Monteiro Lobato

Histórias de Tia Nastácia

 Capítulos 15, 16, 17, 18, 19 e 20

 

15 – A formiga e a neve

         Uma vez uma formiga, que andava pelos campos, ficou com as perninhas presas na neve.

         — Ó neve valente que meus pés prende! — exclamou a formiga, e a neve respondeu:

         — Sou valente mas o sol me derrete.

         A formiga voltou-se para o sol:

         — Ó sol valente que derrete a neve que meus pés prende! — e o sol respondeu:

         — Sou valente mas a nuvem me esconde.

         A formiga voltou-se para a nuvem:

         — Ó nuvem valente que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende! — e a nuvem respondeu:

         — Sou valente mas o vento me desmancha.

         A formiga voltou-se para o vento:

         — Ó vento valente que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende! — e o vento respondeu:

         — Sou valente mas a parede me para.

        A formiga voltou-se para a parede:

         — Ó parede valente que para o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende! — e a parede respondeu:

         — Sou valente mas o rato me fura.

         A formiga voltou-se para o rato:

         — Ó rato valente que fura a parede que para o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende! — e o rato respondeu :

          — Sou valente mas o gato me come.

         A formiga voltou-se para o gato:

         — Ó gato valente que come o rato que fura a parede que para o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende! — e o gato respondeu:

         — Sou valente mas o cachorro me pega.

         A formiga voltou-se para o cachorro:

         — Ó cachorro valente que pega o gato que come o rato que fura a parede que para o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende! — e o cachorro respondeu :

         — Sou valente mas a onça me devora.

        A formiga voltou-se para a onça:

         — Ó onça valente que devora o cachorro que pega o gato que come o rato que fura a parede que para o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende! — e a onça respondeu:

         — Sou valente mas o homem me caça.

         A formiga voltou-se para o homem:

         — Ó homem valente que caça a onça que devora o cachorro que pega o gato que come o rato que fura a parede que para o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende! — e o homem respondeu:

         — Sou valente mas Deus pode comigo.

          A formiga voltou-se para Deus:

         — Ó Deus valente que pode com o homem que caça a onça que devora o cachorro que pega o gato que come o rato que fura a parede que para o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende!

         Deus respondeu:

          — Formiguinha, acaba com essa história e vai furtar.

         É por isso que a formiga vive sempre na maior atividade, furtando, furtando.

        

          — Ora até que enfim ouvi uma história que merece grau dez! — gritou Emília. — Está muito bem arranjada, e sem rei dentro, nem príncipes, nem olho furado, nem burro bravo. Ótima! Meus parabéns a tia Nastácia.

          — Também gostei bastante — disse Narizinho. — Só que não concordo com o fim. A formiga não furta. As coisas que há no mundo são tão dela como nossas e de todos os outros animais. Por que considerar gatuninha a formiga?

          Dona Benta explicou:

          — A gente vê aí o dedo das contadeiras de histórias. São em geral donas de casa, ou amas, ou cozinheiras, criaturas para as quais as formigas não passam dumas gatuninhas, porque vivem invadindo as prateleiras e guarda-comidas para furtar açúcar. Se fosse escrita por um filósofo, a história não teria esse fim, porque os filósofos nem sabem que há guarda-comidas no mundo. Só enxergam o céu, as

estrelas, as leis naturais, etc. Mas as tias Nastácias sabem muito bem das formiguinhas que furtam açúcar.

          — E é mesmo, sinhá — confirmou a preta. — Outro dia esqueci de tampar a terrina de doce de laranja, e quando foi de manhã estava pretinha de formigas. As bobas se deixam grudar na calda e morrem afogadas. Bem feito! Quem manda serem gatuninhas?

          — Então você também é gatuna — disse Emília — porque furta as laranjas da laranjeira para fazer doce.

          — Mas a laranjeira é da gente, Emília, é da casa, é ali de dona Benta. Quem tira o que é seu não furta.

