteiro Lobato

A Chave do Tamanho

Capítulos 23 e 24

 

23 – Ainda lá

         O governo americano não voltava a si do assombro. Aquilo era um milagre ainda maior que o súbito apequenamento. Emília contou o que tinha visto na Europa e na Ásia, o seu encontro com o Grande Ditador e com o Filho do Sol na tampa de caneta; falou da destruição pelo frio dos exércitos em luta na Rússia e depois desfiou toda a história do Doutor Barnes, fundador de Pail City.

         O próprio ministro dos Correios ignorava o nome daquela cidade.

         Emília explicou.

         — Ah, é uma galanteza de cidade nova que está se formando em volta dum balde velho — sem pressa, sem galopes, sem ferro, sem fogo.

         Como as cidades imensas da civilização tamanhuda estão condenadas a desaparecer, invadidas pelo mato, a civilização nova já começou a criar cidades dum tipo novo — e entre as muitas que já devem estar em formação duvido que haja uma melhor que Pail City. Até árvores de guarda-sóis vi lá. Quem precisa de um, não vai a nenhuma loja comprá-lo. Chega à árvore, escolhe um do tamanho desejado e colhe-o.

         Os ministros entreolharam-se. Se a cidade de Washington estava destinada a desaparecer invadida pelo mato, nada mais razoável do que irem admitindo a hipótese da mudança do governo para Pail City, o maravilhoso centro em formação onde até havia pés de guarda-sóis.

         O ministro das Obras Públicas teve uma ideia.

         — Senhor Presidente! A inesperada visita deste formidável e pacífico gigante vem permitir a solução dos dois grandes problemas do governo americano, por que não tenho dúvidas de que ele poderá fechar a janela e também obter lenha para a lareira. Tomo a liberdade de sugerir ao Senhor Presidente uma consulta ao nobre visitante sobre esses dois pontos.

         — Nada mais simples — respondeu Emília. — O Visconde vai fechar a janela e trazer lenha para a lareira — e ainda fará muitíssimas outras coisas preciosas para o governo americano. Duma loja da esquina poderá trazer uma infinidade de materiais utilíssimos, como, por exemplo, algodão para tangas. Acho da mais alta inconveniência que o governo americano ainda não tenha nem tanga — coisa que já está em moda em Pail City e lá na cômoda de Dona Benta. Além de servir para tanga, o algodão, sob forma de chumaço, constitui uma excelente defesa contra o frio — e contou as suas aventuras no tempo do chumaço. E para a alimentação o governo poderá organizar um serviço de minhocas secas.

         — Minhocas? — exclamou o Presidente, refranzindo a testa.

         Emília repetiu as palavras do Doutor Barnes sobre o valor das minhocas como substituto dos velhos bois produtores de carne de vaca.

         — Mas isso é para mais tarde — explicou ela — para quando se acabarem os alimentos comuns ainda existentes nos empórios das esquinas — açúcar, queijo, pão etc. Esses alimentos ainda durarão alguns dias; depois que desaparecerem, estragados pelo bolor ou devorados pela cachorrada e a gataria solta, os senhores poderão pensar nas minhocas. O Doutor Barnes demonstra que vai ser esse o alimento básico da humanidade reduzida.

         A conferência de Emília com o governo americano prolongou-se por uma hora. O ar de desespero dos ministros foi mudando. Mostraram-se mais contentes e felizes. As possibilidades da civilização nova eram realmente encantadoras.

         Enquanto ela falava, o Visconde saiu para buscar o algodão e mais coisas. Apareceu minutos depois com uma cesta de preciosidades — alfinetes, botões, grampos, um carretel de linha, uma lâmina Gillette, uma lanterninha elétrica, carrinhos e outros brinquedos miúdos, um rolo de esparadrapo etc. etc. E dum empório de comestíveis trouxe um pacotinho de açúcar, uma fatia de queijo, um pedacinho de pão e uma garrafa de coca-cola.

         Aquele formidável abastecimento deixou o governo americano em situação de aguentar um mês sem recorrer às minhocas. Em seguida ela mandou o Visconde buscar algumas cestas de povo.

         — Sim, porque não posso compreender um governo do povo, pelo povo e para povo, sem povo nenhum — disse ela. — Vou dar povo ao governo americano.

