A propósito da tradução de Medéia…

A propósito da tradução de Medéia, de Eurípides…

Comentários sobre tradução de textos clássicos.

Primeira reflexão: Todas as tragédias gregas são em versos. Não há rimas mas as frases apresentam ritmos ordenados (sequência de repetições de sílabas fortes e fracas). Os versos variam no número de sílabas e nas diferenças de ritmos, conforme sejam falas, falas com fundo musical, solos, corais; os corais variam conforme a emoção do texto cantado.

Segunda reflexão: De acordo com as características de cada língua, uma mesma idéia pode ser representada por frases curtas ou longas. Sabe-se que línguas que abusam das preposições apresentam textos mais longos do que aquelas línguas sintéticas, com declinações. Uma mesma frase varia, pois, em tamanho, de língua para língua. A língua inglesa, por exemplo, apesar de fazer uso de preposições, tem grande quantidade de vocábulos curtos, o que resulta em textos de frases curtas. (Há uma frase que, de brincadeira, é citada aos iniciantes no estudo da língua, para mostrar exatamente o contrário: Era uma vez um velhinho… Once upon a time, there was a litlle old man…)

Terceira reflexão: Esta diferença entre as características das línguas é um grande desafio para quem pretende traduzir, versificando, um texto em versos. A estrutura de um texto versificado acaba sendo uma jaula com medidas rígidas, onde devem ser ajustados a idéia, o número de sílabas, o ritmo e – mais modernamente – a rima.

Quarta reflexão: Esta dificuldade é resolvida de duas maneiras: 1. abandona-se a estrutura original em versos, assumindo-se a prosa; é um voo livre em direção à fidelidade. 2. aceita-se a jaula, ajustando dentro dela os elementos que compõem o texto, novamente, a idéia, o número de sílabas, o ritmo e a rima.

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GIL VICENTE 32. COMÉDIA  SOBRE A DIVISA DA CIDADE DE COIMBRA (1527)

celiponcio

Resumo:

Um Peregrino anuncia que a peça vai explicar fatos sobre Coimbra e o seu brasão, que apresenta uma Serpente, um Leão e uma Princesa saindo de um cálice. Um nobre está na serra, vivendo como pastor. A conselho de um Ermitão, seus filhos gêmeos Celiponcio e Liberata, saem para viver de caça. E o Ermitão se dá a conhecer: É o Rei Ceridon; um selvagem chamado Monderigon escravizou seu filho e sua filha Colimena (Coimbra) com quatro damas. Estando só, Liberata canta. O selvagem a ouve e se apaixona. Volta da caça o irmão Celiponcio e conta que encontrou uma serpente e um leão e que estes ficaram seus amigos. Monderigon, o selvagem, quer levar Liberata. Ela o repele e ele ameaça o irmão. Este, ajudado pela serpente e o leão, vem a matar Monderigon. Os prisioneiros são liberados. As damas explicam algumas linhagens da cidade de Coimbra, cujas familias possuem sobrenomes como Castro, Silva, Souza, Pereira e outros.

… Liberata (este trecho de canção tem o número GV084 e aparece em Dom Duardos)

Soledad tengo de ti,
O tierras donde naci.

(canta Graciano Santos)

 

Comentário:

Esta peça foi apresentada ao rei D. João III em Coimbra, estando a corte nesta cidade para fugir da peste que grassava em Lisboa. Típica comédia palaciana, nobres disfarçados, prisioneiros de um selvagem, animais simbólicos que se tornam amigos do protagonista.
Para explicar através de um drama as figuras do brasão, Gil Vicente faz uma curiosa junção de lendas, heráldica e alguns nomes que envolvem a cidade de Coimbra. Interessante observar que o autor não se preocupou com a tradição. Segundo algumas lendas, a figura feminina que surge no brasão, seria a filha de um rei bárbaro, Ataces, em cuja bandeira figurava um leão dourado. Com seus soldados, ele destruiu a cidade de Conimbriga, cujo rei era Hermenerico e em cujo emblema havia uma serpente. Hermenerico fundou uma nova cidade às margens do Mondego. Ataces resolveu vingar-se e novamente venceu a guerra. Para celebrar um tratado de paz, o rei vencido concedeu ao vencedor a mão de sua filha, Cindazunda. O brasão da cidade juntou os emblemas dos dois brasões, incluindo a figura da princesa saindo de um cálice.
Gil Vicente criou sua própria narrativa. Muitas das explicações são fantasiosas, outras apenas cômicas. É mencionado que na sala onde se faz a apresentação morreu Inês de Castro.