          — E onde está a escritura da Natureza que deu a laranjeira a dona Benta? — gritou Emília pregando um soco na mesa.

 

16 – João Esperto

         Havia um casal muito pobre, que tinha um filho de nome João, bastante espertinho; mas apesar disso sua mãe, mulher de beiço rachado e muito má, não gostava dele. João vivia só, sem ter com quem brincar. Seu único amigo era uma cachorrinha que sua avó lhe dera — a Pita.

         Quando ficou moço, João saiu um dia a passear longe de casa. Pelo caminho encontrou um viajante com quem puxou prosa. Soube que no reino das Três Princesas, que era perto, ia haver o casamento de uma das moças. Para isso estava o rei dando uma festa de quinze dias, a fim de que os pretendentes à mão da princesa lhe propusessem uma adivinhação. Se ela adivinhasse, o pretendente ia para a forca; mas se não adivinhasse, então o felizardo se casaria com ela. Nas forcas já estavam pendurados diversos pretendentes que apareceram com adivinhações que a princesa adivinhou num instantinho.

         João ouviu tudo aquilo e ficou a pensar. Quem sabe se ele venceria a princesa e se casaria com ela? Voltou para casa com um plano na cabeça.

         — Meu pai, quero sair pelo mundo para ganhar a vida.

         O pai consentiu, mas a mãe, que era a pior bisca das redondezas, preparou-lhe uma peça: deu-lhe um pão envenenado, imaginem! João arrumou a trouxa e partiu acompanhado da cachorrinha.

         Mas onde era o caminho para o reino das Três Princesas? Não sabia.

         Nem havia por ali ninguém que pudesse informá-lo. João foi andando ao acaso, com a trouxinha ao ombro. Subiu uma montanha, desceu do outro lado, numa campina, onde pousou.

         No dia seguinte continuou a caminhar até onde havia um grande rio.

         Ficou à margem olhando para a água. Viu um burro morto, de barriga inchada, que vinha descendo rio abaixo. Em cima dele uma porção de urubus. Botou reparo naquilo e continuou a viagem.

         Quando caiu a tarde João sentou-se debaixo duma figueira para jantar o pão que sua mãe lhe dera, mas qualquer coisa lhe disse que o não comesse antes de fazer uma prova com a cachorrinha — e ele deu a ela um pedaço do pão. Foi tiro e queda. Assim que a pobre Pita engoliu o primeiro bocado, tremeu e morreu.

         João ficou muito triste da maldade de sua mãe, e também por ter perdido sua única amiguinha. Enterrou-a. Mas vieram três urubus que a desenterraram e a comeram — e também morreram. Imaginem que veneno forte a peste da mulher tinha inventado!

         João botou às costas os urubus mortos e seguiu caminho. Chegou a uma estalagem onde não havia ninguém. Entrou. Lá nos fundos viu sete homens armados de espingardas, todos a morrerem de fome. Dando com o novo hóspede que entrava com aquelas aves negras ao ombro, os famintos avançaram e tomaram-lhe os urubus. Devoraram-nos — e morreram.

         João escolheu a melhor das sete espingardas e lá se foi pelo caminho afora. Saiu numa extensa campina onde se sentou debaixo dum pé de árvore. Seu estômago dava torcidas medonhas, tanta era a fome. De repente viu uma perdiz mexer-se no capim. Disparou um tiro. Errou. O chumbo foi acertar numa rolinha que ele não tinha visto. Para quem erra perdiz, rolinha serve.

         João depenou a rolinha — mas não viu lenha para fazer fogo. Olhou. Havia perto uma cruz muito velha. Foi lá, tirou umas lascas, fez fogo, assou a rolinha e comeu-a. E água? Como obter água para matar a sede?

         Teve uma ideia. Montou num cavalo que andava pastando por ali e o fez galopar até que suasse em bicas; recolheu o suor e bebeu. E assim, matada a fome e a sede, pôde continuar a viagem.