         O Visconde saiu e com um pauzinho andou catando gente de todas as frestas e buracos que encontrou. Conseguiu assim dotar o governo americano com um lote de povo de 120 cabeças — 60 homens e 60 mulheres.

         Emília aproveitou a ocasião para revelar os seus conhecimentos da história americana.

         — O navio Mayflower — disse ela — despejou neste país um carregamento de 120 peregrinos ingleses, dos quais saiu esta grande república. O Mayflower de agora é a cesta do Visconde. Faço votos para que o governo americano consiga realizar com os 120 peregrinos do Visconde os mesmos milagres realizados com os peregrinos do Mayflower.

         Os ministros estavam encantados com as geniais soluções da Emília e do gigante. Cochicharam entre si; um adiantou-se e disse:

         — Estou autorizado pelo Presidente a propor ao Senhor Visconde de Sabugosa um grande negócio: ficar aqui a serviço do governo americano. Não discutimos preço. O Senhor Sabugosa ganhará quantos dólares quiser.

         Esse ministro ainda não se acostumara com a Ordem Nova. Ainda estava com as ideias velhas na cabeça. Dólares! Tinha graça. Emília riu-se.

         — De que valem dólares, senhor ministro? Tudo está mudado. Aquele ouro que antigamente era de tanto valor, vale agora menos que um chumacinho de algodão. O Visconde ficaria aqui com o maior prazer, se não fosse tão necessário na cômoda de Dona Benta. Mas podemos fazer um arranjo. Todas as semanas ele virá, por uma hora ou duas fazer os serviços do governo americano. E se houver trabalhos que exijam grande força física poderei mandar também o Conselheiro e o Quindim.

         Ninguém sabia que personagens eram aqueles. Emília explicou.

         — O Conselheiro é o nosso burro falante, criatura excelente, o mais discreto pensador que temos daquelas bandas. E Quindim é um verdadeiro tanque de carne.

         — Tanque de carne? — repetiu o Presidente.

         — Sim. Trata-se dum rinoceronte mansíssimo e fortíssimo, que mora no Picapau Amarelo. Para fazer força bruta, não há segundo. Com uma chifrada arromba até a porta do Tesouro.

         Aquela história do Quindim e do burro falante atrapalhou o governo.

         — Sim — continuou Emília — lendo na cara de todos a atrapalhação. Quindim é um assombro no transporte. Poderá sem o menor esforço conduzir no lombo vinte mil insetos descascados. Se o governo americano pilhar esse veículo, estará servido pelo resto da vida. Quem não obedecerá a um governo dotado de um rinoceronte?

         A hipótese entusiasmou o ministro da Guerra. Um tanque de carne! Que maravilha!

         — Bom — disse Emília por fim. — Tenho de voltar para a cômoda a fim de realizar o plebiscito. Agradeço ao governo americano a boa acolhida com que nos recebeu. Tomo a liberdade de oferecer ao Senhor Presidente uma pitadinha de superpó. Quando quiser repousar das canseiras do governo, aspire três grãos e apareça no Picapau Amarelo.

         — É então como o tapete mágico das “Mil e Uma Noites”? — perguntou o Presidente.

         — Ah, muito melhor! Aquele tapete é um carro de boi perto disto. Agora, por exemplo, para voltarmos ao Picapau, bastam-nos três grãos apenas. Para irmos à Casa das Chaves são precisos seis grãos — mas também aquilo lá deve ser o fim do mundo.

         — Que história de Casa das Chaves é essa?

         Emília suspirou.

         — Um segredo que não posso revelar, Senhor Presidente.

         — Por quê?

         — Porque eu correria o risco de ser linchada.

         No momento das despedidas o governo americano até perdeu a fala de tanta emoção. De que modo agradecer os serviços que Emília e o Visconde haviam prestado?

         — Não fale, Senhor Presidente! — disse Emília entrando na cartola e plantando-se na janelinha. — As grandes gratidões são mudas. Seja feliz e goze do apequenamento, porque se o plebiscito decidir que dê o Elefante, eu sentirei muito, mas farei que saia o Elefante.

         A cara de todos era um verdadeiro ponto de interrogação. Aqueles homens de Estado cada vez entendiam menos.

         — Dar o Elefante, Senhor Presidente, quer dizer dar o Tamanho. Mas quem vai decidir esse ponto é lá o Plebiscito em cima da cômoda. Sou democrática. Não resolvo nada sem a contagem dos narizes. Good bye! Good bye!

         Todos ficaram na mesma. O Visconde tirou do bolso a caixinha do superpó, deu meio grão a Emília e reservou três para si. Ambos aspiraram o pó ao mesmo tempo, enquanto diziam mentalmente: “Sítio.”

 

24 – O plebiscito

         Fiunnn…n…n…n…n… Plaft! O Visconde caiu sentado na varanda do Pica-pau Amarelo. O Conselheiro rinchou de alegria e veio num trote muito delicado.

         — Não houve nada de mais por aqui? — perguntou Emília pela boca do seu alto-falante.

         — O pinto sura andou querendo entrar, mas toquei-o — respondeu o burro.

         — E Rabicó?

         — Esse não apareceu.

         O Visconde encaminhou-se para o quarto da cômoda. Ao verem-no surgir, soou lá em cima o Ale guá da criançada de tanga. Todos correram a rodear a cartola que o Visconde depôs sobre a cômoda. Emília apareceu na portinha, de mãos à cintura. Cada qual tinha uma coisa a dizer. Juquinha veio com a história da mosca que ele e Pedrinho quase agarraram pelas pernas. “Era das rajadas.”

         Emília dirigiu-se para a caixa de fósforos de Dona Benta, seguida dos meninos. Estava ansiosa por contar as façanhas da viagem pelo mundo.

         — Ah, eu queria que a senhora visse a cara do Presidente quando o Visconde saiu de trás do reposteiro e entrou! Não havia meio de crer que o viscondão de agora era o mesmo viscondinho de antigamente.

         A história de Pail City encantou Pedrinho, o qual insistiu em descer da cômoda para imediatamente fundar no jardim uma cidade como aquela — a Cidade do Regador.

         Tia Nastácia indignou-se com a carne seca de minhoca.

         — Credo! Viver tantos anos para acabar assim, comendo minhoca seca e ainda mais sem sal!

         — E o Coronel? — perguntou Emília.

         — Está escondido por aí, vestindo a tanga de algodão que eu fiz — respondeu a negra. — Aquela roupa de angélica tinha um cheiro tão forte que até dava dor de cabeça no coitado.

         O Coronel apareceu lá de trás da cestinha de costura, ainda amarrando a sua tanga nova. Foi recebido com as palmas da criançada.

         — E quando vai ser o plebiscito, Emília? — perguntou Narizinho.

         — Agora. Apressei minha viagem de regresso justamente por causa do plebiscito. Sou democrática. Quero que as coisas sejam feitas segundo a vontade da maioria. Se a maioria quiser a volta do Tamanho, eu sentirei muito, mas farei voltar o Tamanho. Levo o Visconde à Casa das Chaves e ele põe a Chave do Tamanho na posição em que estava.

         — Pois então comece.

         Emília fez o Visconde colocá-la no alto da cartola e de lá, debaixo do chapéu-de-sapo, gritou:

         — Plebiscito! Plebiscito! Aproximem-se todos para votar.

         Todos rodearam a cartola.

         — Quem quiser a volta do Tamanho, levante a mão.

         Os adultos ali presentes levantaram a mão. Eram conservadores, com ideias emperradas na cabeça e preferiam que tudo voltasse a ser como antigamente. Emília contou os votos. Dona Benta, tia Nastácia, o Coronel.

         — Três votos tamanhudos.

         — E agora — continuou Emília — quem não quiser o Tamanho, levante o pé!

         A criançada inteira levantou o pé. Eram radicais. Não tinham ideias emperradas na cabeça. Gostavam de mudanças. Emília contou os votos.

         Narizinho, Pedrinho e Juquinha. Três votos destamanhudos.

         — Empatou! Empatou! Viva! Viva!…

         — Falta o voto da Candoca — disse Narizinho; mas Emília, que tinha medo do voto da Candoca, porque as saudades da mamãe podiam fazê-la votar a favor do Tamanho, declarou logo:

         — A Candoca ainda não tem idade para votar. Empatou! E agora, com os “meus” votos, o Tamanho perde.

         Os “meus” eram o dela e do Visconde. Mas Dona Benta reclamou:

         — Falta a votação do terreiro.