         Pouco adiante encontrou uma caveira em que um enxame de maribondos havia feito colmeia. Viu também um burro amarrado a uma árvore, a escarvar o chão com o pé. Indo investigar o que havia naquele chão, encontrou uma botija de dinheiro. Pôs-se novamente a caminho e afinal avistou o reino das Três Princesas. Tinha chegado.

         Indagou das festas. “Tudo corre bem, informou-lhe um sujeito, mas não aparece pretendente nenhum com adivinhação que a princesa não adivinhe. As forcas estão engordando.”

         João dirigiu-se ao palácio, onde declarou ao porteiro que era pretendente à mão da princesa adivinhadeira.

         O porteiro mandou-o entrar, mas todos riram-se daquele pobre diabo com cara de matuto, mal vestido, de trouxinha às costas.

         — Suma-se daqui, moço, se tem amor à vida. Rapazes dos mais distintos já falharam, e estão neste momento com as línguas de fora, nas forcas. Se é lá possível que um bobo como você consiga inventar uma adivinhação que a melhor adivinhadeira do mundo não adivinhe! Suma-se, enquanto é tempo.

         João, porém, tanto insistiu que foi levado à presença do rei.

         — Sabes que arriscas a vida? — disse o rei.

         João declarou que sim, mas que estava disposto a tudo.

         — Bem — exclamou o rei. — Nesse caso, apresente a sua adivinhação — e chamou a princesa.

         João foi e falou assim:

         Sai de casa com massa e pita;

         a massa matou pita,

         a pita matou três,

         os três mataram sete

         e das sete escolhi a melhor.

         Atirei no que vi

         e matei o que não vi.

         Com madeira santa

         assei e comi,

         bebi água sem ser do céu;

         vi o morto carregando os vivos

         e o burro sabendo

         o que os homens não sabem.

         Resolva agora, princesa,

         ou me dê cá sua mãozinha.

         A princesa pensou, pensou e não foi capaz de adivinhar. Pediu-lhe que repetisse a história. João repetiu-a três vezes, e a moça nada. Por fim, já com dor de cabeça, confessou ao rei:

         — Impossível, meu pai. Esta eu não adivinho.

         — Pois então abrace e beije o seu noivo — respondeu o rei.

         E mandou que preparassem o reino para o grande casamento.

        

          — Gostei, gostei! — exclamou Emília. — Não tem nada de boba essa historinha. É uma luta de esperteza contra esperteza, em que o mais esperto saiu ganhando. Pedrinho sabe o que isto significa em linguagem científica. Diga lá, Pedrinho.

          E o menino, que era um darwinista levado da breca, veio logo com a sua cienciazinha.

          — Isso significa a vitória do mais apto. O mais apto é o mais esperto.

          — A história que vocês acabam de ouvir — disse dona Benta — pertence ao tipo das engenhosas. Reparem que está muito engenhosamente arranjada. Na adivinhação o matuto começa falando em massa e pita — massa é pão, e Pita, o nome da cachorrinha; e vai por ai além, contando toda a sua viagem em termos simbólicos.

          — Então símbolo é isso? — perguntou Narizinho.

          — Símbolo é palavra grega, com significado de sinal que indica uma coisa. Tudo na língua são símbolos. Todas as palavras são símbolos. A palavra “Emília”, por exemplo, que é senão um símbolo da criaturinha mais pernóstica e sabida destas redondezas?

          — Destas redondezas só? — protestou Emília. — Da redondeza da terra, isso sim, porque outra como eu ainda está para nascer…

          Dona Benta piscou para tia Nastácia, como quem diz: “Já se viu como está ficando vaidosa?”

 

17 – O caçula

         Havia um homem com três filhos: João, o mais velho; Manuel, o do meio: e José, o caçula. Um dia os dois mais velhos se revoltaram contra o pai e fugiram de casa. O caçula foi e disse: “Não se amofine, meu pai; sairei pelo mundo em busca de meus irmãos.”

         E saiu. Foi andando, andando, até que chegou à casa duma velha.

         — Que anda fazendo aqui por estas alturas, menino? — perguntou a velha.

         — Saí a correr mundo, em procura de dois irmãos fugidos de casa.