         Era verdade. Faltavam os votos do Burro Falante, do Quindim, da Môcha e do Rabicó. Emília mandou que o Visconde pusesse a cartola e lá foi para o terreiro. Depois de contar a história do plebiscito ao Burro Falante, pediu-lhe o voto.

         — Eu voto pelo Tamanho — respondeu com firmeza o burro, sem piscar as orelhas.

         Emília danou.

         — Por quê?

         O Conselheiro explicou que não podia conformar-se com a ideia duma senhora tão distinta como Dona Benta ficar toda a vida naquela situaçãozinha de inseto descascado. A gratidão mandava-o votar pela volta do Tamanho.

         — Bom. Se é por gratidão, passa. Vamos agora ver aquele dorminhoco do Quindim.

         O rinoceronte, lá embaixo da figueira, votou em branco e não deu satisfações. Quindim andava muito antipático e neurastênico.

         A vaca Mocha também votou pelo Tamanho, o que era natural, pois sem uma tia Nastácia grande ela não teria mais as suas rações de espigas de milho do costume.

         — E Rabicó? — perguntou Emília.

         — Está ausente — respondeu o burro.

         — Não faz mal. Conheço Rabicó, sei que ele é contra o Tamanho — e Emília apossou-se do voto de Rabicó. Mesmo assim o Tamanho estava ganhando. Havia 5 votos a favor do Tamanho e só 4 contra. Mas com os dois votos finais, o dela e o do Visconde, o Tamanho seria derrotado por um.

         Emília voltou para a cômoda muito contente. Em seu rostinho brilhava o sorriso da vitória.

         — Os votos do terreiro — disse ela — aumentaram a contagem a favor do Tamanho, mas há ainda os nossos, o meu voto e o do Visconde, e nós votamos contra o Tamanho. Temos assim 6 votos contra e 5 a favor. O Tamanho perdeu. Viva, viva a criançada!

         Dona Benta interveio.

         — Como o Visconde se acha presente — disse ela — não vejo razão para que outra pessoa vote por ele. Qual é o seu voto, Visconde?

         Emília estava mais que certa de que o voto do Visconde iria ser igual ao seu, não só porque o Visconde era uma propriedade sua, um verdadeiro escravo, como porque, depois do apequenamento, ele se tornara um gigante gigantesco e, pois, muito mais importante que o pobre sabugo de pernas que sempre fora. Mas enganou-se.

         O Visconde andava com medo das suas tremendas responsabilidades novas, e cansado de ser dirigido daqui para ali pela Emília, e sujeito até a ser emprestado a governos como se fosse um guarda-chuva. Ah, muito melhor a sua pacata vida de antigamente, em que era pequeno entre os grandes. Muito melhor a vida calma de modesto sabugo de perninhas do que a vida agitada de maior gigante do mundo. Além disso, aquela “fazenda” em sua cartola já lhe andava dando dores de cabeça. Começara uma simples janelinha na cartola. Depois vieram a porta, as sacadas, a plantação de musgos e chapéus-de-sapo, e os órfãos, e os besouros do Juquinha, e aquilo fora virando quarto de badulaques e museu.

         Emília levava para lá quanta coisa curiosa descobria pelo caminho — moscas secas, caquinhos de louça, ovos de borboletas e até corações e rins secos de minhocas, lá da charqueada de Pail City. Era demais. E o Visconde não tinha dúvida nenhuma quanto aos “melhoramentos” que ela acabaria introduzindo em sua cartola — até uma lareira como aquela da Casa Branca, com grande perigo de incêndio em sua cabeça. O melhor era dar um golpe de morte na Nova Ordem. E foi assim que, quando Dona Benta lhe perguntou qual era o seu voto, o Visconde respondeu intrepidamente:

         — Voto pelo Tamanho!

         — Miserável! — berrou Emília, e em seu desespero caiu do alto da cartola, machucando o nariz. A criançada também protestou:

         — O voto dele não vale! Ele é milho! Milho não vota!

         Dona Benta, porém, manteve o voto decisivo do Visconde. Vendo que não havia remédio senão conformar-se com a opinião do maior número, Emília fungou, fungou e, com a mais nobre humildade — grande exemplo para todos os ditadores do mundo — disse para o Visconde:

         — Pois vamos para a Casa das Chaves, macaco!

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