         — Pois vou te ajudar, menino, disse a velha. Entras e dormes aqui. Amanhã conversaremos.

         No outro dia a velha disse:

         — O que tens de fazer é o seguinte. Irás ao reino das Três Pombas, porque é lá que se acham os teus irmãos. Encontrarás a cidade num grande rebuliço de festas, porque o rei vai escolher o desencantador das três pombas que estão no fundo do mar. Dou-te esta varinha de condão, toma-a. E também esta esponja. Mas muito cuidado para que ninguém te veja com estes objetos, porque vai acontecer o seguinte: teus próprios irmãos vão caluniar-te perante o rei, dizendo que te gabas de seres capaz de descer ao fundo do mar, quebrar uma pedra que há lá e desencantar as três pombas, que são três princesas.

         Bem. O rei vai te chamar à sua presença e te perguntará se isso é verdade. Responderás que é mentira, mas que és capaz de fazer o desencantamento. E então irás para a praia do mar e lançarás na água a esponja: a esponja irá flutuando e tu a acompanharás a nado até encontrares uma pedra. Baterás nessa pedra com a varinha de condão; a pedra se abrirá e aparecerá uma serpente. Baterás na serpente e a serpente adormecerá. Entrarás pela rachadura da pedra e encontrarás bem no fundo uma caixa, dentro da qual existe um ovo. É um ovo de três gemas. Quebrarás esse ovo e darás a clara à serpente. Feito isso, os teus trabalhos estarão terminados.

         As três gemas são as três princesas.

         A velha abençoou-o e José se dirigiu para o reino das Três Pombas. Encontrou o reino das Três Pombas. Encontrou o palácio em grandes festas e também viu seus irmãos. Falou com eles, mas os malvados fingiram não conhecê-lo — e foram intrigá-lo com o rei, dizendo que havia aparecido um grande gabola com prosa de que era capaz de desencantar as princesas.

         O rei chamou José à sua presença e interpelou-o.

         — Saiba Vossa Majestade que é mentira, mas apesar disso estou pronto para desencantar as princesas.

         O rei ficou admiradíssimo da segurança com que o rapazinho afirmava tal coisa, e mandou que lhe pusessem um navio à disposição. José respondeu que não era preciso — que iria a nado, e o rei riu-se, porque era o absurdo dos absurdos.

         No dia seguinte foi José à praia do mar e lançou à água a esponja, que não afundava como fazem todas as esponjas. E a esponja foi indo em certa direção e ele atrás, nadando, até que chegou à pedra. Tirou a varinha da cintura e bateu. A pedra abriu-se e apareceu a serpente. José bateu na serpente e a serpente adormeceu. Entrou então pela rachadura da pedra e descobriu a caixa. Abriu-a e tirou o ovo. Partiu o ovo; deitou a clara na boca da serpente e recolheu as gemas no chapéu. Feito isso, lançou-se de novo no mar e veio nadando até à praia.

         Quando chegou, bateu com a varinha nas gemas, que se  transformaram nas três moças mais bonitas do mundo.

         Foi um grande assombro no reino, mas os maus irmãos levantaram outro aleive contra José, dizendo que ele andava se gabando de ser capaz de trazer até a serpente. O rei perguntou-lhe se era verdade. “É mentira, mas sou capaz de trazer a serpente” — e lançando-se ao mar foi à pedra e trouxe a serpente.

         Os maus irmãos tentaram levantar um terceiro aleive, mas desta vez José danou com a maldade deles e com a burrice do rei — e, dando-lhes umas varadas, adormeceu-os.

         Quando o rei voltou a si, não quis mais saber de histórias. Casou José com a mais bonita das três princesas e mandou expulsar do reino os maus irmãos. E acabou-se o caso.

 

          — Bom — disse Emília — esta história é das tais de virar. Eu já tive comigo a varinha de condão que Cinderela esqueceu cá no sítio, no tempo daquela festa, e brinquei de virar uma coisa noutra até não poder mais. É facílimo e não há mérito nenhum nisso. Prefiro as histórias em que o freguês vence à custa de esperteza, isto é, de inteligência. Com varinha mágica tudo se torna extremamente simples.

          — Também acho bastante boba esta história — disse Narizinho — além de que há muita repetição de coisas de outras. Os tais três irmãos, o tal do mais novo sair pelo mundo, a eterna velha, o tal reino das Três Pombas, os tais três aleives — tudo três, três, três. Isso até cansa. E os nomes? Não há história em que não apareça um João. Agora variou um pouco e veio um José…

          — Eu, o que mais me admiro — disse Pedrinho — é a burrice desses reis, pais de três princesas. Nesta história, por exemplo, houve o primeiro aleive dos maus irmãos, mas José deu conta do recado muito bem, indo à pedra e desencantando a princesa. Que mais queria o rei? No entanto o palerma novamente deu ouvidos aos dois perversos que vieram com o segundo aleive. Isso nem é ser rei; é ser camelo.

          — O negócio dos três — disse Emília — é coisa que só serve para maçar as crianças. O contador faz isso para espichar a história. Bem se vê que quem as inventa é gente do povo, de pouca imaginação e cultura.

          — Bom — disse dona Benta. — O que estou observando é que as crianças de hoje são muito mais exigentes do que as antigas. Eu, quando era pequenina, ficava deslumbrada quando ouvia histórias como esta. Hoje está tudo diferente. Em vez de meus netos deslumbrarem–se, metem-se a criticar, como se fossem uns sabiozinhos da Grécia…

          Emília ficou muito admirada de saber que dona Benta já havia sido criança.

          — Mas então a senhora também já foi criança, das pequenininhas? — perguntou.

          — Está claro, Emília. Que pergunta!

          — E tia Nastácia também?… Que interessante! Está aí uma coisa que nunca me passou pela cabeça.

          E ficou pensativa, imaginando como seriam as duas velhas quando criancinhas.

 

18 – A cumbuca de ouro

          Eram dois vizinhos, um rico e outro pobre, que viviam turrando. O gosto do rico era pregar peças no pobre.

         Certa vez o pobre foi à casa do rico propor um negócio. Queria que ele lhe arrendasse um pedaço de terra que servisse para a plantação duma roça de milho. O rico imediatamente pensou num pedaço de terra que não valia coisa nenhuma, tão ruim que nem formiga dava. Fez-se o negócio.

         O pobre voltou para sua choupana e foi com sua mulher ver a tal terra. Lá chegados, descobriram uma cumbuca.

         — Chi, mulher, esta cumbuca está cheia de moedas, venha ver!

         — E de ouro! — disse a mulher. — Estamos arrumados!…

         — Não — disse o marido, que era homem de muita honestidade.       — A cumbuca não está em terra minha e portanto não me pertence. Meu dever é dar conta de tudo ao dono da propriedade.

         E foi ter com o rico, ao qual contou tudo.

         — Bem — disse este — nesse caso desmancho o negócio feito. Não posso arrendar terras que dão cumbucas de ouro.

         O pobre voltou para sua choupana, e o rico foi correndo tomar posse da grande riqueza. Mas quando chegou lá só viu uma coisa: uma cumbuca cheia de vespas das mais terríveis.

         — Ahn! — exclamou. — Aquele patife quis mangar comigo, mas vou pregar-lhe uma boa peça.

         Botou a cumbuca de vespas num saco e encaminhou-se para a choupana do pobre.

         — Ó compadre, feche a porta e deixe só meia janela aberta. Tenho um lindo presente para você.

         O pobre fechou a porta, deixando só meia janela aberta. O rico, então, jogou lá dentro a cumbuca de vespas.

         — Aí tem compadre, a cumbuca de moedas que você achou em minhas terras. Regale-se com o grande tesouro — e ficou a rir de não poder mais.

         Mas assim que a cumbuca caiu no chão, as vespas se transformaram em moedas de ouro, que rolaram.

         Lá de fora o rico ouviu o barulhinho e desconfiou. E disse:

         — Compadre, abra a porta, quero ver uma coisa.

         Mas o pobre respondeu:

         — Não caia nessa. Estou aqui que nem sei o que fazer com tantas vespas em cima. Não quero que elas ferrem o meu bom vizinho. Fuja, compadre!…

         E foi assim que o pobre ficou rico e o rico ficou ridículo.

 

          — E esta, Emília, que acha? — perguntou Narizinho.

          — Menos má — respondeu Emília. — Pelo menos não tem rei bobo, pai de três princesas encantadas.

          Dona Benta disse:

          — Esta história pertence ao grupo das em que o povo põe em contraste o pobre e o rico. Em todas as histórias desse gênero o rico é sempre homem mau e sem coração e o pobre bom. Vira, mexe, o pobre sai ganhando e o rico fica ridículo.

          — Ridículo! — repetiu Narizinho. — Já notei que o povo tem um ditado assim: “Quanto mais rico, mais ridico.”

          — O povo — explicou dona Benta — emprega a palavra ridículo com a significação de miserável, avarento. Mas entre os sabedores da língua a palavra ridículo quer dizer o que desperta riso. “Uma situação ridícula”, quer dizer uma situação que nos faz rir — como aquela do Elias da venda, quando foi pular a cerca de arame farpado e ficou preso pelos fundilhos da calça.

          — Mas no povo — disse Pedrinho — ridículo quer dizer só uma coisa: pão-duro. Isso já notei. Da última vez que fui à vila estava a molecada atrás do Manei Agudo, gritando: “Pão-duro! Pão-duro!” E perguntando eu a um deles por que faziam aquilo ao coitado, o moleque respondeu: “Ah, então não sabe que esse portuga é o velho mais ridículo do mundo? Da casa dele não sai nem uma cuia d’água.”

          — E é ridico mesmo — ajuntou tia Nastácia. — Pobre que bate lá, pedindo esmola, só ouve uma coisa: “Deus o favoreça, irmão!” E ele tem uma barrica de dinheiro enterrada no quintal.

          — Infelizmente — disse Narizinho — isso de cumbucas de vespas que viram moedas de ouro só mesmo nas histórias. O consolo do pobre é um só: falar mal dos ricos. Mas o dinheiro dos ricos não sai. Tem grude.

          — Não generalize — observou dona Benta. — Há os ricos ridículos, mas há também os generosos. Rockefeller não distribuiu toda a sua fortuna em benefício do mundo?

 

19 – A mulher dengosa

         Era uma vez um homem que se casou com uma mulher muito cheia de dengues. Fingia não ter apetite. Quando se sentava à mesa era para tocar apenas nos pratos. Comia três grãos de arroz e já cruzava o talher, como se tivesse comido um boi inteiro.

         O marido desconfiou de tanta falta de apetite, porque apesar daquele eterno jejum ela estava bem gordinha. E imaginou uma peça.

         — Mulher — disse ele — tenho de fazer uma viagem de muitos dias. Adeus.

         E partiu com a mala às costas — mas deu jeito de voltar sem ser percebido e de esconder-se na cozinha, atrás do pilão.

         Logo que se viu só em casa, a mulher dos dengues suspirou de alívio e correu à cozinha.

         — Joaquina — disse à cozinheira — prepare-me depressa uma sopa bem grossa, que quero almoçar.

         A negra preparou uma panelada de sopa, que a dengosa engoliu até o finzinho.

         Logo depois disse à cozinheira:

         — Joaquina mate um frango e prepare-me um ensopado para o jantar. A negra preparou o ensopado, que ela comeu sem deixar uma isca.

         — Agora, Joaquina, prepare-me uns beijus bem fininhos para eu merendar.

         E merendou os beijus, sem deixar nem um farelo.

         — E agora, Joaquina, prepare-me um prato de mandioca bem enxuta para eu cear.

         A negra preparou a mandioca, que a dengosa comeu até não poder mais.

         O marido então escapou do seu esconderijo e foi bater na porta da rua, fingindo estar chegando da viagem. Era um dia de chuva bem forte.

         Quando a mulher abriu e deu com o homem, ficou desapontada. Ele explicou que havia desistido da tal viagem e voltado.

         — Mas maridinho, como chegou você tão enxuto, debaixo duma chuva tão grossa?

         O marido respondeu:

         — Se a chuva fosse tão grossa como a sopa que você almoçou, eu viria tão ensopado como o frango que você jantou; mas como era uma chuva  fina como os beijus que você merendou, eu cheguei tão enxuto como a mandioca que você ceou.

         A dengosa ficou admiradíssima daquelas palavras e desapontadíssima ao compreender que o esposo tinha descoberto sua manha. E acabou com os dengues.

 

          — Bem feito! — exclamou Emília. — Não gosto de gente afetada. Esse homem sabia fazer as coisas. Sem empregar nenhuma brutalidade, deu uma lição de mestre na dengosa.

          — Mas o pior — disse Narizinho — é que fiquei com água na boca de vontade de comer os tais beijus. Que será beiju? Nunca vi isso.

          — É mesmo! — disse dona Benta voltando-se para tia Nastácia. — Está aí um petisco que você nunca se lembrou de fazer.

          — E sei fazer, sinhá, sei fazer beijus dos mais gostosos, mas nunca encontro por aqui farinha boa. A da venda do Elias Turco não vale nada — é como o nariz dele.

          — E eu — disse Pedrinho — fiquei com vontade de comer mandioca cozida, da bem enxutinha, com melado de rapadura. Upa! É uma coisa da gente lamber os beiços.

          — Beiço é de boi — protestou Emília. — Gente tem lábios.

          — Bom — disse Narizinho — essa história foi excelente, mas curta demais. Conte uma comprida.

          Tia Nastácia, porém, contou outra ainda mais curta.

 

20 – O cágado na festa do céu

         Certa vez houve uma grande festa no céu, para a qual foram convidados os bichos da floresta. Todos se encaminharam para lá, e o cágado também — mas este era vagaroso demais, de modo que andava, andava e não chegava nunca.

         A festa era só de três dias e o cágado nada de chegar. Desanimado, pediu a uma garça que o conduzisse às costas. A garça respondeu: “Pois não”, e o cágado montou.

         A garça foi subindo, subindo, subindo; de vez em quando perguntava ao cágado se estava vendo a terra.

         — Estou, sim, mas lá longe.

         A garça subia mais e mais.

         — E agora?

         — Agora já não vejo o menor sinalzinho da terra.

         A garça, então, que era uma perversa, fez uma reviravolta no ar, desmontando o cágado. Coitado! Começou a cair com velocidade cada vez maior. E enquanto caía, murmurava:

         Se eu desta escapar,

         léu, léu, léu,

         se eu desta escapar,

         nunca mais ao céu

         me deixarei levar.

         Nisto avistou lá embaixo a terra. Gritou:

         — Arredai-vos, pedras e paus, senão eu vos esmagarei! As pedras e paus se afastaram e o cágado caiu. Mesmo assim arrebentou-se todo, em cem pedaços.

         Deus, que estava vendo tudo, teve dó do coitado. Afinal de contas aquela desgraça tinha acontecido só porque ele teimou em comparecer à festa do céu. E Deus juntou outra vez os pedaços.

         É por isso que o cágado tem a casca feita de pedacinhos emendados uns nos outros.

 

          — Esta história — disse dona Benta — deve de ser dos Índios. Os povos selvagens inventam coisas assim para explicar certas particularidades dos animais. A casca do cágado é toda feita de segmentos, o que dá ideia de quebradura. Daí o tombo do céu, inventado pelos índios.

          — Pobres índios! — exclamou Narizinho. — Se as histórias deles são todas como essa, só mostram muita ingenuidade. Acho que os negros valem mais que os índios em matéria de histórias. Vá, Nastácia, conte uma história inventada pelos negros.

E tia Nastácia contou a história de…

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